The Project Gutenberg EBook of Judas, by Augusto de Lacerda

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Title: Judas
       Romance lirico em quatro jornadas

Author: Augusto de Lacerda

Release Date: November 16, 2008 [EBook #27276]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

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JUDAS




DO MESMO AUCTOR

Theatro:

_A Flr dos Trigaes_, comedia original em um acto, em verso--Theatro de
D. Maria II.

_Aspasia_, drama original em quatro actos--Idem.

_Samuel_, idem--Idem.

_A Tesoura_, monologo--Idem.

_A Charada_, sainete original--Theatro do Gymnasio.

_Casados-Solteiros_, comedia original em tres actos--Idem.

_O Vicio_, pea original em cinco actos--Theatro do Principe Real.

Em livro--Edies esgotadas:

_Religio do Amor_, versos.

_O Padre_, romance intimo.

_A Pana_, contos.

_A Lei da Exauctorao Militar_, poemeto.

_Cyrilleida_, analyse de uma critica  Velhice do Padre Eterno.

_Juizo Final_--Evangelho da Consciencia.

A entrar no prlo:

_O Rabbi da Galila_--(Vida de Jesus)--Romance.

_Juizo Final_--Evangelho da Consciencia--2. edio.

Em preparao:

_Consciencia Libertada_--Evangelho do Futuro.

_Lendas de Israel._




Augusto de Lacerda


JUDAS

ROMANCE LIRICO

EM

_QUATRO JORNADAS_


LISBOA

Antiga Casa Bertrand--JOS BASTOS

_73, Rua Garrett, 75_

1901


_Exemplar n._ 461


Todos os direitos d'este livro so propriedade exclusiva e reservada do
seu auctor.


Ao Dr. Manoel Maria Bordallo Pinheiro

    _Il n'y a gure de dtails certains en histoire; les dtails
    cependant ont toujours quelque signification. Le talent de
    l'historien consiste  faire un ensemble vrai avec des traits qui ne
    sont vrais qu' demi._

    Ernest Renan--Vie de Jsus


PRIMEIRA JORNADA


EM 8 DE NISAN


PRIMEIRA JORNADA


EM 8 DE NISAN

A aldeia de Bethania fica a hora e meia de Jerusalem. Sobre a collina em
que ella assenta ergue-se, modesta e affastada das outras habitaes, a
casa de Simo, o _Leproso_. Tem esta a forma tipica de uma piramide
rectangular truncada, e na parte superior um terrao onde florescem nos
canteiros roseiras de Jerich.

Em frente da porta, ladeada de duas janellas a deseguaes alturas, um
pequeno largo coberto pela enorme abobada de verdura de grossas arvores
seculares, coevas talvez dos ultimos grandes profetas.

A agua de uma fonte visinha, jorrando natural da fenda de um rochedo, cae
sobre uma pia ampla, de architectura romana, espalhando no ambiente notas
cristallinas, e fazendo-nos pensar na Samaritana da lenda...

Um tronco de arvore carcomido pelo tempo e tombado no solo convida ao
descanso e  meditao.

Uma longa estrada, aberta pelo rodar dos carries, vae desde ali serpeando
por entre o matto, ora subindo, ora descendo, em curvas graciosas, at que
chega aos terrenos cultivados onde o trigo verdeja e as papoulas
entreoccultam as suas manchas rubras. Ergue-se ento o Monte das Oliveiras,
de um verde acinzentado; da sua macissa ramagem surgem, majestosos, dois
altissimos cedros antigos como Babylonia, e em volta dos quaes esvoaa um
bando de pombas brancas.

Aquelle monte,  esquerda, rude, penhascoso, de cr turva,  o Monte do
Escandalo; e chama-se Cedron o riosinho que apparece na linha inferior da
encosta, e que, muito calmo e prateado, vae sumir-se alem no Valle de
Josaphat, onde dormem em seus sepulcros caidos as ossadas dos profetas e
patriarchas.

L ao longe, no fundo do quadro e sobre terreno irregular, alonga-se a
cidade de Jerusalem com as suas casarias de configurao muito geometrica,
amontoadas como um forte punhado de dados. Mal se distinguem as ruas
estreitas, com apparencia suja nas velhas cantarias.

A cidade vae n'um plano ascendente, que se quebra para l da encosta:--
ali a antiga Sio do tempo do grande rei David. Mais clara, vem descendo a
cidade nova, terminando junto do Monte Moriah onde, segundo diz a lenda,
Abraho esteve prestes a immolar seu filho Isaac, em sacrificio ao Senhor.
Por isso n'aquelle monte se alevanta, mudo como um misterio, o grande
Templo, a casa do Deus que foi,  e ha-de ser: _Jehovat_. A Torre
Antonia, a um dos angulos do vastissimo quadrado, que fecha o recinto
vedado a profanos,  como uma sentinella de Tiberio, na sua attenta
quietao.

Para alem da cidade, a perder de vista, alonga-se o campo inculto, onde o
carrasco e a urze predominam, e onde raras palmeiras deixam pender suas
folhas esfarrapadas. Pequenos logarejos clareiam aqui e ali; muito nos
longes, divisa-se a collina de Mizpa e a cordilheira de Gabao entestando
no firmamento azul e alegre.

Vae declinando o sol d'uma formosa tarde do comeo da primavera, que
entorna regaos de seiva, de canticos e de cores por sobre todo o
harmonioso quadro. A brisa, ainda morna, traz-nos o aroma dos trigaes, de
mistura com o resinoso do matto, que morenisa a pelle e pe nos labios um
sabor acre. Os rebanhos tilintam vagamente; vo cantando na estrada as
cotovias.


GAMALIEL, que chegou da cidade, arrimado ao seu bordo, as barbas brancas
doiradas pelo sol, dirige-se  casa de Simo, e, clamando:

  Eleazar, meu caro, honrado ebionita,
  Recebe de um amigo a cordeal visita.

ELEAZAR assomou logo a uma das janellas.  um rapaz de vinte e tantos
annos, franzino e melanclico.

  s tu, Gamaliel? Que ida bemfaseja
  Teus passos dirigiu assim, para que eu veja
   porta do modesto e humilde lavrador
  Aquelle que possue o nome de doutor
  Notavel e profundo?

GAMALIEL

                       pobre a moradia,
  Amigo?--No encerra a vil hypocrisia,
  Ornamento dos maus e da nefanda casta,
  Que faz do sacerdocio uma arma. Isto me basta.

ELEAZAR

   que a virtude leva s almas refrigerio
  Tal, como  flr o pranto envolto no misterio;
  Pranto suave, meigo e virginal e ardente,
  Que uma estrella chorou silenciosamente...

GAMALIEL

   que a bondade espalha a sua luz divina
  E pura, como o Sol que a todos illumina...

E baixinho, encostando-se ao peitoril da janella onde Eleazar se
conservou:

  O que tenho a dizer-te  coisa de segredo.
  Escuta-me portanto aqui.

ELEAZAR

                          Porqu? Tens medo
  De que minhas irms...?

GAMALIEL

                          O assumpto  muito grave,
  E receio que a dr ainda mais se crave
  Nas almas feminis do que na tua.

Bem o comprehendeu Eleazar. Eil-o que se retira da janella, e sando de
casa, accode logo ao secreto chamamento.

                                  Amigo,
  Uma nova cruel:--o Mestre...

ELEAZAR, estremecendo

                              Algum perigo
   imminente?

GAMALIEL

              Aquella estupida gentalha
  Ridicula, mesquinha, hipocrita e canalha
  Prepara com misterio o plano vingador,
  E est na posio terrivel do condr,
  Pairando ao ver a presa incauta. A esta hora,
  Em casa de Kaiapha...-- sabbado hoje? Embora!
  --... O Conselho procura, extravasando o fel,
  Garantir-se o poder no povo d'Israel.

ELEAZAR

  Prendendo o Mestre?

GAMALIEL

                      Sim! Razes tem para tudo
  O seu pensar feroz, indmito e agdo!
  Amor divino? Qual! Apenas o receio
  De perder o logar no execravel meio:
  D'um lado, a ambio, por mais que abuse e coma,
  E d'outro o servilismo s leis que vem de Roma!

N'um brusco movimento deixou transparecer todo o rancor que o domina e
que se expande, emfim, n'uma invocao:

  A Virgem de Sio suspira ha muito j!...
  -- terra de Jacob! Heroes de Josaphat!
  Que  feito do vigor da tua fala, Isaas?
  E das lamentaes sinceras, Jeremas?
  Profeta Ezequiel, a tua voz potente
  Jmais ribombar por todo o Oriente,
  Fazendo estremecer o despota cezareo,
  Como o gldio de Deus, terrivel, incendiario,
  Que na vasta amplido a olhar o mundo assma,
  Que sepultou Gomorrha e destruiu Sodma?!

ELEAZAR, com o olhar vago:

  Vergonha! opprobrio!...

GAMALIEL, que enxugra  manga da tunica uma santa lagrima de
enthusiasmo civico:

                          Ai! desde que um idumeu
  Conseguiu transviar o nobre povo, o hebreu,
  E nos hombros depoz o manto purpurino...
  Maldito! que deixaste um rasto viperino,
  Um rasto de peonha! Infame! Rei protervo,
  O teu nome recorda o luto e um acervo
  De horrores!--Certo dia, ousaste no portal
  Da casa do Senhor dar poiso  _immortal_
  Aguia romana!...--Vil, nascido de idumeus,
  O Cezar tambem morre: a aguia eterna  Deus!
  ... Que tristeza, ao pensar n'uma to negra historia!
  --Do nome do tiranno o filho honra a memoria.
  Surge um brado, a Nao protesta, grita, lucta...
  Afinal, para qu? sem foras, dissoluta?...
  --Eu vi por toda a parte erguerem-se madeiros;
  Vi morrerem na cruz milhes de prisioneiros,
  Gritando Jehovat! nas ancias da agonia!
  E ao passo que na morte o hebreu se contorcia,
  E filhas e mulher's davam  luz o pranto,
  O incendio voraz lavrava o Logar Santo!
  --Depois?... Depois mais nada. O Cezar nos esmaga,
  Revolvendo o punhal na apodrecida chaga!
  Seja procurador Coponio, ou seja Marco,
  Ou Rufo, ou Grato, ou Poncio, a nao  um charco
  Onde vivem, sens, as rs do servilismo...
   provincia romana; e viva o cezarismo!

E ri amargamente n'uma cascalhada ironica de velho rabbino, apertando,
convulso, o cajado na mo ossuda onde as veias resaltam.

ELEAZAR, suggestionado pelas palavras do velho:

  No! no! Resurgirs, eleita do Senhor,
  D'esta funda apatha e d'este grande horror!
  Juda, sers livre! Elias no morreu,
  Porque revive n'um que tem o verbo seu,
  E elle ha de trazer a guerra e o exterminio!
  Se  branco o seu vestido, ai! pode ser sanguineo!...
  Abaters o orgulho, o despotismo, a infamia!
  O povo quer vingana atroz: pois bem, derrame-a
  Sem minimo temor da colera dos ceus!

GAMALIEL, n'um claro de esperana:

  J temos o preciso: um _Homem_!

MARIA, que tinha sado de casa e que ouviu as ultimas palavras:

                                 No!--Um _Deus_!

Alta, morena, olhos negros, de languidez oriental. Negras devem ser
tambem as suas tranas occultas a olhares mundanaes. As roupagens
escuras, que lhe descem at aos ps, cem suavemente em prgas regulares
e castas como as de Suzanna. O seu olhar  sempre vago e tranquillo; os
seus gestos sempre em accordo com as serenas emoes da alma.

   bello o teu falar, mas como de cegueira
  Pelo amor patrio ests vencido! De maneira
  Que apenas bastaria um pulso valoroso
  Para despedaar o monstro ambicioso
  De fausto e de poder que se revolve alm,
  N'aquella babylonia? Ento, Jerusalem,
  Movida por um brao, embora resoluto,
  Poderia colher o ambicionado fructo
  Da plena liberdade em meio da revolta?
  --Vae longe, muito longe, o tempo... que no volta!
  A Juda prefre a honra em mil pedaos,
  Cheia de timidez, crusando inerme os braos,
  Inhabil para a lucta e com horror  morte...
  A tribu de Levy, aquella cujo porte,
  Sendo mais senhoril e nobre, inspiraria
  Coragem ao vencido e alguma simpathia
  Ao vencedor, que faz? Conspira contra o povo.
  --Onde encontraste, irmo, o excitante novo,
  Que possa dar alento a quem succumbe exangue,
  Que os nervos fortalea e retempre o sangue?

GAMALIEL

  Ha sempre em casos taes...

ELEAZAR
                            a fora d'um athleta!

MARIA

  Tem muito mais poder o verbo d'um profeta!
  Ha de ser elle, sim! prgando a perfeio
  Das coisas divinaes a toda a multido,
  Que se contorce afflicta em negro paroxismo,
  Descrente de Moyss, propensa ao paganismo.
  Nem ferro, nem madeiro: apenas a palavra,
  Que ao entranhar-se em ns suavemente lavra,
  Pesada, como o arado  terra bemfasejo,
  Subtil, como o poisar castissimo d'um beijo!

GAMALIEL

  E quem te diz que no? Eu julgo indifferente
  Que tenhamos no Mestre aquelle descendente
  Do nome de David ao mundo promettido
  Pelo Senhor. Amal-o  todo o meu sentido.
  Porque bem vejo a fora enorme, o podero
  Que exerce na cidade.  mais que prestado
   Patria um homem tal!

ELEAZAR

                        A sua mo convulsa,
  Brandindo um azorrague, os vendilhes expulsa
  Para longe do sitio s preces consagrado...

MARIA

  E o seu falar murmra s vezes to magoado!...
  --Regenra a mulher atreita s bacchanaes
  E que mercadejava as graas corporaes;
  Ascende at o amor aos pobres, s creanas,
  Aos tristes e aos ns, e d mil esperanas
  N'um reino que elle sabe e que ninguem conhece...

ELEAZAR

  Quando, porem, troveja irado, mais parece
  Que vibra no seu peito a propria voz de Deus!

MARIA
  Oh! sim! que  de temer o divinal prestigio!...

ELEAZAR

  Que deixa em seu caminho um profundo vestigio...

GAMALIEL, ao ouvido de Eleazar, aproveitando o ensejo dado por Maria,
que foi sentar-se junto da fonte:

  Mas o povo nem sempre acceita um bom aviso,
  E Deus pode morrer... quando fr mais preciso.

ELEAZAR, com o intuito de afastar o negro pensamento, que a todos trez
opprime no intimo:

  O Mestre no vir. Alegra-me a certeza
  De que foge ao Conselho a ambicionada preza.
  Comea em breve a Paschoa, e entre os forasteiros
  Ainda no chegou nem um dos companheiros
  Do Mestre.

GAMALIEL

            Vae o Sol no termo da viagem:
  Torno para a cidade.

E novamente em segredo:

                      Eleazar, coragem!
  No teu silencio tens a minha vida e a tua.

ELEAZAR, abeirando-se muito a elle, supplicante:

  Se te constar, porem, que o plano contina
  E mais se desenvolve...

GAMALIEL
                         Hei de dizer-te, amigo.

ELEAZAR, sadando-o:

  Que no te fuja Deus!

GAMALIEL, sadando-o:

                       Fique o Senhor comtigo!

Sada tambem Maria, e, retomando o caminho da cidade, vae-se ao longo da
estrada, um pouco alquebrado, cadenciando os passos pelo bater do bordo
no solo poeirento.

ELEAZAR sentou-se no tronco d'arvore, pensando; e, como respondendo aos
proprios pensamentos:

  Ninguem pode roubal-o  proxima agona.
  Morrer na cidade. A horrivel profecia
  Aponta-lhe, cruel, a inevitavel a sorte...
  Ha muito que de longe anda a espreital-o a morte!


Martha e Simo de Bethania saram de casa. Ella  uma rapariguita de
desoito annos, irrequieta, buliosa, muito infantil; elle, um velho cujo
cabello e barba ha muito branquearam; nas mos o trabalho da lavoura
poz-lhe grossos callos e deformou-lhe os dedos; e no rosto a lpra
deixou-lhe vestigios indeleveis em manchas avermelhadas.

MARTHA

        No que pensa o meu irmo?

ELEAZAR

                                 Em nada penso.

MARTHA

                      Duvido.
        Ha n'esse olhar definido
        Vislumbre d'inquietao.

SIMO

        Se tu pensas na lavoura,
        Fazes mal, que o dia de hoje,
        Emquanto o Sol no nos foge,
        Prohibe que, scismadora,
        A mente se occupe assim
        De coisas que no respeitam
        A Deus.

MARIA, em longa abstraco, junto da fonte, como se ninguem a ouvisse:

                Aquelles que engeitam
        O pensar, mesmo o ruim,
        So como as ondas brutaes,
        Que lanam  rocha dura
        A espuma de cuja alvura
        Ellas so as mes e os paes...

SIMO, chasqueando-a, mas com meiguice:

        Sempre has de ser renitente
        Em respeitar a doutrina
        De Moyss!

MARIA, com amargo sorriso:

                  O que ella ensina
         por vezes incoherente.
        De ouvil-a j estou canada,
        E nem assim me convence.

MARTHA encostada ao hombro do irmo, que se conserva sentado:

        No falas?

SIMO

                  Deixa-o! Que pense,
        Uma vez que isso lhe agrada!

ELEAZAR

        Mas como sois curiosos
        Do que se passa por fra
        De vossas almas!

MARTHA

                        Agora
        Vem discursos lamentosos,
        Recriminaes, aposto!
        Grande mau!

ELEAZAR sorrindo contrafeito:

                   Grande creana!

MARTHA picada no seu amor proprio:

        No te inspiro confiana?

ELEAZAR condescendente:

        Inspiras, sim.

MARTHA

                      Pois no gosto
        De segredos--Que tristeza!...
        No percebo! Porque, em summa,
        No vejo razo nenhuma
        Para tal! No ha riqueza?
        A nossa vida, porem,
         feliz; a privao
        Nunca nos veio affligir,
        Nem ameaa o porvir,
        No  verdade? Simo,
        Este bom velho leal,
        Que tanto e tanto nos ama,
        D-nos meza, casa, cama,
        E conselho paternal;
        Tu retribues a amizade,
        Auxiliando-o na vida.
        Achmos uma guarida
        Nas trevas da orfandade:
        Temos familia! Por isso
        Para ns a vida  clara
        Assim como a luz. A seara
         verdadeiro macisso
        De po; agua na fonte;
        Lenha nas faldas do monte...
        Nada vejo, d'importancia,
        Que no tenhamos. Ento,
        Quero saber o motivo
        Por que ests to pensativo...

E rindo muito:

        E com cara de choro!

ELEAZAR

        E tenho de que sorrir?

MARIA em longa abstrao, como se ninguem a ouvisse:

        Quem pensa  como quem sonha...
        E como a vida  risonha,
        Quando se pode dormir!...

ELEAZAR perseguido pelo olhar inquiridor de Martha:

        A minha alma atribulada
        Profundo misterio aninha...
        S caridosa, irmsinha,
        No me perguntes mais nada!

MARTHA afastando-se logo com muito despeito:

        Ai! no pergunto!

SIMO que de parte estivera rindo dos dois:

                          Uma ida,
        Que talvez seja bem dita:
        Vou fazer uma visita
        Ao Jos d'Arimatha.
        Vem commigo. Pode ser
        Que tenhas n'este passeio
        O prompto e seguro meio
        Da tristeza espairecer.

ELEAZAR

        Dizes bem.

SIMO

                  Acceitas?

ELEAZAR

                           Sim.

SIMO

        Afinal  sempre o velho
        Quem d o melhor conselho!

ELEAZAR s irms:

        Adeus!

E beijando Martha, que o evita d'arremeo:

              Tu foges de mim?
        No vens beijar-me, teimosa!
         ento uma vingana?

MARTHA, deixando explodir o seu despeito:

        So arrufos... de _creana_!

ELEAZAR beijando-a  viva fora:

        So os espinhos da rosa!

Vo-se Eleazar e Simo. Succede grande silencio.


MARTHA foi  beira da estrada e segue-os com o olhar. Depois,
appreensiva, com vago receio:

        Nunca o vi assim como hoje...

MARIA em longa abstraco, como se ninguem a ouvisse:

        Espairecer... Puro engano!
        O pensamento no sae...
         como a sombra que vae
        Correndo atraz de quem foge...

MARTHA que lanou para longe a tristeza, despertada pelo cantar mais
proximo d'uma cotovia.

        Como o tempo est formoso
        E se prepara, amoroso,
        Para a Paschoa d'este anno!

N'uma corrida, eil-a junto da irm que ficra sentada  beira da fonte.
Um beijo resa na face de Maria e logo aos ps d'esta se senta Martha.

