Project Gutenberg's Nova Castro: tragedia, by Joo Baptista Gomes Junior

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Title: Nova Castro: tragedia
       quinta edio, correcta de muitos erros, e augmentada com
       a brilhante scena da coroao

Author: Joo Baptista Gomes Junior

Release Date: September 4, 2007 [EBook #22508]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

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[Gravura representando Ins de Castro, acompanhada pelos filhos, prostrada
aos ps de D. Afonso V.]

Eis,  Senhor, os filhos de teu filho.
Que vem com tristes lagrimas rogar-te
Que d'esta triste Mi te compadeas.
   Act. IV. Scen. III




NOVA CASTRO,

TRAGEDIA

DE

JOO BAPTISTA GOMES JUNIOR.

QUINTA EDIO

CORRECTA DE MUITOS ERROS, E AUGMENTADA
COM A BRILHANTE SCENA

DA

COROAO.


LISBOA,

Na Impresso Regia. 1830.

Com Licena da Mesa do Desembargo do Pao.

     *     *     *     *     *

Vende-se na Loja de Livros de Joo Henriques,

Rua Augusta N.o 1.


ACTORES.

D. AFFONSO IV             Rei de Portugal.

D. PEDRO                  Principe.

D. IGNEZ DE CASTRO.

D. SANCHO                 Mestre do Principe.

COELHO                    Conselheiro.

PACHECO                   Conselheiro.

D. NUNO                   Camarista do Rei.

O EMBAIXADOR DE CASTELLA.

ELVIRA                    Aia de D. Ignez.

DOIS MENINOS              Filhos de D. Pedro, e D. Ignez.


_A Scena he em Coimbra, n'huma Sala do Palacio, em que reside D. Ignez._

_A Aco comea ao romper do dia._




ACTO  I.


SCENA I.

_Ignez, e Elvira._


_Ign._(1) Sombra implacavel! Pavoroso Espectro!
No me persigas mais... Constana! Eu morro.(2)

      (1) _Ignez entra na Scena delirante, e horrorisada._

      (2) _Assenta-se desfallecida._

_Elv._ Que afflio!.. Que delirio!.. Oh Deos!
Senhora...

_Ign._(3) Onde est... onde est o meu Esposo?...

      (3) _Ainda fora de si, e atemorisada._

_Elv._ O Principe, Senhora, inda repousa,
Tudo jaz em silencio: tu smente,
Negando-te ao socego, atribulada,
Neste Pao, ululando, errante vagas?
Que dor acerba o corao te rasga?
Que sonhadas vises assim te anco?

_Ign._ Contra Ignez se conspira o Ceo, e a Terra.(4)
T das campas os mortos se levanto
Para me flagellar: continuamente
Negros fantasmas ante mim volto...
Que horror!.. Oh Ceos!.. Agora mesmo, Elvira,
Debuxados na mente inda diviso
Os medonhos espectros, que, girando
Em torno de mim, me assombrro...
Surgir vejo Constana do sepulchro,
Que em furias abrazada a mim caminha...
Relampagos fuzilo, treme a terra...
Eis-que l dos abysmos arrojados
Impios Ministros da feroz vingana
No peito agudos ferros vem cravar-me:
Debalde agonisante o Esposo invoco...
Proferido por mim seu doce nome
Exacerba os furores de Constana,
Que  morada dos mortos me arremessa.
Oh do crime funestas consequencias!...
Desgraados mortaes!

      (4) _Levantando-se._

_Elv._ ............ E pde hum sonho...

_Ign._ No he hum sonho, Elvira, so remorsos.

_Elv._ Devem elles acaso inda ralar-te?
No bastou Hymeno a suffoca-los?
Ah! Se antes que os seus laos te cingissem,
Succumbiste do amor  paixo cga,
Assaz tens expiado este delicto,
Delicto mais que todos desculpavel.

_Ign._ Huma alma como a minha jmais julga
Ter assaz expiado seus delictos:
Embora de Hymeno os sacros laos
Agora o meu amor licito fao,
Este amor foi no crime comeado.
Mirrada de pezares, sim, foi elle,
Quem despenhou Constana no sepulchro,
Constana, essa Princeza desgraada,
Que, a no ser eu, talvez fosse ditosa,
Talvez, do Esposo amada, inda vivesse;
Eu fui a origem dos seus males todos;
Trahi sua amizade, fui-lhe ingrata,
Sua rival, oh Ceos! assassinei-a.
Oh crime involuntario! Horrendo crime!
Tuas iras so justas, sim, Constana;
Arrasta-me comtigo  sepultura,
Acaba de punir-me, e de vingar-te...
Mas ah! Que digo!.. No... poupa-me a vida,
Nella a vida do Principe se int'ressa:
Tu no has de querer envenenar-lha:
A morte no, no pde certamente
A paixo extinguir de que morreste;
Mesmo l do sepulchro inda o adoras...
E talvez compassiva me desculpes.
Quem melhor do que tu conhecer deve,
Que aos affectos de Pedro, aos seus extremos
Humanas foras resistir no podem?
Se tu, sem ser amada, tanto o amaste,
Deixaria eu de ama-lo sendo amada?
Sabe o Ceo quanto tempo em viva guerra,
Contra o meu corao lutei debalde:
Quantas vezes chamando em meu soccorro
A virtude, e a razo... auxilio inutil!
Immudece a razo quando amor falla.
Triunfar de paixes iguaes  minha...
Os miseros mortaes no podem tanto...
Que profiro infeliz? At blasfemo!...
Perdoa, Summo Deos, ao meu delirio:
A meu pezar, Senhor, fui criminosa;
Porm tua Justia adoro, e temo.

_Elv._ O Ceo he justo, Ignez, o Ceo te absolve:
Tua alma, onde morou sempre a virtude,
Tem por graves delictos leves faltas;
Tranquilliza, Senhora, os teus sentidos,
Modera as afflices.

_Ign._ ............. Em breve a morte
s minhas afflices vir pr termo.

_Elv._ Oh Ceos! Na primavera de teus annos,
Engolfada em fataes, loucos pezares,
Tu propria buscas terminar teus dias,
Sem que ao menos te lembres que depende
Da tua vida a vida do Consorte;
Que numa lagrima s que tu derrames,
Se o Principe jmais a divisasse,
Seria de sobejo a envenenar-lhe
O terno corao, que affagar deves!...
Se neste estado agora elle te achasse,
Em que estado sua alma ficaria!
Por seu amor, te rogo, enxuga o pranto,
As afflices desterra, em que soobras.

_Ign._ Oxal que podesse desterra-las!
Mas buscarei ao menos reprimi-las,
Porque no participe o caro Esposo
Dos males, dos horrores que me cerco.
Embora o Ceo me opprima, e me castigue,
Entorne sobre mim suas vinganas;
Porm sobre elle s prazeres mande:
O seu socego, mais que o meu, desejo:
A fim de lhe mostrar alegre o gesto,
A que esforos me no dou continuamente?
Para o no affligir... ah! Quantas vezes
Calco, suffoco dentro do meu peito
Afflices, que no peito me no cabem!...
Quantas vezes, sumindo-se a seus olhos,
Dos meus ao corao reca o pranto!
Mas ah, que os meus pezares, meus martyrios,
Quanto mais os escondo, muais se azdo,
Nem podem j ter fim seno co'a vida.
A qualquer parte, oh Ceos, que os olhos mande,
Motivos d'afflico smente encontro.
Do passado a lembrana me horrorisa,
E do futuro a ida me intimida:
Contra mim conspirada a intriga, a inveja,
Sobranceiras as iras d'hum Monarcha,
Tudo me vai cavando a sepultura:
O corao m'o diz.

_Elv._ .......... Elle te illude:
Que podes tu temer, quando enlaada
Ao mais digno dos Principes do Mundo,
Ao melhor dos mortaes que os Ceos formro,
O seu brao invencivel te defende?
Em vez de recear sonhados males,
Olha os immensos bens, a fausta sorte,
Que propicio futuro te apparelha;
O Lusitano Solio, que te espera;
O respeito, o amor dos Portuguezes,
A gloria de imperar sobre este povo,
A quem teme, e venera o Mundo inteiro...
Tudo, tudo, Senhora, te promette
Permanentes venturas: nada temas.

_Ign._ Essas mesmas quimericas venturas,
Esses bens illusorios, que me apontas,
Justos motivos so dos meus temores.
Oxal que D. Pedro no tivesse
Hum Throno por herana que offertar-me!
Ento fra eu feliz, passra a vida
No regao da paz, e da alegria:
No haveria ento quem se oppozesse
 perpetua unio das nossas almas;
Nem barbara politica empecra
De nossos ternos coraes a escolha:
Hum do outro na posse, ambos ditosos,
Aos transportes d'amor sem susto entregues,
Rodeados dos tenros, caros filhos,
Sem ter que desejar, o Throno excelso,
Todos esses fantasmas da grandeza
Nem huma vez sequer nos lembrario;
Mas o fado nao quiz...

_Elv._ .............. Ahi vem D. Sancho.

_Ign._ Que motivo o conduz a procurar-me?
Venero as suas cs, e o seu caracter;
Como elle, junto aos Reis, acho-se poucos.


SCENA II.

_D. Sancho, Ignez e Elvira._(5)

      (5) _Elvira, logo que D. Sancho entra na Scena, retira-se para o
      fundo della, e pouco depois desapparece._

_Sanc._ O Ceo neste lugar faz que eu te encontre:
He preciso, Senhora, com franqueza
Mostrar-te os imminentes precipicios,
Que s tua virtude evitar pde.
O Principe despreza os meus conselhos,
Meus rogos no attende, nem j cde
s lagrimas d'hum velho que aprecia,
Mais do que a propria vida, a sua gloria:
D'hum velho, que incumbido de educa-lo,
Sempre a na verdade ante os seus olhos
Tem feito apparecer, buscando sempre
Afastar-lhe a lisonja dos ouvidos,
Esse das Cortes pessimo veneno,
Que os coraes dos Principes corrompe.
Seu caracter violento, caprichoso,
Agora por amor mais inflammado,
J no deixa dobrar-se s minhas vozes;
Cgo resiste aos Paternaes preceitos;
He necessario pois que a obedecer-lhe
O resolvas tu mesma. Bem conheces
Do inflexivel Affonso o genio iroso.
J tres vezes o tem chamado  Corte,
Sem que D. Pedro cumpra os seus mandados,
Nem queira pesar bem seus ameaos:
Muito do Rei severo temo as iras,
Por crueis Conselheiros atiadas:
Vendo talvez do filho a rebeldia,
Se esquea de que he Pai. Cumpre, Senhora,
Que atalhes as funestas consequencias,
Que podem resultar da pertinacia
Em que o Principe insiste: que o convenas
A beneficio seu, e em teu proveito,
A cumprir sem demora os seus deveres:
Eu sei que na sua alma podes tudo,
E das tuas virtudes tudo espero.

_Ign._ O teu zelo, candura, e probidade
Assaz louvo, e respeito. No te enganas
Em suppor-me capaz de emprender tudo,
Inda mesmo arriscando a propria vida,
Para chamar D. Pedro aos seus deveres;
No tem sido por falta de lembrar-lhos,
Que elle s ordens de hum Pai tem resistido.
(Tu, no menos do que eu, seu genio sabes)
Nem attender-me quer quando lhe imploro,
Que  Corte v lanar-se s Regias Plantas.
Todavia, D. Sancho, eu te prometto,
Que no ho de cessar minhas instancias;
Embora, longe delle, Ignez saudosa,
Ao furor dos seus mulos exposta,
Venha talvez a ser victima triste
De insidiosa politica: antes quero
Morrer, do que lembrar-me que sou causa
De que o Principe falte aos seus deveres.

_Sanc._ Quem nutre em si to nobres sentimentos,
Inda sendo opprimida, he venturosa.
Zombou sempre a virtude da desgraa,
Debalde a emulao, armando a intriga,
Conspira contra ti: mas he preciso
Seus designios frustrar: sim....

_Ign._ ........................ Eis D. Pedro.

_Sanc._ Queira o Ceo que o convenas! Eu vos deixo.


SCENA III.

_D. Pedro, e Ignez._

_Ped._ Quanto so vagarosos, cara Esposa,
Os poucos melancolicos momentos,
Que distante de ti saudoso passo?
S ao teu lado, Ignez, socgo encontro,
No existo seno quando te vejo.

_Ign._ Quanto me adoras sei, Principe amado;
Mais terno cada vez, mais extremoso,
As tuas expresses meu pranto excito;
Porm d'amor agora no tratemos:
Bradando esto deveres mais sagrados
Que preencher te cumpre: antes de tudo
Tenho, Esposo, hum favor que supplicar-te:
Negar-mo-has tu, Senhor?

_Ped._ ................ Ignez, que dizes?
Tu, que tens na minha alma todo o imperio,
Ah! Podes duvidar que eu te obedea?

_Ign._ Pois bem, Senhor, attende  tua Esposa,
Ouve meus rogos, e a meus rogos cde:
Se tu s junto a mim socgo encontras,
Tambem s junto a ti socgo eu tenho;
Porm quer o destino, o dever manda,
Que te apartes de mim por algum tempo.

_Ped._ Apartar-me de ti? Oh Ceos! Que escuto!
Apartar-me de ti? Castro he quem falla?

_Ign._ He Castro, sim, Senhor, aquella mesma,
Que preza mais que tudo a tua gloria;
Aquella, cujo brio no tolera,
Que seja o terno amor, que lhe consagras,
Motivo de infringires teus deveres.
Bem o sabes, Senhor, em nenhum tempo
Procurei ardilosa fascinante:
Cedi ao teu amor, porque te amava,
Porque em ti divisei huma alma terna,
Alma que o Ceo formou para encantar-me,
De todas as virtudes adornada.
Agora pois te cumpre conserva-las,
E a mim no consentir que as abandones:
Eu de mim propria assaz me horrorizra
Se visse que as perdias por amar-me.
No, Principe querido, eu te supplico
Por este mesmo amor que a ti me prende,
Que  Corte sem demora te dirijas,
Onde teu Pai, talvez j fatigado
De te chamar em vo, te espera ancioso.
Obedecer aos Paternaes preceitos
He lei da Natureza, he lei sagrada;
Cumpri-la deves: vai...