        Achamos isto um encanto!
        Como elles acham, porem,
        Que tudo  feio.

MARIA

                        Elles, quem?

MARTHA com o cotovello apoiado no joelho de Maria, o olhar limpido
erguido para o olhar da irm:

        Os Dose, que gostam tanto
        De dizer mal de Jud.
        A Galila! No ha
        Para elles outro mundo!
        Tem sincera affeio,
        Tributam amor profundo
        Ao paiz de Salomo!

MARIA desculpando-os:

        A sua terra natal...
        --Todos dizem que em verdade
         um paiz ideal
        A Galila.

MARTHA

                  Quem ha de
        Duvidar, se elle inspirou
        Os galanteios doirados
        D'aquelles apaixonados...
        --Como elles, ninguem amou!

Depois de alguma hesitao reconstituiu na memoria o cantico, e
recita-o, com um sorriso humido nos labios, em tom plangente, repassado
de languidez. Maria quedou o olhar no fio d'agua, e vae brincando com
elle, deixando-o deslisar por entre os dedos finos e alongados.

         formoso o meu amante,
        Formoso como nenhum,
        E como o cdro elegante...
         formoso o meu amante,
        Formoso como nenhum...

        So de perfumes e odores
        Suas faces purpurinas,
        Dois ramalhetes de flores...
        E suas mos dois primores
        Das pedrarias mais finas.

        O seu corpo deslumbrante
        Do marfim o brilho tem...
        --Eu aqui... Elle distante...
        Onde est o meu amante,
        Filhas de Jerusalem?

Olhando de fito para a irm:

        Esta ida  mesmo linda!

MARIA com frieza, como a da corrente d'agua que entre os seus dedos vae
deslisando:

        Amres...

MARTHA

                  Muito falados!
        Olha que outros bem-amados
        Como estes no houve ainda!
        E quando elle se transporta,
        Descrevendo a sua amante?
        No pode ser mais galante!
        Queres ouvir?

MARIA

                     Que m'importa!...

MARTHA

        s formosa entre as formosas!
        Como tu no ha nenhuma!
        Tens no rosto duas rosas...
        s formosa entre as formosas!
        Como tu no ha nenhuma!

        Duas pombas tens no olhar
        Onde transluz a bondade.
        Os teus cabellos sem par
        Fazem-me sempre lembrar
        As cabrinhas de Galaad...

        Tua bocca  to fagueira!
        Quando sorrs com ternura,
        Julgo vr n'uma ribeira,
        Unidinhas em fileira,
        Ovelhas de casta alvura!

        Oh! que suaves martirios
        Em tuas caricias francas!
        So teus seios--que delirios!
        --Como duas coras brancas
        A pastarem entre os lirios!

Indiscretos ouviram Martha desde o meio da recitao. Claudia e o seu
sequito passavam pela estrada, e a curiosidade fez que a mulher de
Poncio Pilado detivesse os lecticarios com um gesto. Apeou-se da
liteira; sem ser presentida, avanou, cautelosa, e com ella a sua
escrava e confidente Geda.

Os soldados que escoltam a liteira ficaram immoveis; e o sol poente,
avermelhando-lhes as couraas e os capacetes, parece tel-os transformado
em estatuas de sangue. Na mo de um d'elles, que  frente caminhava,
brilha o pilo de oiro, emblema heraldico da casa de Poncio.

Claudia  uma mulher alta e formosa, cujo rosto a idade ainda no
enrugou, mas do qual fugiram as rosadas cres da mocidade, que a pintura
e o artificio em vo tentam simular. Typo de matrona donairosa, fanatica
do deus Phallus, tomando por modelo no amor a divina Julia, consorte de
Tiberio, illustre messallina--_lassata, sed non satiata_. A tunica azul
celeste apertada pelo largo cinto de oiro contorna-lhe a base do tronco
esculptural. Um diadema, egual aos braceletes, que se lhe enroscam na
carne, refulge no ebano de seus cabellos, e d-lhe a majestade olympica
do perfil das medalhas de Agrippina.


CLAUDIA em tom faceto de cortez affeita ao jogo de gracejos nos
triclinios de m nota da velha Roma:

    Muito bem!

Ergueu-se Maria em sobresalto, e, reconhecendo a mulher de Poncio,
dirige-se apressada para casa, levando comsigo a irm; mas  porta
detem-se.

              Que formosa poesia
    Cheia de amor e de melancolia!
        Ha quem diga no Lcio
    Que  impossivel encontrar primores
    Que no sejam de Ovidio nos Amores
        Nos Epodos de Horacio...
    -- que ninguem conhece quanto val'
    A doce poesia oriental!
        --Isso  de Salomo?

MARTHA muito a mdo:

    Senhora...

CLAUDIA

              Pois eu sou to lisongeira,
    Para ouvir-te apeei-me da liteira...
        E foges?--A razo?

E como no colhesse resposta, prosegue sardonicamente:

    Tambem me odeias, tu, gentil creana?
    --Quando ha de fazer-se uma alliana
        Entre Roma e Juda?
    Ganhariamos todos, com certeza:
    Ns, simpathia; vs, delicadeza.
        Darei a Poncio a ida.

Olhando de fito para Maria, que permaneceu immovel com labios contrados
e os punhos cerrados:

    Conheces-me tambem?

MARIA por entre dentes:

                       Perfeitamente.

CLAUDIA

    Se no me engano, a tua alma sente
        Por mim o mesmo affecto...
    Mas que mal vos fiz eu? Por ser casada
    Com Poncio, devo estar acorrentada
        A um odio to directo?

MARIA fitando-a resoluta, mas serena:

     que tu desconheces o rancor
    Que tem toda a Juda ao vencedor!
        Fossem mil as naes
    Cadas sobre ns! Odio profundo
    Teriamos ento a todo o mundo
        E s suas geraes!
    --Ninguem pediu que ouvisses o falar
    Da minha irm. De mais, vindo escutar
        Fizeste muito mal...
    s Claudia; quer dizer: alguma coisa
    Que nos merece tdio, e que repoisa
        Sobre um vil pedestal
    Todo feito de lama e impudicicia!
    Justamente porque s uma patricia
        Deves ter o criterio
    De no brincar co'as cinzas ainda quentes,
    Porque ns detestamos intendentes
        E amantes de Tiberio!

Dois soldados olham rapidos para Claudia e logo n'um movimento impulsivo
de mercenarios servis apoderam-se de Maria, que no resiste. Martha
soltou um grito; succedeu-lhe longo silencio interrompido apenas pelo
murmurio da agua e pelo chro suffocado de Martha, que no desamparou a
irm.

CLAUDIA deixando cair as palavras uma a uma, como gtas de chumbo
derretido:

  Terrivel quando odeio, e meiga quando estimo.
  A todo o sentimento o da maldade encimo,
  Se acaso  minha face o insulto e o desdem
      Me forem arrojados por alguem!
      Uma frase, um olhar--tanto me basta;
  Pois como sou nervosa, em mim logo se engasta,
  Qual sanguineo brilhante, a fbre da matana,
  Dos deuses o prazer dulcissimo: a Vingana!

Mas em rapido movimento, como obedecendo a pensamento occulto, faz
signal aos soldados, que logo abandonam Maria. Depois, com acerado
sorriso de maldade:

  Agradece, mulher, a mim e ao teu Deus
  Esta disposio d'espirito, e os meus
  Bons nervos hoje; e grava, em summa, na memoria
      Que o insulto nem sempre  uma gloria!

MARIA muito vexada pela insultante benevolencia de Claudia:

  Eu no pedi perdo...

CLAUDIA victoriosa pelo effeito que o perdo causou no animo
independente da patriotica filha d'Israel:

                        E quem diz tal, juda?
  Fui eu que perdoei...--Offendes-te?

MARTHA supplicante ao ouvido da irm, que ia responder:

                                      Maria...

CLAUDIA rindo, satisfeita, feliz:

        _Maria_... Nome formoso,
        Que tem um rythmo oleo!
        Merece logar honroso,
        Por Jove, no Capitolio!

E volta para a liteira.

A ESCRAVA GEDA ajudando-a a accomodar-se nas almofadas da liteira:

  Nunca te vi assim...

CLAUDIA

                      Diverte me a bondade,
  s vezes...

O CENTURIO AMPO ao sequito:

             A caminho!

Os lecticarios pem a liteira aos hombros.

CLAUDIA

                         porta da cidade
  Haveremos de estar antes da noite. Anceio
  Por que termine em brve este infeliz passeio,
  Sem novo encontro mau.-- palida juda,
  Pode ser que eu te veja ainda... At um dia
  Tem sade at l, que o ferro vingador
  Detesta a gente magra, e tem maior furor
  Ao trespassar um clo arredondado e terno...

MARIA

  Descansa: no hei de ir incommodar-te ao inferno!

Claudia solta uma gargalhada, correspondida n'um murmurio pela
soldadesca; e Maria, affagando Martha, que no cessou de chorar, leva-a
comsigo para casa.


Apparecem ento os fariseus Benjamim e Josu, cautelosos, o olhar
obliquo circumdando o terreno, como bons espies: concretisao grotesca
da hipocrisia sacerdotal da poca. Mantos negros, andar pausado, mitras
de feitio semelhante  dos outros judeus, mas de maior dimenso. Debaixo
dos braos, os rlos de Escriptura. Compostura beatifica. Benjamim, um
pouco alquebrado, por calculo, parece no querer levantar do cho o
olhar para as coisas superiores ao p da terra; Josu, pelo contrario,
conserva-os erguidos ao ceu como para no os baixar s coisas mundanaes.
Claro  que de quando em quando a compostura perde-se, e os velhacos
manifestam-se.

BENJAMIM

    No ha que duvidar: chegaram todos.

JOSU

    Viste bem, Benjamim? seria engano...

BENJAMIM

    Engano o que? Se affirmo, se at juro
    Ter visto o Mestre e os dose companheiros.
    Tomaram pela horta do Simo,
    E em brve ho de estar n'aquella casa.

E approxima-se da casa do _Leproso_. Detem-se; prestando atteno, ouve
a distancia o murmurio festivo do povo que, sada com _Hossannas!_ a
chegada do Rabbi da Galila.

    Eu no te digo?... O povo j comea
    A correr ao encontro. Dentro em pouco,
    Vae por esta Bethania uma celeuma,
      Que nem no Templo em dia de festejo!
    Eis portanto o momento ambicionado
    De cumprirmos as ordens recebidas...

JOSU, timido, covarde, circumvagando o olhar:

    Mas Benjamim...

BENJAMIM

                    O que ?

JOSU

                            Sinceramente,
    Vou achando pesada esta incumbencia.
     que ns somos dois: elles so tantos!...

BENJAMIM

    Em verdade te digo; principo
    A estar arrependido de indicar-te
    Para meu ajudante n'esta empreza!
    Hanan mandou que fossemos prudentes:
    Devemos ter prudencia. Hanan mandou
    Que tomassemos nota do que vissemos:
    Tudo o que virmos lhe ser contado.
    Hanan mandou que fosse descoberto
    O melhor paradeiro onde, em segredo,
    Se podesse prender o Nazareno,
    Muito em segredo, sim, para evitar
    Protestos e tumultos: pois, meu caro,
    Havemos de encontral-o!

JOSU

                            Ests bem certo?...

BENJAMIM velhacamente, animando-o:

    E no vejo que mal nos ameace.
    O ex-Grande Sacerdote  simplesmente
    Quem se entrega aos revezes d'este jogo.
    Se perde ou ganha, o caso  l com elle;
    E ns de qualquer forma ganharemos
    No s a consciencia de homens probos,
    Leaes respeitadores de Moyss...

JOSU unctuosamente:

    O que  minha alma traz doce conforto...

BENJAMIM

    ... Mas tambem o dinheiro promettido,
    Que no menos conforta as nossas bolsas.

JOSU com desinteresse hypocrita:

  Tens um sistema de encarar a vida!...

BENJAMIM

     foroso que ns nos convenamos
    De que, se os bons principios se defendem,
    Tambem se deve garantir ao corpo
    A delicia das bas digestes...
     custa do dinheiro do Conselho!
    --Ouve portanto o que  mister cumprir:
    Tu vaes para a cidade; a brve trecho
    Procurars o ex-Sacerdote... E ento
    Dir-lhe-s que o profeta e os companheiros
    Chegaram a Bethania era sol-posto;
    Que decerto aqui ficam toda a noite,
    E que eu no deixarei de estar lerta.

JOSU

    Perfeitamente.

BENJAMIM

                  Espra! De manh,
    Logo que vejas os clares do dia,
    Has de esperar por mim...

JOSU

                             Que sitio indicas?

BENJAMIM

    No distante da entrada principal
    Do Templo. Dado o caso que eu no chegue,
    Commigo has de encontrar-te...

JOSU

                                  E onde?

BENJAMIM

                                         Aqui.

JOSU

    Muito bem!

BENJAMIM

              Percebeste?

JOSU

                          Que pergunta!
    Como quem desenrola o Pentateuco
    E passa a vista pelo que elle diz.
    --A proposito: guarda-me estes rlos.

BENJAMIM acceitando-os e juntando-os aos seus:

    Tens razo. As Sagradas Escripturas
    Iriam pezar muito no caminho.
    Mas deves ir com um, pois  preciso
    Para te dar o aspecto d'homem srio.

JOSU

    Ao romper da manh...

BENJAMIM

                         Vae-te! Vem gente!

E tomam para lados oppostos, revestidos de sua compostura habitual.


Quatro homens assomaram  porta do _Leproso_; so Eleazar acompanhado de
Joo, Simo Pedra e Matheus.

Joo  um bello tipo da raa judaica do norte. Alto, robusto, espadado
e ainda imberbe. Os louros cabellos de genuino galileu caem-lhe sobre os
hombros em fartos anneis. Olhar azul, meigo; gesto largo e suave, na
quietao d'alma; mas desordenado e brusco, se a colera o determina. Voz
intensa, possante, cadenciada, de homem habituado a falar ao ar livre,
na grande extenso da superficie das aguas.

Mais velho do que elle, Simo Pedra deixa transparecer em toda a sua
figura suavidade extranha em creatura humana. De Capharnaum, galileu
tambem e tambem robusto homem do mar, o seu rosto  circumdado pelos
annelados cabellos e pela barba comprida, bipartida, e to loura, que
mais parece branca. Olhar penetrante, mas bondoso e ligeiramente
accentuado por um vinco entre os supercilios, o que torna a sua
fisionomia um pouco severa. Gesto sempre sereno; voz protectora,
paternal.

Matheus  mais velho do que Joo e mais novo do que Simo Pedra. Baixo,
de forte musculatura, barba ruiva bipartida; olhos medos e muito vivos
de antigo publicano. Todavia o conjuncto da fisionomia  attrahente por
uma expresso de rude franqueza que n'elle predomina. Voz quasi
homofona, de homem metdico, que raras vezes se enthusiasma ou
sensibilisa, e que tem da vida uma noo segura.

Os trez trazem na cabea turbante  moda egypcia, com as pontas cadas
ao longo das costas. Os mantos e as tunicas empoeirados mostram que foi
grande o percurso que fizeram os romeiros.

JOO resfolegando:

  Amigos, n'este sitio ha fresco e liberdade!

MATHEUS

  E ficam bem  vista os muros da cidade...
  No sei o que adivinho!...

JOO

                            Ao largo esse receio!
  Muito mais me entristece a nuvem m que veio
  Escurecer ao Mestre o doce olhar...

SIMO PEDRA, com o brao direito sobre o hombro de Eleazar, n'uma
intimidade muito amiga:

                                      Meu caro,
  Que justissimo orgulho eu tenho, se comparo
  O tempo que passou a este em que hoje estamos:
  O verbo illuminando a treva e os recamos
  Do manto a que se abriga uma ambio enorme;
  As contorses finaes do animal disforme
  Que viu a luz no Horeb ao sopro de Moyss,
  Rojando-se afinal vencido a nossos ps!

ELEAZAR descrente, mas muito timido, querendo occultar o que lhe vae
n'alma:

  E julgas que no tarda em despontar o dia
  To desejado?

SIMO PEDRA

                Eu?! Pois quem duvidara?
  --A doutrina do Mestre  como o gro de trigo,
  Que o lavrador dispe no seu terreno amigo.
  Que mais cuidados tem o bom do lavrador?
  No tem nem um cuidado. A terra, em seu labor,
  Se encarrega de dar ao germe, ao simples gro,
  A fora e o poder da multiplicao.
  Se o lavrador depois no campo seu repra
  E v brilhar ao sol a refulgente sera,
  Exclama, commovido: Abenoada terra,
  Que assim tanta bondade e tanto amor encerra!

ELEAZAR, quasi a medo:

  Mas se acaso acontece o lavrador morrer...?

SIMO PEDRA

  Quem passa pela estrada e attenta no crescer
  Do risonho trigal, diz logo, reverente:
  Bemdito quem dispoz na terra esta semente!

ELEAZAR, depois de grande hesitao:

  Escuta, Simo Pedra: s furias do Conselho
  No curvareis, talvez, humildes, o joelho?...

SIMO PEDRA

  Nunca!

ELEAZAR

        Nem fugireis?

JOO que se erguera, rapido e violento:

                     Nenhum de ns!

Judas sae de casa de Simo e vae sentar-se, pensativo, junto da fonte.
Bem o viu Joo: mas, dissimulando, contina ainda mais violento, e,
dando s palavras uma inteno reservada:

                                    Nenhum...
  Dos que tem do Mestre a patria por commum!
  Posso dizer bem alto, amigo: os seus patricios
  Nunca ho de vacilar perante os sacrificios.
  Se acaso o Mestre fr levado de vencida,
  Qualquer de ns dar por elle a propria vida!
  Quem ha de recusar-se a tal? Filippe, Andr,
  Thaddeu, Nathaniel, Simo, Matheus, Thom,
  Iago, o publicano, ou Simo Pedra?--No!
  Julga-me alguem covarde, a mim, ou a meu irmo?
  --Vs pois, Eleazar, qual seja o nosso intento.

JUDAS

  No falaste de mim...

JOO muito secco e terminante:

                       Por mro esquecimento.

E vae para junto de Matheus, como para evitar maior explicao.

ELEAZAR ao ouvido de Simo Pedra:

  Pareceu-me o contrario...

SIMO PEDRA triste e confidencial:

                            sempre assim co'o Judas...

Judas tem quando muito trinta e dois annos.  um homem em toda a fora
da vida, conformao mscula, de virilidade quasi selvagem. Estatura
regular. Elle proprio vae dizer-nos d'onde , e qual a cr dos seus
cabellos naturalmente revoltos, curtos e encaracolados. Barba cerrada;
plle morena. Olhar profundo e d'infinita melancolia, que de frma
notavel contrasta da rudeza do resto da figura. Os dentes alvos brilham
entre os labios vermelhos; e quando irado, o labio inferior que 
grosso, sensual, estremece-lhe como o d'um touro em circo romano.  uma
d'essas creaturas que no sabemos se devam inspirar-nos simpathia, se
conservar no nosso espirito a ida de repulso que a principio nos
dispertaram. Gestos angulosos e rigidos; mos, braos e peito
cabelludos; andar pesado. Voz de tonalidades irregulares; extremamente
meiga e cariciosa na dr, extremamente vibrante, herculea na clera.

JUDAS amarga, mas serenamente, depois de ter meditado por algum tempo:

  Que mal te fiz, Joo? Chego a pensar que estudas
  As tuas aggresses quelle que te prsa!
  Eu tenho uma alma branca, e a consciencia illsa.
  De injurias contra mim tu sempre ests faminto!
  Que mal te fiz, Joo? Tu pensas que no sinto...
  (E cr que muita vez isto me vem  ida)
  ... Ter nascido em Jud e no na Galila?
  Sou culpado de qu? De ter a plle escura?
  De ter cabello negro? Isto  para censura?

MATHEUS conciliadr:

  Mas se elle j te disse...

JUDAS

                            E eu digo que, em verdade,
  Prefiro lealmente o odio a esta _amizade_!

E volta aos seus pensamentos dominantes.

MARTHA, assomando a uma das janellas, n'uma risadinha infantil:

        Vinde ceiar, que so horas.
        No quereis?

SIMO PEDRA, aproveitando a inconsciente interveno de Martha

                    Nem se duvda!

MARTHA

        Pois deixae-vos de demoras,
        Alis vae-se a comida!
        --Uma ceia improvisada
        Mas nem por isso mesquinha,
        Podeis crr.

SIMO PEDRA

                    A caminhada
        Que fizemos foi damninha...
        Por aguar o appetite.

MARTHA intimativamente, retirando-se da janella:

        Dize que venham depressa,
        Porque, faltando ao convite,
        Sem vs a ceia comea!