_Ped._ ............... Basta: Eu conheo
Quaes meus deveres so, e sei cumpri-los;
Sei que he devida aos Pais a obediencia;
Mas igualmente sei que tem limites
A Paternal, sagrda authoridade.
Tenho pensado bem no que obrar devo:
Justos motivos, que no sabes inda,
Exigem que eu no cumpra as Regias ordens.
Obedecra a hum Pai, se Pai tivera...
Mas eu no vejo mais do que hum tyranno
Nesse que o ser me do...

_Ign._ ................. Senhor, suspende:
He teu Pai; muito embora cruel seja;
Tu deves respeita-lo, e obedecer-lhe.

_Ped._ Se quer que lhe obedea, e que o respeite,
No me imponha preceitos deshumanos.

_Ign._ No prometeste ha pouco  tua Esposa
Conceder-lhe o favor que te pedisse?

_Ped._ V pois quando no posso comprazer-te,
Se terei razes justas que me estorvem
De obedecer a hum Pai!

_Ign._ .............. No pde have-las.

_Ped._ Tyrannos... que nos julgo seus escravos!(6)
Para nos flagellar o ser nos dero!

      (6) _Sem attender a Ignez, transportado._

_Ign._ Tu me fazes tremer.

_Ped._ .................. Sabe em fim tudo.
Affonso, e o Monarcha de Castella
Acabo de firmar a nova alliana,
Em que sem meu consenso contratro,
Qu'eu daria a Beatriz a mo de Esposo:
Para este fim  Corte sou chamado.
Affonso, no contente da violencia
Que ao meu corao fez, quando forado
De rjo me levou ante os altares
Para unir-me a Constana em lao eterno,
Pezado lao, que rompeo a morte;
No contente de haver sido o motivo
De... Mas que digo? No, ah! no foi elle;
Eu em lhe obedecer fui o culpado:
Que desenfre agora as suas iras;
Que rogue, que ameace; mesmo quando
Em secreto Hymeno no estivessem
Ligadas para sempre nossas almas,
Debalde intentaria submetter-me
A hum jugo que a vontade recuzasse,
Reconheo porm que a pertinacia,
O despotico orgulho de seu genio,
Sem que attenda seno ao seu Tractado,
Querer que por fora o desempenhe.
No convm descobrir nosso consorcio;
E outra escusa qualquer que eu fosse dar-lhe
D'irrita-lo inda mais s serviria.
Agora julga pois se partir devo.
Se me devo ir expr, talvez... quem sabe!
A faltar-lhe ao respeito inteiramente...
Mas tu choras?.. Que vejo!.. Acaso temes?...

_Ign._ Nada temo por mim, por ti s temo:
Sim, quando vejo sobranceiros males,
Por desditoso amor originados;
Quando vejo engrossar a tempestade,
Que me denota proxima ruina;
Nem por isso me assusto: o que me afflige,
He vr hum Pai, hum Reino, e o proprio Esposo,
Tudo por meu respeito alvorotado.
Em situao to ardua, e to penosa,
T chego a desejar... (infeliz Castro!)
Que o sacrosanto n que a mim te prende,
Este lao to doce, e desejado,
Dos bens o maior bem que Ignez possue,
A ser possivel, hoje se rompesse,
S porque tu podesses livremente
Obedecer a hum Pai, fazer ditosos
Por hum feliz consorcio dois Imperios.
Muito embora Beatriz te possuisse...
Mas que digo? Ai de mim! Nos braos d'outra!..
Nos braos d'outra vr o amado Esposo!
Ah! no... no posso tanto, antes a morte.

_Ped._ He teu meu corao, ser teu sempre.
Os laos de Hymeno so as mais debeis
Prizes que a ti me ligo. Quando amamos,
Desnecessarios so ritos, promessas:
Mais fora tem amor que os juramentos.
Inda que ante os altares sacros votos
De permanente f, de amar-te sempre
No tivesse a teu lado proferido,
Seria sempre teu, sempre te amra;
Sem que jmais podesse fora humana
Separar coraes, que amor unra.

_Ign._ Mas que, talvez em breve sopeados,
Aos golpes da politica succumbo.

_Ped._ Para lhe resistir basta o meu brao.

_Ign._ O teu brao, Senhor, s deve armar-se
Para emprezas mais dignas do teu nome:
No lance melindroso em que nos vemos
Convm, mais que os furores, a brandura;
E apezar das razes que ponderaste,
Julgo que deves dirigir-te  Corte;
Pois talvez, se no corres a embarga-los,
Teu Pai avance os comeados passos
Para as nupcias da Infanta de Castella,
Na esperana de ser obedecido,
E a ponto chegue que depois no possa...

_Ped._ Sem lhe dizer porque, j fiz saber-lhe,
Que taes nupcias jmais celebraria.

_Ign._ Mas no fra melhor...


SCENA IV.

_D. Pedro, Ignez, e D. Sancho._

_Sanc._ ................... Senhor: ah! corre,
Vem esperar teu Pai.

_Ign._ .............. Oh Ceos!

_Ped._ ...................... Que dizes?

_Sanc._ Dirigido a Coimbra em veloz marcha
Partio da Corte Affonso, aqui no tarda.

_Ign._(7) Agora sim, minha desgraa he certa.

      (7) _Fallando comsigo mesma._

_Ped._ (8) Meu Pai? oh Ceos!.. meo Pai?

      (8) _Pensativo, e admirado._

_Sanc._ ........................ Coelho, e Pacheco,
Seus crueis Conselheiros, o acompanho:
Toda a Corte, Senhor, em sobresalto
Ficou co'esta partida inesperada:
Mendona que ligeiro vem trazer-te
A importante noticia, assim o affirma:
Murmura o Povo j de recusares
As nupcias de Beatriz, que applaudem todos.

_Ped._ Murmure muito embora, embora venha
Armado de poder, ardendo em raiva,
Da vingana, e das furias escoltado,
Esse a quem por meu mal devo a existencia;
Que, se intentar comigo ser tyranno,
Ha de em seu filho achar hum inimigo
Capaz dos mais tremendos attentados;
Que em casos taes os crimes no so crimes,
So foroso dever das almas grandes.
Espera-lo no vou.

_Sanc._ ........... Senhor, que fazes?

_Ped._ O que me apraz fazer.

_Ign._ .................... Oh Ceos! Nem posso
Das tuas expresses horrorizada,
Soltar do corao tremulas vozes:
Fallem por mim as lagrimas que choro...
No me consternes mais. Ah! vai, no tardes;
Va a encontrar teu Pai, se ver no queres
Estalar de afflico a tua Esposa.

_Ped._ (9) Eu vou satisfazer-te, sim eu parto;
Vou rasgar do segredo a cauta venda:
Saiba, sim, saiba Affonso antes que chegue
Estes sitios a entrar, que Ignez habita,
Que a deve respeitar como Princeza;
Que inquebravel prizo a Ignez me liga.(10)

      (9) _Depois de ficar hum pouco pensativo, diz resoluto._

      (10) _Em aco de partir, e D. Sancho retendo-o._

_Sanc._ Oh Ceos! No faas tal, melhor discorre;
Para lhe revelar hum tal segredo
Occasio mais opportuna espera:
A clera azedar no vs de Affonso;
No transporte cruel das suas iras,
Bem sabes que he capaz...

_Ped._ ................... De que? De nada:
Mais de mim, do que eu delle, tremer deve...
Se ousasse contra Ignez... Ah! nem pensa-lo.
Para vingar o seu menor insulto
Seria pouco todo o sangue humano.

_Ign._ Bem me dizia o corao presago...
Meu mal he sem remedio; o proprio Esposo
He quem vai despenhar-me no sepulchro.
Meus crueis inimigos no me assusto:
O popular tumulto, hum Rei severo
Nada temo, ai de mim! a ti s temo.
Ah! Lembra-te, Senhor, do que juraste
Antes de conduzir-me s sacras Aras,
Onde eu te no seguira, se primeiro
Tu me no prometesses guardar sempre
O devido respeito ao teu Monarcha,
E a paz no perturbar dos seus Dominios:
Tu no has de faltar, o tempo he este,
Que eu j preva ento: oh caro Esposo!
Lana do corao fataes transportes;
No percas tempo, vai, corre a prostrar-te
Aos ps do grande Affonso; mas submisso,
Ao beijar de teu Pai a mo augusta,
Sobre ella de teus olhos chova o pranto.
Pondera que te perdes, que me perdes,
Se com elle furioso praticares;
S nos pode salvar docil brandura:
Se no queres matar-me, s submisso.

_Ped._ O temor de affligir-te pode tudo.
Respeitoso serei, terei brandura,
Se elle brandura igual usar comigo.
Nada temas, Princeza: Adeos. Eu juro
Pelos Ceos outra vez, e por ti mesma,
Que inda que o Mundo inteiro se me opponha,
Castro ha de ser de Portugal Rainha.(11)

      (11) _Parte._

_Ign._ No te apartes, D. Sancho, do seu lado:
Moderem teus conselhos seus transportes.

_Sanc._ Dai foras, justos Ceos, s minhas vozes,
Lanai a Portugal piedosas vistas.


SCENA V.

_Ignez s._

Que temor, infeliz! de mim se apossa!(12)
Caro Principe!.. Esposo!.. oh Deos, quem sabe
Se a ver-te tornaro inda os meus olhos.
Vai,  Castro, abraar-te aos caros filhos,
E entrega-te nas mos da Providencia.
      (12) _Sem poder despregar os olhos do caminho que tomou D. Pedro._




ACTO II.


SCENA I.

_D. Affonso, e D. Pedro._

_Af._ Basta, Principe, basta: prescindamos
De justas arguies, de escusas futeis;
No quizeste ir, vim eu. Quero esquecer-me,
Perdoar quero mesmo as tuas faltas,
Huma vez que obediente hoje as repares.
Concluo-se estas nupcias proveitosas,
Que para teu prazer, e a bem do Estado,
Prudente contratei. Vers com gosto,
Quando Lisboa entrares a meu lado,
Com quanto regozijo o Povo todo,
Teu consorcio applaudindo, a festeja-lo
Com pompa jmais vista se prepara.
Que doura no he para os Monarchas,
Espalhar alegria entre os Vassallos!
V-los mandar ao Ceo ardentes votos,
Pela conservao da Regia Prole,
Que lhe segura a paz, a dita, a gloria!
Vr que as suas aces o Povo approva,
E contente abena o seu Reinado,
Curvando-se de grado ao leve jugo,
Que smente os mos Reis fazem pezado!
Mil graas dou aos Ceos, pois satisfeitos
Julgo estaro de mim os Lusitanos.
E nada mais desejo que deixar-lhes,
Em meu filho, outro eu, que sempre os ame,
E que por elles seja sempre amado.
Comea desde j neste consorcio
A firmar o seu bem. Sim, hoje mesmo
Deves partir comigo para a Corte,
A fim de o celebrar, logo que chegue
A Infanta de Castella, digno objecto
Que escolhi para Esposa de meu filho.

_Ped._ Ah! Que seja possivel, por meu damno,
Que o melhor dos Monarchas do Universo,
Igualmente no seja o Pai mais terno!
Que hum Rei, que desvelado buscou sempre
Fazer os seus Vassallos venturosos,
Queira fazer seu filho desgraado!...
Contratares, Senhor, sem consultar-me
Hum consorcio, ignorando se teu filho
Pode, ou quer d'Hymeno s leis cingir-se!
Se essa, que lhe destinas para Esposa,
Pode ao seu corao ser agradavel!
Acaso julgas tu desnecessaria
A minha approvao para estas nupcias!
No ser livre hum corao ao menos
Na escolha d'huma Esposa, que amar deve...
Ah! No queiras, Senhor, com tal violencia...

_Af._ Immudece, insensato; no prosigas
Indignas expresses que me envergonho...
Bem conheo a razo porque assim pensas.
Que indignos sentimentos, que fraqueza,
Para quem deve hum dia ser Monarcha!
Como, quando do Imperio as redeas tomes,
Quando na mo a espada formidavel
Da severa Justia sustentares,
Das paixes punirs o torpe effeito,
Sendo tu proprio das paixes escravo?
Como jmais sers obedecido,
Se tu mesmo ao teu Rei desobedeces?
Com quanta repugnancia os Portuguezes,
Murmurando, vero no Luso Solio,
Que de tantos Heres tem sido assento,
Hum Rei dado s paixes, afeminado,
Incapaz de empunhar o Sceptro augusto!

_Ped._ Mas capaz de os reger, e defende-los.
Se das grandes paixes sou susceptivel,
A molleza detesto, bem o sabes:
Quando cumpre, Senhor, em campo armado;
Ensinado por ti, brandindo a espada
Sei por aces mostrar que sou teu filho;
Nem para ser bom Rei (Senhor, perda)
Eu julgo necessario huma alma dura;
Mas antes me persuado no devra
O que fosse insensivel reger Homens.
Coraes que  ternura se no rendem,
Jmais sabem carpir alheios males;
Nem dor-se das lagrimas do afflicto.

_Af._ Apagada a razo, cgo deliras;
Isentos de paixes os Reis ser devem;
Mano dos seus os publicos costumes:
Se exemplifico mal os seus Estados,
Os vicios dos Vassallos so seus vicios;
Devem sacrificar os seus desejos;
Ser comsigo crueis a bem dos Povos,
Que o Ceo lhes confiou; e os que se ensaio
Para lhes dar as Leis, devem mostrar-se
Capazes destes nobres sacrificios.
Os consorcios dos Principes so obra
Dos int'resses do Estado, elles decidem,
Elles dispe de ns. Deixem-se ao Vulgo
Caprichosos melindres com que exige,
Que aos laos d'Hymeno Amor presida.
As douras de Amor para os Monarchas
So de pouca valia: a nossa gloria
No se firma em to fracos alicerces.

_Ped._ Se aos que devem reinar he necessario
Ceder dos privilegios, dos direitos
Que a Natureza deo aos Homens todos;
Por tal preo, Senhor, no quero o Throno!
Laos formar, que o corao repugna,
Origem de desgraas, e de crimes...
Assaz o exp'rimentei... grilhes to duros,
Por tuas mos lanados, longo tempo
Com bem custo arrastei... Supportar outros...
Ah! No, Senhor, no posso.

_Af._ ...................... Temerario!
Basta j de soffrer hum filho ingrato.
Se aos rogos, s razes de hum Pai benigno
Tu no queres ceder; cede aos preceitos
De hum Monarcha severo, e justioso.
Eu dei minha palavra, has de cumpri-la:
Os tratados dos Reis no so falliveis:
Debalde pois te oppes...

_Ped._ ................... Mas ah! Pondra...

_Af._ Tenho em fim decidido. Acaso queres,
Deixando de cumprir o meu Tratado,
Entre os Povos soprar horrenda guerra?
Queres vr Portugal nadando em sangue?
Contra ns conspirada a Europa inteira,
Abraando o partido de Castella,
Vir vingar sua injuria? Ah!...

_Ped._ ......................... Que recas?
Portugal vencedor, nunca vencido,
Zombar do poder do Mundo inteiro.
To ousada ser, to nescia a Hespanha,
Que contra ns se atreva a mover guerra?
No ha de inda lembrar-se o seu Monarcha,
Que te deve os Dominios que possue?
Que ha bem pouco, cercado de inimigos,
Vendo nas mos o Sceptro vacillante,
Mandou a propria Esposa, filha tua,
A implorar-te que fosses soccorre-lo,
Ou antes sobre o Throno sustenta-lo?
E que do filial pranto commovido,
No contente em mandar-lhe tuas Tropas,
Tu proprio  testa dellas generoso
Quizeste ir debellar seus inimigos,
E segurar-lhe a C'roa na cabea?
Ha de offender quem soube defende-lo!
Quem pode, apenas queira, anniquila-lo?
No; quem vio pelejar, ao teu commando
Nas margens do Salado os Portuguezes,
A atacar Portuguezes no se atreve;
E se o tanto chegar a sua insania,
 maneira dos seus antepassados,
Chorando o opprobrio de ficar vencido,
Caro lhe custar seu louco arrojo.
Oxal que elle  guerra nos convide!
Poderia teu filho ento mostrar-te,
Que te sabe imitar quando he preciso,
Novos louros cingindo ao teu Diadema.

_Af._ Que desatino! Oh Ceos!.. Eu me envergonho
De te haver dado o ser: de te ouvir tremo...
Tristes Vassallos meus, amados filhos,
Que Monarcha vos deixo sobre o Throno!
Tu desejas a guerra? Esse flagello,
Que envergonha, e devasta a Humanidade?
O capricho dos Reis que imposta aos Povos?
Ouve as lies de hum Pai, posto que iroso
S devra tractar do teu castigo.
Eu no posso deixar quando te escuto,
De reprender-te,  filho, e de ensinar-te:
Talvez por ti mandado  sepultura,
Bem depressa no Throno me succedas;
No te esqueas ento dos meus dictames:
Poupa o sangue dos miseros Vassallos,
Do mais infimo delles prza a vida
Outro tanto que a tua; teme a guerra,
Que ao proprio vencedor sempre he funesta:
No meio do triunfo os bons Reis choro.
Nessa mesma to clebre batalha,
Que julgas me cingio de louro eterno,
Quando juncavo do Salado as margens
Os montes de cadaveres sem conto
De infieis derrotados inimigos;
Por perder trinta s dos meus Soldados,
Muito cara julguei esta victoria,
E, dentro de mim proprio recolhido,
Mais pranto derramei, do que elles sangue.
Os Reis devem ser Pais de seus Vassallos;
Nada mais que o seu bem deve importar-lhes...
Elle exige estas nupcias, que te ordeno;
Suas vozes escuto, e no as tuas.
J te disse que dei minha palavra,
E torno-te a dizer que has de cumpri-la.
Affonso he teu Monarcha: mando, e basta.
Hoje mesmo comigo para a Corte
V que deves partir, vai preparar-te.

_Ped._ Teus passos seguirei, porm debalde...
Celebrar o consorcio que pertendes...
Quizera obedecer-te, mas no posso...
Sem que te diga mais, assaz te digo.


SCENA II.

_D. Affonso s._

He possivel, oh Ceos, que assim meu filho
Temerario resista aos meus preceitos!..
Que cegueira! Que arrojo! He necessario
Desarraigar-lhe d'alma por violencia
A funesta paixo que o traz de rojo:
Mas de que modo?.. Cumpre medita-lo...
Seja em fim como for, desempenhado
Meu Tratado ha de ser: o ingrato filho,
Em vez de hum Pai benigno, hum Rei severo
Ha de encontrar em mim. Oh l, D. Nuno.(13)

      (13) _Chamando._


SCENA III.

_D. Affonso, e D. Nuno._

_Nun._ Que me ordenas, Senhor?

_Af._ ....................... Os Conselheiros
Vai chamar... mas espera, ahi vem Pacheco.


SCENA IV.

_D. Affonso, Pacheco, e D. Nuno._

_Af._(14) Quem tal dissera, Amigo! Eu me envergonho
Smente de o pensar: o iroso aspecto
De hum Monarcha, de hum Pai, razes, ameaos
Nada bastante foi: ousa o rebelde
s nupcias recusar-se, aos meus preceitos;
Mas ha de obedecer-me, aos Ceos o juro.
Os meios estudemos, que efficazes
A sua contumacia vencer posso:
Se necessario for, inexoravel,
Rigoroso serei.

      (14) _D. Affonso se dirige a Pacheco, e D. Nuno se afasta para o
      fundo da Scena._

_Pach._ ......... Dever funesto
He, Senhor, na verdade, o de hum Vassallo,
Que fiel ao seu Rei, bem que sensivel,
Na preciso se v de supplicar-lhe,
Que suffoque a piedade, e que castigue...
Mas o int'resse do Estado, e mais que tudo
O decoro do Throno assim o exigem.
De incorrupta lealdade claras provas
Eu protesto dar sempre ao Rei, e  Patria.
Longe de desculpar, porque he teu filho,
Do Principe a Paixo, funesta origem
Da sua contumacia; com franqueza
Direi meus sentimentos, sem que possa
Tolher-me as expresses o temor justo
De perder o favor, de ser odiado
De hum Principe que adoro, e que respeito.
Se queres que teu filho te obedea,
Corta a indigna prizo que maniatado
O corao lhe traz, e que o estorva
De entrar em seus deveres: pune, extingue
Esse objecto fallaz que a alma lhe encanta:
De contrario, Senhor, sero baldados
Outros meios quaesquer que projectares.

_Af._ Seja punida, sim, seja punida
Mulher que tantos males origina;
Que impera mais do que eu, e que se atreve
A usurpar-me do filho a obediencia.
Seu crime... Mas que digo!.. por ventura
No he meu filho mais culpado qu'ella!
Serei eu parcial punindo Castro,
Sem que seja igualmente castigado
Quem deve mais do que ella ser punido?

_Pach._ O Principe he teu filho, tanto basta
Para ser absolvido, e desculpado:
A condio d'Ignez he mui diversa.

_Af._ No puno condies, puno delictos.
Antes de tudo interroga-la devo.
D. Nuno, chama Ignez.(15) Ouvi-la quero,
Sondar seu corao; depois veremos
Se he digna de castigo.

      (15) _Parte D. Nuno._

_Pach._ ................ Ah! Se attenderes
Suas vozes, Senhor, suas escusas,
Por seu astuto pranto subornado,
Deixars por piedoso de ser justo.
Quem foi capaz de fascinar o Filho,
Pode o Pai fascinar. Arte impostora
A peitos femins Amor suggere:
Quando as abraza criminosa chamma,
Nego as expresses o que a alma sente,
E c'o auxilio das lagrimas convencem.
Attende, attende s ao bem do Estado,
Ao exemplo que deves ao teu Povo,
Que, murmurando j, talvez se azede
Se vir que em nova guerra o precipita
Do Principe a paixo escandalosa.
No soffrer Castella a grave affronta
De ser, do seu Tratado em menoscabo,
Por teu Filho Beatriz repudiada:
E o consorcio D. Pedro no celebra,
Sem que at da lembrana Ignez lhe affastes.
Atalha em quanto podes tantos males:
Muitas vezes punir he ser piedoso.

_Af._ Tu me fazes entrar nos meus deveres.
Para me resolver a castiga-la
Basta o bem do meu Povo que me lembras.
No corao de hum Rei digno do Throno,
Se os int'resses do Estado a voz levanto,
Compaixo, amizade, natureza,
Tudo, tudo immudece. Exterminada,
Em remota clausura Ignez reclusa,
Da presena do Principe se affaste:
No torne a ver meu filho essa que o cga,
Em quanto, da razo accso o facho,
As tochas de Hymeno arder no faa;
E se isto no bastar, mo lanaremos
De outro mais efficaz, duro remedio.

_Pach._ No bastar talvez; por mais que seja
Recatado, e remoto qualquer sitio,
Que para o seu desterro escolher possas,
L mesmo ir teu Filho arrebata-la.
Eu calo o mais que sinto, e s te lembro
Que a quereres com ella ser piedoso,
Poupando-lhe hum maior, justo castigo,
De Portugal ao menos a desterres.
Occasio, Senhor, tens opportuna
De envia-la ao Monarcha de Castella,
Que zeloso da filha no decoro,
Guardar providente em segurana
A rival que se atreve a disputar-lhe
O corao do Principe. Este arbitrio
Segue pois, se te apraz, bem que inda o julgo
Para to grande mal remedio fraco.

_Af._ Seguirei teu conselho; porm antes
J de brandura usando, j de ameaos,
Quero tentar o corao de Castro;
Vr se a posso mover a que ella mesma
As chammas que accendeo apagar busque...
Mas ella para aqui j se encaminha.


SCENA V.

_D. Affonso, Ignez, Pacheco, e D. Nuno._(16)

      (16) _Pacheco afasta-se para o fundo da Scena, logo que Ignez se
      chega ao Rei, e D. Nuno que a conduz te retira._

_Ign._ Eu desfalleo... Oh Ceos... Excelso Affonso,
Permitte que a teus ps Ignez prostrada...(17)

      (17) _Prostra-se aos ps do Rei._

_Af._ Levanta-te, ardilosa. No he digna
De beijar a Mo Regia huma vassalla,
Que a perpetrar se atreve altos delictos.

_Ign._ Eu perpetrar delictos! Quaes so elles?
Fiel sempre ao meu Rei, vassalla humilde,
Ignoro em que offendesse a Magestade.

_Af._(18) Alm de criminosa, inda impostora!..
A fallaz artificio em vo recorres.
De sobejo sciente do teu crime.
Tua simulao mais me enfurece:
Ousars tu negar que amas meu filho?

      (18) _Contemplando-a iroso._

_Ign._ No, Senhor, a nega-lo no me atrevo...
Nem, por mais que eu quizesse, poderia
Deixar de confessar o que os meus olhos,
O rubor de meu rosto assaz te explico:
Sim, se he delicto amar, e ser amada,
Meu corao, Senhor, he criminoso...
Mas eu no sou culpada.

_Af._ .................. Que proferes?
Se confessas tu mesma o teu delicto,
Dizes no ser culpada?

_Ign._ ................ Sou ingenua.
Em chamar-me impostora te enganaste:
Tenho-te dicto assaz... e mais dissera,
Se licito me fosse.

_Af._ .............. Acaba, dize:
Que cegueira fatal, que louco arrojo,
Vs, altivas idas te inspirro?
Como intentaste ousada ter imperio
No corao d'hum Principe? No vias
A distancia empinada, inaccessivel,
Que do teu bero vai ao Throno excelso?

_Ign._ Quando amante paixo nos predomina,
Offuscada a razo, a ninguem lembro
As distinces fataes do bero, e sangue.
So iguaes ante amor os mortaes todos:
De virtude smente se enamora
Huma alma virtuosa: s virtudes
Convidro Ignez a amar teu filho.

_Af._ E atreves-te a fallar inda em virtude?
No profanes palavra to sagrada;
Antes dize que estlida esperana,
Avidez de reinar, te fez culpada.
Talvez da minha j canada vida
Contando os longos importunos dias,
Te tardava o momento suspirado,
Em que, baixando Affonso  sepultura,
Vazio o Throno, aos teus desejos franco,
Te cingisse o Diadema a indigna fronte.

_Ign._ Que injustia!.. Minha alma no conheces,
No conheces de amor o desint'resse:
Quem ama, s deseja ser amado.
E a par de hum corao como o de Pedro,
Os Diademas que so? Que vale o Mundo?
Quem de seu terno peito o imperio obteve,
Mais imperio no quer: nem se deslumbro
As almas grandes c'o esplendor do Throno.
Quando a amor succumbi, do Solio estava
Mais longe que o meu bero a minha ida;
Por isso no medi como devra
A declive distancia que os separa;
Mas hoje a vejo assaz, e mais deploro
A condio do Principe, que a minha;
Quizera que tivesse antes nascido
Vassallo o meu amante, que eu Princeza:
Longe de o cobiar, detesto o Throno:
Nelle diviso s barreira odiosa,
Que entre peitos sensiveis sorte adversa
Alou para que nunca unir-se posso...
Sei que sou infeliz... e o serei sempre.

_Af._ Podes inda evitar maior desgraa;
Quem logo que o conhece o crime atalha,
A innocencia recobra. Extingue,  Castro,
As criminosas chammas que sopraste;
Quanto so detestaveis no ignoras,
E bem vs que nutri-las mais no podes.
Antes pois que do Principe te affastes,
(A to graves delictos leve pena,
Que hum benigno Monarcha te destina)
Teu completo perdo merecer busca.
Tu mesma de seus erros o dissuade,
E o convence a cingir-se aos dignos laos
Do plausivel consorcio que lhe ordeno:
Concorre para o pblico socego,
Em vez de o perturbar: no exacerbes
Pertinaz em teu crime as minhas iras.
Teme o castigo atroz de que s credora,
Se ao corao do Principe as que urdiste
Prises abominaveis no desatas.

_Ign._ Muito exiges de mim!.. Ah! Se eu podesse
As algemas romper que nos vinculo,
S por te obedecer (cr-me) o fizera:
Mas como n'hum momento arrancar posso
Do peito de teu filho sentimentos,
Que amor, e sympathia originro?
Para sempre deixar a terna amante,
E subito ir lanar-se em braos de outra!..
Se elle tivesse huma alma to voluvel,
Por ama-lo increpada eu no seria?
Que proferi?.. Deliro... Oh Ceos... Perda...
Perda-me, Senhor, talvez o tempo...
Extinguir poder... No sei que digo.