JOO a Matheus e a Eleazar, continuando a conversa interrompida e n'um
tom de voz inaudivel para Judas:

  Dizeis que elle  honesto e probo e crente, em summa
  Que para ser dos bons no falta a coisa alguma...
  Talvez que seja assim como dizeis. No entanto,
  Se para o seu olhar o meu olhar levanto...
  -- tectrico e sombrio aquelle olhar revsso!
  Pensando sempre! Em qu?--Amigos, bem conheo
  Que pode ser fatal este misterio vivo!
  Qualquer de ns  meigo, alegre e expansivo...
  --Quizeram confiar-lhe a bolsa do dinheiro:
  No procederam bem.

SIMO PEDRA que se reunira aos tres, carregando o semblante:

                      Porqu?

JOO em tom leviano:

                              O embusteiro
  Apenas retribue a prova de amizade
  Gastando em seu proveito o que  da sociedade.

SIMO PEDRA, que no poude reprimir um sobresalto, tornando-se ainda
mais severo:

  J no te quero ouvir nem mais uma palavra!
  No teu peito leal um sentimento lavra
  Improprio de quem s! L dentro direi tudo.
  Depois do que te ouvi, no posso ficar mudo!

ELEAZAR conciliador:

  Ento!

MATHEUS detendo Simo Pedra, que ia para entrar em casa do _Leproso_:

        Menos calor!

JOO repso, meigo, supplicante:

                    Oh! cala-te, por Deus!
  No vs exacerbar ao nosso Mestre os seus
  Desgostos; porque, emfim, sou muito leviano...
  Proveio o que me ouviste apenas de um engano...
  Simo Pedra, desculpa!

 supplica de Joo succede algum silencio: todos tem o olhar em Simo
Pedra, aguardando o desenlace.

SIMO PEDRA sorrindo, afinal, benevolo:

                        Eu sei que s razoavel.
  J tinha como certa a confisso louvavel,
  Que logo surgiria  simples ameaa...

JOO abraando-o effusivamente:

  Devemos collocar ao longe o que a desgraa
  Procura intrometter no nosso corao!

MATHEUS

  O Mestre  que diz bem: nasceste d'um trovo,
  Mas tens dentro do peito os risos da bonana!

SIMO PEDRA

  No voltes a magoal-o.

JOO

                        Hei de mudar, descansa.

Encaminha-se para casa, mas

SIMO PEDRA detendo-o e apontando para Judas, que nada ouviu do que se
passra:

  E fala-lhe, Joo: no vs como ficou?

JOO com bonhoma:

  Judas, deixa-te d'isso! Anda d'ahi!

JUDAS olhando lealmente para elle e com um sorriso de reconciliado:

                                      Eu vou.


Mas fica, e s os quatro entram para casa.

Judas est agora ssinho, sempre sentado junto da fonte, novamente
immerso nas suas meditaes. Anoiteceu. O luar vem rompendo, illuminando
toda a pasagem e coando-se pelas folhas do arvoredo. Uma paz enorme
reina em todo o quadro. Calaram-se as cotovias, calaram-se os rebanhos;
apenas os ralos se fazem ouvir, estridulos. Muito distante, porm,
distinguem-se os sons mal definidos de uma melodia: so os ultimos
romeiros, que veem para a festa da Paschoa tangendo psalterio, frauta e
pandeiro.  um himno melanclico, dolente, ao pausado compasso da
andadura. Pouco a pouco os sons definem-se, approximam-se. A aragem
fresca e perfumada baloua docemente o arvoredo.

JUDAS solta um suspiro, e erguendo o olhar, expandindo a sua alma:

    Porque motivo,  Deus, esta injustia?
    Desegualdade sem razo, medonha!
    Uma alma pura, virginal, submissa;
    Outra, vertendo em lagrimas peonha!
    --Ah! fatal e profundo sentimento,
    Que tens do abismo a attraco e o horror!
    s para mim dulcissimo tormento,
    E sendo um grande amor... no s amor!
    Um desejo voraz, ardente, furia,
    Que a fora da vontade no arranca!
    Tem sonhos de volupia, de luxuria,
    Com as palpitaes da carne branca!
    Transforma o ideal em verdadeiro
    E a minha alma timida conduz
    A seductor e vago paradeiro,
    Onde eu estreito um clo e uns braos ns!
    No morrers? no has de ter um fim,
     tenebrosa e infernal tortura,
    Que pareces viver dentro de mim
    A construir a minha sepultura?
    --Quem te ordena que leves a maldade
    A fazer-me avanar para o impossivel?
    Porque segrdas tu que a castidade
    Nem sempre pode ser irresistivel
    s seduces frenticas do amor?
    E porque vens mostrar-me, sensual,
    Certa nudez, e em todo o seu fulgor
    Um monte de oiro junto d'um punhal?
    --Como s infame! Sim! Com violencia
    Levas minh'alma fraca aos empurres.
    E, como a Daniel, a Consciencia
    Queres deitar  cova dos lees!
    --Oh! nunca! Podes crr que te resisto!
    Hei de salvar minh'alma moribunda,
    Arrancar-te de mim, e, depois d'isto,
    Escarrar-te no corpo, besta immunda!


E ergue-se de subito; mas o seu olhar detem-se, vendo no limiar da porta
o vulto de Maria destacando-se no fundo de luz amarelada que vem do
interior da casa.

Maria, ao reconhecer Judas, parou hesitante. Sobre o quadril esquerdo
traz apoiada uma amphora de grs. Tem uns momentos d'indeciso. Alguma
coisa extraordinaria occulta-se n'aquellas duas almas... Depois, Maria,
como animada de forte resoluo, encaminha-se para a fonte, passando
pela frente de Judas, natural e serena. Elle seguiu-a com o olhar e
quedou-se a contemplal-a. Maria pe a amphora sob a corrente d'agua, e
espera que encha.

Os romeiros aproximam-se com o seu tanger plangente.

Dir-se-a que uma lagrima resvalou no rosto de Judas, cujo olhar est
agora fito no cho. Mas, por fim, com expresso de resignado, eil-o que
se dirige para casa, onde entra a passos lentos.

A amphora transborda. Maria pe-na sobre o quadril e d alguns passos.
Parou: negro pensamento lhe atravessa o espirito; olha para as bandas da
cidade com expresso de temor, como se d'ali podesse vir desgraa para
algum ente querido... Entra depois em casa, serenamente, fechando a
porta.

Os romeiros, cinco apenas, passam na estrada, tangendo os seus
instrumentos, e vo-se afastando, afastando gradualmente, os sons
sumindo-se pouco a pouco na distancia. A lua sobe com lentido; paira em
todo o quadro a quietao muda da Natureza adormecida...

Mas um vulto suspeito e cauteloso deslisa na sombra, e dir-se-a que
esse vulto  Benjamim.




SEGUNDA JORNADA

EM 9 DE _NISAN_




SEGUNDA JORNADA

EM 9 DE _NISAN_


Estamos em casa de Simo de Bethania.

A casa de entrada  ampla. N'uma das paredes abrem-se as duas janellas
tendo ao centro a porta; por ellas vemos o aprazivel sitio j nosso
conhecido e a fonte d'onde a agua dimana. Na parede, que nos fica 
direita, outra janella olha para Jerusalem e para a estrada que  cidade
conduz; na da esquerda, pequena porta com trez degraus d communicao
para o interior.

Em volta da casa, a todo o comprimento das paredes, largo e baixo poial,
onde existem em descuidosa promiscuidade varios utensilios da vida
domestica, pratos, amphoras, onde o estilo ainda egypcio se revela;
pequenos copos de barro pintalgados, almofadas de velho tecido da Syria,
pedaos d'esteira de junco do Jordo. No distante da janella fronteira
 cidade, pequena meza redonda cercada de camilhas denunca tambem a
influencia do triclinio nos costumes da Juda.

A lampada de cobre, que do tecto pende, tem ainda nos seus quatro bicos
os morres que a apagada luz na vespera deixara.  dia claro,
festivamente bello; o sol dardeja e as cigarras vibram.

No triclinio trez homens esto deitados: Simo Pedra, Matheus e o
_Leproso_. Comem vagarosamente restos de legumes e peixe secco
temperados com oleo de oliveira doce, de que estivera cheio e amplo
graal collocado no centro da meza. Duas infusas junto de Simo; pedaos
de po levedo em frente de cada commensal.

No distante da porta, Judas est sentado no poial, as pernas cruzadas
sob a tunica, e tendo nos joelhos um grande rlo aberto onde l attento
as Sagradas Escripturas.

Joo, no limiar da porta, sem manto, a tunica  cintura aconchegada por
uma velha corda de linho que foi branco, braos cruzados,--medita e
lana de quando em quando olhares furtivos e penetrantes, que prescrutam
Judas.

MATHEUS

  De ha muito que no como, e sem lisonja o digo,
  Um po com tal sabor. Que saboroso trigo!
  No achas?

SIMO PEDRA

            Fabricado em casa do Simo...

SIMO

  Obrigado. Outro copo?

SIMO PEDRA

                        O vinho  de Ascalo.
  Conhece-se a distancia apenas pelo aroma.

SIMO

  Continuam a dar-lhe enorme apreo em Roma
  Para onde vo toneis sobre toneis!

MATHEUS que n'um movimento de cabea concordra e que bebera depois
d'aspirar o bom perfume:

                                    Pudera!
  O amor entre os pagos  embriaguez prospra.

SIMO apresentando outra infusa:

  Temos agora aqui magnifica cerveja.

SIMO PEDRA

  De cevada?

SIMO

            No .

MATHEUS

                   De peros?

SIMO

                            De cereja
  Cultivada em Ram.

Com sorriso amigo, Simo Pedra e Matheus estendem os copos para Simo
que n'elles verte o nectar rubro e espumante. Cheio o seu, bebem os trez
em silencio e com recolhimento.

SIMO PEDRA pousando o copo onde o olhar pensativo est fixando:

                    Olhae como  profundo
  Este segredo!

MATHEUS

                Qual?

SIMO PEDRA

                      Por um processo immundo,
  Pela fermentao, consegue-se tirar
  Da materia um licor to grato ao paladar.

JOO que parecia estranho a tudo, fala emfim, com o olhar cravado em
Judas, que contina lendo:

  No acontece o mesmo a tudo que fermenta.
  Ha certas podrides que geram peonhenta
  Bebida a que nem Deus o rude effeito acalma.
  Entrando pela vista,  digirida na alma!
  E sinto que n'esta hora a dr que me aniquila
  Provem d'esse veneno horrivel que distila
  Muito perto de mim com lugubre misterio.
  Inutil procurar um doce refrigerio,
  Por que elle  semelhante  nodoa, que onde cae
  Arredonda-se, alastra, afunda-se e no sae!

Judas ergue para elle o olhar inquiridor; mas Joo j se retirou para
alem da porta e passeia em frente d'ella como para espairecer os negros
pensamentos.

Judas voltou  leitura sempre silencioso.

SIMO quasi em segredo aos seus dois commensaes:

  Nunca ouvi tal falar da bca do Joo.

SIMO PEDRA tristemente:

  E o caso  que tambem comeo a achar razo
  A tudo que elle diz.

Abandonam o triclinio reunindo-se junto da proxima janella, onde
conversam em voz baixa sem que Judas possa ouvil-os.

MATHEUS

                      O Judas, francamente,
  No que hontem se passou, deu prova de demente,
  Ou de infiel ao Mestre e cinico impostor!

SIMO

  Hontem?

MATHEUS

          noite.

SIMO

                  O qu? Dizei-me, por favor.
  No sei do que falaes.

MATHEUS

                        Passou-se tudo aqui.
  Durante a ceia. No ouviste?

SIMO

                              No; sahi,
  Mas foi por pouco tempo.

SIMO PEDRA muito confidencial:

                          Ento eis o motivo...
  --Durante toda a noite esteve pensativo
  E por mais d'uma vez fugiu-nos  conversa
  Com palavras banaes e frias. To submersa
  Tinha em meditaes a alma, que ninguem
  Deixou de perceber...

SIMO

                        Percebi eu tambem
  Que, muito mais que outr'ora, havia no seu rosto
  A fiel expresso d'um intimo desgosto.

SIMO PEDRA

  Maria, aquella honesta e ba rapariga,
  Desejando seguir a usana muito antiga
  No povo do Senhor, a de render um preito
  De sincera amizade e natural respeito
  Ao viajante illustre a quem se d guarida,
  Abeirou-se da mesa, e, muito commovida,
  Derramou sobre o Mestre um perfumado unguento
  De nardo puro. Ento, infame sentimento
  De Judas se apodra. Em vez de prazenteiro
  E alegre como ns, aquelle companheiro
  Reputado fiel, s tem uma censura
  Para galardoar a prova de ternura:
  --Melhor fra, elle diz, que esse custoso nardo
  Se tivesse vendido. Eu, que o dinheiro guardo,
  Saberia guardar tambem zelosamente
  A importancia da venda a todos pertencente,
  Entregando-a depois em meu e vosso nome
  quelles que teem frio e quelles que teem fome.

SIMO como assombrado:

  Mas isso foi um insulto! E o mestre?

SIMO PEDRA

                                      Respondeu
  Brandamente, como  velho costume seu.

SIMO

  Nem siquer suspeitaes a causa?

MATHEUS

                                Tarde ou cedo,
  Alguem desvendar por certo este segredo.

E vo-se os trez para alem da porta, onde ficam ainda conversando,
encaminhando-se por fim para mais distante.

JOO tinha voltado, e encostra-se a uma das camilhas, observando sempre
Judas. Como no possa conter o que sente em si, aproveita o ensejo de
estar a ss com elle para expandir-se. Comea, porem, em tom sereno,
como procurando dominar-se:

  O que ests lendo? O assumpto  grave, ao que supponho.
  Reparo em que lhe ds toda a atteno.

JUDAS

                                        Medonho!
  --A infamia de Cam.

JOO

                       proveitoso, e muito!
  Feliz coincidencia! E eu que tinha o intuito,
  No que inda ha pouco ouviste em frase rude e ch,
  De falar d'esse crime o qual desde manh
  Tanto me preoccupa.

Muito ironico:

                       tua consciencia
  No pode causar damno esta coincidencia...
  s to sincero, s to leal e virtuoso!...
  --Mas devo confessar-te...

JUDAS sereno e sempre sentado:

                            O qu?

JOO

                                  Que estou ancioso
  De ha muito por que tu expliques o motivo,
  Que te obrigou a ser cruel e offensivo
  Para quem te consagra uma affeio fraterna.

Exaltando-se pouco a pouco, mau grado seu:

  O que possues em ti, Judas, que assim governa
  O teu entendimento?  sempre em vo que eu scismo
  No misterio que abriu na tua frente um abismo
  Cercado de fataes e ns despenhadeiros,
  Affastando-te assim dos nossos companheiros,
  Sem que nenhum pezar l dentro te remorda.

E indicando a corda com que prende a tunica  cintura:

  Somos na unio eguaes a esta corda,
  Que as estrigas de linho unidas fortemente
  Fizeram to subtil, mas que  to resistente.
  Na slida affeio, unificados, somos
  Assim como n'um fructo os solidarios gommos.
  --Desfia-se, porem, a corda, ao que parece;
  E julgo ver no fructo um gommo que apodrece...

JUDAS com affectada bonhoma:

  Chimras, illuses...

JOO

                        Talvez.--Mas quando penso
  Que o teu profundo mal pode tornar immenso
  O crime, e que ser depois intempestivo
  O arrependimento... Em summa, no me esquivo
  A dizer-te o que tenho a corroer-me a entranha:
  Nunca simpathisei comtigo; no se amanha
  Com a tua frieza a ardencia do meu peito.
   por isto que eu sou dos Dse o mais affeito
  A observar-te.

JUDAS

                A mim?!

JOO

                        E sabes o que vejo?
  Que tens uma alma rude e instincto malfasejo!

JUDAS erguendo-se, vagaroso, com o rlo nas mos, fingindo indifferena:

  Chimras, illuses...

JOO

                        Talvez.--Mas quem nasceu,
  Tendo as ondas por bero, e a cupula do ceu
  Por vasto cortinado; aquelle que na infancia
  Aprendeu a olhar com summa repugnancia
  Para tudo o que seja immundo, vil, terrestre,
  Muito melhor que tu ha de entender o Mestre.
  No podem comprehendel-o os rudes coraes
  Selvagens como o teu!

JUDAS

                        Chimras, illuses...

JOO

  No podes comprehendel-o, e apezar d'isto queres
  Viver junto de ns!... s bolsas esmoleres
  Supplcas com aspecto humilde uma parcella
  P'ra o Mestre!--Na verdade,  preciosa e bella
  Tanta dedicao! Provoca o elogo!
  --Ah! julgas que no sinto s vezes, quando espo
  O teu olhar matreiro, o brilho da avareza
  A dar-lhe um tom sinistro?--Odeias a pobreza!
  Ambicioso e fraco, andas comnosco apenas
  Como atraz do rebanho os lobos e as hienas!

JUDAS avanando para elle, irrompe finalmente com um rugido abafado, o
olhar ameaador:

  Joo!

JOO cruza os braos e sereno:

        Podes bater, amigo! Por que esperas?

Judas, arrependido do seu primeiro movimento, affastou-se rapido. E
Joo, agora ainda mais excitado:

  E chamas illuses! e vens chamar chimras
  Ao que  verdade na e positiva?!--Agora
  Que a todos cumpre ter mais fora do que outr'ora;
  No actual momento em que at eu vaclo,
  Presentindo que no poder ser tranquillo
  O futuro do Mestre e de ns todos, mudas
  Em odio declarado essa frieza, Judas?!
  Que mal te fez, que affronta, elle, que  to bondoso?
  Confessa que proveito, ou que terrivel goso
  Encontras n'essa infamia abjecta!

Desesperado pela indifferena apparente de Judas:

                                    Que supplicio!
  No poder arrancar-te ao menos um indicio!
  No poder descobrir a causa que assim lva
  O teu cerebro audaz a trabalhar na trva!
  Ah! no poder, depois do que disseste aqui,
  Rachar-te o craneo ao meio, e entrar dentro de ti!

E senta-se, febril, n'uma das camilhas.

JUDAS, que em silencio estivera contorcendo as mos nervosamente,
diz-lhe emfim com muita irona:

  Est bem! muito bem! Ao menos, esperava
  Que soubesses deter a incandescente lava,
  Que todo me queimou, transformando em carvo
  A minha consciencia... embora de _ladro_.

Resoluto, firme, altivo:

  Vou deixar-vos! No sei qual seja o meu destino;
  Mas isso que te importa? Um ser to viperino,
  Como eu, s tem logar no meio da ral,
  E quando estorva o passo, affasta-se co'o p!

JOO repso, olha para elle bondosamente e com um sorriso amigo:

  Acalma a excitao, Judas. O principal
  Resume-se, ao presente, em confessares qual
  A origem do teu odio.  isto o que eu te peo,
   isto o que eu desejo.

JUDAS n'um brusco impulso de independencia:

                        Isso  que no! Confesso
   minha consciencia o que me vae no peito!
  Arrancar-me um segredo? E julgas ter direito
  De desvendar em mim reconditos misterios?
  Acalmo a excitao, mas guarda os vituperios!
  --Pediste por acaso ao mar em que nasceste
  Que descobrisse o leito? Alguma vez desceste
  A espreitar-lhe a vida, a revolver-lhe o fundo?
  Pois o meu corao como elle  to profundo,
  Que se alguem pretendesse abrir uma passagem,
  Teria de morrer submerso na voragem!

Joo avanou para elle com expresso conciliadora; Judas, porem,
detem-no com um gesto. Depois, parecendo sincero, mas occultando as suas
verdadeiras intenes:

  No me perguntes mais. Ao peso da injustia
  Conseguirei vergar esta alma to submissa.
  Chimras, illuses condemnam-me implacaveis...
  Judas, vae reunir-te quelles miseraveis,
  Que vagueiam, sem rumo, e que andam foragidos,
  Erguendo para os ceus o olhar e os gemidos...
  Depois quando vier o derradeiro instante,
  Desamparado, n, febril, agonisante,
  Revolvendo no p as tuas mos afflictas,
  Em vez de maldies, tem palavras bemditas,
  Para quem desprezou teu pobre corao,
  Deixando-o succumbir como se fosse um co!
  --Adeus e para sempre.

Com ironia muito concentrada, j no limiar da porta:

                        Acceita em pensamento
  O que d'aqui te envio: em to cruel momento,
  Abraar-te e beijar-te  todo o meu desejo
  Sincero. Para qu? pois de que serve um beijo
  Dado por mim? Demais, meu hlito enxovalha!
  --Adeus, amigo. Adeus... Adeus, Joo.