_Af._ Basta: immudece j, mulher soberba.
De sobejo em tua alma tenho entrado.
Ousas alardear, ante mim proprio,
Do mais nefando crime! Ah! que castigos
Bastaro a punir teus attentados!
Tudo quanto ha de horrivel...


SCENA VI.

_D. Affonso, Ignez, Coelho, e Pacheco._

_Coel._ ...................... De Castella
Embaixador chegou, que Audiencia pede.

_Af._ Entrar pde.


Scena. VII.

_D. Affonso, Ignez, e Pacheco._

_Af._ .......... Retira-te atrevida;
De meus olhos te affasta; vai, que em breve
Te sero minhas ordens intimadas.

_Ign._ Humilde, e respeitosa hei de cumpri-las.
Mas s te rogo que, antes de punir-me,
Te dignes sem paixo sondar meu crime;
Pois se pezares bem os meus delictos,
Espero que me julgues desculpavel.(19)

      (19) _Retira-se Ignez, e D. Affonso fica pensativo, em quanto
      Pacheco falla._


SCENA VIII.

_D. Affonso, e Pacheco._

_Pac._ Que insolente altivez ostentar ousa!..
Eu te lamento,  Rei, quando te vejo
Na dura preciso de repellires
Da tua alma os impulsos compassivos,
Constrangido a punir asperamente,
Para evitar terriveis consequencias.


SCENA IX.

_D. Affonso, Coelho, Pacheco, e o Embaixador._

_Emb._ A Filha do meu Rei, que te sada,
J dos Dominios teus piza as fronteiras;
Mas o boato geral de que teu filho,
Por violenta paixo allucinado,
De Beatriz ao consorcio se recusa,
Aos ouvidos chegou do meu Monarcha,
Que me ordena te diga, e te assegure,
Que se com tal repulsa, em seu desdouro,
O Tractado solemne for violado,
(O que elle no espera) dignamente
Saber sustentar a toda a fora
O decoro da filha, e do seu Throno.

_Af._ Dize da minha parte ao teu Monarcha,
Que para dissipar seus vos receios,
Bastaria lembrar-se que os Reis Lusos,
Fidelissimos sempre, seus Tractados
Sabem desempenhar: no porque temo,
Quaesquer que sejo, estrangeiras foras;
Mas por dever, por gloria, e por costume.
E para lhe mostrar como procedo,
Hoje mesmo desterro de meus Reinos,
E  sua guarda entrego Ignez de Castro,
Que elle julga estorvar da Infanta as nupcias.
Podes certificar-lhe, que consorte
Ha de meu Filho ser da Filha sua.

_Emb._ Nem era de esperar que hum Rei to sabio
Procedesse jmais d'outra maneira,
Prompto vou expedir ao meu Monarcha
A plausivel resposta, que lhe envias.


SCENA X.

_D. Affonso, Coelho, e Pacheco._

_Af._ Sem demora, Pacheco, apromptar faze,
Para Ignez conduzir, segura escolta:
Vai, Coelho, dizer-lhe que se apreste:
Partir hoje Ignez para Castella,
E meu filho comigo para a Corte.

_Coel._ Oxal que assim seja! Mas duvido.
Em castigar avaro em demasia,
Alm de ser, Senhor, simples desterro
Aos delictos de Ignez pena mui leve;
Receio que de horriveis attentados
Seja origem fatal este projecto.
Fra talvez melhor lanar mo logo
Dos efficazes, ultimos remedios.
Eu conheo o caracter de teu filho:
Mal souber que roubar-lhe Ignez intentas,
Dos filiaes deveres esquecido,
Com brao armado, temo que se atreva
Contra seu proprio Pai.

_Af._ .................. Nem tal profiras:
No faas a meu filho essa injustia:
De to feio attentado basta a ida
Para me horrorisar. Ide ligeiros
Fazer que as minhas ordens se executem.
Ah! Se alguem se atrevesse a contravi-las,
Seu tremendo castigo serviria
De memorando exemplo ao Mundo inteiro.




ACTO III.


SCENA I.

_Ignez s._

Miseranda!.. Que trance! Oh desventura!..
Oh sentena, cruel!.. Venceste,  Fado.
Apraziveis lugares, testemunhas
Do mais ardente amor, ah, para sempre
A malfadada Ignez de vs se aparta...
Quanto fra melhor, quanto mais doce
Deixar a vida, que deixar o amante!
Que!.. Eu... deixar o amante?.. Oh caro Esposo!..
Oh Ceos! podeis manda-lo, ou permitti-lo?
Sereis tambem crueis como os humanos?
Condemnareis os mesmos, que soprastes,
Sentimentos d'Amor, da Natureza?
Para hum castigo tal quaes so meus crimes?..
Se me queres punir, Deos de vingana,
Os raios tens nas mos, accende os raios,
Meu terno corao reduze ao nada;
Mas d'outro corao, a que o ligaste,
Separa-lo jmais... Ah! nem tu mesmo,
Nem tu, que podes tudo, tanto podes...
Que proferes, blasfema! Aos Ceos te atreves?..
Oh virtude! Oh razo! Desamparais-me?..
Onde, Ignez, onde est tua constancia?
Aos teus deveres torna, entra em ti mesma.
Orgo do Ser Supremo, hum Rei te ordena,
Que do Esposo te apartes; no resistas;
He fora obedecer; enfra n'alma,
Suffoca as afflices, cala os queixumes:
Co'as desgraas os crimes no mistures:
Mas deixa-lo!.. Ai de mim... Deixa-lo!.. Agora,
Agora he que eu conheo as furias todas,
Toda a fora d'amor: elle triunfa
Da razo, da virtude, e dos Ceos mesmo.


SCENA II.

_Ignez, e Elvira._

_Elv._ Senhora... (Ai triste!.. o pranto me suffoca!)
Se he certo que impias ordens te condemno
A deixar Portugal, a triste Elvira,
Que protestou viver, morrer comtigo,
Sempre junto ao teu lado, a qualquer parte
A que te arroje a sorte, ha de seguir-te:
Confio que esta graa me concedas.

_Ign._ Ah! No venhas juntar aos meus pezares
O quadro da Amizade consternada:
Para esmagar-me o corao sensivel
Bem basta Amor, a Natureza basta.
No posso resistir a tantos males,
Aos golpes da saudade que retalho
Da atribulada Ignez o peito afflicto.
Mais pranto com teu pranto no me arranques,
Que a hum terno corao inda mais custo
As lagrimas que move, que as que verte.
He mesmo o ser amado hum bem funesto,
Que exacerba a desgraa aos desgraados.

_Elv._ He possivel haver almas to duras,
Que hum to sensivel corao flagellem!...
Mas ah!.. Porque aos pezares succumbimos?
D. Pedro he teu Esposo; elle ha de oppr-se
Defensor poderoso em teu soccorro;
Ha de frustrar da tyrannia as ordens;
Nelle pois confiemos: a excita-lo
Bastaro tuas lagrimas...

_Ign._ ................... Que dizes!
Que terrivel ida me despertas!
Em vez de confortar-me, vens, Elvira,
Abater-me a constancia, aconselhar-me
A que contra seu Pai revolte hum filho?..
Ah! No... Embora Ignez infeliz seja;
Mas nunca origem de rebeldes crimes:
Amortecida j, mas inda accesa
Brilha a luz da razo dentro em minha alma.
No consintas, oh Ceos, que amor a apague;
Fortalecei meu peito. Sim, eu devo,
Eu devo submetter-me ao meu destino:
Cumpro-se as duras leis do duro fado:
Amargurada irei longe do Esposo
Acabar entre as garras da saudade...
Porm os caros filhos... Ah! comigo,
Comigo os levarei. Doces penhores
Do mais constante amor, sereis ao menos
Na minha adversidade terno allivio...
Entre os meus braos sempre, sempre unidos
Da inconsolavel Mi ao peito anciado,
Cobertos de caricias, de suspiros,
Banhados com meu pranto, em seus semblantes
O semblante verei do Esposo ausente.
Aprendero de mim... Mas ah! Que digo!..
Quereria eu acaso, associando
Ao pavoroso horror do meu destino
O destino dos filhos innocentes,
Tolher sua ventura?.. No; entregues
De seu Pai aos desvelos, abrigados
 sua sombra fiquem; lembrem-lhe elles
A miserrima Ignez continuamente...
O retrato da Mi nos filhos veja,
Que eu memorias do Esposo no careo;
No corao gravada a sua imagem,
Ante os meus olhos sempre ha de seguir-me,
Ha de, em quanto viver, viver comigo,
E comigo baixar  sepultura.


SCENA III.

_D. Pedro, Ignez, e Elvira._(20)

      (20) _Ignez, apenas v D. Pedro, busca enxugar as lagrimas. Elvira
      affasta-se para o fundo da Scena, e pouco depois se retira._

_Ped._ Ignez, querida Esposa... Mas que vejo!..
Debalde buscas enxugar teu pranto:
Aos olhos de hum amante nada escapa.
Impressas no teu rosto bem diviso
As afflices, que o corao me partem.
Que motivo... Mas devo eu pergunta-lo?
No sei assaz a origem dos teus males?..
Eu sou, sim, sou eu mesmo o teu flagello;
Mas o teu defensor, o teu Esposo:
Nada receies pois, nada te afflija...
Porm as tuas lagrimas se dobro?..
Oh Ceos!..

_Ign._ .... Amado Esposo, no repares,
No te afflijas co'as lagrimas que choro:
As tuas expresses, tua presena
Aggravo minha dor, meu pranto augmento.
Ah! pelos tristes olhos sahir deixa
Meu corao em lagrimas desfeito.

_Ped._ Antes em borbotes todo o meu sangue
Eu quero ver correr, do que o teu pranto.
De tua alma desterra vos temores,
Extermina os pezares, no succumbas
A males transitorios que te opprimem.
Os caprichos do Fado, a desventura
Calcaremos aos ps: sim, cara Esposa,
Sempre unidos seremos venturosos.

_Ign._ Unidos dizes tu!.. Oh Ceos!.. Unidos?..

_Ped._ Pois quem, quem poderia separar-nos?

_Ign._ O rigor... Ai de mim! Que vou dizer-te?..
Que raio a triste Ignez vai fulminar-te?..
Poupar teu corao, oh Ceos, quizera;
Porm eu a deixar-te no me atrevo,
Sem que te diga adeos... Ah! caro Esposo!
Aperta-me em teus braos, e recebe
As minhas derradeiras despedidas.

_Ped._ Que escuto!.. Que acontece?.. Ignez, que dizes?

_Ign._ Para sempre de ti vou separar-me.

_Ped._ Separar-te de mim!

_Ign._ ................. Atroz conflicto!..
Caro Principe, Esposo, no te esqueas
Da desditosa Ignez... Mas ah! Que digo!
Esquece-me se podes; s ditoso;
Vive, vive feliz. Eu s te rogo,
Que dos queridos filhos te encarregues;
Que affagues sua infancia, que os ampares;
Que os defendas da inveja, da impiedade:
No cogites de mim, delles s cuida,
He foroso ceder s leis do Fado:
Longe de ti, mirrada de saudades,
Vou exhalar meus ultimos suspiros.

_Ped._ Oh desesperao! Que ida horrivel
Surge dentro em minha alma! Acaso (eu tremo!)
Atrever-se-ha meu Pai...

_Ign._ .................. Aos seus preceitos
Obedecer devemos: intimados.
Me foro j: de Portugal banida,
Partir devo hoje mesmo para Hespanha.

_Ped._ Oh Furias! He possivel? Rei tyranno,
No levars vante os teus projectos...
Nem elle, nem os Ceos, nem os Infernos
Podero arrancar-te de meus braos.
Desengana-lo vou, parto a fallar-lhe:
Trema o cruel de mim, se no revoga
A barbara sentena.

_Ign._ ............. Oh Ceos! Que fazes?


SCENA IV.

_D. Pedro, Ignez, e D. Sancho._

_Sanc._ Teu Pai, Senhor, te busca: tudo prestes
Para voltar  Corte... Mas que vejo!
Elle mesmo he que vem.

_Ped._ ................ Querida Esposa,
Retira-te, eu to rogo... Nada temas.

_Ign._ Eu me retiro, sim; mas s te imploro,
Que te lembres que s filho, e que s vassallo.

_Ped._ Mas Esposo tambem, que he mais que tudo.


SCENA V.

_D. Affonso, D. Pedro, e D. Sancho._

_Af._ Ento, quem nestes sitios te demora?
Eia, segue-me j.

_Ped._ ........... Quem, eu!.. Seguir-te?..
Abandona-la! No, no te obedeo.

_Af._ Que escuto, oh Ceos!

_Ped._ .................. Inda no disse tudo.
Attende-me, Senhor: he necessario
Declarar-me comtigo; o vo se rasgue;
He tempo, he tempo em fim que me conheas.
Entra em meu corao desesperado,
De virtudes capaz, capaz de crimes,
Se a crimes o excitar a tyrannia.
Sabes que adoro Ignez, e projectavas
Rouba-la ao meu amor? Que infernal furia
Te aconselha a punir huma innocente,
Que he s culpada, se a virtude he crime?
E esperavas acaso que eu podesse
Covarde tolerar seu menor damno,
A injustia maior, sem defende-la,
Sem oppr-me aos designios da impiedade?
Eu fra dos mortaes o mais abjecto,
Se deixasse opprimir...

_Af._ .................. Ah! No prosigas:
Immudece, rebelde. No sei como
Reprimir posso a colera... Que arrojo!..
Ousas tu murmurar dos meus Decretos?..

_Ped._ No s murmuro, atrevo-me a frustra-los.
A razo, e os Ceos mesmos me authoriso.
Defendendo a minha Esposa.

_Af._ ..................... A tua Esposa!..

_Ped._ A minha Esposa, sim. Sabe que os laos
Do sagrado consorcio a Ignez me ligo.
Intentarias pois inda opprimi-la?..

_Af._ No julgues illudir-me, no te creio:
A to subtil ardil em vo recorres.
Que! Esposa de meu filho huma vassalla!..