E por entre dentes, inaudivel e rancoroso, sando a porta:

                                        Canalha!

JOO ficou meditando, e depois generosamente, como falando  sua propria
consciencia:

  Oh! fui desapiedado! A sua voz tornou-se
  To lacrimosa e humilde!  mui de crr que eu fosse
  Pedir ao exagero o auxilio necessario
  Para augmentar de vulto o crime involuntario,
  Ou a leviandade alheia  malvadez.
  Pobre Judas! E vae fugir de ns! Talvez
  Arrastar pelo mundo uma existencia nua
  De affectos, desgraada... E no por culpa sua...

 porta de casa appareceram Eleazar, Simo Pedra, Matheus e Simo de
Bethania.

ELEAZAR indicando Joo aos companheiros:

    Eil-o aqui est! E ns  tua espera!

SIMO PEDRA

    So horas de partir para a cidade.

JOO cercado pelos amigos e j esquecido do que se passou, todo o seu
pensamento entregue ao Mestre:

    No deve ser pequena a caravana!

MATHEUS

    Junto do Mestre, o povo delibera
    Acompanhal-o.

SIMO PEDRA

                  O que  grande imprudencia!

JOO

    Grande imprudencia?!

SIMO PEDRA

                         Os nossos companheiros
    Em vo procuram com docilidade
    Suster o passo  gente leviana...

JOO

    E porqu? No so elles verdadeiros
    Defensores do Mestre?

SIMO PEDRA

                         Mas reflecte...

JOO

    O povo quer seguir-nos? Pois que venha!

SIMO PEDRA

    Mas pode provocar algum tumulto.
     preciso que a dentro da muralha
    Evitemos qualquer indisciplina.

JOO

    Tu que dizes? Que pensamento occulto
    Encerram taes palavras? Ser crivel
    Que te arreceies da imbecil gentalha,
    Que anda a rosnar as suas ameaas
    Contra a fora que temos, invencivel,
    Justiceira e tremenda?!

SIMO PEDRA

                            E porque no?
    Onde possues algemas e mordaas
    Para conter as furias imminentes?
    Pode acaso fugir-se a uma traio?
    Reflecte bem: devemos ser prudentes,
    Evitando que Hanan tenha pretexto
    Para exercer emfim uma vingana,
    Roubando ao Mestre a preciosa vida.

JOO, animando-se, cheio de puro enthusiasmo messianico:

    No tens portanto uma unica esperana
    Em ver surgir a aurora promettida?
    --Enganas-te! Abrigae-vos sob o manto
    Do Profeta, que vamos afinal
    Assistir ao enorme vendaval,
    Que ha de causar a todo o mundo espanto!
    Da Lei no ficar nem uma linha,
    E as pedras do Templo ho de cahir!
    Eu antevejo, amigos, o porvir,
    Que de instante a instante se avisinha!
    Como ces a ulular, de toda a parte
    Ho de sar as abominaes!
    Entre espadas de fogo e maldies,
    Vae tremular um slido estandarte!
    Ho de as nuvens rasgar-se! A voz de Deus
    Ribombar como um trovo gigante,
    E o vento ha de levar para distante,
    Onde no haja terra, mar, ou ceus,
    As ultimas parcellas do monturo
    A que chamamos hoje humanidade!
    lerta! vae rugir a tempestade!
    --Confia em Deus! Espera no futuro!

Voltando-se e vendo Gamaliel, no pode reprimir a sua surpreza:

  Gamaliel?!

GAMALIEL que pouco antes chegra da cidade, ouviu todo o falar de Joo.
Traz o rosto abatido, o olhar cavo; dir-se-a portador de uma nova
terrivel.

            Eu proprio. E vejo que cheguei
  A tempo de lembrar que existe de uma Lei
  A rispida crueza, a inquebrantavel fora,
  E que por mais que a tua exaltao retora
  O positivo, elle ha de emfim prevalecer!
  Vs tendes a palavra. Hanan tem o poder.
  --O perigo  enorme.

Todos rodearam Gamaliel, attentos, em grande anciedade:

                        Ouvide: Nicodemo,
  Um homem de honradez e que respeita em estremo
  O vosso Mestre, no me occulta o que se passa
  A dentro do Conselho. Evite-se a desgraa,
  Fazendo-se abortar o plano vingador!

TODOS em sobresalto:

  Um plano?!

JOO

            Como?!

SIMO PEDRA

                  Dize!

MATHEUS

                         de grande valor
  O que dissres.

JOO

                 Sim! deves dizer-nos tudo!

E acercam-se d'elle ainda mais:

GAMALIEL pausada e custosamente:

  Hanan possue no genro o seu melhor escudo.
  Se transformou Kaapha em Grande Sacerdote,
  Foi para ter alguem que cegamente vote
  Na sua opinio. Mais do que o genro, alcana
  Dos homens do Conselho estima e confiana.

E custando-lhe a despegar dos labios as palavras:

  Eis por que hontem  noite, e em sesso secreta,
  Por elles foi votada a morte do Profeta!

SIMO PEDRA, erguendo as mos aos ceus:

  O meu presentimento!

MATHEUS, convulsamente:

                      Infamia!

JOO, n'um grito:

                              Cobardia!

ELEAZAR agarrando Gamaliel por um pulso:

   tempo de calcar aos ps a tiranna!

Todos, excepto Gamaliel, esto nervosos, irrequietos, consultam-se,
animam-se, invectivam Jerusalem. Joo foi  janella, e com os dentes
cerrados, o brao erguido, ameaa-a de esterminio.

GAMALIEL

  Tende serenidade!

JOO

                   Oh! no, Gamaliel!

ELEAZAR

  Liberte-se de vez o reino d'Israel!

GAMALIEL

  Que poder tornar-se em grande mar vermelho,
  Se Poncio perfilhar o voto do Conselho!

JOO

  As espadas de Roma, as furias de Tiberio,
  Inda ho de succumbir a todo o nosso imperio!
  O povo ha de gritar, raivoso, leonino,
  Rasgando a face impura ao despota assassino!

GAMALIEL, procurando serenar os animos; as lagrimas borbulhando nos
olhos e cahindo-lhe pelas barbas brancas:

  Ouvide-me, por Deus! Eu tenho lido tanto
  No livro da experiencia, amigos, que  de pranto
  A minha pobre offerta  causa alevantada!
  Vs no podeis brandir a rutilante espada;
  Nem elle, todo amor, consentiria nunca
  Na transfigurao do verbo em garra adunca.
  Parti, pois que  preciso apparecer ao povo,
  Mas fugide a que venha um incidente novo
  Aguar ao tiranno o sanguinario intento.
  Entrae com desassombro a porta do aposento
  Onde finge dormir, silencioso, o crime;
  Acalmae-vos, porem, ou elle no reprime
  O seu rancor feroz!

SIMO PEDRA tambem resoluto:

                     Seja o que Deus quizer!

JOO

  Nem lamina d'espada, ou pranto de mulher,
  Pode esfriar em mim a indignao!

GAMALIEL

                                   Piedade!

ELEAZAR

  Vamos!

MATHEUS

         Jerusalem!

SIMO

                   Coragem!

JOO

                            Na cidade
  Havemos de formar com os nossos companheiros
  Possante legio d'impvidos guerreiros!

E vo-se todos tumultuariamente, levando comsigo de roldo o velho
Gamaliel.


Decorridos alguns momentos em que a moradia de Simo ficou abandonada,
Maria e Martha veem de fra. Martha sempre alegre; a irm sempre absorta
em grande melancola. Ao entrar em casa, Maria vae logo postar-se 
janella, seguindo com o olhar cheio d'angustia os que vo a caminho de
Jerusalem.

MARTHA

        E uma vez que partiram
        Para a cidade, afinal,
        Entreguemo-nos agora
        Ao que julgo essencial:
        Tratemos da nossa casa.

MARIA, indolente:

        Espera. No tenhas pressa...

MARTHA

         que est tudo em desordem,
        E o nosso irmo comea
        Dentro em breve a murmurar
        Que ninguem aqui trabalha!...

MARIA

        Martha, vae tu repoisar,
        Que eu tratarei do preciso.

MARTHA

        No teimes, que me aproveito
        Do teu conselho.

MARIA

                        Careces
        De alguns momentos no leito;
        Deves estar fatigada.

MARTHA

        E no te enganas. Ergui-me
        Ao romper da madrugada...

MARIA

        E foste uma das primeiras
        Que se juntaram co'os Dse
        No Monte das Oliveiras,
        Onde passaram a noite,
        Como  costume.

MARTHA, abeirando-se da irm, muito meiga:

                        E no ficas
        De mal comigo?

MARIA

                        Porqu?
        Se em nada me prejudicas...

E anciosamente, vendo Judas que acabou d'entrar:

    O que ha de novo, Judas?

JUDAS

    Nada sei...

MARTHA muito admirada:

    No quizeste partir para a cidade?

JUDAS indolente, recostando-se n'uma das camilhas do triclinio:

    Como vs, no parti... pois que fiquei.

MARIA

    E porqu?

JUDAS

              Porque o somno que me invade
    Exige para o corpo algum repouso.
    Vae alto o Sol; de ha muito manifesta
    Que brilha no seu ponto mais radioso,
    E que so horas de dormir a sesta.

MARIA, sem o fitar, serena:

    E vaes dormir?

JUDAS cerrando as palpebras:

                    O Livro dos Proverbios
    Alguma coisa diz... Quem se julgar
    Com pequenos desgostos, exacerbe-os
    A dormir, a dormir... e a sonhar...
    --Se durmo, para onde  que foge a vida?
    Para fra de mim quem a conduz?
    Encontrar descanso na guarida
    Para onde, ao apagar-se, vae a luz?
    Ao despertar depois, quem reacende
    No cerebro o fulgor que relampeja?
    Quem  que nos d vida ou que a suspende
    A seu prazer?

MARTHA com muita convico:

                   Deus...

JUDAS abriu os olhos, fitou-a, e depois, fechando-os de novo:

                            Talvez que seja.

MARTHA surpreza:

    Talvez?!

Muito baixinho ao ouvido da irm:

             Extranho o Judas!

JUDAS

                              Sim, talvez;
    Porque no julgo prova de criterio,
    Antes se me affigura insensatez,
    Explicar um segredo co'um misterio.

MARTHA abeirando-se d'elle, e pondo-lhe a mo no hombro, diz com unco,
melodiosamente:

        Anda a tua alma fugida
        Ao bom caminho da crena...
        Quem foi que d'elle a affastou
        E que dentro em ti deixou
        Uma escurido immensa?
        Hontem  noite... (Desculpa
        Se acaso te contraro
        Ao falar agora d'isto)
        Por todos ns foi mal visto,
        Judas, o teu desvaro.
        De to modesta homenagem
        No era merecedor
        Aquelle Mestre sublime
        Em cujo rosto se exprime
        A bondade e o amor?
        --Anda a tua alma fugida
        Ao bom caminho da crena.
        Que Deus de novo a conduza
        E o brilho reproduza
        Na tua alma, treva immensa!

Judas fica immovel e silencioso. Martha, satisfeita, julgando havel-o
convencido, diz ento baixinho  irm:

        No responde. Pode ser
        Que facilmente consigas
        Descobrir toda a verdade.

MARIA, querendo esquivar-se:

        Eu?

MARTHA

            Com palavras amigas
        Interroga-o, porque, em summa,
        Custa ver n'um corao,
        Que deveria ser meigo,
        Semelhante ingratido.

E vae-se para o interior da casa a reclinar-se no seu leito perfumado.
Judas e Maria ficam a ss; Judas, com as palpebras semi-cerradas,
observa-a.

MARIA conserva-se indecisa por algum tempo; mas depois, como respondendo
a si propria:

         mais prudente...

E dirige-se para a porta por onde a irm sau:

JUDAS erguendo o corpo sobre o cotovello:

                          Maria,
        Pareces que vaes fugindo...

MARIA baixando o olhar:

        Para no te incommodar,
        Quando estiveres dormindo.

E retira-se tambem, fechando a porta castamente:


JUDAS ergue-se de chofre e avana como para seguil-a; mas detem-se,
perplexo. Depois, desalentado, senta-se n'um dos degraus da porta por
onde Maria sau, a cabea entre as mos, os cotovellos fincados nos
joelhos. Ao cabo de longo meditar, solta brandamente a sua voz:

   isto mesmo,  isto: o effeito vem da causa...
  Pois quando ao seu trabalho alguem ordena pausa,
  Logo termina o effeito.  isto mesmo, sim.
  Provem este rancor, que ella sente por mim,
  Da paixo que lhe inspira o rosto, o olhar, a fala,
  Do ente extraordinario a que nenhum se eguala,
  Conjuncto singular de tudo o que ha perfeito.
  Portanto  elle a causa, e o rancr o effeito!
  --Oh! que hei de supprimil-o, esmagando-o de todo,
  Ainda que me sinta a resvalar no lodo!

E erguendo-se, impetuoso:

  E tu, Consciencia, no me opponhas embaraos!
  Quando o trovo ribomba altivo nos espaos,
  Acoita-se a tremer a aguia no seu ninho!
  Vae-te! vae para longe! Eu quero estar ssinho!
  --... Mas quem me diz no ser este sinistro plano
  Improficuo, ou ento summamente leviano!
  Se elle fugir  morte, ao estertor final,
  Por um processo occulto e sobrenatural,
  Contra mim lanar todo o furor do ceu,
  Elle ha de ser juiz e eu hei de ser o ru!

Com a alma a contorcer-se n'um supplicio:

  Se eu visse esta mulher entregue ao frio atroz,
  O craneo sem ter luz, a bca sem ter voz,
   Deus, entoaria, agradecido a ti,
  Uma cano igual aos psalmos de David,
  Transformando o meu peito em grande tabernaculo!
  --Mas vive: ha de ser minha! Hei de vencer o obstaculo!

Pensa longamente, em grande abstraco de tudo o que o cerca, com um
sorriso malevolo, animando-se:

  E se, como se diz, elle no fr divino?
  Se obedecer, como eu,  fora do destino?...
  --Sim! sim! Tudo consiste apenas no convulso
  E possante vigor d'um corajoso pulso!

Alguem o est ouvindo sem ser visto: Benjamim e Josu. Cautelosamente,
Benjamim entrou em casa pela porta aberta e vae approximando-se de
Judas, relanceando o olhar desconfiado; Josu empurrou o batente d'uma
das janellas, e pela parte de fra observa. Judas, porem, contina,
agora acobardado:

  Assassinal-o!... No! Vago terror me opprime.
  E como poderei matar, sem ver o crime?
  Armando um brao vil? comprando uma consciencia?
   pouco,  muito pouco... e  tudo!--Que demencia!
  Quem poder saber onde reside a fra,
  Que tenha peito humano e garras de pantra?

Desvairado; os braos agitando-se, convulsos; os cantos da bca
espumando:

  --Vomta,  grande Terra, essa entidade estranha,
  Que vive silenciosa em tua negra entranha,
  Que  pura como o fogo, immunda qual farrapo,
  Enorme como Deus, mesquinha como um sapo!
  Genio amante do crime e  virtude adverso,
  Que mora num covil... e zomba do Universo!
  Eu quero conhecer o amigo dos devassos:
  Expele-o do teu ventre e arroja-o nos meu braos!

Com grande desanimo:

  Nem elle me protege! E eu preciso, emfim,
  D'um ser bastante infame!

BENJAMIM com muita humildade:

                           Aqui me tens, a mim...

JUDAS voltando-se, rapido, e agarrando-o brutalmente pela nuca:

    Quem s tu?

BENJAMIM avergado, mas sempre humilde:

                Sou alguem que te escutava.
    O tempo, como vs, no desperdio...
    No perguntes quem sou. Aqui me tens,
            Amigo, ao teu servio.

JUDAS sem o largar:

    Ignoro quem tu sejas, mas se acaso
    Divulgar o meu odio tencionas,
            Juro que em curto praso
    No fio de uma lamina abandonas
    Co'o meu segredo a vida!

BENJAMIM amigavelmente, em censura carinhosa:

                            Cala a bca!
    No blasfemes de coisas respeitaveis.
    Venho fazer propostas acceitaveis,
            Dizer tudo o que sinto,
    E s respondes co'uma furia louca!
    Se me has de receber com effuso,
    Achando em mim o teu melhor amigo,
            Alevantas a mo,
    Ameaador como um guerreiro antigo!
     ser ingrato!

JUDAS largando-lhe a nuca, mas agarrando-lhe logo um brao:

                   Dize-me o que sabes!

BENJAMIM sinceramente:

    Ora! sei que a tua alma se abalana,
    Depois do que houve aqui hontem  noite,
    A seguir o caminho da vingana.
    Naturalmente, sentes-te offendido
    Co'a resposta que teve o teu reparo
            To justo e merecido...

JUDAS como comsigo, satisfeito:

    Portanto, ignora...

BENJAMIM

                        isto amigo?

JUDAS, rapido:

                                     isso!

BENJAMIM explicando:

    Eu hontem ouvi tudo junto  porta...
    --Manda, que eu te obedeo. Aqui me tens,
            Humilde, ao teu servio.

JUDAS ficou hesitante, tendo largado Benjamim, que foi trocar signaes
com Josu.

    Mas se eu no sei...

BENJAMIM agora senhor de si:

                        No sabes? Pois sei eu.
    O Mestre ser morto, em poucos dias;
    Depende s de ti, fica sabendo!

JUDAS nervosamente:

    Que dizes, fariseu?

BENJAMIM imperioso, rapido, monotono, quasi ao ouvido de Judas, que
parece devorar-lhe as palavras:

                      Ouve:  tremendo
    O odio que lhe tem todo o Conselho,
    O qual procura o instante mais propicio
            De pr em exercicio
    O plano da priso, do julgamento...

JUDAS

    E da morte?

BENJAMIM

              E da morte! O que, porem,
            No actual momento
    Ao sacerdote Hanan muito convem
             prendel-o em segredo,
     noite, em sitio obscuro. Hanan tem medo
    De que o povo alevante alguns protestos...
             prudencia conforme,
    Assim proceder.

JUDAS animado, satisfeito:

                     Dize-me ento...

BENJAMIM

     urgente saber onde elle dorme.
    Tu sabes com certeza!

JUDAS hesitando, vagamente acobardado:

                          Mas...

BENJAMIM

                                O qu?
    No queres a vingana, Judas?

JUDAS

                                  Quero...

BENJAMIM

    N'esse caso, aproveita o bello ensejo,
    Que outro no tens melhor. Sendo sincero
    E grande, como julgo, o teu desejo,
    No deves recusar o que proponho.
    --Ouviste? Muito bem! Reflecte agora,
    Este sitio no  muito seguro...
          Aguardo te l fra!

Vae-se; Josu segue-o, e os dois desapparecem.

JUDAS ficou perplexo ainda, como medindo a gravidade da proposta. Mas
depois:

    De que serve hesitar, se me apresentam
    Como satisfazer o meu anceio?
    Basta que eu seja um cumplice d'Hanan,
    Um traidor simplesmente... Nada mais...

Com rude franqueza:

    --Na mo direita a Infamia,
    A Consciencia na esquerda. Eu de permeio!

Com funda ironia:

          A sentena fixei:
    No saiba a esquerda o que pratca a irm.
    --No saber, que eu nada lhe direi!

Vae sair, mas a porta que d communicao para o interior da casa
abre-se, e Maria apparece no cimo dos degraus. Judas quedou-se.

MARIA que no limiar da porta ficra tambem indecisa:

  Julguei ouvir falar...

JUDAS

                         Aqui? Foi puro engano.

E notando um movimento esquivo de Maria:

  Retiras-te de novo? Eu fao qualquer damno
  Com a minha presena?

MARIA condescendente:

                       Oh! no...

JUDAS caricioso:

                                  Deixa-te pois
  Ficar junto de mim, que facilmente os dois
  Teremos na conversa um passatempo. Fica.

E mentalmente:

  Vejamos se o que diz me excita ou pacifca.

Ha um grande silencio. Maria desceu mansamente e ficou de p junto do
primeiro degrau, o olhar sempre absorto, os braos inertes ao longo do
corpo. Judas voltou para o triclinio, e de braos cruzados observa-a,
apparentando a maxima serenidade. L fra, o Sol illumina fortemente a
paisagem; o calor primaveril irrada por toda a parte; ouve-se
nitidamente o murmurio da agua; as vibraes das cigarras so cada vez
mais intensas e estridulas; ha segredos d'amor nos ninhos proximos...

JUDAS

  Em que pensas, Maria? O teu formoso olhar,
  Que era d'antes to meigo e calmo como o luar,
  Ha tempos que derrama um brilho vago, incerto,
  E em nuvens de tristeza agora anda encoberto.