_Ped._ Huma vassalla, sim, para quem fra
Do Mundo todo o Imperio inda pequeno:
No duvides, Senhor. Que encontras nella
Que indigna de teu filho julgar possas?
Eu no quero fallar do Regio sangue,
Que, dos teus ascendentes derivado,
Lhe circula nas veias: outros dotes
Mais bellos, mais sublimes a ennobrecem:
Vassalla, a quem os Ceos prodigos dero
Todas as perfeies que os Ceos dar podem,
Para ser do teu filho digna Esposa,
Ser filha de Monarchas no precisa.
Se Ignez he virtuosa, que lhe falta?
Quem mais digna do Throno que a Virtude!
Mas dos seus predicados prescindamos.
Castro he minha Consorte, tanto basta;
He Princessa, por tal a reconhece,
E o decoro lhe guarda de que he digna.

_Af._ Sim, tratada ser como merece...
Brevemente o vers.

_Ped._ ............. Olha o que fazes...
No queiras constranger-me inexoravel
A perpetrar horriveis attentados:
Se como Pai benigno, e Rei clemente
Praticares comigo, has de em mim sempre
Encontrar hum Vassallo respeitoso,
E hum filho obediente; mas se acaso
Insistes em roubar-me a cara Esposa,
Hum mortal inimigo em mim contempla,
Que cgo, furioso, e desesp'rado,
Sem attender seno aos seus transportes,
Ser capaz de horrendos sacrilegios.
Evitando-os, atalha huma injustia:
Revoga pois a barbara sentena.

_Af._ Sim, por outra mais justa, revogada
(Descana.) ella vai ser. Espadanando
Ha de ver teu corao da infame o sangue
As chammas apagar que te devoro.

_Ped._(21) Primeiro que o seu peito a ferir chegues,
Ho de ser-me as entranhas arrancadas:
Ha de em rios correr todo o meu sangue
E o teu sangue tambem, se for preciso.

      (21) _Desesperado._

_Af._ Oh Ceos!.. Tremo de horror!..

_Sanc._ .......................... Senhor, que fazes?
Ousas contra teu Pai?

_Ped._ ............... Ah! Que proferes?
Pai? Eu tenho inda Pai?..(22) Nao, no, tyranno,
Tu meu Pai j no s: no sou teu filho...
Hum cruel como tu... Porm que digo!..
Com quem fallo?.. Onde estou?.. Quem me arrebata!
O inferno, as furias todas me espedao...
Quem falla no sou eu, trovejo ellas...
Sacrilego!.. que fiz!..

      (22) _A D. Affonso, no mesmo frenetico arrebatamento._

_Af._ .................. Ceos, estais surdos!..
Onde os raios esto, que inda no chovem
Sobre hum monstro, que tanto os desafia?
Vingana!.. Maldies!..

_Ped._ .................. Tudo mereo.
Ah! Se os Ceos inda immoveis no fulmino,
He talvez que, assombrados de escutar-me,
A desprender os raios no se atrevem.
Debaixo de meus ps tremendo a terra,
Quer abrir-se, e no ousa devorar-me...
At mesmo os abysmos se horroriso
De hum monstro, que soltou tantas blasfemias...
Oh terror!.. Oh remorsos!.. Crime horrendo!..
Mas sabe o Ceo, Senhor, que, involuntarias,
No teve o corao parte nas vozes,
Que por meus labios despejou o Inferno...
O Inferno todo, que no peito encerro.
No me julgues capaz... Porm que digo!..
Infeliz!.. Desculpar-me intento ainda?..
Horror da Natureza, e de mim proprio,
Nem me atrevo, Senhor, a supplicar-te
O perdo... No, eu delle no sou digno.
Do pezo da existencia me allivia;
Vinga da Natureza as leis sagradas,
O respeito devido  Magestade,
Que atropellei feroz: eterno exemplo
Tu deves dar em mim ao Mundo inteiro.
Salpicadas de sangue estas paredes,
Que ouvro minha voz blasfemadora,
Aos seculos vindouros apregoem
Meu lastimoso fim: ao v-las tremo
As Geraes futuras de imitar-me.(23)
Eis-me a teus ps prostrado: vibra o ferro;
Eis meu peito, retalha-o: no te lembres
Que foste j meu Pai... sou delinquente:
Lembra-te s que s Rei, castiga o crime.
Porm... ah! no flagelles a virtude...
Se me deves punir como culpado,
Ignez como innocente absolver deves.
No me custa morrer; porm no posso,
No posso consentir que Ignez padea...
Nem ha de padecer em quanto eu viva.
Pertender separar-nos he debalde;
T duvido que a morte possa tanto...(24)
Releva ao meu amor estes transportes...(25)
Eu sou sensivel... amo... e sou amado.

      (23) _Prostra-se aos ps de Affonso._

      (24) _Tornando em si._

      (25) _No tom mais pathetico._

_Af._ Todos os meus sentidos perturbados,
Cheio de ira, e de horror... nem fallar posso...
Affastem-me da vista esse rebelde.
Ao proximo Castello conduzido,
Seja em prizo segura afferrolhado:
Sua guarda, D. Sancho, eu te confio;
Em quanto justioso, inexoravel,
Em Conselho d'Estado no decido
Qual ser deva o castigo de seus crimes,
E o supplicio da infame, que os motiva.
Treme do meu furor, malvado, treme:
Este dia talvez, dia horroroso!
Ser na longa serie das idades,
De eterno espanto a Portugal, e ao Mundo.


SCENA VI.

_D. Pedro, e D. Sancho._

_Ped._ Inda mais horroroso do que pensas
Certamente ser, se no desistes
De to crueis designios. Que impiedade!
O supplicio d'Ignez! Da minha Esposa!..
Como posso deixar de rebellar-me!
Como evitar hum crime necessario,
Que o dever, e a ternura me prescrevem?..
Hum crime disse?.. Ah, no; longe os remorsos;
Defender huma Esposa no he crime;
Crime fra deixa-la ao desamparo.
Longe, maximas vs, leis oppressivas,
Que a tyrrania impoz sobre a ignorancia,
Nada se deve aos Pais pela existencia:
Os desvelos depois, seus beneficios
So os titulos s que lhes conferem
 nossa obediencia hum jus sagrado.
Meu corao revoca os seus direitos:
Arrependo-me s de arrepender-me
Pelos ter justamente sustentado.
Querias, Rei cruel, afferrolhar-me
Em segura priso, para a teu salvo
Me poderes roubar a cara Esposa?..
Debalde o projectaste, no...

_Sanc._ ...................... Deliras?..
Que intentos so os teus?.. Resistir queres
s ordens de teu Pai, que enfurecido...


SCENA VII.

_D. Pedro, D. Sancho, e D. Ignez._

_Ign._ Esposo, que fizeste?.. Oh Ceos, eu tremo!..
Da tua voz medonha horriveis cos
Inda nestas abobadas retumbo;
De furor suffocado, o rosto em fogo,
Affonso espavorido, a longos brados
Chama pelos atrozes Conselheiros:
Certamente, faltando-lhe ao respeito,
Lhe exacerbaste as iras. Que fizeste?

_Ped._ Menos inda talvez do que devia.
No te importe o que fiz, faze o que digo.
As furias no receies do tyranno;
Vai subito buscar os tenros filhos,
E dispe-te a seguir-me.

_Ign._ .................. Como!.. Aonde?..

_Ped._ Deixamos estes sitios, onde impero
A discordia, a injustia, a iniquidade.
Evitemos o extremo dos horrores:
Acompanha-me, Esposa, se no queres
Ver-me inda parricida.

_Sanc._ ............... Oh Ceos!

_Ign._ ........................ Que insania?
Ah! Que dizes? Que intentas?

_Ped._ ...................... Defender-te,
E possuir-te em paz; poupar-me ao crime.
A tua vida, Ignez, ameaar ouso;
Affonso pertendia encarcerar-me,
Talvez para ordenar o teu supplicio:
Atreveo-se a dizer-mo: he necessario
Fugir-lhe; ou repellir com brao armado
Seus barbaros designios: eia, vamos,
No te demores mais.

_Ign._ .............. Eu desfaleo!...
Desgraada!... Onde queres conduzir-me?

_Ped._ Se necessario for, ao fim do Mundo:
A meu lado segura, em qualquer parte
Seremos venturosos; ermas grutas,
Morada simples de prazeres puros,
Mais gratas nos sero que aureos Palacios,
Habitao fatal dos males todos.

_Ign._ Que me propes, Senhor! A voz me falta...

_Sanc._ Ah, Principe! Contempla o precipicio
Em que vs despenhar-te, e a que me arrastas.
Responsavel por ti...

_Ped._. .............. A nada attendo.(26)
Podes tombem, querendo, acompanhar-nos.
Sim, eu te rogo, vem... De cs coberto
Tens conhecido assaz o ar pestilente,
Que nas Crtes costuma respirar-se,
Halito venenoso, que derramo
A traidora lisonja, a fraude, a intriga,
Que em torno aos Solios quasi sempre giro.
Longe de tanto horror, ah, vem ao menos
Gozar em paz o resto de teus dias.

      (26) _Para D. Sancho._

_Sanc._ Feliz eu, se hontem fosse o derradeiro!
Ah! Querias que proximo ao sepulchro
Fosse ao meu Rei traidor? Que concorresse
Para hum tal desatino?.. Eu, que incumbido
Da tua educao (funesto emprego)
Por elle mesmo fui, socio seria
Em teus crimes, soffrendo que infringisses
Teu dever!...

_Ped._ ....... Qual dever? Fteis chimeras!
O primeiro dever he ser ditoso,
He seguir d'alma o natural instincto.
Vamos, querida Ignez.

_Ign._ ............... Oh Deos! Que trance!
Frenetico... ai de mim!.. Que premeditas?
Teu nome, tua gloria offuscar queres?
Seria a triste Ignez to desgraada,
Que, origem de teus crimes, tolerasse
A infamia de te ver por seu respeito
A Patria abandonar, e o Throno excelso?..
Ah, que diria o Mundo...

_Ped._ .................. Que diria?
Que o esplendor do Solio no deslumbra
Huma alma como a minha. Eu nada perco
Em deixa-lo por ti, no, cara Esposa;
Vale mais ser feliz, que ser Monarcha.

_Ign._ E pode ser feliz quem atropella
Da sociedade as leis, do sangue as vozes?
Ah! Desiste, Senhor, de teus projectos;
Obedece ao teu Rei: jmais esperes,
Que eu approve, ou consinta os teus delirios:
Nem te deixo partir, nem te acompanho...
Eu no quero roubar a hum Pai seu Filho,
Nem tolher a ventura aos Lusitanos,
Privando-os do melhor dos seus Monarchas.
Se os meus rogos...

_Ped._ ............. Teus rogos so inuteis:
Que! Recusas, Ignez, acompanhar-me?..
Ah, no vs nestes sitios horrorosos
Girar em torno a ns a morte, e os crimes!

_Ign._ He para os evitar que eu te no sigo.
A honra, a gloria valem mais que a vida.
Entre os crimes, e a morte, a morte escolho.
Mas ah! porque to proxima a divisas?
Decretou-ma teu Pai? Nada me encubras:
Sabe elle j que em vinculo sagrado...

_Ped._ Tudo lhe revelei: mas o tyranno,
Fingindo no poder acreditar-me,
Orgulhoso, tenaz em seu capricho,
Ameaou-me... que horror! com teu supplicio;
E, para a seu sabor poder julgar-te,
Em segura prizo manda encerrar-me
No proximo Castello. He pois foroso...

_Ign._ Obedecer-lhe, sim.

_Ped._ ................. Obedecer-lhe?..

_Ign._ Indispensavel he, vai, caro Esposo;
Submisso aos Paternaes Regios preceitos,
Eu to rogo, Senhor,  prizo corre.
Outro meio no tens para salvar-me;
Nem eu por outro meio a vida quero:
Outra vez to asseguro, eu no te sigo;
Jmais conseguirs...

_Ped._ ............... Basta: no queres
Estes sitios deixar? Queres ver nelles
Derramados por mim rios de sangue?..
De huma austera virtude enthusiasmado
Ao parricidio, em fim, queres forar-me?
Pois bem, a perpetra-lo estou disposto.
Eu vou, sim, eu vou j...

_Ign._ ................... Cruel; detem-te:
Meus gemidos, meu pranto j no podem
Mover-te o corao, domar-te as furias?
Onde o imperio que Ignez tinha em tua alma?

_Ped._ No te cances, debalde so agora
Teus rogos, o teu pranto, os teus gemidos:
Este dia horroroso he consagrado
 desesperao, ao crime,  morte.
Inflammado em meu peito, s com sangue
Das furias o tio pode apagar-se.
Impedir ninguem pode, nem tu mesma,
Os golpes espantosos, que o meu brao
Vai j descarregar.

_Ign._ ............. Por mim comea:
Rasga-me o corao, da Esposa o sangue
Seja o primeiro sangue que derrames;
E se elle no bastar a saciar-te,
Aos sacrilegios todos te arremea...
Que horror! Nem ouso em ti fitar meus olhos.
s tu? No, tu no s o meu Esposo;
O meu Esposo detestava os crimes:
Eu amava hum Consorte virtuoso;
Virtudes j no tens, j te no amo.
Vai, monstro sanguinario... Mas que disse?
Eu deixar de te amar? No me acredites:
O terno corao desmente as vozes,
Que, a meu pezar, de ouvir-te horrorisada,
Sem tino proferi... Olha o meu pranto.(27)
Abatida a teus ps, co'elles me abrao...
Ou tu has de ceder aos meus lamentos,
Ou ver-me aqui morrer, e aos ps calcar-me.

      (27) _Prostra-se, e abraa-se com os ps de D. Pedro._

_Ped._ Oh Ceos!.. Querida Esposa.(28)

      (28) _Enternecido, querendo levantar D. Ignez._

_Ign._ ......................... Eu no te deixo,
Daqui me no levanto, sem primeiro
De tua alma banir as negras furias;
Sem que tu me promettas obediente
Ir subito cumprir as Regias ordens.
Ah! se tu amas inda as minhas preces,
No has de resistir...

_Ped._ ................ Nem j resisto.(29)
Deixar de obedecer-te, ah, quem, quem pode!..
Para a prizo j parto.(30) Amigo, vamos.(31)
Poders duvidar inda do imperio
Que em meu corao tens?

      (29) _Levanta D. Ignez._

      (30) _A D. Sancho._

      (31) _Voltando-se para D. Ignez, e com a maior ternura._

_Ign._ .................. Oh Deos! Conforto!(32)
No me retalhes mais o peito afflicto.(33)
 trmula razo ceda a ternura;
No te demores mais...

      (32) _Voltando-se ternissimamente._

      (33) _Affectando tranquillidade._

_Ped._ ................ Mas tu...

_Ign._ ......................... Socega;
Nada temas por mim: o Ceo me inspira
Os meios de abrandar de Affonso as iras.
Irei c'os filhos a seus ps prostrar-me:
Ninguem resiste  voz da natureza:
Por mais duro que seja o seu caracter,
Se tem hum corao, ao ver os Netos
Abraados em mim, chorar comigo,
No poder deixar de commover-se,
De perdoar-me em fim; nada receies.
Adeos, Esposo, adeos.(34)

      (34) _Muito a seu pezar precipitadamente se retira._

_Ped._ ............... Ceos! que supplicio!




ACTO IV.


SCENA I.

_Coelho, e Pacheco._

_Coel._ Vo decidir-se em fim nossos destinos:
Este o dia arriscado, em que a Fortuna
Segura mo nos d, ou nos despenha:
Ou morre Ignez de Castro, ou nos perdemos.
Resolutos a tudo, he necessario
Os p'rigos affrontar; deve hum Valdo,
No cume da grandeza vigilante,
Aos Adversarios seus tramando a ruina,
Primeiro que o derrubem, derruba-los;
O futuro prever, prever a itriga,
E destro em conhece-la, e maneja-la,
A vida antes perder que o valimento.
Nosso plano atqui tem produzido
O desejado effeito. Affonso irado,
O Principe em prizo, tudo parece
Prometter-nos hum exito ditoso.
Tens tu j prevenido, alliciado
Os poucos Conselheiros, que nos resto?
Constantes votaro de Ignez a morte?

_Pach._ Apenas lho propuz, m'o assegurro;
Dependentes de ns em gro mais baixo,
A hum leve aceno autmatos flexiveis,
Eccos da nossa voz, a nosso grado
Amoldando-se a tudo, a tudo prestes,
Servir nossos caprichos tem por gloria.
Entre todos D. Sancho unicamente
Velho estoico, singelo em demasia,
Que as honras, e os empregos menoscaba,
Poder combater nossos designios;
Mas Alvaro Gonalves, que se int'ressa
Igualmente que ns d'Ignez na morte,
Se incumbio de sonda-lo, e persuadi-lo.

_Coel._ Desnecessario he, que, encarregado
Da guarda de D. Pedro, elle no pode
Ao Conselho assistir. Nada mais resta
Do que azedar a clera de Affonso,
Dar-lhe a beber na taa da Justia
Adoado veneno, que o perturbe,
E a voz da compaixo d'alma lhe affaste.
Convm no perder tempo: aproveitemos
Propicia occasio, que fugir pode:
Vamos...

_Pach._(35) Espera...

      (35) _Pensativo._

_Coel._ ............ Que! tu desfalleces!

_Pach._ Confesso que algum tanto perturbado
O corao no sei que me annuncia...
Calculemos melhor sobre o futuro.
Inda mesmo suppondo inevitavel,
Suscitada por ns, de Castro a morte,
He de temer que o Principe ferido
Na parte mais sensivel da sua alma,
Raivando inexoravel, desesp'rado,
Sobre ns descarregue atroz vingana.
Quem poder suster?..

_Coel._ .............. Tarde receias:
Nas bordas j do aberto precipicio,
He preciso transpo-lo, ou cahir nelle:
Retroceder o passo no podemos.
Assaz j sabe o Principe quaes sejo
As nossas intenes, nossos conselhos;
Seu odio contra ns he j sobejo.
Que lucraremos pois, se ora cobardes
Da comeada empreza desistirmos?..
Apressar nossa ruina, exacerba-la?
Se foi razo bastante a conspirar-nos
Contra a vida de Ignez, justo receio
De ver hum dia alada sobre o Throno
A Irm de nossos feros inimigos,
Que em nosso damno ento fartar podessem
A perpetua averso que nos jurro;
Se a nossa ruina assim era infallivel;
Quanto mais o ser tendo attrahido
Do Principe o rancor!.. Proseguir firmes
He somente o recurso que nos resta.
Morta Ignez, com o tempo talvez possa
O Principe, esquecendo-a, sujeitar-se
Ao Consorcio, que Affonso lhe prescreve,
E, apagada a paixo, ver-nos sem odio.
Ou victima talvez d'amor infausto,
De saudades mirrado, no podendo
Sobreviver a Ignez idolatrada,
D'Ignez  sepultura a dor o arraste.
Affonso ha de entretanto defender-nos,
E se acaso abortarem finalmente
Nossos designios todos, ento mesmo
No me hei de arrepender de os ter forjado:
Antes quero morrer, inda o repito,
Do que ser por meus mulos calcado,
Contemplados Irmos d'huma Rainha.

_Pach._ Sentimentos iguaes me fervem n'alma;
Eia, tudo se arrisque; prosigamos:
Descarregue-se o golpe derradeiro,
Inda que, errando-o, sobre ns desfeche.
Eu parto a congregar os Conselheiros,
Segurar inda mais todos os votos;
E tu no emtanto ao Rei procura, e move;
Sua colera atia; que eu no tardo,
Juntos os do Conselho, a vir chama-lo.

_Coel._ Bem: no poupes promessas, nem t'esquea
Desculpar ante o Rei sempre a D. Pedro,
Fazendo recahir de seus arrojos
Sobre Ignez to somente a culpa toda.
Affonso para aqui dirige os passos...
No percas tempo, vai.


SCENA II.

_D. Affonso,_(36) _e Coelho._

      (36) _D. Affonso entra na Scena pensativo._

_Af._ ................. Crueis remorsos!
Horroroso castigo de meus crimes!..
Que torpel de afflices, que acerbos males
Vem funestar o resto de meus dias!..
Infeliz Pai!.. Monarcha desgraado!

_Coel._ Releva-me, Senhor, que ouse, pungido
Da dor, em que o meu Rei vejo abysmado,
Recordar-te que deves mitiga-la.
Tua vida, Senhor, no he s tua.
Do teu Povo he tambem: ah no, no queiras
 fora de afflices abbreviar-lha.
Sei quanto custa a hum Rei ouvir blasfemias
De hum filho, que feroz o no respeita:
Mas deves ponderar que hum tal arrojo
To desculpavel he, quanto he violenta
A funesta paixo, de que instigado
Teu filho, a teu pezar, o perpetrra;
Delicto involuntario...

_Af._ .................. O seu delicto
No he s filho da paixo que o cga:
Fora maior o arrasta aos sacrilegios:
Mais que o seu mpio arrojo, o que me afflige,
He ver que assaz mereo hum tal castigo,
Das maldies celestes justo effeito.
Oh remorsos crueis!.. Era foroso
Que hum filho de tal Pai fosse rebelde.
Mais do que elle rebelde, filho ingrato
Eu fui, eu fui tambem... Ardendo em furia
Atrevi-me, que horror! a tomar armas
Contra Diniz meu Pai; movi-lhe a guerra,
Sublevei-lhe os Vassallos, assolei-os;
Cavei-lhe assim feroz a sepultura;
Todas as leis calquei da Natureza,
A Natureza agora quer vingar-se.
De hum Pai, que contra o Pai se revoltra,
s, sim, filho rebelde, s digno filho!
Mais me soffreo Diniz do que eu te soffro;
Mas tu has de igualar meus attentados,
Inda os has de exceder; talvez j tardas!
Nem vs podeis,  Ceos, jmais impunes
Sacrilegios deixar to execrandos.
Dos Avs implacaveis vingadores
So, por justo castigo, quasi sempre
Mos filhos os do Pai, que foi mo filho.
Diniz! Grande Diniz! Sombra iracunda!
Terrivel sombra, que ante mim voltas!
Sobre a minha cabea criminosa,
Por mo do ousado neto, descarrega
O j tardio, merecido golpe...
Ah! Sim... bem vejo... ameaador me apontas
O tremendo futuro, que m'espera...
Que flagello! Que horror! Que mar de sangue!..
Tristes vassallos meus! Ah filho! Filho!
Suspende...

_Coel._ .... Que delirio te arrebata?..
Teu grande corao sentir no deve
Remorsos, que aos malvados s competem:
Passadas, leves faltas no recordes;
Males no temas, que atalhar bem podes.

_Af._ Porque no vens,  morte, alliviar-me
Do pezo da existencia, e de meus crimes!

_Coel._ Que seria de ns, se os Ceos te ouvissem!
Em desordens submerso, dessolado,
Comtigo Portugal acabaria.
Os clamores escuta do teu Povo,
Conserva-lhe o seu Rei; to necessario
A teus tristes Vassallos jmais foste:
De mil calamidades ameaados,
S lhes pde valer tua justia.

_Af._ E como? De que modo evitar posso
Desordens, que a mim mesmo me soobro?

_Coel._ Do mal a causa extincta, o mal expira;
Extingue a causa pois de tantos males:
Em quanto existir Castro, que os fomenta,
Debalde intentars dar-lhe o remedio.

_Af._ Que dizes? Condemnar Ignez  morte?
To graves so seus crimes, que mereo...

_Coel._ Os seus crimes, Senhor... Ah! por desgraa,
Nunca o Mundo vio crimes que brotassem
To funestas, horriveis consequencias:
Desnecessario julgo referi-las;
Tu bem as sabes, pois assaz te affligem.
Do Principe ardilosa seductora,
Se teu filho he rebelde, se he blasfemo,
Quem, seno ella, o fra aos sacrilegios!
No vacilles, Senhor; o seu supplicio
Chega a ser, mais que justo, indispensavel.
Mas no basta o que eu digo a condemna-la:
Tens melhores, mais sabios Conselheiros,
Que juntar j mandaste; ouve os seus votos:
Que se elles zelo igual ao que me inflamma,
Por ti, pelo bem pblico, tiverem,
Ho de todos unanimes rogar-te
Que o supplicio de Ignez logo decretes;
Pintar-te co'as mais negras, proprias cres
De Portugal a ruina, se o dilatas;
As dissenses crueis, a horrivel guerra,
Que a vingativa Hespanha vai mover-nos,
E de que os teus Vassallos, fatigados
Das recentes batalhas, j murmuro,
A Viuva, que o Esposo perdeo nellas,
No quer perder agora o caro filho,
Nem o filho, que em lucto inda o Pai chora,
Desamparando a Mi, expr-se  morte.
Finalmente, Senhor, tudo te brada
Que sacrifiques huma a tantas vidas;
Que deixes ao futuro eterno exemplo,
Para que ninguem mais seduzir ouse,
 imitao de Ignez, coraes Regios.

_Af._ Se assim o exige o pblico socego,
O Conselho decida o que for justo,
Que eu afflicto no sei o que obrar deva.

_Coel._(37) Que vejo! Ignez!.. He muito! Inda se atreve
A vir apparecer-te?.. Ah, melhor fra
Retirar-te, Senhor, sem dar-lhe ouvidos.

      (37) _Avistando Ignez ainda fra da Scena._

_Af._ Vamos, sim... Porm no, devo escuta-la.

_Coel._ Talvez os do Conselho j te esperem.

_Af._ Vai tu juntar-te a elles, que eu no tardo.


SCENA III.

_D. Affonso, Ignez, Elvira, e os meninos._

_Ign._ Chegai, filhos, chegai, vinde prostrar-vos
Aos ps de vosso Av; vinde beijar-lhe
Pela primeira vez a Mo Augusta.(38)
Eis,  Senhor, os filhos de teu filho,
Que vem com tristes lagrimas rogar-te,
Que desta triste Mi te compadeas.
Chorai, chorai comigo, tristes filhos,
Intercedei por mim com vosso pranto,
Pranto mais expressivo do que as vozes,
Que a vossa tenra infancia no permitte:
Ajudai meus lamentos, minhas preces,
Impetrai meu perdo. Sim, Rei clemente,
Eis a Mi desgraada de teus Netos,
Que abraada com elles te supplica,
Que a misrrima vida lhe conserves.
Sei que vai decretar-se o meu supplicio!
Alvo da intriga, victima da Inveja,
Temerosa, infeliz, desamparada,
A morte j diviso, a injusta morte,
Que raivosos, tyrannos Conselheiros,
Illudindo a piedade de tua alma,
Fulmino contra mim... Que atrocidade!..
Porque enormes delictos sou punida?..
Amar, Senhor, teu filho, ser amada,
Crime acaso ser digno de morte?
Imploro, ouso attestar tua justia.
Ah! Consulta, Senhor, tua clemencia,
Teu corao consulta, que elle mesmo
Te ha de dizer, que a morte nao mereo.

      (38) _Prostra-se com os meninos aos ps de Affonso, e Elvira se
      retira._

_Af._ Levanta-te, infeliz...(39) Oh Natureza!(40)
Oh de hum Monarcha rigidos deveres!..
Levanta-te, infeliz.(41) Funesta origem
Das crueis afflices que me consterno...
Ao ver-te me enfureo,... e me commovo...
O Pai quer perdoar-te... o Rei no pode.

      (39) _Enternecido._

      (40) _Vai abraar os netos, volta o rosto afflicto e exclama._

      (41) _Levanta Ignez._

_Ign._ Ah Senhor! Perdoar aos desgraados
He dos Reis o poder mais doce, e augusto:
Sim, do teu corao segue os impulsos;
Triunfe a compaixo, e a natureza,
No te has de arrepender por ser piedoso;
Antes porm, se  morte me condemnas,
Ho de eternos remorsos flagellar-te,
Incessantes angustias consumir-te:
De Portugal a gloria, as esperanas
Vo sobre a minha campa espedaar-se.
Vers por ti mandado  sepultura
Comigo, a teu pezar, descer teu filho.
Matando-me, Senhor, ah, v que o matas!
Os nossos coraes, unidos ambos,
To ligados esto, que o mesmo golpe
Que retalhar o meu, trspassa o delle;
Existir hum sem outro no podemos...
Por elle, e no por mim t'imploro a vida.
Sim,(42) de rojo outra vez torno a abraar-me
Com tuas Regias Plantas. Tem piedade
Da Esposa de teu filho. Ah, se no fossem
Estas doces prizes, que me constrangem
A viver infeliz, e amar a vida,
Longe de instar por ella, sem queixar-me,
Tranquilla recebra o fatal golpe...
Mas deixar para sempre o que mais amo!..
Sou Esposa, sou Mi... Ceos! Desfalleo!(43)
Queridos filhos... Desgraados orphos!..
E que ser de vs quando vos falte.
A mais terna das Mis, o Pai mais terno!..
Ah Senhor! Se inflexivel ao meu pranto,
A minha situao te no commove,
Presta ouvidos  voz da Natureza:
Mova-te a compaixo o desamparo
Destas victimas tenras, e innocentes:
Elles culpa no tem dos meus delictos.
No te lembres, Senhor, que so meus filhos;
Ah, no: lembra-te s, que so teus netos...
Mas tu choras? Que vejo! Os Ceos me ouvro:
Tuas lagrimas vem em meu soccorro,
Ellas o meu perdo j me annuncio.
Acaba de extinguir os meus temores,
Dize, dize, Senhor, que me perdoas.