MARIA com simplicidade, avanando um pouco:

  Por vezes, sem querer, entregue  dr immensa
  Que me aniquilla, tenho a tudo indifferena.
  Ao passo que me opprime este cruel receio
  De vr barafustar o nosso Mestre em meio
  Dos inimigos seus, mais frio do que a neve
  Se torna o meu olhar.

JUDAS trvamente:

                        Deve ser isso, deve...

E depois de algum silencio, ironico:

  Costumado a subir nos estos d'esse amor
  Aos mundos do Ideal, o candido fulgor
  Transforma-se em desdem, e apenas se descerra
  Perante a mesquinhez que roja pela terra!

O olhar bem fito n'ella, animando-se:

  Assim como um punhal de rija temp'ra e agudo,
  Esse olhar desdenhoso, austero, vago, mudo,
  Brilha sinistramente e vem car direito
  N'este pequeno espao, o espao do meu peito!

N'um arranco d'alma:

  Em verdade te digo,  mulher altaneira,
  Quizesse Deus mandar-te aos olhos a cegueira,
  J que d'alma s to cga aos prantos de quem te ama,
  Que olhas para esse alguem, como se fosse lama!

Crescendo em furia:

  Desde hontem que eu desejo estar comtigo a ss
  Para que emfim termine este supplicio atroz!
  Do meu peito o rugir no sabe em que se esconda,
  E vae sar de mim, como em torpel a onda,
  Tudo o que hei suffocado, e tudo o que hei soffrido!
  --Escuta-me,  mulher, apura o teu sentido,
  E deixa de cuidar n'essa paixo agora,
  Que  maior a paixo que todo me devora!

Maria vae responder; elle porm, detendo-a com um gesto:

  Eu sei! Conheo a frase; escusas de falar:
   puro o teu amor, no  amor vulgar...
  Mas v que, se elle abriu em ti essa ferida,
  No centro da minha alma em sangue e dolorda
  Existe uma paixo tambem que me envenena,
  Podendo ser mortal, assim como a gangrena...

Em frente d'ella, com a mo sobre o peito, contorcendo frenetico a
roupagem:

  Ah! no supremo arranco um peito esfacelado
  Como este, no receia o que haja mais sagrado,
  E julga-se capaz, co'o seu valor enorme,
  De luctar e vencer o ente mais disforme,
  Terrivel como Deus, gigante como Ado,
  Possuindo na voz as frases do trovo!
  E porque sinto aqui as contorses finaes,
  Espando francamente as mculas brutaes,
  Que viveram sem luz n'um mundo subterraneo:
  Os monstros do meu peito e os vermes do meu craneo!

Grande e soberbo, de braos abertos, espra.

MARIA que no se moveu, serenamente:

  Sou fraca, sou mulher, e sei no que te escudas;
  Confesso-te, porm: causas-me tdio, Judas.

JUDAS n'um rugido:

  Maria!

MARIA sempre immovel:

        Com franqueza, eu disse-te por vezes:
  Em castidade egual s innocentes rezes
  No Templo do Senhor dadas em sacrificio,
  Tenho por goso infindo, ao amor viver propicio,
  Dedicar quelle ente em que a virtude brilha
  Acrisolado amor, amor... como de filha.
  Na terra nada mais preciso que uma coisa:
  A Crena.

Enlevada, com o olhar erguido, as mos sobre o peito virginal:

            O meu amor longe d'aqui repoisa,
  Estrella que no teme as nuvens tempestuosas.
  Brando como o dormir das aguas silenciosas,
  Vago como o misterio enorme do futuro,
  Meigo como um sorriso, e como o orvalho puro,
  Nos espaos do azul vive risonho e inerme.
  A estrella  sempre estrella...

Descendo o olhar para Judas:

                                  e o verme  sempre verme.

JUDAS com as mos encrespadas, os labios trementes:

   vil mulher, que tens desprezo pelo amor,
  Fugindo  grande lei do grande Creador,
  Que elle n'esse teu corpo as maldies concentre
  Para tornar assim fecundo o estril ventre!

MARIA sem se perturbar:

  Enlouqueceste!

JUDAS cando em si, fica por momentos silencioso. Depois, com o rosto
dolorido, n'um queixume:

                Mas se eu nunca fui amado!
  Assim como o terreno a que no chega o arado,
  Semelhante em mudez s pedras do caminho,
  Era o meu corao. Via-me to ssinho,
  Que, por vezes, cravando o meu olhar nos ceus,
  Interrogava o Espao, interrogava Deus,
  Procurava arrancar s trevas o motivo
  De haver dentro de mim um morto, estando eu vivo.

Com a voz muito quente, repassada de amor, sensual, o olhar hmido, como
revestindo Maria com um manto de beijos, as mos gesticulando em curvas
graciosas, languidas:

  Mas desde que no teu o meu olhar depuz,
  Enxerguei o brilhar d'uma divina luz
  Na immensa escurido d'este viver amargo
  E senti-me surgir do fundo do lethargo.
  Fosse para onde fosse, eu via a tua imagem,
  Adorada Maria, envolta na roupagem
  To alva como o arminho, immaculada e honesta:
  No prado sorridente, em meio da floresta,
  Sobre os rochedos ns s vagas sobranceiros,
  No horisonte sem fim, no dorso dos oiteiros...
  Por toda a parte, em summa!--Adoro-te, Maria!
  No caminho da vida o teu olhar me guia...
  Vem dar uma esperana ao pobre corao
  Que vive para ti, que te pertence...

MARIA com ligeiro movimento de cabea:

                                       No.

JUDAS promptamente transformado, n'um arranco furioso:

  Oh! que negra palavra, amarga como fel!

MARIA com a voz tranquilla:

   doutrina do Mestre...

JUDAS interrompendo-a com uma risada feroz:

                          O Mestre!...

MARIA

                                      ... s infiel.
  Abrigas, por teu mal, um sentimento ignaro
  Do que seja o dever, e que se torna avaro,
  Cubioso, traidor, miserrimo, egoista!
  No podes resistir-lhe?  bem que eu te resista!
  Se no queres viver do amor pela virtude,
  Se  pureza  rebelde essa tua alma rude,
  Ento que ao sacrificio eu seja quem te exhorte:
  Foge para distante, ou foge para a Morte.

JUDAS allucinado, avanando para ella:

  Escuso de ouvir mais. No quero ouvir-te! Cala!
  Fica sabendo pois que isto que me avassala,
  O que por fim se espande e que ha de ser funesto,
  Nunca foi do amor um sentimento honesto!

MARIA levando instinctivamente as mos aos seios:

  Maldito sejas tu, se acaso me tocares!

JUDAS com os olhos chammejantes, as mos trmulas, os passos rigidos,
agarrando-a:

  Que importam maldies inuteis e vulgares?
  Os castigos de Deus, Deus sobre mim desabe-os,
  Mas que eu sinta, mulher, o aroma dos teus labios!

E tenta beijal-a, soffrego:

MARIA evitando-lhe os beijos:

  Oh! deixa-me, brutal demonio da luxuria!

JUDAS arrastando-a para o triclinio:

  Chamaste muito bem  minha ardente furia,
  Como o fogo voraz, cruel e deshumana,
  Que a Eva perverteu, e maculou Suzanna.

MARIA com a voz estrangulada, luctando:

  Soccorro! Eleazar!

JUDAS pondo-lhe a mo na bca:

                    Oh! cala-te!

MARIA j sem foras:

                                 Meu Deus!

JUDAS achegando-a ao peito, lbrico, antegosando a posse:

  Ah! como so gentis assim os olhos teus!
  Como  rosada e fina a tua debil mo!
  Vaes ser minha, afinal!

Aperta-a mais contra si; mas de subito, notando-lhe a immobilidade,
abandona-a; e vendo o corpo de Maria car inerte sobre uma das camilhas,
diz n'um murmurio de desespero:

                          Desfallecida?!...

Um pensamento hediondo atravessa o cerebro de Judas; os olhos inquirem
em volta. Esto bem a ss, no ha duvida... Sob irresistivel attraco,
com o olhar lascivo desnuda-a; ergue-lhe em peso o corpo, aperta-o
contra si... Mas de subito, como accordando, como se a voz da Natureza
lhe dsse um grito na alma:

                                            No!!

E tomado de horror por si proprio, foge, correndo como doido atravez dos
campos, deixando o corpo de Maria inanimado, mas casto e puro como um
lirio d'Issachar...




TERCEIRA JORNADA

EM 13 DE _NISAN_




TERCEIRA JORNADA

EM 13 DE _NISAN_


Na quadra principal da Torre Antonia, moradia do procurador Poncio
Pilado, tudo  silencioso, embora a noite s agora acabe de tombar.

Assenta o elevado tecto em dez columnas no distantes das paredes;  de
mosaico branco e preto o cho marmoreo. Duas portas fronteiras
communicam, uma para os aposentos de Claudia e Poncio, outra para as
diversas dependencias da Torre. N'uma das paredes abre-se amplamente,
achegado um pouco para o angulo, um arco de elegante curvatura, que d
para um terrao resguardado de formosa balaustrada. Comprida escadaria
d'ali conduz ao andar inferior e ao vestibulo. No centro geometrico da
quadra, ergue-se um busto de guerreiro:  de marmore branco o pedestal;
de roseo o busto, em cuja base lmos, em caracteres romanos esculpida, a
legenda: _Tiberius Claudius Nero, Imp_. Das portas ha pendentes
reposteiros de azul e oiro.  da mesma fazenda o reposteiro que est
ornando o arco e repuxado junto ao angulo. Fitando ns o busto de
Tiberio, temos sobre a direita larga meza de citrus, onde ardem n'um
bronzeo candalabro trez vellas de cra e pez; e perto d'ella vemos uma
cadeira d'estofado, de braos longos, costas amplas e recurvas;  nossa
esquerda, perto das columnas, coxim de bronze com embutidos de tartaruga
e trez almofadas de lavor riquissimo; no distante, no cho, est
estendida grande pelle de leo do Atlas. Um armario de bano macisso
alonga-se na parede junto ao arco e sobre elle se ostenta graciosa
clepsydra de bronze, onde um ros aponta com a flcha a escala das horas
que decorrem.

Entre as columnas, pendem das paredes, panoplias de couraas, capacetes,
escudos e adagas. Encostado ao pedestal do busto de Tiberio, o pilo de
oiro cinzelado.

Ha um misto de indecisa luz em toda a quadra: amarellada a que as vellas
espargem frouxamente, cr de prata a que o cho do terrao reenvia e que
a Lua derrama das alturas. A cidade dormita l em baixo; e o luar,
banhando as casaras, dir-se-a illuminar uma necropole.


No coxim do terrao est Claudia reclinada. A tunica  de l; escura e
longa a estla. Tem os braos cobertos pelas mangas da segunda tunica, e
 branca a facha que os cabellos lhe prende em los brandos. Perto de
Claudia a sua escrava Geda. Ambas percorrem com o olhar canado o por
demais conhecido panorama.

CLAUDIA solta emfim um suspiro.

        Dorme tudo na cidade.
        Que silencio e que tristeza!...

GEDA

        Tens ento grande sadade
        De Roma?

CLAUDIA

                Sim. Dizes bem:
         sadade esta amargura,
        Pois outro nome no tem
        O que sinto na Juda
        Onde Poncio me exilou.
        --Que horas podem ser? V l.

GEDA vae ligeira ao candalabro; d'elle tira uma vella e dirige-se 
clpsydra. Repe depois no seu logar a vella, e voltando para junto de
Claudia:

        Salvo engano, gottejou
        A segunda hora de prima...

CLAUDIA

        Por Saturno,  muito cedo,
        Pois no ?

GEDA

                    Tambem eu cria
        Ser mais tarde.

CLAUDIA boceja largamente.

                        Agora, em Roma,
        Ouve-se ainda a folia
        Da multido buliosa,
        Que de toda a parte assoma,
        Soltando ao vento a harmona
        Da sua voz descuidosa...

Vem Poncio, taciturno, e para a meza se encaminha, trazendo na mo
direita um escripto em papyro.  homem d'estatura mais do que regular, e
de idade viril. Rosto livre de pellos; o nariz aquilino; bca breve,
olhos negros e vivos; curto cabello em curvas de frisados, testa larga
onde as rugas bem se ageitam. Alva a tunica e alvo o manto farto;
sandalhas amarellas; mos carnudas. Sentou-se junto da meza, e o papyro
consulta.

CLAUDIA indolente, para Geda:

    Ali tens quem me trouxe para o _exilio_!
    Se no dormem Pluto nem Proserpina,
    Ho de cedo chamal-o ao domicilio
    Onde cem as victimas da Morte!

Muito ironica:

            Que inspirao divina
    Eu tive ao escolher este consorte!

Com um gesto ordena a Geda que se retire. Ergue-se do coxim, e
adiantando-se para Poncio, que no a viu:

    Que novas trazes, Poncio?

PONCIO sem se voltar, continuando a lr:

                               de Tiberio
    Foi-me enviado este papyro honroso.

CLAUDIA em sobresalto infantil:

    O qu?! Novas de Roma?

PONCIO

                          O grande imperio
    Contina radiante e venturoso.
    Foi porm necessario reprimir,
            No principio do anno,
    Certa conspirao que fra urdida
    Pelos amigos do traidor Sejano.
            A mensagem termina
    Aconselhando a que use da violencia.

E l pausadamente, accentuando muito as palavras:

    Aprende em mim como o poder se eleva
            E como se elimina
    Todo aquelle que tenha a impudencia
    De attentar contra a posse d'este manto.
            Faze como eu tambem:
    Reprime a todo o custo a rebeldia.
    Talvez no Templo se conspire. Emquanto
            Mostres sabedoria,
    Espirito sensato, forte e agudo,
            Podes contar comigo.
    Recommenda a Claudia, Poncio amigo.
            Por Jove, te sado.

Pe de parte o papyro e reclina a fronte na mo.

CLAUDIA que em silencio ficra appreensiva:

    O que vaes responder?

PONCIO sem se mover:

                          J respondi.

CLAUDIA apoiando-se nas costas da cadeira por detraz d'elle:

    Permaneces?

PONCIO

                Decerto, pois me cumpre.

Na perna esquerda sobrepe a direita, fazendo-a oscillar por longo
tempo.

CLAUDIA no podendo conter a intima revolta:

    Bella esperana! Hei de viver aqui,
    Segundo me parece, eternamente!
    --Casou Venus com Marte e foi o Amor
    O que nasceu da conhecida unio;
    Casei comtigo, audaz procurador,
    A principio amoroso, bom, cortez...
    O que nasceu, por fim, d'este consorcio?
            Nasceu a Insipidez!

PONCIO enrugando a testa e sem olhar para Claudia:

    Pela divina _Isis_ que ests louca,
    Ou requintas de vras em maldade!

CLAUDIA

            Talvez seja melhor
    No despertar do Nilo a divindade!
    --N'estes ultimos annos tenho sido
    Verdadeiro modelo de matrona...
            Sabes que ambiciona
    A minha alma fugir a tal desterro,
    E no queres pedir a demisso!
    Imaginas talvez ser este o meio
    De garantir a minha honestidade?
            Pois olha, ests em erro!
    No me curvo a presses to aviltantes.
    Se no fr satisfeito o meu desejo,
            Perderei todo o pejo...
    --Inda possuo algum, valha a verdade!--
    E para me vingar bem cruelmente
    Serei mais leviana do que d'antes!

PONCIO que se voltra, encarando n'ella, e em tom suasorio:

    Tu no vs que deixarmos a Juda
            No seria prudente?
    Tiberio  para ns inexcedivel
    Em attenes, e d-me como prmio
    A confiana. Bastaria a ida
    Da minha demisso, para de vez
    Nos expulsar do resumido grmio
    Dos seus affeioados, e talvez
    Depois se transformasse em vingador...
    --Pede outra coisa, Claudia; nunca peas
            O que julgo insensato.
    Somos grandes aqui; nenhum valor
    Teriamos na crte. No te esqueas
    Da sorte de Coponio, Rufo e Grato,
            Ao voltarem a Roma.
    Pede outra coisa, Claudia, que por certo
        Has de ser attendida.
    No me digas, porm, que v trocar
    Aquillo que  seguro pelo incerto.

CLAUDIA n'uma espanso de franqueza em que o desdem transparece:

    Mas que m'importa, a mim, o teu logar,
    Se eu desejo viver onde se viva?
    Em Roma, na cidade portentosa,
    Onde qualquer escrava  mais altiva
    Que uma nobre juda virtuosa!
    Onde Gelanio, o deus das gargalhadas,
    Desinfecta as emmanaes palustres
    Da tristeza! onde as pedras das caladas
    Falam at de tradies illustres!
    Quero fugir d'este mortal supplicio
    Para onde o meu ser se espanda e vibre;
    Participar no seductor bulicio,
    E ver  tarde o Sol beijar o Tibre!
    Assistir como outr'ora aos festivaes
    No grande circo onde o valor impra;
    Vr athletas sanguineos, triunfaes
    E ouvir os rugidos d'uma fra!
    Beber o doce vinho de Falerno,
    Ser cortez, de novo rir e amar...
    Dem-me vida longe d'este Averno,
    E que m'importa, a mim, o teu logar!

PONCIO resoluto, imperioso, deixando car na meza a mo espalmada:

    O que uma vez escrevo, escripto fica!

Depois, mais brando:

    No fugirei s ordens de Tiberio.
    De mais, coisa nenhuma justifica
    Em solidas razes o que me pdes.

E volta  primitiva posio.

CLAUDIA decorridos alguns instantes, refreando a clera:

    Disseste?

PONCIO indifferente:

              Disse.

CLAUDIA

                     caso firme e assente
    Permanecer?

PONCIO

               Que dvida!

CLAUDIA

                           No cdes
    Nem aos meus rogos?

PONCIO

                        No.

CLAUDIA muito a srio:

                            s imprudente...
    --Sabes que fui amante de Tiberio?

PONCIO bamboleando a perna e sem mudar de expresso:

    Tenho ouvido dizer.

CLAUDIA

                        No desconheces
    Que se  meigo, tambem  vingativo
    O meu caracter. Pois talvez um dia
    Desapparea o teu falar altivo.
            Tiberio, com certeza,
    Muito embora j tenha algumas cans,
    Ha de ainda lembrar-se da belleza
            Das suas cortezs...

PONCIO franzindo lvemente o sobr'olho:

    No comprehendo bem. Com isso tudo
    O que vens a dizer?

CLAUDIA sorrindo, palaciana e misteriosa:

                       Que te sado...

E recolhe em silencio aos seus aposentos, deixando tombar atraz de si as
prgas do reposteiro.


Poncio ficou ssinho, meditando. Logo apparece no terrao o Ostiario que
veio do andar terreo pela escada exterior.

O OSTIARIO

        Poncio, recebes agora?

PONCIO erguendo-se:

        E quem  que me procura?

O OSTIARIO

        O sacerdote judeu
        Hanan.

PONCIO surprezo, como comsigo:

              Hanan procurar-me
        Na Torre Antonia, a esta hora?
        --Ostiario, succedeu
        Alguma coisa?...

O OSTIARIO

                        No sei.
        O povo est socegado.

PONCIO depois de reflectir:

        Manda entrar o sacerdote
        Para aqui mesmo.

Retira-se para o terrao o Ostiario. Poncio, que ficra preoccupado, diz
como comsigo:

                        Cuidado!...

Vae buscar uma adaga  panoplia mais proxima e mette-a no cinturo; pe
em cima da meza o pilo de ouro que estava encostado ao busto de Tiberio.
Senta-se novamente na cadeira.


A um gesto do Ostiario, dois vultos subiram a escada, e a breve trecho
appareceram no terrao; so dois homens, cujos semblantes o luar
illumina. Um  Judas; o outro um velho de setenta annos, mas vlido e
robusto--o ex-Grande Sacerdote Hanan, sogro do Grande Sacerdote Kaapha.
Meo d'estatura, barba cerrada e no comprida onde abundam as brancas,
assim como no bigode hirsuto e no longo cabello descuidado; nariz
adunco, olhos azues e penetrantes. E seu trajar egual ao do mais humilde
filho d'Israel: tunica e manto, mitra redonda no alto da cabea;
chinellos muito usados. Dir-se-a que tal modestia d'aspecto foi um
calculo, um disfarce... Ha porem na sua fisionomia e na voz resoluta e
aspera a expresso da velhacaria e do mando.

O Ostiario retirou-se pela escada. Judas foi postar-se junto do busto de
Tiberio, com ar matreiro, e d'ali segue attento as fases do dialogo a
que vamos assistir.

HANAN que se adiantou at  presena de Poncio, curvando-se perante
elle:

  Tenho intima alegria, ao ver que no teu rosto
  Amavel transparece um juvenil composto
  De puro entendimento e de vigor e sade.
  No falar respeitoso, humilde na attitude,
  O sacerdote Hanan ao grande Poncio envia
  Protestos de leal e eterna simpathia.