      (42) _Prostra-se outra vez aos ps de Affonso._

      (43) _Abraa os filhos com a maior ternura, e afflico._

_Af._ No posso resistir... Oh quem podra
Neste instante deixar de ser Monarcha!


SCENA IV.

_D. Affonso, Ignez, seus filhos, e Coelho._(44)

      (44) _Ignez, apenas avista Coelho, levanta-se atemorisada._

_Coel._ Por ti, Senhor, se espera: vem, no tardes;
Que j comea o Povo a amotinar-se.

_Ign._ Oh Deos! Eu morro!

_Af._ .................. Ignez, no desesperes.
Inflexivel no sou: meu pranto o affirma;
Mas no posso faltar aos meus deveres;
No sou senhor de mim, tenho Vassallos;
Perante elles, perante os Ceos, e a Terra,
De tudo quanto obrar sou responsavel;
Despotico no sou; mas sou piedoso.
Tens Affonso por ti, nelle confia:
Ao Conselho d'Estado vou eu mesmo
Tua Causa advogar. Ceos, inspirai-me.


SCENA V.

_Ignez, e seus filhos._

_Ign._ Debalde seductoras esperanas
Por mais tempo illudir-me j no podem.
O corao me augura que he chegado
De meus dias o termo desastroso.
Sim, proximos estais, queridos filhos,
A perder vossa Mi... vinde a meus braos...
Em breve... ai triste!.. em breve ho de faltar-vos
Os maternaes, ternissimos affagos...
Para sempre vos deixo... para sempre...
Cruel separao!.. dor insoffrivel!..
Horrorosos momentos! Ceos!.. Nem posso;
Nem me atrevo... ai de mim! a ver meus filhos:
Quanto mais os contemplo, mais me afflijo...
De todo sinto j faltar-me o alento...
O corao rebenta... que anciedade!
Ah! parece que a morte... ella j chega...
A descarnada mo... que horror! Espera
Suspende,  Morte... deixa que primeiro...
Meus filhos onde esto?.. Quero inda v-los...
Crueis, no m'os roubeis... Antes que morra,
Ao menos huma vez quero abraa-los...
Quem se atreve a arranca-los de meu peito?..
Ah barbaros!.. Meu sangue... Esposo? Esposo?..
Onde ests, que no vens em meu soccorro!..
Mas em vo... J he tarde... a sepultura...


SCENA VI.

_Ignez, seus filhos, e Elvira._

_Elv._ Que vejo, oh Deos!(45)

      (45) _Corre para Ignez._

_Ign._ ................. Abertos os abysmos...(46)

      (46) _Delirante ainda._

_Elv._ Ignez... (que magoa!) Ignez...

_Ign._ .... Que!.. Quem me chama?..
s tu, Constana, s tu, que vens ainda
Da habitao da morte perseguir-me?

_Elv._ Torna, Senhora, em ti... J no conheces,
No vs a triste Elvira?..

_Ign._ .................... Quem!.. Elvira...
s tu? Aonde estou?.. Ah, que me queres?

_Elv._ Mitigar tua dor, chamar-te  vida.
Os alentos recobra, as esperanas:
Sers inda feliz, vers em breve
Trocados em prazer os teus pezares.

_Ign._ Prazeres para mim!.. ah!..

_Elv._ ....................... Que! No viste
As lagrimas do Rei, que o teu indulto
No enternecido aspecto promettia?

_Ign._ Qual quimerico indulto!.. Nada esperes:
Que importo suas lagrimas, que importa
Que perdoar-me queira, s o rodo
Vs Cortezo, escandalo do Throno,
Algozes da innocencia, fros monstros,
Sedentos do meu sangue, que ardilosos
Seu corao benigno senhoro?
Elvira, a minha morte he infallivel;
Pouco pode tardar: antes que chegue,
Toma, toma estes orphos innocentes,
Conduze-os  prizo ao meu Esposo;
Entrega ao triste Pai os tristes filhos,
E dize-lhe que Ignez... Mas ah, que fao?..
Retalhar quero do consorte o peito?
(Co'a noticia fatal da minha morte
O mortifero golpe antecipar-lhe?..
Ah, no; bem basta que de dor expire.
Quando entrar nesta lugubre morada,
Onde, chamando em vo a extincta Esposa,
Tristes eccos somente lhe respondo;
E tintas as paredes do meu sangue,
Luctuosos vestigios da consorte
A cada passo espavorido encontre.
Ento, Elvira, ento he que eu te rogo
Lhe digas...(47) Ah, parece que ouo passos...
Sero talvez meus barbaros verdugos...
Que cheios de furor, ardendo em raiva
Venho cevar-se no meu sangue?.. Ai triste!..
Ei-los que chego... no m'engano... Elvira!
Vamos na minha Camara encerrar-nos:
J melhor poderei recommendar-te
O que exijo de ti; sim, vamos, filhos,
Quero morrer ao menos junto ao leito,
Que tem sido at agora testemunha
D'envenenados, rapidos prazeres,
Dos continuos remorsos do meu crime,
Das minhas afflices, e do meu pranto.

      (47) _Olhando atemorizada em volta da Scena._




ACTO V.


SCENA I.

_D. Affonso._

Que afflico, que tumulto n'alma sinto!
Vacillante, confuso, atribulado,
Mal posso respirar. Ceos! que tormento!
D'hum lado a compaixo, d'outro a Justia...
Formidavel Justia! Em fim venceste.
Satisfeito estars, dever tyranno...
O supplicio de Ignez... Oh Deos, e pude,
Tremendo, subscrever da sua morte
A rigida sentena!.. Eu me horroriso:
Dentro em meu corao queixosas sinto
Bradar a compaixo, e a natureza...
Que! surdo  sua voz, consentir devo,
Que  morte, a meu pezar, severamente
Seja a Mi de meus Netos condemnada?
E por que crimes? Por amar meu Filho?
Ah, no: he tempo ainda; revoguemos
A sentena cruel... Porm que fao?..
O pblico socego, o bem do Estado,
O popular clamor, o exemplo, tudo,
Tudo em fim contra a triste me constrange,
E me estorva o prazer de perdoar-lhe,
Ah, dura condio! Pezado Sceptro,
E haver quem dos Reis inveje a sorte?
Tormentoso lugar, terrivel Solio,
Assento d'afflices, e de amarguras;
Desgraados aquelles que te occupo!


SCENA II.

_D. Affonso, e D. Sancho._

_Sanc._ Ah Senhor! Se teu filho inda te he caro,
Se no queres privar os Lusitanos
Do herdeiro Augusto de teu Throno, e gloria;
No percas tempo, evita, remedeia
A desesperao que o assassina.
Eu conter j no posso os seus transportes,
Nem ver as afflices que o despedao:
Humas vezes convulso, delirante,
Scintilando furor, acceso em raiva,
Morde, intenta romper os duros ferros
Da prizo, que o retem; blasfema, e brama:
Consternado outras vezes, abatido,
Em profundo lethargo, entre agonias,
Os olhos razos d'agua, o peito anciado,
Succumbe  sua dor, cahe, desfallece.
Eis que subito agora por mim chama:
"Vai, amigo, (me diz) corre apressado,
Saber da minha Esposa, e de meus filhos.
Certamente os perversos Conselheiros
Ousro conspirar contra os seus dias:
Ah, procura meu Pai, por mim lhe falla;
Por mim de Ignez o indulto lhe supplica;
O estado em que me vs lhe representa;
E se elle persistir inexoravel,
Protesta-lhe por mim..." Ah! nem me atrevo
A referir-te...

_Af._ .......... Basta: no augmentes
A minha confuso: oh Deos!

_Sanc._ ................... Perdoa:
Tu silencio me impes; mas eu no posso,
No posso obedecer-te; o grande risco,
Em que os dias do Principe contemplo,
O amor que lhe consagro, no permittem
Que eu cesse de clamar-te que perdoes
 miseranda Ignez, de cuja vida
A vida de teu filho est pendente.
Ignez j agora he de D. Pedro Esposa...
 at digna de o ser. No acredites
Damnados coraes; que seus contrarios,
D'inveja, d'ambio, de rancor cheios,
Intento denegrir o seu caracter.
V, meu Rei, que te illudem: crer-mo deves
Por meus labios fallou sempre a verdade.
Ignez huma alma tem singella, e nobre,
Sensivel de sobeja, a amar propensa;
No pde resistir a amar teu filho:
Seu delicto he s este, no tem outros;
D'outros no he capaz, e hum tal delicto,
Quando tantas virtudes o acompanho,
He digno de perdo, he desculpavel.(48)
Perdoa-lhe, meu Rei, no diga o Mundo,
Que inflexivel, severo em demasia,
Nem de teu filho  Esposa perdoaste.

      (48) _Prostra se aos ps de D. Affonso._

_Af._(49) No, no ha de dizer.(50) Oh l, D. Nuno!(51)
Deixar eu de ser Pai por ser Monarcha?..
Ah! No.

      (49) _Depois de pensar hum pouco._

      (50) _Chamando para dentro da Scena._

      (51) _Comsigo mesmo._


SCENA III.

_D. Affonso, D. Sancho, e D. Nuno._

_Nun._ ... Que determinas?

_Af._ ................... Apressado
Parte em busca de Ignez; aqui ma envia;
E aos duros Conselheiros participa,
Que a sentena revogo; a Ignez perdo.

_Sanc._ Graas, benigno Rei!..

_Nun._(52) .................. Oh feliz Castro!
J proxima ao sepulchro  vida tornas.

      (52) _Partindo._


SCENA IV.

_D. Affonso, e D. Sancho._

_Sanc._ Que escuto!  morte j sentenciada!..

_Af._ Longe de ns lembrana to funesta.
O Principe vai pr em liberdade:
Que me venha abraar; Ignez he sua.

_Sanc._ Que jubilo!(53) Ah Senhor! Deixa que eu banhe
Tua mo generosa com meu pranto,
Suave pranto, que o prazer me arranca.(54)
Eu vou... Sim; a alegria azas m'empresta:
Vou levar a D.. Pedro a feliz nova,
Restituir-lhe vou a paz, e a vida.

      (53) _Prostra-se, e beija a mo do Rei._

      (54) _Levanta-se._


SCENA V.

_D. Affonso._

Oh mil vezes feliz todo o que pode
Venturosos fazer os desgraados!..
Desafogado o corao j sinto...
Hum Rei smente he Rei quando perdoa.
Minha alma d'antemo j sabora
O jubilo de Ignez, e de meu filho,
D'hum, e d'outro os abraos, os transportes,
A innocente alegria de meus netos...
Delicia dos mortaes, oh Natureza!
Cedo s tuas leis as mais leis todas.


SCENA VI.

_D. Affonso, e o Embaixador._

_Emb._ Condoido, Senhor, da infeliz Castro,
Releva que eu me atreva a supplicar-te,
Que a decretada morte lhe perdoes:
Eu sei que a teu pezar foi condemnada,
Satisfao que ds ao meu Monarcha,
Quando elle certamente, persuadido
Da tua fidelissima amizade,
No querer, Senhor, que lha confirmes
Com o sangue de Ignez, que inda he seu sangue,
Atrevo-me em seu nome assegurar-to,
Rogando-te pratiques generoso,
A piedade que he propria da tua alma.

_Af._ Muito folgo de ver teus sentimentos
To conformes aos meus; sim, eu espero,
Que o teu Rei me no culpe de piedoso,
A Ignez j perdoei; fiz mais ainda;
Reconheci-a de meu filho Esposa.
No me atrevo a romper o n sagrado,
Em que Hymeno, e Amor os enlaava,
Ignorado por mim, quando sincero
O Tratado firmei, que promettia
Com Beatriz de meu Filho os Desposorios,
Deves pois ao teu Rei fazer sciente,
Das razes poderosas que os estorvo;
E por mim segurar-lhe ao mesmo tempo
Constante, inalteravel amizade.

_Emb._ Teu leal proceder, as razes todas
Que a decidir assim te constrangro,
Lhe exporei fielmente, e no duvides
Que tal resoluo lhe agrade, e a louve.

_Af._ Dictou-ma o corao, e de abraa-la
No me hei de arrepender: nunca a piedade
Pode manchar as purpuras: se o Mundo
De Bruto inda com pasmo escuta o nome,
Mais saudoso de Tito o nome adora.
Porm que vejo!.. oh Ceos!.. D. Nuno em pranto...


SCENA VII.

_Os ditos, e D. Nuno._

_Nun._ Oh fereza!.. Oh desgraa!..

_Af._ ....................... Que acontece?..

_Nun._ A dr, e o pranto as expresses me tolhem...
Cheguei tarde, Senhor... Ignez...

_Af._ ............................ He morta?..

_Nun._ Brevemente o ser.

_Emb._......Oh Deos!..

_Nun._ .............. Debalde
 misera e mesquinha perdoaste:
De seu preclaro sangue sequiosos,
Os Ministros crueis se antecipro...

_Af._ Oh detestaveis, sanguinarios monstros!
E podestes... acaba.