PONCIO que nem para elle olhou, desdenhoso:

  O alamo gigante, ao estender os braos
  Como para cingir Apollo, que os espaos
  Domna, mostra quanto  grande na affeio,
  Mas fructos no produz:  como a adulao.
  --Hanan, ouvir-te-ei attentamente.

HANAN fingindo no ter percebido:

                                    Vim
  Para que tu me ds auxilio.

PONCIO ironico:

                            Como assim?
  De noite? acompanhado?

HANAN

                        Este homem ouve, e cala
  Tudo o que ouvir. Demais, -nos preciso.

PONCIO voltou-se um pouco, lanou um rapido olhar a Judas, e depois,
encostando o brao  meza e com a cabea reclinada na mo:

                                          Fala.

HANAN muito submisso de comeo:

  Embora nos vencesse a furia dos romanos
  Em tempos que l vo; embora muitos damnos
  Haja soffrido o povo heroico d'Israel,
  s suas tradies conserva-se fiel,
  Na crena do seu Deus respeito manifesta.
  Religio smente  hoje o que lhe resta,
  Porque tudo entregou s mos do vencedor;
  Por isso ha de manter, altivo e com fervor,
  O que elle considera um virginal trofeu!
  --Dize-me ento se  justo ou no  justo que eu
  Procure lealmente ao povo garantir
  A crena de Moyss, agora e no porvir.

PONCIO, serenamente, mas deixando accentuado o seu desdem, aquelle
desdem dos romanos pelos povos vencidos:

  No sei do que se trata, Hanan; mas sempre digo
  Uma coisa que eu penso ha muito a ss comigo:
  Do leito has de sar com mais celeridade
  Para zelar melhor a tua propriedade,
  E com menos se alguem te fr dizer, de rastros,
  Que descobriu no ceu ladres roubando os astros.

HANAN offendido, elevando a voz:

  Duvdas de que seja o meu falar sincero?
  Julgas que estou mentindo, e em nada considero
  A minha crena?

PONCIO olhando para elle de fito, severamente:

                  Ol!...

HANAN matreiro:

                          Desculpa-me. Prometto
  No me exaltar de novo,  Poncio.

PONCIO sem desviar d'elle o olhar:

                                    O mel do Hymetto
  Agrada a toda a gente... e fica bem na fala.

HANAN muito submisso:

  Dou-te razo; mas v que dr nenhuma eguala
  A dr que sinto. E no terei motivo? Escuta:
  Aquella s doutrina, a doutrina impoluta
  Que nos deixou Moyss, o grande fundador
  Da nao, que livrou das garras do oppressor
  O povo escravisado, e que  ditosa grei
  Legou, depois da Fuga, um Deus e Patria e Lei!
  A doutrina sublime, erario de virtudes,
  Que tem ficado illesa ainda nas mais rudes
  Provaes...

PONCIO cortando a harenga, novamente em tom sarcastico:

              Vaes falar d'alguem profeta novo,
  Que anda por'hi talvez a amotinar o povo
  Contra os amigos teus?--Pois hei de protegel-o.
  Apraz-me no tocar nem siquer n'um cabello
  D'esse homem.

HANAN refreando a clera:

                Mas porqu? Ters razes secretas?

PONCIO

  Quem as tem no sou eu: so elles, os profetas,
  Ao falarem de ti.

HANAN com ironia e falsa humildade:

                  Ento! s razoavel
  E mostra coherencia,  tiranno implacavel!
  Um cadaver de mais, um cadaver de menos,
   coisa que no leva aos teus dias serenos
  Nenhuma inquietao, nenhum remorso.

Animando-se pouco a pouco:

                                      E quando
  Um sacerdote probo e honesto e venerando
  Em nome da Juda a morte solicta
  Para um vil criminoso, o teu rancor hesta?!

Esplodindo, francamente:

  De cumprir o dever percebo o que te afasta:
  Quem te fala sou eu, que tu odeias!

PONCIO fitando-o enfurecido, d um murro na meza; e erguendo-se:

                                      Basta!
  Sabes que essas razes no oio, nem tolro,
  E que digo uma vez que no, quando no quero!
  --Como o poder de Roma aos homens do Conselho
  Tirou todo o poder de tingir de vermelho
  N'um banho sanguinario os corpos fraternaes,
  Privados de lavrar sentenas capitaes
  Sem que eu lhes d meu voto, imaginaste, Hanan,
  Que eu poderia, qual infame barreg,
  Despejar a vergonha  rua, como o lixo,
  Para satisfazer depois o teu capricho?
  Porque uma voz protesta e clama contra o vil
  Conselho que assoberba o povo e que, febril,
  Anda a espiar na sombra, a procurar o instante
  Em que ha de ser traidor ao Cezar triunfante;
  Porque um homem possue a civica ousadia
  De guerrear talvez a tua hipocrisia,
  Venerando ancio, tiveste uma lembrana:
  Transformar o meu voto em arma de vingana
  Cobarde! Sim! Bem vejo a ida que te inflamma!

Agarrando no pilo:

  Pois digo-te que nunca has de car na lama
  Co'o pilo de oiro! No! D'Oriente a Occidente,
  A aguia de Roma  grande, e nunca foi serpente!

E poisando o pilo na meza, com ruido, senta-se.

HANAN depois de algum silencio, tentando convencel-o  ba paz:

  Eu no falo por mim; eu falo por Moyss,
  Cuja doutrina tem sido calcada aos ps
  D'um homem, que apresenta uma doutrina estranha
  Ao direito e  lei; que os pobres arrebanha
  S para dizer mal dos grandes e dos ricos;
  Que dirige a palavra aos seres impudcos,
  s mulheres venaes, aos infimos ladres;
  Que anda em nome de Deus a conceder perdes
  A toda a gente; emfim, que o povo, em desatino,
  Se atreve a inculcar como um ente divino!

PONCIO tranquillo, sorrindo:

  Quem sabe?... Pode ser...

HANAN recuando, como se ouvisse uma heresia:

                            O qu?!

PONCIO com bonhomia, exagerando muito o valor das palavras:

                                    Se te refres
  Ao Nazareno em vo me falas. Nunca espres
  Que eu ponha ao teu servio a minha autoridade
  Para o matar. No mato uma celebridade.
  Conheo-o muito bem. Inda ha trez dias teve
  Uma grande ovao. De resto, no se atreve
  A suscitar no povo o odio contra o Imprio:
  Deseja que se entregue a Deus e a Tibrio
  O que pertence a Deus e o que pertence a Roma.
  Agrada-me o desejo.  o melhor diploma
  Que lhe ha de garantir a minha proteco.

HANAN ao ouvido de Judas:

  Ficou tudo perdido,  Judas.

JUDAS reservadamente:

                              Ainda no.
  Pde para eu falar.

HANAN

                      Duvdo...

JUDAS

                                Experimenta.

HANAN muito supplicante a Poncio:

  Senhor, ouve as razes que este homem apresenta:
  Conhece o Nazareno, e sabe tudo...

PONCIO olhou novamente para Judas, e com enfadada condescendencia:

                                    V.
  Pode falar, mas brve.

JUDAS avana at  presena de Poncio. Sadou-o, e muito senhor de si,
firme, resoluto, assim comea:

                        Eu nasci em Jud.
  Odeio a Galila, e, sempre respeitoso,
  Me curvei de Tibrio ao vulto majestoso.
  --Engana-te, senhor, aquelle que disser
  Que o profeta de quem falou Hanan requer,
  Como acabei de ouvir, as attenes do povo
  Para o imprio de Roma.

PONCIO estremeceu, carregou o semblante:

                          O qu?

JUDAS com sinceridade hypocrita:

                                No me demvo
  De dizer a verdade, inda que soffra o peso
  Do remorso, indicando um amigo indefeso
   justia de Roma e do Conselho! Brado
  Em voz altisonante:  Poncio, s enganado!
  O Profeta conspira, em intimo rancor,
  Contra a lei de Moyss e contra o vencedor!
  --De tal conspirao confio-te o segredo...

Approximou-se mais de Poncio, que contina assentado, e fala-lhe agora,
insinuante, incisivo, um pouco por detraz d'elle, encostando-se at 
curva da cadeira. Poncio escuta-o em silencio, com o olhar brilhante e
fixo em um ponto, todo o seu sentido concentrado nas palavras que sem
dos labios de Judas como subtil veneno.

  Porque abate no mar, s vezes, um rochedo
  Austero, alcantilado, enorme?--Toda a gente
  Julgava-o rijo, forte, invencivel, potente,
  Que do seu dormitar ninguem o accordaria,
  Que o Tempo, esse feroz destruidor, seria
  Incapaz de roer-lhe o corpo giganteu...
  Mas certa noite o monstro herculeo estremeceu,
  Barafustou no espao, e com fragor medonho
  Afundou-se no abismo, ao despertar d'um sonho!
  --Que foras colossaes, que foras imprevistas
  O venceram? O sol ia doirar-lhe as cristas
  Majestosas, assim que despontava ao largo;
  A Lua namorada, em languido lethargo,
  Cobria-lhe de prata o dorso negro e frio,
  Que as lagrimas do ceu tornavam to maco
  Como um peito de cisne ou face de mulher...
  O proprio Creador do Mundo nem siquer
  Lhe causava receio. Em doidas convulses,
  Um raio desabou das vastas amplides
  Sobre elle, e a sua voz, longe de ser magoada,
  Soltou-se em desdenhosa e grande gargalhada!
  --Que foras colossaes, que foras imprevistas,
  Lhe fizeram baixar as invenciveis cristas?
  Que foras?--Perguntae-o quella massa informe,
  Que por vezes murmra e que por outras dorme
  Em profundo silencio; interrogae o Mar,
  Que outr'ora vinha, meigo e humilde, a caminhar
  Do horisonte sem fim, da solido distante,
  Para oscular os ps do impvido gigante!
  Interrogae o vil hipocrita, que ao passo
  Que era meigo e humilde, em fraternal abrao,
  Tratava de roer, silenciosamente,
  As bases do colosso athletico e indiff'rente,
  Que afinal, certa noite, ao despertar d'um sonho,
  No abismo tombou com fragor to medonho,
  Que as Estrellas, ouvindo aquelle enorme grito,
  Sentiram-se tremer d'horror no Infinito!

PONCIO ergue-se de chofre, com o olhar incendido, trmulo, os braos
alevantados. E o seu vulto branco, destacando-se no fundo escuro da
vasta quadra, dir-se-a o d'um espectro de destruio.

  Ha colossos que teem gigantes nas entranhas,
  Fros como lees, grandes como as montanhas!
  Possuem dos clarins as frases inspiradas,
  E fusilam do olhar relampagos d'espadas!
   mares da perfidia, andaes a carcomer
  As bases do colosso herculeo do poder?
  Tende cuidado, anes, co'os rjidos ciclpes!
  Ondas que assim correis, que vindes em galopes,
  Apressadas, servs, infames... Para traz!
  Que para reprimir a vossa furia audaz,
  Para que o vosso dente ao monstro no carcoma,
  Basta um simples olhar dos hercules de Roma!

E passeiando agitado, raciocinando e resolvendo de prompto:

  Prefiro debelar de prompto a crise. Ignoro
  Se falaste verdade, ou se acaso labro
  Em uma vil intriga! A dvida me envolve...
  Mas n'esta situao o meu poder resolve
  O que julga efficaz. Esse traidor profta
  Ha de attingir ainda hoje a tenebrosa mta
  Da existencia. Vou dar a ordem da priso
  Do Zfiro subtil com furias d'Aquilo!

HANAN detendo-o, supplicante, receioso:

  S prudente, senhor. O sangue d'innocentes
  No dever correr. Escuta os meus prudentes
  Conselhos, bom amigo. Ai! poupa-me a Juda!...
  Escuta-me, por Deus! e a indignao refreia!
  Tenho medo do povo... elle  to leviano!...
  Ser muito melhor seguir o nosso plano.

PONCIO sem querer ouvil-o:

  Que poder falhar!

HANAN n'um protesto:

                     Que  firme!

JUDAS

                                  Que  seguro!

HANAN matreiramente:

  Uma escolta romana ao meu dispr, e juro
  Por Moyss que manh de noite ser preso
  O Nazareno.

E em tom de muita confiana, como velha autoridade que bem conhece os
seus governados:

              O povo ha de ficar surpreso,
  Ao saber no outro dia a grande nova. Embora!
  No deve protestar, porque elle no ignora
  Que  depois d'manh o dia consagrado
  Ao festejo da Paschoa. Assim, manietado
  E mudo, ha de assistir ao julgamento e morte
  Do Profta.--Senhor, bem vs que d'esta sorte
  Moyss perde um rival, Tibrio um inimigo.
  --Este homem prometteu que ha de ensinar o abrigo
  Onde fica de noite o Nazareno occulto
  E os discipulos...

JUDAS

                     Que ho de fugir ao tumulto...

PONCIO que os ouviu taciturno, balbucia, como falando a si proprio:

  Um cadaver de mais, um cadaver de menos
   coisa que no traz aos meus dias serenos
  Nenhuma inquietao, nenhum remorso...--Hanan,
  Ds-me a tua palavra...?

HANAN

                          O Profta, manh
  Por esta hora, se Deus no se mostrar contrrio,
  Ha de estar preso.

PONCIO

                     Bem! Pois n'esse caso...

Dirige-se ao terrao e batendo as palmas, chamando:

                                              Ostiario!

HANAN radiante de alegria, ao ouvido de Judas:

  Ganhmos, afinal! Sers recompensado
  Pelo teu grande zelo,  Judas.

JUDAS soturno:

                                 Obrigado...

HANAN

  Um prmio te darei. Trinta moedas; queres?
  De prata!

JUDAS indifferente:

            Sim, Hanan... Acceito o que me deres.

O OSTIARIO que appareceu no terrao:

  Chamaste-me?

PONCIO

                 de crr que no Pretorio esteja
  Algum centurio.  Poncio quem deseja
  Que se d cumprimento a tudo que estes dois
  Homens disserem.

O OSTIARIO

                   Bem.

PONCIO

                      Fique entendido pois.
  Ao Pretorio tu mesmo agora os encaminha.

E passando pela frente de Judas e de Hanan, sem para elles olhar,
retira-se para os seus aposentos.

HANAN que se curvra muito  passagem de Poncio, murmra:

  Moyss ha de vencer!...

JUDAS tambem n'um murmurio, quasi inaudivel:

                          Maria ha de ser minha!...

Vo-se com o Ostiario pela outra porta.


Apparece ento a escrava Geda, que se encaminha para o terrao.

GEDA affasta o coxim, trazendo-o para o interior da quadra e faz correr
parte do reposteiro que pende do arco.

        Vae repoisar a minha ama...
        Como a noite  calma e linda!
        Mas ninguem ha que prescinda
        Das indolencias da cama!
        Muito ingrata a Humanidade,
        Que acha as trvas de Morpheu
        Preferiveis a este ceu
        De risonha castidade!
        Talvez seja por vingana
        Que a mostrar-nos a outra face
        A Lua no se abalana!
        Seja l pelo que fr,
        Que sem protesto no passe,
        Diana, o teu desamor!

Acaba de fazer correr brandamente o reposteiro. Depois vae buscar o
candalabro e dispe-se a leval-o comsigo.

Mas o reposteiro agita-se,  corrido pela parte exterior por mo nervosa
e resoluta, e uma mulher d'Israel apparece offegante, com o rosto
occulto por espesso veu de l negra.

A MULHER adiantando-se como procurando alguem:

    Claudia?

GEDA admirada e insolente:

            Quem te deu a livre entrada?
    Que vens fazer aqui, juda?

A MULHER

                                Venho
    Para falar a Claudia, unicamente
             este o meu empenho.

GEDA

    E que importa o motivo, se  costume
    No entrar sem licena do Ostiario?

A MULHER

    Em pouco a minha falta se resume:
            Vi tudo solitario...

GEDA

    Esperasses.

A MULHER

                Desculpa-me...

GEDA

                              Duvdo
    De que a minha ama te receba.  tarde.
    A menos que a tivesses prevenido
            De vir, e que te aguarde.

A MULHER assumindo attitude imperiosa:

    Urge que eu fale a Claudia.  muito srio
    O que me traz!

GEDA dominada pelo tom de voz da desconhecida, colloca o candalabro na
meza.

                   Eu vou...--Temos misterio!

E entra nos aposentos de Claudia.

A mulher, vendo-se ssinha, ergue ento o vo.  Maria de Bethania. 
fadiga reune-se no seu rosto transtornado profundo abatimento moral.

MARIA com os olhos erguidos ao ceu, os labios balbuciantes, como n'uma
prce:

   essencia do Bem!  divinal encanto,
  Que fazes do Amor a tua crena unica!
  Presinto que a Desgraa estende o negro manto
  E deixa a descoberto a sanguinaria tunica,
  Pairando sobre ti mais proxima que outr'ora
  Presinto que o teu rosto, onde sorri ventura,
  Em breve deixar de ser como  a aurora,
  Tornando-se, meu Deus! em grande noite escura!
  Mostra-te para mim bondoso e esmoler:
  Escuta-me, Senhor! E que seja bastante,
  Para fazer da noite aurora triunfante,
  Uma lagrima ardente e pura de mulher.

E fica absorta, com a cabea encostada ao pedestal do busto de Tiberio.

CLAUDIA apparece muito descuidosa, e, ao vel-a, no reprime o seu
assombro.

    Maria de Bethania?! O qu? Pois tu
    Ousaste vir aqui? Pois desafas
    Com a tua presena o meu rancor?
    Tens a loucura, a falta de criterio,
    _De brincar com as cinzas inda quentes_?

MARIA baixou a fronte; e a meia voz:

    Perda-me, Senhora...

CLAUDIA

                          O que fizeste
    Da altivez soberana e do teu odio?

MARIA

    Perda-me, senhora. Quem se humilha,
     porque tudo esquece, e quem supplca
    O perdo d'uma offensa, tem direito
    A ser ouvida...

CLAUDIA encostando-se  meza, e esmagando Maria com a imponencia da sua
figura:

                    Apraz-me isso que dizes.
    Tu propria te encarregas de vingar-me.
    Optimamente!--O que  que tu me queres?

MARIA com meiguice:

    Nunca viste, depois da tempestade,
            Quando vem a bonana,
    Resplandecer de luz na immensidade
            O Arco da Alliana?
    Pois que venha, senhora, em tal momento,
            Um meigo olhar bondoso
    Alegrar do teu rosto o firmamento
    Como o divino trao luminoso.

CLAUDIA com uma risada:

    No faas poesia, que Virgilio
    Mandou lanar a sua Eneida ao fogo!
    Comeas muito mal. Por um idilio!...
    Do teu poema a sorte pes em jogo...

MARIA docemente:

    Na ironia cruel quanta amargura!
            Esta hora  suprema.
    Vou falar-te d'um ser todo candura...

CLAUDIA zombeteira, petulante:

            O heroe do teu poema?

MARIA animando-se pouco a pouco:

    Heroe, disseste bem, mas que regeita
            O gladio vingador,
    E que tem na palavra uma arma affeita
             bondade, ao amor...
    Ouvindo-lhe o falar to meigo e doce
            Que de manso deslisa,
    Perfumado, subtil, como se fosse
            O perpassar da brisa,
    As almas estremecem, de sentidas,
            E ficam-se amorosas,
    Desabrochando trmulas, flordas,
            Como botes de rosas!
    Ha j trez dias, Claudia, que o terror
             para mim veneno!
    Querem matal-o! Ai! salva o meu amor!
            Ai! salva o Nazareno!
    No deixes que lhe roubem a existencia,
            E termina o martirio
    D'esta paixo que tem do Sol a ardencia,
            E a pureza d'um lirio!
    Ordena que o no matem, Claudia! acalma
            Os monstros malfasejos,
    Que eu a teus ps arrojarei minh'alma
            N'um effluvio de beijos!

E ce de joelhos em frente d'ella, com a fronte erguida, o olhar febril,
os braos estendidos, supplicante.

CLAUDIA depois de nova risada:

    Isto  completamente um caso novo,
            E agrada-me de vras
    Que sejas tu, mulher, em vez do povo,
    Quem venha interceder pelo Profeta
            Com lagrimas sinceras!
     bello!

MARIA

             Tem piedade!

CLAUDIA revolvendo na ferida o punhal da ironia:

                         Honra o teu sexo
    O platonico amor que te inquieta;
    E n'elle vejo mais do que um reflexo
    Do feminil civismo d'outras eras.
            Tu excedes Cornelia,
    E de Coriolano a me Veturia!
    --Tenho notado haver n'esta Juda
    Mais valor nas mulheres que nos homens,
    O que toma o aspecto d'uma injuria
            s patricias de Rha!
    Judith a Holofernes rouba a vida,
    Para salvar o povo seu amante,
            Ao vr que elle agonisa;
    Esther, em patrio amor toda incendida,
    De Assuro affronta a crueldade e insnia;
            Debra, a profetisa,
    Entra na lucta e sae-se triunfante...
            Agora vem Maria de Bethania!
    --Palavra, que a Juda  divertida!

Rindo sempre, passou pela frente de Maria e sentou-se no coxim, depois
de ageitar-lhe as almofadas.

MARIA erguendo-se, n'um movimento de indignao:

  Mas pe fim ao desdem, que chega a ser um crime!
  Quando uma alma se dobra e tanto se deprime,
  Quando um peito solua, a compaixo ordena
  Que a ironia que esmaga e o riso que envena...

A um olhar severo de Claudia, humildemente:

  Oh! peo-te perdo! Esqueo-me de tudo
  Que no seja o tormento indmito e agudo,
  Que me offusca a razo e o peito me lacra!
  Perda. Tem piedade. Apenas eu quizera
  Que soubesses tambem como  risonha a vida,
  Que toda se consagra a uma entidade querida:
  Sorrir quando sorri, chorar quando ella chora;
  Respirar o subtil perfume que evapora;
  Enchermo-nos da luz que o seu olhar derrama;
  Silenciosamente, amar tudo o que ella ama;
  Ouvir-lhe da palavra a doce meloda
  To limpida, to casta e pura, que enebra,
  Vibrando dentro em ns alguma coisa ideal,
  Semelhante, no brilho, ao riso divinal
  Da estrella que, tremente, em candidez scintilla,
  Quando ao longe a manh vem a romper tranquilla.

Claudia tem-se reclinado no coxim e, cerrando as palpebras, conserva-se
impassivel. Maria cae de joelhos junto d'ella.

   Claudia, s bondosa e presta-me sentido:
  Tu poders talvez, pedindo a teu marido...
  Tu s ba, afinal; e eu fui leviana
  Quando te respondi com altivez soberana.
  Esqueces tudo, sim? J no me tens rancor
  E vaes poupar minh'alma,  Claudia,  enorme dr...
  --Mas fala, mas responde a isto que eu te peo!
  Ai! que ella no me escuta!  Deus, eu enlouqueo!

E chora convulsamente, com a cabea entre as mos, os cotovellos
fincados no coxim.

Claudia, sempre immovel, impassivel, parece dormitar.

Ao cabo de copioso pranto, Maria afasta do rosto as mos, e continuando
de joelhos, com o olhar vago, como em extasi, as mos com os dedos
enclavinhados sobre o regao, diz em voz muito dolente:

        No me resta uma esperana,
        Pois no me escuta ninguem!
        Dorme a eterna Divindade
        No azul da Immensidade,
        Nos horisontes d'alm,
        Onde no chega um suspiro,
        Onde o silencio  profundo.
        Ha de ser bom tal dormir,
        Descuidoso do porvir,
        Descuidoso d'este mundo,
        N'aquelle reino divino
        Tecido por andorinhas,
        Feito s para os honrados,
        Para os bons e desprezados,
        Para as meigas creancinhas...
        To sereno como o lago
        Da Galila florda,
        Que se formou por encanto
        Do arrependido pranto
        Da me Eva arrependida...
        --Parece mesmo que o vejo
        No seu manto azul. Dir-se-ia
        Que o firmamento amoroso
        Teve a alegre fantasa
        De enviar  terra um beijo
        Puro, suave, bondoso...
        Parece mesmo que o vejo.
        -- seu olhar calmo e doce;
        A tudo o mais fica estranho,
        Quando distingue o fulgor
        Dos astros, como se fosse
        O cuidadoso pastor
        Do scintillante rebanho...

CLAUDIA adormecida, vagamente:

         seu olhar calmo e doce...

MARIA continuando alheiada a tudo:

        Tem o brilho das seras
        O cabello perfumado,
        Que nos hombros lhe descansa
        E lhe cerca as faces claras.
         to formoso e doirado
        Como um sorrir de creana...

CLAUDIA adormecida, vagamente:

        Tem o brilho das searas
        Seu cabello perfumado...

MARIA ergue-se vagarosamente; e, resignada:

  Mais uma vez perdo te peo. Eu vou sahir
  E no perturbarei,  Claudia, o teu dormir.
  Reconheo por fim que era a esperana ftua.
   inutil chorar em frente d'uma esttua...
  --Retiro-me vencida, assim como o pago,
  Que dedicou  Sphinge, ardentemente e em vo,
  Os gritos da sua alma e os canticos do amor.
  Podes dormir risonha: eu levo a minha dr!

E com a cabea descada sobre o peito, dirige-se para o terrao em
passos vagarosos, como se fra a caminho da morte, com o negro vo
pendente ao longo das costas. Sem ter olhado para traz, desce a comprida
escadaria.

O somno de Claudia  agora profundo. Tudo ficou silencioso. Estinguem-se
uma a uma, com lentido, as vllas no candalabro; e o luar, a que o arco
sem peias d passagem, faz projectar o busto de Tiberio na parede
fronteira, como um enorme phantasma negro...




QUARTA JORNADA

EM 15 DE _NISAN_




QUARTA JORNADA

EM 15 DE _NISAN_


Estamos n'um dos sitios mais tristes e isolados junto da muralha de
Jerusalem. A denegrida alvenaria sobreposta  como gigantea molle, 
indecisa luz da madrugada. Ceu torvo, onde as nuvens carregadas desfilam
mansamente.

Das juncturas das pedras da muralha pendem aqui e alem longas hervas
parasitas balouadas pela aragem fria, e que parecem,  frouxa luz,
corpos sem vida de suppliciados.

Abre-se na muralha pequena porta,  qual se chega por tortuoso e natural
caminho, que, no distante d'ella, passa por sobre um pequenino outeiro.
Parallelamente  muralha, alonga-se uma continuidade de penhascos onde
os cardos vegetam, e algumas figueiras bravas se contorcem rachiticas.
Junto ao slo, uma caverna abre a sua negra fauce misteriosa.

Para alem do pequeno outeiro comprehendido entre a muralha e os
penhascos, mal distinguimos ainda o horisonte vasto, rido, scco,
argiloso e triste.

Choveu. Pairam no ambiente exhalaes humidas. Relampagos fuzilam de
quando em quando; os distantes troves ribombam roucamente.

A custo o dia vem rompendo; os galos cantam ao longe, ao desafio.


O ultimo relampago deixou nos vr junto da porta um soldado romano que 
Ampo, fazendo sentinella. Sob a arcada dois vultos esto deitados: so
Lauso e Fbio, tambem soldados de Tiberio, porque as sentinellas foram
reforadas na vespera por ordem de Poncio.

AMPO, tocando com o p no corpo de um dos que dormem:

    Erguei-vos, camaradas, pois no deve
    O negro deus do somno tal imperio
    Exercer sobre vs, quando do Olympo
    Cem com furia as cleras de Jove.

LAUSO accordando:

    Novamente comea a tempestade?

FBIO, erguendo-se logo; voz de homem dado ao alcool e praguento:

    Foi aquelle patife do Vulcano,
    Que lhe enviou fornecimento novo.

LAUSO erguendo-se:

    Pois ainda troveja?

AMPO

                        Muito ao longe.

FBIO

    O peior  que Phbo, com certeza,
    No vem to cedo.

AMPO

                      Os galos j cantaram
    Das bandas do Levante, amigo Fbio.

LAUSO

    Olha! alguem se dirige para aqui.

FBIO rindo:

    Talvez seja Noctifer, deus das trevas.

E os trez esperam, encostados s lanas. So seis miseros mercadores
avergados ao peso de seus fardos. Quando chegaram em frente dos
soldados.

UM MERCADOR em tom submisso:

     permittida a entrada aos mercadores?

AMPO

    A dvida, meu velho, est smente
    Em pagarem tributo ao publicano.

O MERCADOR

    Decerto que pagamos, como  de uso;
    Mas quando vi trez guardas junto  porta.
    Fiquei suppondo alguma novidade...

AMPO

    Pois qu! no morreu hontem o profeta?
    Nada mais facil do que haver rebeldes...
    Conhecemos a vossa grande astucia
    E o vosso rancor, judeus malditos!

O MERCADOR por entre dentes:

    Maldita Roma!...

FBIO com uma risada alvar:

                    Eh! l! V como falas,
    Que o _teu rei_ j no vive!

O MERCADOR muito seccamente:

                                 Da Juda
    Ha muito que fugiu a realeza!

E os mercadores entram na cidade, seguidos pelos trez soldados que
d'elles chasqueiam.


A tempestade vae acalmando; as ultimas nuvens passam mais serenas. Um
vulto d'homem arrasta-se, vagaroso, para fra da caverna, como se fra
um animal silvestre. A custo sau e a custo distendeu, para se erguer,
os membros entorpecidos.  Judas. Traz sobre si a tunica smente,
esfarrapada e suja; cabea a descoberto, o corpo enlameado, os ps
descalsos.

JUDAS, que permaneceu por longo tempo com o olhar erguido para o ceu, a
voz muito enfraquecida:

  Vem o dia a nascer das regies eternas.
  Depois de ter lanado as iras justiceiras,
  O grande firmamento agora  mudo e quedo.
  Na penumbra, os chacaes regressam s cavernas,
  E vo pedir a noite s fendas do rochedo
            As aves agoureiras.

E olhando para a caverna d'onde sau:

  Nunca tornes a ouvir o minimo sussurro,
   treva de amargura e negras maldies!
   antro, que animei co'o halito do crime,
  Cae de novo em mudez! As aguas do enxurro
  Ho de lavar-te ainda,  meu algoz sublime,
            Das tectricas vises!

Com a cabea apoiada n'uma das mos e o cotovello na outra, move-se com
passos incertos, indecisos. Senta-se n'um monticulo de pedras; e depois,
como reconstruindo mentalmente o que se passou na ante-vespera:

  Estavam a dormir ao p das oliveiras,
  E a Lua derramava em cheio nas clareiras
  O argentino olhar, o seu formoso pranto.
  Fui na frente da escolta, e ao avistar-lhe o manto,
  Caminhei para elle. Ergueu-se, olhou, sorriu...
  Mas ficou-se indeciso apenas descobriu
  Dos archotes a luz na solido campestre.
  --Adiantei-me. Deus seja comtigo, Mestre.
  Fitou-me silencioso. Aproveitando o ensejo,
  Dei-lhe a mo desleal, e um repellente beijo
  Depuz n'aquella face imperturbavel... Ai!
  Co'um latido feroz toda a matilha sae
  Da sombra do arvoredo e cerca-o n'um momento!
  Aos amigos leaes occorre o pensamento
  Heroico de empregar a fora. A gritaria
  Desperta o olival da funda lethargia.
  Cresce o tumulto. Um ferro ergue-se ameaador...
  Contra mim? No sei bem, porque me invade o horror.
  Por entre a ramalhada, aos pios, uma c'ruja
  Espavorida vae dizendo-me que fuja.

E erguendo-se de chofre, animando-se:

  Percorro velozmente os grandes olivaes;
  Quando abandono a sombra, entro nos matagaes;
  O manto esfarrapado o rasto meu indica,
  Depois a propria carne! A alma, porem, no fica,
  Pois se olho para traz, sobre a verdura espessa
  Persegue-me, a rolar em sangue, uma cabea.
  Termina de repente o estenso matagal,
  Foge-me a terra, e vou car n'um tremedal
  Onde tenho uma lucta encarniada e louca:
  A lama em borbotes entra-me pela bocca,
  Os limos que eu encontro agitam-se irrequietos,
  Voam por sobre mim, zumbindo, mil insectos,
  Fogem nuvens de rs para logares occultos,
  E o seu coaxar parece arremetter insultos!
  Mas saio vencedor e a terra firme alcano;
  Ento quero parar... mas corro sem descanso.
  As foras vo fugindo, e julgo que do peito
  O corao rebenta exanime e desfeito!
  No se demora o rio:  tempo emfim! D'um alto
  Vejo a Lua a brilhar no espelho da agua; salto,
  Alheio  dr do corpo, e emquanto vou nadando
  Sinistramente ao longe um lobo fica uivando.
  Chego  margem; depois entro por um atalho
  Escuro e pedregoso onde cau o orvalho...
  Afinal, afinal,  grande Deus, consigo
  Descobrir de repente o mais seguro abrigo!

Abeirando-se da caverna:

  Sem saber onde estou, a estremecer d'horror,
  Esfarrapado, ardendo em febre, sem vigor,
  Ouvindo sempre ao longe uns gritos de tortura,
  Venho enterrar-me aqui, na treva da amargura,
  Onde encontro por fim, nas e desgrenhadas,
  A Consciencia a chorar, a Infamia s gargalhadas!

Ri convulso, com a cabea entre as mos. E o cho da caverna
responde-lhe longamente...

Depois de grande silencio, solta um suspiro d'alvio, e, com os braos
pendentes, a cabea descada sobre o peito:

  Eliminei a causa, e agora nem procura
  A minh'alma saber se existe ou j no dura
  O effeito. Um assassino  o que vejo em ti,
  Judas!

Apertando na mo um pequeno sacco de coiro que em si guardava.

        O corao refugiou-se aqui
  Transformado em dinheiro.  prata reluzente,
  Mas se queres vr sangue, enterra n'elle o dente!
  E falas de ambio, tu que possues a marca
  Das filhas sem pudor do velho patriarcha!...
  Relembras o incesto horrendo de Thamar,
  E o crime de Ruben, que ousou enxovalhar
  A honra de seu pae no leito da madrasta!...
  E falas de ambio, tu, cuja voz arrasta
  Em de redor de mim o grande amontoado
  Das velhas podrides da carne e do peccado!

Ferido por um rapido pensamento:

  --Vou arrojar ao Templo este dinheiro infame,
  E talvez que o Senhor o seu perdo derrame...

Mas detendo-se, hesitante:

  Tenho medo... no sei...

E supersticioso:

                          Era de madrugada
  E eu ia caminhando em terras d'Ephram
  Quando um sapo surgiu d'entre risonha msse
  Para vir espreitar meus passos junto  estrada.
  Esmaguei o!--Se alguem agora me fizesse
            A mesma cousa, a mim?

Compadecdo:

  Meus olhos, vde a luz que o firmamento inunda,
  Que a luz tambem se fez para os olhos da serpente!
  Rasteja para longe,  animal mesquinho,
  Deixando atraz de ti a escurido profunda...
  Rasteja para longe... e sgue o teu caminho
            Silenciosamente...

A passos lentos, vae-se, costeando a muralha at dobrar o angulo que
ella frma.


Duas mulheres, com os rostos occultos por densos vos, sem da cidade.
Alguns passos dados, pram como avergadas pelo cansao ou pela dr. So
Maria de Bethania e sua irm Martha.


MARIA com o brao pela cintura de Martha, e a voz muito suave e muito
resignada:

        Fica perto da cidade
        O sepulcro:  no jardim
        Do Jos d'Arimatha.
        Ao aroma do jasmim
        Casa-me o aroma da rosa...
         tudo meigo e silente
        N'aquelle triste remanso
        Onde elle dorme. A corrente,
        Que vae regar os pomares,
        Tem uns murmurios to doces
        E to cheios de misterio...

MARTHA

        Maria, irm, se tu fosses
        Contaminar o teu corpo?
         prohibido na Lei
        Ir a um sepulcro...

MARIA

                            Decerto...

MARTHA

         um crime.

MARIA

                    Sim; bem sei.
        Mas devo eu conjecturar
        Que os negros vermes da terra
        Contaminem moradia
        Que tanto perfume encerra?
        As borboletas smente,
        Aereos beijos de amor,
        Ho de poisar junto d'elle
        Como poisam n'uma flr,
        Indo contar em seguida
        Aos espinhos do balseiro
        Quanta fragancia divina
        Exhala aquelle canteiro.
        ... Ao passo que eu viverei
        Na grande dr do meu pranto,
        Como a aranha silenciosa
        Que fez a teia n'um canto.
        --No ceu da minha existencia
        Pairavam tranquillamente
        Dois flcos de nuvem, que era
        Como o fumo transparente...
        Andavam pairando assim
        Despreoccupados os dois,
        Para ao sopro d'uma aragem
        Se desfazerem depois...
        Fumo illusorio que sobe
        Mansamente pelo ar
        E que se esvae n'um instante
        P'ra nunca mais se juntar...

MARTHA

         minha irm!...

E abraadas, com as frontes reclinadas no hombro uma da outra, soluam
longamente.

Vem ento da cidade outra mulher, que pelo trajar romano logo se
reconhece ser Claudia.

CLAUDIA chegando junto de Maria e Martha, cujos rostos se conservam
occultos, pra; e depois, poisando a mo no hombro de Maria, diz com voz
muito meiga:

                         Porque choras?

MARIA que se voltou, reconhecendo-a e baixinho  irm:

        Ella?!

MARTHA receiosa:

               Claudia!...

CLAUDIA

                          Que motivo
        Gerou no teu seio a Dr,
        A negra me do gemido?
        Conta-me tudo, mulher.
        --Morreu-te um filho, o esposo,
        Ou um irmo...

MARTHA ao ouvido de Maria:

                      Oh! meu Deus!
        Como o seu falar  outro!

CLAUDIA

        Tambem eu soffro ha trez dias
        D'um enorme soffrimento,
        E quero que na cidade
        Fiquem todos conhecendo
        Quanto Claudia  bondosa,
        Claudia, que o povo despreza,
        E quanto chora tambem
        Pela morte do Profeta.

MARIA absrta:

        O que oio!

CLAUDIA

                    D'uma mulher
        Taes lamentos recebi,
        Que um novo ser despertou
        De chofre dentro de mim.
        Sonhei depois, e que sonho!
        Nem mesmo o posso contar...
        To cheio de quietao,
        De suavidade e de paz,
        Que fiquei por muito tempo
        Absorta, de madrugada,
        Ao construir na memoria
        Todo o sonho que sonhara.
        --Eu fugira para longe,
        Para um paiz to distante,
        Que este mundo em que vivemos
        No me ficava ao alcance;
        E alguem cercado de luz
        E de meigas creancinhas
        Veio alegre ao meu encontro
        Nas paragens infinitas...

MARIA

        O que te disse?

CLAUDIA

                        No sei...
        Apenas sei que, accordando,
        No conheci a minh'alma
        Transformada por encanto;
        E por que um plano de morte
        Estava urdido em segredo
        Contra o bondoso Profeta,
        Logo intentei desfazel-o,
        Supplicando a meu marido
        Que em seu favor empregasse
        Todo o auxilio. Impossivel!
        A suprema divindade
        Cara em somno profundo
        No seu grande leito azul,
        Deixando que o Nazareno
        Expirasse n'uma cruz!...

MARIA baixinho  irm:

        E eu que ainda a accusava!...

CLAUDIA

        A minha dr reparti
        Comtigo; deves portanto
        Confiar tudo de mim...

MARIA espansiva:

        Para qu, se tudo sabes?

CLAUDIA

        Tudo sei?...

MARIA

                    Pois que em Jud
        Nenhum rosto de mulher
        Por mais ninguem chorar
        N'este momento.

CLAUDIA

                        Por Elle?

MARIA animando-se:

        Sim, por Elle, Homem-Misterio,
        Que voou, como o aroma
        Da pobre rosa pendida
        Sobre a haste, dolorida
        Pela mgua da sadade...
        --Vinde comigo, mulheres,
        Orvalhar co'o vosso pranto
        A boceta em que dormita
        Aquelle celeste encanto.
        Ide colher  campina
        Braados de malmequeres,
        D'alfazema e rosmaninho,
        E vinde, vinde comigo
        Dispol-os naquelle ninho...
        E vs,  mes, que trazeis
        No ventre o fructo do amor,
        Purificae-o aspirando
        O perfume e o calor,
        Que se evolam brandamente
        Do sepulcro sorridente,
        Como as nuvens que perpassam...
        ... Fumo illusorio, que sobe
        Com lentido pelo ar,
        E que se esvae n'um instante,
        P'ra nunca mais se juntar...

E cala-se, a voz estrangulada pelas lagrimas.

CLAUDIA suspeitosa:

        Estas palavras?... Juda,
        Impossivel existirem
        Dois coraes como o teu!

MARIA

        J no o tenho: morreu.

CLAUDIA

        Como te chamas?

E vendo o rosto de Maria que se desvelra:

                        Maria!

MARIA cando de joelhos e beijando-lhe as mos:

        Sim! que se roja a teus ps
        Humildemente contricta,
        Para dizer-te: mulher,
        S bemdita, s bemdita!