_Nun._ .............. Mensageiro
Da piedosa faustissima noticia,
 Camara de Ignez veloz caminho;
Pouco distante ja de seus lamentos
Parece, que as abobadas gemio:
Accelero inda mais ligeiros passos,
E ao tempo que os crueis descarregavo
Sobre o peito d'Ignez os duros golpes,
Entro... (que horror!) perdo, perdo, exclamo:
 palavra _perdo_ os impios tremem,
E at da mo os ferros lhes cahro:
Em vo porm; que o sangue j corria.
Servro s meus gritos de que fosse
A ferida talvez menos profunda.
Ento Coelho, e Pacheco, estatuas ambos,
Como espantados do seu crime horrendo,
Sem proferir palavra largo tempo,
Olhando hum para o outro espavoridos,
Apenas a final dizer podro:
"No ha mais que hum recurso; eia, fujamos;"
E subito os crueis desapparecem.
Ignez desfallecida, mal ouvra
Que tu lhe perdoras, levantando
As mos aos Ceos, e os macerados olhos,
Mil vezes te bemdiz, por ti mil vezes
Aos Ceos envia fervorosas preces.
Cheia de gratido, inda o seu rosto
Entre as sombras da morte parecia
Que ao proferir teu nome s'alegrava;
Em quanto as tristes Damas, que a rodo,
O sangue de seu peito estancar busco,
"Por ultimo favor (lhes diz) imploro,
Que  presena d'Affonso me conduzo;
Inda quero ir beijar-lhe a mo clemente,
E a seus ps expirar agradecida."
C'os filhinhos ao lado a malfadada,
Buscando-te, Senhor, para estes sitios
J com tremulos passos se encaminha.

_Af._ Oh destino!.. Oh fereza!.. Infeliz Castro!..
Filho infeliz!.. Mais infeliz do que ambos,
Atribulado Pai!.. Todos os males,
As furias, as desgraas, e os remorsos
Desde o bero ao sepulchro me acompanho.
Nasci para flagello dos humanos,
Para opprobrio nasci da natureza:
Portugal, dos seus Reis na clara historia,
Chamar com razo ao quarto Affonso
Mo Irmo, Filho ingrato, e Pai tyranno.
O culpado sou eu de Ignez na morte,
Eu que, pelos perversos enganado,
Tarde o grito escutei da humanidade.
Ah! fujamos, fujamos destes sitios,
Que a vr a desgraada no me atrevo...
Mas ai de mim!.. As foras me abandono:
Eis ella chega... Amigos, soccorrei-me:
Affastai-me daqui...


SCENA VIII.

_Os mesmos, Ignez, os dois meninos seus filhos, Elvira, e duas Aias._(55)

      (55) _As Aias sustento Ignez, que vem ferida._

_Ign._ Ah!.... No me fujas...
No me fujas, Senhor... toma os teus Netos...
Para t'os entregar, agonisante,
O Maternal amor aqui me arrasta...
Tristes orphos, adeos... Adeos, meus filhos...
Nas tuas mos, Senhor, os deposito...
Em teu bom corao abrigo encontrem...
Ampare-os seu Av, j que a Mi perdem...
Posso elles hum dia, de ti dignos,
Dignos filhos do Pai mais virtuoso,
Com virtudes iguaes, egregios feitos,
Compensar-te o perdo, que me outorgaste...
E por ultima graa me concede,
Que inda antes d'expirar meu Pai te chame.

_Af._ Chama-me o teu algoz: no queiras dar-me
O doce nome que me no compete:
Bem quizera eu tambem chamar-te Filha:..
Mas no me atrevo, no; a Natureza,
Se visse por meus labios profanado
Nome to deleitoso, estremecra...
Teu sangue est bradando; tu s deves
O cruel detestar, que te assassina;
Mas bem vingada ests; mais desgraado
Mil vezes do que tu, mil mortes soffro.
Ah, poupa ao teu verdugo o horror de ver-te
Exhalar d'alma os ultimos arrancos...
Eu vou, sim, porque at minha presena
Deve ser a teus olhos odiosa.(56)
Ninguem me siga, ah, no; deixem-me todos,
Fujo todos de mim; quero esconder-me
A todos os viventes, t que possa
Nos abysmos sumir-me para sempre.(57)

      (56) _Vai a partir, e vendo que D. Nuno o quer acompanhar, volta-se,
      e diz:_

      (57) _Parte arrebatadamente._


SCENA IX.

_Os mesmos, excepto Affonso._

_Ign._ Ah Senhor!.. mas debalde; no me attende;
Inda mais este golpe!. No me custo
As suas afflices menos que a morte...
Oh quantos desgraados tenho feito!
O triste Pai, o Esposo... Ai! triste Esposo!..
E que ser de ti!.. Lembrana horrivel!..
D. Nuno, Elvira, confortai-o todos,
 sua dor buscai dar lenitivo...
Ah, s'eu podesse ao menos v-lo ainda...
Morrra satisfeita... Ceos!.. j sinto
A agonia da morte... Filhos... Filhos...
Quanto a sua presena me consterna!..
Ah, levem-mos daqui... mas para onde?..
No; chegai, filhos meus... em vossos labios
Quero entornar minha alma... nelles quero
Deixar a vosso Pai depositados
Meus ultimos suspiros... Ah! so estes...
So estes... Que anciedade! A luz me foge...
Adeos, Filhos... adeos, Esposo... Eu morro.(58)

      (58) _Cahe, e espira nos braos das Damas._

_Emb._ Que doloroso trance!


SCENA X.

_Os mesmos, D. Pedro, e D. Sancho._

_Ped._(59) ............... Amada Esposa,
Ignez, querida Ignez, va a meus braos,
Vem completa fazer minha alegria.(60)
Porm que!.. vs chorais! que infausto agouro.(61)

      (59) _D. Pedro entra na Scena cheio de alegria, sem vr o cadaver
      de Ignez._

      (60) _Vendo chorar D. Nuno, e o Embaixador, que esto defronte do
      cadaver de Ignez._

      (61) _Olha para traz, d com os olhos em Ignez morta, quer correr
      a ella, reca espavorido, e cahe desfallecido nos braos de
      D. Sancho, e do Embaixador._

_Sanc._ Oh Principe infeliz!.. Mortal angustia!
Affastai-lhe da vista a extincta Esposa.(62)

      (62) _Elvira, e as Aias retiro da Scena Ignez, e os Meninos,
      acompanhadas de D. Sancho._

_Ped._(63) A Esposa!.. Onde est ella? Ide chamar-ma.

      (63) _Em delirio._

_Nun._ Ah! Senhor!..

_Ped._ ............ No tardeis, ide chamar-ma.
Eu mesmo, eu mesmo vou... Ignez, Esposa!(64)

      (64) _Convulso, quer caminhar, e no pde._

_Emb._ A extrema dr o priva dos sentidos.

_Nun._ A tua Esposa... oh Deos!.. j no existe.

_Ped._ He morta? Injustos Ceos! Claro terrivel!(65)
Ah! Sim, eu mesmo a vi... horrida imagem!..
E tornaro a abrir-se inda os meus olhos?
Vi morta a cara Esposa, e vivo ainda!(66)
Espera, espera Ignez, eu te acompanho,
Eu j te sigo, sim...(67) Mas no, primeiro
He preciso vingar a sua morte.
Quem a matou?.. Dizei... talvez... foi elle,
Esse tyranno, que meu Pai se chama?

      (65) _Olhando para o lugar onde vra Ignez morta._

      (66) _Em aco de desembainhar a espada._

      (67) _D. Nuno, e o Embaixador impedem que D. Pedro desembainhe,
      e este reflectindo hum pouco, diz:_

_Nun._ Ah! no, Senhor, teu Pai lhe perdoava,
Mas Coelho, e Pacheco os mpios foro,
Que...

_Ped._ Basta: nada mais.(68) Impios so todos,
E eu de todos o sangue beber quero.
Treme, barbaro Rei; cruenta guerra
Eu protesto fazer-te: sim, eu juro
Pelo sangue de Ignez, cujos vestigios
Bradando por vingana alli diviso,
Juro, cruel, do Throno derrubar-te,
E em teu lugar, c'roada alar a elle
A Esposa que me roubas. A meu lado,
Mesmo depois de morta, a bella Castro
Ser Rainha, reinar comigo:
Que importa que o seu corpo no respire,
Se a sua alma inda existe unida  minha!
Ho de todos beijar-lhe a mo j fria,
Tributar-lhe as devidas homenagens:
Do seu throno degros por mim calcados
Os tyrannos sero que a assassinro:
Seus coraes malvados, das entranhas
Eu mesmo hei de arrancar, hei de trincar-lhos.
s minhas iras escapar no podem:
Inda que nos infernos vo sumir-se,
L mesmo, ardendo em raiva irei busca-los.
Ser tal meu furor, minha vingana,
Que o Mundo tremer de ouvir meu nome:
Por toda a parte se ho de ouvir smente
Pranto, desolao, e horrores... tantos
Os estragos sero, as mortes tantas,
Que ha de em sangue nadar Portugal todo:
Sangue o Douro, o Mondego, e sangue o Tjo
Ho de, em vez d'agua, despejar aos mares;
E os proprios mares arrojar bramindo
Ondas de sangue s mais longinquas praias.
Eu vou j comear a derrama-lo.
Oh furias! Oh vingana! Acompanhai-me,
Meus passos dirigi; guiai meu brao.(69)

      (68) _Na mesma furiosa desesperao._

      (69) _Parte furioso arrebatadamente da Scena._

_Emb._ Ah Principe, suspende! Mas quem pde
Conter as furias, que lhe luto n'alma!(70)

      (70) _Segue a D. Pedro._

_Nun._ Que espantoso tropel de horriveis males!..
Oh de cgas paixes funesto exemplo!..
Misero Esposo!.. Malfadada Castro!..
De quanta compaixo so dignos ambos!..
Muito se amavo, desgraados foro,
Chore-os o Mundo, e de imita-los trema.(71)

      (71) _Finda a Tragedia quando no ha coroao._


SCENA X.[NT1]

_D. Nuno, e D. Sancho._(72)

      (72) _Impaciente._

_Nun._ Onde corres?..

_Sanc._ ............ Oh Ceos!

_Nun._ ..................... Novos desastres
Acaso sobre ns envia o Fado?

_Sanc._ O nosso Excelso Rei, o invicto Affonso,
Com fora de pezar succumbe aos males,
E violenta paixo lhe arranca a vida.

_Nun._ Em que monto d'horrores nos abisma
O destino fatal!

_Sanc._ ......... Oh desventura!
O Principe me ordena que vos chame:
Vinde prestes, D. Nuno; elle turbado
Sente a falta d'hum Pai, da Esposa a perda.(73)

      (73) _Parte_

_Nun._ Morreo em fim?.. Morreo! No centro d'alma
Soffro as ancias crueis, a dr mais mpia!


_Acto da Coroao para se representar no fim da Tragedia==Nova
Castro==de Joo Baptista Gomes._

     *     *     *     *     *

A lembrana de que muitas pessoas desejo vr no fim daquella optima
Tragedia huma Coroao, fez com que se imprimisse esta, apezar da falta
de unidade que ha, o que forma hum erro Dramatico, que o seu Auctor no
desculparia se existisse.--_Nota do Editor._

     *     *     *     *     *

_Mutao._

Magnifica Sala com Docel, e Cadeira de espaldar no meio do Theatro, em a
qual est D. Ignez assentada, e em lugar competente, e magnifico huma
Coroa riquissima.

_Sahem D. Pedro, D. Sancho, D. Nuno, Elvira, os dous Meninos, Grandes, e
Guardas Reaes._


_D. Nun._ Esta he a pompa, Senhor, que a brevidade
Me permittio do tempo.

_D. Ped._ ............. Que impiedade!
He possivel, Ignez, oh dura sorte!..
Quem vida me do te dsse a morte?!
A sacrilega mo, barbara, e fera,
Que o teu sangue verteo no duro effeito
No cahio com o ferro? Oh quem podra
Soldar a pura neve de teu peito!..
Quem podra animar-te a luz perdida,
Repartindo comtigo a minha vida?!
Quaes sero os castigos acertados
Que excogite a lembrana desta scena
Contra estes deshumanos inimigos,
Sem lei, sem compaixo, e sem respeito?
Farei abrir com golpes mui profundos,
As espadoas a hum, a outro o peito;
E a seus mesmos olhos moribundos,
Que vro este Sangue, desejra
Mostrar os coraes, que os animra
A to cruel, e aspera fereza,
Como abortos crueis da natureza
Para monstros indomitos gerados:
Choro, meu bem, a tua adversidade,
E vivo para minha saudade!..

_D. Sanc._ Aqui te outorgo a Cora...

_D. Ped._ ....................... De outra sorte
Coroar-te intentei, fiel Consorte;
Mas preferio  gloria a tyrannia!..
E vs, meus caros, meus fieis Vassallos,
Reverentes beijai esta mo fria,
Que beijar deverieis n'outro estado,
Se to impio no fosse o nosso fado.

_D. Sanc._ O primeiro sou eu, que esta mo bella
Reconheo da minha Soberana,
Com o respeito que devo a vs, e a ella. _Beija-lha._

_D. Nun._ Com minha gratido, e o meu respeito,
Qual Vassallo fiel, cumpro o preceito. _O mesmo._

_Os Grandes beijo-lhe a mo ao som de Musica,
e no fim diz:_

Mais na morte que em vida respeitado,
Depressa cobrir faze, Condestavel.

_D. Sancho corre as cortinas._

Com majestoso fausto veneravel
A levai a Alcobaa, e as estradas
De tochas estaro illuminadas;
E o mesmo esplendor fazer quizera
Se, como dezesete legoas so,
Dezesete mil fossem; pois venera
Tanto minha alma a essa cinza amada,
Que desejo exceder no magestoso
Aquella maravilha celebrada,
Que Artimizia erigio a seu esposo.
E vs, que ainda apezar do esquecimento
Recommendais com pranto merecido
Os amores de Ignez ao sentimento,
E seu nome ao respeito que he devido,
Com verso humilde aqui vos represento
O tragico infortunio desabrido,
Que aconteceo  misera mesquinha,
Que inda depois de morta foi Rainha.

Fim.

     *     *     *     *     *


Notas de Transcrio

NT1: No original as ltimas duas cenas aparecem ambas identificadas como
"Scena X".





End of the Project Gutenberg EBook of Nova Castro: tragedia, by 
Joo Baptista Gomes Junior

*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK NOVA CASTRO: TRAGEDIA ***

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Volunteers and financial support to provide volunteers with the
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and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
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state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
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Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
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business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
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     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


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