CLAUDIA com a voz cheia de bondade, obrigando Maria a erguer-se e
abraando-a:

        Ergue-te,  alma sublime,
        Que encheste de luz a treva
        E que tiveste o condo
        De abafar a voz do crime
        Co'o soluo do perdo.
        --Tambem eu ia levar-lhe
        O meu pranto dolorido
        Como nunca tive igual.
        s a mulher que fugiu
        Para o reino do Ideal...
        A terra  muito mesquinha,
        E o vo da andorinha
        Convida a voar tambem...

Cingindo com os braos Maria e Martha:

        Partamos, sim, pela estrada
        Que nos conduz ao misterio.
        Sorri ao longe a alvorada...
        Vamos tranquillas, serenas,
        Bater a cada poisada,
        E sejam nossas palavras:

Levando-as comsigo docemente:

        Vinde comnosco, mulheres,
        Orvalhar co'o vosso pranto
        A boceta em que dormita
        Aquelle celeste encanto.
        Ide colher  campina
        Braados de malmequeres,
        De alfazema e rosmaninho...

E vo-se as trez pela estrada a caminho do sepulcro.


O firmamento agora  limpo. Raras estrellas brilham ainda. A luz da
madrugada define-se, e a brisa traz os perfumes dos vergeis e trigaes de
Gethsemani. Por um pequeno atalho cinco homens avanam para a cidade:
Joo, Gamaliel, Simo Pedra, Eleazar e Simo de Bethania. Todos
denunciam no andar e no rosto o abatimento moral em que se encontram, a
irresoluo, o receio. Chegados em frente da muralha:

SIMO PEDRA que viera junto de Joo:

  No entres na cidade...

ELEAZAR

                          s muito conhecido.
  O Conselho no tem desviado o sentido
  Dos amigos do Mestre.

SIMO

                        Olha que talvez pense
  Em prender-te, e depois nada ha que recompense
  O inutil sacrificio.

SIMO PEDRA

                      Ao teu valor opponho
  Todo o meu raciocinio.

JOO que ficra immovel olhando para a muralha da cidade:

                        Ainda julgo um sonho!...

GAMALIEL encostado ao bordo, a meia voz, rancoroso:

  Sobre a cruz aviltante, assim como o homicida,
  Como o escravo traidor, como o ladro!...

JOO irrompendo:

                                             Vida,
  E continas tu dando vigor a quem,
  Depois de infamia tal, dorme em Jerusalem!
  Profetas de Sio, da campa alevantae-vos
  Para escrever ali com sanguinarios laivos
  Esta nefanda historia, este inarravel crime!
  Dobrae Jerusalem, como se dobra um vime,
  E que a mo do Senhor, terrivel, iracundo,
  Em ltegos crueis com ella aoite o Mundo!

SIMO PEDRA

  Co'a doutrina do Mestre o odio no se casa...

GAMALIEL por entre dentes:

  Mas tambem cicatriza a f'rida o ferro em braza!

JOO desalentado:

  E assim tudo acabou!...--Sadosa Galilea,
  Onde sorris tranquilla,  minha pobre aldeia!...
  Quantas recordaes do teu ceu, do teu ar,
  Dos dias que passei no teu sereno mar,
  Das noites que dormi na relva da campina,
  To descuidoso! Me da excepcional doutrina,
  Que encheu d'enthusiasmo e risos seductores
  As almas infantis d'ingnuos pescadores,
  Fazendo-os caminhar atraz d'uma viso,
  Confiados, como vae por entre a cerrao
  A barquinha velleira ao descobrir farol!
  Prados, que sois jardins, e onde o rouxinol
  Canta serenamente em noites estivaes;
  Macieiras em flr; regatos que passaes,
  Ondeando, como ondeia  brisa, levemente,
  Da alde virginal a trana refulgente...
  Montanhas de Nain; e tu,  grande monte,
  Que te elevas no fundo azul do horisonte,
  Redondo como um seio a amamentar os astros...
  Meigo Genezareth, campos, cabanas, mastros,
  Rochedos, alcants, seras e pastagens,
  Que bordam a primor tuas alegres margens...
  --Eis aqui finalmente a horrivel derrocada!
  A solida affeio dos Dse feita em nada;
  A cegueira vencendo; a Luz amortecida;
  A tripudiar em ns um ladro homicida;
  E eu, no meio de tudo, extactico e absrto,
  Buscando o olhar de Deus na pallidez d'um morto!...
  --E assim tudo acabou!

GAMALIEL avanando para elle nervosamente:

                        Quem fala de acabar?
  O fogo ainda no se extinguiu no altar
  Da nossa consciencia, e os rubros holocaustos
  Onde fomos depr as almas ainda exhaustos
  No deixaram de todo os nossos coraes!

JOO desanimado:

  Que havemos de fazer?...

GAMALIEL animando-se e animando-o:

                          Povos, religies,
  Autoridades, leis,  tudo movedio
  E dbil como ao spro um tmido aranhio!

SIMO PEDRA

  Queres dizer ento...

ELEAZAR

                        A lucta?!

GAMALIEL

                                  Brao a brao,
  No se deve luctar. Seria um erro crasso
  Instituir o Bem co'o ferro. No! Deixae
  Esse erroneo principio aos filhos de Schammai!

JOO erguendo-se:

  O que pensas?

GAMALIEL

                Que chega a ser um attentado
   memoria do Mestre abandonar o arado
  Com que elle andou lavrando a consciencia humana!
  Eu quero a lucta, sim, mas nunca a lucta insana,
  Que esfria os coraes e purpurisa as ruas!
  No quero vr brilhar ao sol espadas nuas!
  Impiedades brutaes, odeio-as e renego-as!

SIMO PEDRA

  Mas falste de lucta.

GAMALIEL

                        Humilde, mas sem trgoas;
  Branda, mas incisiva; humana... mas divina!
  Como arma, aquelle dom secreto que extermina,
  Ferindo os coraes sem que haja soffrimento.
  Ruge, como o trovo e gme como o vento,
  Murmra como a fonte e estla como o raio,
  Tem a ardencia do fogo e a alvura do desmaio;
  Dolente, acarica; em furias, escalavra!
  Esta arma triunfante, esta arma...

JOO com o olhar brilhante:

                                      a palavra!

Mas logo receioso:

  Falar s multides...?

SIMO PEDRA tambem receioso:

                         Continuar...?

GAMALIEL

                                      Decerto!
  Entrando no porvir que Elle deixou aberto.
  Pois que o Mestre morreu, a alguem cumpre seguir
  O caminho traado entrando no porvir,
  E esse alguem s tu!

JOO n'um sobresalto:

                       Eu?

ELEAZAR abraando-se n'elle, espansivo:

                           Sim, Joo!

SIMO incitando-o:

                                    Ninguem
  Melhor que tu!

SIMO PEDRA secundando j agora Gamaliel:

                Qual  de ns o que mais tem
  O verbo inspirador, altivo e fulgorante?

JOO indeciso:

  Simo, Gamaliel, amigos... Ai!

GAMALIEL

                                 vante!

ELEAZAR

  Para gloria do Mestre!

SIMO

                         E gloria tua!

SIMO PEDRA

                                       E nossa!

GAMALIEL

   bella a occasio...

JOO

                        E quem vos diz que eu possa?...

SIMO PEDRA

  Sers novo profeta, aproveitando o exemplo...

GAMALIEL agarrando Joo por um brao:

  Vo comear agora os canticos no Templo.
  Anda comnosco!

ELEAZAR

                 Vem!

SIMO PEDRA

                      S forte!

GAMALIEL querendo arrastal-o comsigo:

                               N'um instante,
  De povo te vers cercado...

JOO n'uma grande espanso:

                              vante! vante!
   preciso arrancar ao morbido lethargo.
  A doutrina do Mestre!

GAMALIEL em doida alegria:

                        Emfim!

JOO cheio de ardente enthusiasmo messianico:

                               meu o encargo!
  O caminho do Bem eu vejo, como outr'ora
  A escada de Jacob  luz da meiga aurora.
  Por ella vae subindo um cro triunfal
  Proclamando no Espao o amor universal
  E a guerra sem clemencia s abjeces e ao vicio.
  vante! No desabe o slido edificio
  De que o Mestre assentou as bases! O thesoiro
  Da palavra, cando em grande chuva de oiro,
  Enriquea de novo a consciencia humana!
  Inspira-me, Senhor! a minha estrada aplana!
  Tu, que fizeste a luz, tu que fizeste o dia,
  Uma scentelha s do genio teu envia
  Ao meu cerebro! D-me a fora necessaria
  Que torne a minha voz da tua a emissaria!
  --Vamos, Gamaliel!

GAMALIEL como n'um grito de rebelio, avanando para a cidade:

                     Gloria ao profeta novo!

JOO vibrantemente:

  Dou a minha alma a Deus, e a minha vida ao Povo!

Entram todos na cidade, ouvindo-se logo a voz de

GAMALIEL bradando:

  Negra Jerusalem, escuta,  assassina,
  D'aquelle que morreu a divinal doutrina!

E depois, mais distante:

  Ouve, Jerusalem, que matas os profetas,
  As palavras que so do teu Senhor diltas!

E os brados do velho doutor da Lei proseguem por longo tempo cada vez
menos distinctos,  medida que o grupo se interna pelas estreitas e
tortuosas ruas da cidade.


No entretanto, Judas voltou do Templo em cuja caixa fra lanar o
dinheiro da traio, e quedou-se encostado  muralha junto ao angulo.
D'ali ouvira as ultimas palavras de Joo e os brados de Gamaliel.

JUDAS com desdem:

  Gloria ao profeta novo!--Insensatos! Joo,
  Vaes procurar a Morte! E eu... a expiao!

Toma pela estrada e n'ella caminha, affastando-se da cidade, mas, vendo
alguem que se approxima, reca e estca.

  Maria?!

MARIA parando tambem:

          Judas!

JUDAS, desvairado:

                Ah! cobarde salteador
  D'estrada! Vens talvez trazer o teu amor?
  O olhar, que seduzia, infunde repugnancia!
  O hlito d'outr'ora, a virginal frangancia,
  Que me embriagava, enja! Hlito, corpo, olhar,
  Ao largo! Vae, mulher! No poderei amar
  A carne do meu crime! Odeio-te!

MARIA, reposta da primeira impresso, serenamente:

                                  No vim
  Trazer o meu amor.

JUDAS

                    Que queres tu de mim?
  Trazes-me o teu perdo?

Solta uma risada nervosa.

MARIA

                          O riso da demencia
  Nunca ha de suffocar a tua consciencia,
  Que gme e se revolve em negro torvelinho.
  Podes rir... mas eu vou seguindo o meu caminho.

JUDAS impedindo-lhe a passagem:

  E a maldio ha de ir seguindo-te as pisadas!

MARIA

  A tua maldio... as tuas gargalhadas!...
  --Como o teu odio  bom!

JUDAS

                          Inda no  bastante
  Odiar-te! Se de ti fizesse minha amante,
  Como eu satisfaria este voraz desejo:
  Ferindo em cada olhar, mordendo em cada beijo!
  Que ventura, meu Deus! sermos no crime os dois,
  Fruir o teu amor, e arrojar depois
  O teu corpo e a paixo de que hoje ainda te nutres
  Aos ventres bestiaes dos vidos abutres!
  --Mulher, posso matar-te! Ao largo! tenho medo!...

MARIA muito calma:

  P'ra sempre guardarei, Judas, o teu segredo:
  O mundo  to cruel que aleives no reprime,
  Se junto da virtude elle descobre o crime.
  Mas entretanto... foge!

JUDAS rindo febril:

                          Acaso me suppes
  To cobarde que v fugir sem ter razes
  Mais fortes que o teu odio e a tua hypocrisia?

MARIA

  E se o Mestre voltar?

JUDAS rindo:

                        Que doida fantasa!

MARIA

  Se o visses novamente?

JUDAS de subito receioso:

                         Eu? vl-o?

MARIA

                                    Sim!

JUDAS

                                         No creio!
  A morte  vasto abismo...

MARIA, dogmatica:

                            Abismo, cujo seio
  No poder conter o que era illimitado!

JUDAS acobardado:

  Que dizes tu, mulher?!

MARIA em tom profetico:

                        Que dorme inanimado
  O insecto no caslo; ao sepulcro sombrio
  Elle proprio deu forma, urdindo-o, fio a fio,
  Vagaroso, em silencio, estranho ao mundo vrio,
  Como o trabalhador que no requer salrio
  E que s tem por fim realisar o plano
  De ha muito concebido. Em vo o olhar humano
  Procura descobrir o que existe no centro
  Do caslo: o misterio  silencioso dentro.
  Mas depois, certo dia, o homem v, absrto,
  Que o sepulcro  aberto e no encerra o morto!

JUDAS tomado de vago terror:

  Justos ceus!

MARIA animando-se:

              Has de vr, com a tua alma inquieta,
  Sar do seu caslo a enorme borboleta,
  Que n'esta hora talvez as palpebras descerra,
  Encher de luz o espao e de pavr a terra,
  Da grandeza de Deus ser vivo testemunho...

JUDAS trmulo:

  E car sobre mim co'o azorrague em punho!

MARIA terrivelmente:

  Emquanto no voltar, os olhos do covarde
  Ho de vl-o assim como hontem o vi  tarde:
  Co'o respirar opprsso, o corpo no madeiro,
  Nas angustias da morte, a olhar-te, justiceiro!

JUDAS caminhando d'um para outro lado, desvairado:

  No pode ser, no creio...

MARIA perseguindo-o:

                            Ha de falar-te, Judas,
   tua consciencia abjecta!

JUDAS tentando occultar o rosto:

                            No me illudas,
  Que eu nada vejo!

MARIA erguendo o brao:

                    Vs pairando sobre ti
  O Remorso, o fantasma eterno!...

JUDAS que seguira com o olhar o movimento de Maria, fixa-o na muralha, e
apontando tambem, trmulo, allucinado:

                                  Ali! ali!
  Co'aquelle olhar azul que a morte mais esfria!
  Ergue a fronte... descerra os labios... Ah! dir-se-ia
  Que vae falar-me!--Oh! cala-te! Fui eu
  Que te entreguei,  Mestre, ao inimigo teu!
  No me accuses, que sinto em mim a accusao;
  Tem os dentes da cobra e as garras do leo!
  Anda aqui dentro--ouviste?--a esfarrapar-me todo!
  Fica-me pdre o craneo, e o peito fica em ldo,
  Para ser to nojenta a apparencia que eu tome,
  Que nem os proprios ces matem comigo a fome!

E apontando de novo, como um vidente:

  O respirar opprsso... o corpo no madeiro...
  Nas angustias da morte a olhar-me justiceiro...
  Exactamente!--Elva os olhos para os ceus;
  A agonia final chegou: fala com Deus...
  A cabea descae no peito: vae morrer...

E n'um grito dilacerante, fugindo para junto da caverna:

  Ai! no! deixa-me em paz! No! no! No quero vr!

E resvalando o corpo ao longo dos penhascos, ce de bruos no cho, o
rosto occulto nas mos, gemendo, offegante.

MARIA mais compadecida agora, mas com a voz repassada de austeridade:

  Insultste-me ha pouco ainda. Eu tudo esquo.
  Tenho a razo bem clara, e tu s um posssso.
  Quanto ao Mestre, l tens em ti a accusao...
  A tua alma est sendo,  torpe vendilho,
  Passiva e sem vigor n'este fatal momento
  Assim como o enforcado a baloiar ao vento...
  --Adeus.

E entra na cidade vagarosamente, sem olhar para traz.


Ha um grande silencio entrecortado apenas pelos gemidos mal suffocados
de Judas. Pouco a pouco, vo-lhe voltando as foras, e ento

JUDAS erguendo a cabea e como acordado pela impresso que no seu
espirito deixaram as ultimas palavras de Maria:

           O enforcado?...

E ergue-se com custo. Interrogando a sua consciencia:

                             Emfim para que existo?

Pensa. Tendo apoiado a mo direita na cintura, o contacto da corda com
que cinge a tunica desperta-lhe a atteno e aviva-lhe na memoria
aquellas palavras de Joo que elle repte machinalmente:

  As estrigas de linho...

E prevendo o effeito:

                            Um lao... um n...

Resoluto:

                                                -- isto!

Ento, desatando a corda, dobrando-a em duas, formando um n corredio,
vae monologando, febrl, nervosa, sccamente:

  Para que hei de fugir, ouvindo a cada instante
  Correr atraz de mim um grito retumbante
  E vingador? Fugir?... Sob o azul dos ceus
  Quem pode combater a clera de Deus?
  Inda que fuja sempre, eu sempre retrocedo,
  Porque  fugir do Eterno o mesmo que estar quedo!
  No fugirei!--Se fico, atrocidades cruas...
  Hei de ser arrastado ahi por essas ruas,
  Padecerei do povo horrficos flagellos:
  Vir alguem arrancar-me os olhos, os cabellos,
  E transformar em lama o corpo do homicida!
  --No! Prefiro morrer... por ter amor  vida!

De sbito, n'um grito de independencia, muito egoista:

  Eu prefiro morrer! Que se escancre o espao
  Da treva! Sim,  Morte, eu quero o teu abrao!
  A maldio eterna o Eterno em mim derrame-a!
  Que importa! Serei grande at na propria infamia!

Allucinado novamente:

  Odeio-te, Virtude! odeio-te, Verdade!
  Renego do respeito e amor  Divindade!
  Eu creio s na Morte... e basta-me esta corda!

E ri, ri convulso. Batendo com a mo no peito:

  lerta, monstro! Ol! monstro hediondo, accorda,
  Para insultar a Vida, essa madrasta bruta,
  Que faz d'uma alma honesta uma alma dissoluta!
  E tu,  Mundo, pae d'este animal disforme,
  Vem lanar-lhe no corpo o teu escarro enorme!

E desapparece por entre os penhascos, correndo doidamente.


 j manh clara: o horisonte purpurisa-se e doira-se. Chilreiam
passarinhos no distante. No Templo comeam os canticos matutinos, e as
vozes das mulheres e das creanas chegam at ns em plangente e languida
meloda. Calam-se de sbito os gorgeios e paira em todo o ambiente
grande serenidade, como se toda a Natureza estivesse escutando.

Joo apparece  porta da cidade seguido por Gamaliel, Simo Pedra,
Eleazar, Simo de Bethania e por mulheres, homens e creanas. Caminham
todos silenciosamente, respeitosos, para ouvirem o novo profeta. Vem
Joo apenas com a tunica, descalso, a cabea e o peito a descoberto, os
braos cruzados, o olhar em extasi. Chegados  parte superior do pequeno
oiteiro, Joo parou. Os companheiros ficam junto d'elle. As mulheres com
os filhinhos s cavalleiras nos hombros, ao uso oriental, tomam para a
direita, e os homens para a esquerda do terreno inferior; sentam-se no
cho, j secco pelo vento, formando um semi-circulo em frente do profeta
novo. Sentaram-se tambem os companheiros. O vulto de Joo, destaca-se
fortemente do horisonte rubro, onde o sol vem rompendo, triunfal.

E  ento que

JOO solta a sua voz inspirada de orador apocalyptico, de gesto amplo e
vigoroso, emquanto muito ao longe os canticos proseguem:

  Quem tem ouvidos, oia o que Elle manifesta!
  Elle  o Omnipotente; Elle o principio e o fim;
  Elle quem libertou da escravido funesta
  O povo d'Israel... Elle descansa em mim.
  Elle  o Omnipotente! Elle o principio e o fim!

  Seja bemdito quem ouvir e conservar
  As palavras que encerra a minha profecia!
  Quem tem ouvidos, oia! e purifique o olhar,
  Porque j no vem longe o tenebroso dia
  Em que todos vereis a minha profecia!

  --Despenham se na terra os astros refulgentes;
  O Sol veste de negro, a Lua  cr de sangue;
  Varam de logar ilhas e continentes;
  A Grandeza estremece e vem car exangue...
  O Sol veste de negro, a Lua  cr de sangue...

  ..............................................




Escripto em 1888-1890

Acabado de imprimir
aos 5 dias do mez d'Outubro de 1901
na Imprensa de Libanio da Silva
Rua do Norte, 87 a 103

Lisboa


Nota do transcritor:

Foram corrigidos diversos erros tipogrficos. Na lista que segue esto as alteraes mais importantes.

  Pg.  Original	                        Corrigido
  20    abnadonam Maria                   abandonam Maria
  18    Pois eu sou tou                   Pois eu sou to
  25    JAO PEDRA, com o brao direito   SIMO PEDRA, com o brao direito
  30    a aragem fresca e permada         a aragem fresca e perfumada





End of the Project Gutenberg EBook of Judas, by Augusto de Lacerda

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