The Project Gutenberg EBook of Os tripeiros, by Antnio Jos Coelho Lousada

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Title: Os tripeiros
       romance-chronica do seculo XIV

Author: Antnio Jos Coelho Lousada

Release Date: September 13, 2009 [EBook #29979]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

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                                             Rita Farinha (Set. 2008)




OS

TRIPEIROS.

ROMANCE-CHRONICA DO SECULO XIV.

POR

A. C. LOUSADA.


PORTO:
TYPOGRAPHIA DE J. J. GONALVES BASTO,
LARGO DO CORPO DA GUARDA N. 106.

1857.




I.

A mensagem do Mestre.


                           Alteradas esto do reino as gentes
                           Co' o odo que occupado os peitos tinha.

                                              CAMES, LUS. CANT. IV.


Era uma estranha romaria, para quem no tivesse noticia dos alvoroos a
que a morte de Fernando 1.^o e o casamento de Beatriz em Castella tinham
dado causa, a que pelos meados de Maio de mil trezentos e oitenta e
quatro sahia pelas portas da cidade do Porto que davam sobre o rio, e
mais pela chamada Porta Nova. Se fosse facil conduzir o leitor a vr do
alto das torres que a defendiam aquelle gentio, acreditaria que elle
tinha invadido algum arsenal a procurar disfarce entre o guerreiro e o
burlesco. Um popular cobria a cabea com um elmo adamascado, e,
mostrando os joelhos atravs do grosso estofo das calas, com ps
descalos pisava a areia onde o montante que arrastava deixava um sulco;
um outro, parecendo ter em menos conta a cabea do que o peito, abrigava
este em uma couraa mais que farta, e deixava aquella ao sol e ao vento;
este, vestindo apenas umas calas, se assim se podia chamar um cirzido
de trapos, trazia suspenso de funda um escudo de couro, onde em tempos
estivera pintada ou divisa ou braso, pois no era j facil adivinhar o
que fra; de um cinto leonado pendia de um lado um estoque, do outro um
punhal, e, como se no bastassem estas armas offensivas, empunhava um
chuo enorme; aquelle levava um bacinete amassado e um gorjal
ferrujento, e tinha por cinto de grosseira jornea uma funda, o
provimento da qual, como se no fra uma arma facil de encontrar a cada
passo, pesava em um sacco lanado aos hombros. De tempos a tempos o bom
povo, como lhe chamava o mestre de Aviz, abria aqui logar a um
cavalleiro acobertado de ferro desde os ps  cabea, seguido dos seus
pagens, ou escudeiros, alem a outros mais exquisitamente vestidos pelo
antiquado das armas, ou pelo incompleto. Havia capacete que, se
Cervantes o visse, no o deixaria ser original descrevendo o que deu ao
seu heroe no principio das perigrinaes; peitos de ao polido,
espelhando o sol, que disparatavam com umas grevas desconjuntadas,
enegrecidas, remendo visivel; feixes de armas que desdiziam umas das
outras pelo valor, casando-se a facha grosseira com um estoque cuja
bainha acobertavam ornatos de prata, montantes de Toledo e adagas
grosseiras. Os cavallos iam uns cobertos de ferro, outros apenas com os
arreios necessarios para se poder cavalgar, e no poucos dos
cavalleiros, e aos pares at, montavam em mulas. Os cidados que assim
sobrecarregavam os pobres animaes, costume vulgar por esses tempos e por
muitos outros, vestiam em geral a garnacha negra, distinctivo dos
doutores e physicos. Com este mesmo traje, porm arregaado pela
ponteira da espada, deixando vr a cala de duas cores e o borzeguim
ponteagudo via-se tres ou quatro aspirantes quella distincta classe de
medicos e letrados, e com elles alguns monges, que tambem se mostravam
affeitos s armas pelo modo como seguravam o punho da espada e cobriam a
tonsura com o bacinete. Um dos cavalleiros mais bizarros da romaria era
tambem um ecclesiastico; pelo menos assim o demonstrava um roquete, que
sobre armas soberbas vestia em vez de brial.

De burlesco para a gente que guarnecia as muralhas, as torres, os
eirados e soteas nada havia nesta procisso; de marcial havia muito,
tudo, a avaliar pelo enthusiasmo com que a saudavam, e pelos vivas que
se juntavam s saudaes. Tinha decorrido uma boa hora desde que correra
na cidade que umas gals demandavam a barra, e, posto que houvesse quem
affirmasse logo que eram portuguezas, como dos de casa havia tanto a
recear como dos extranhos, todos se tinham prevenido para as receber. Um
pagem levara j a Ayres Gonalves e ao bispo D. Joo a nova de que eram
expedidas pelo mestre de Aviz; porm estes senhores eram ento
authoridades quasi nominaes, e deixavam por tanto, para no perderem o
tempo, fazer a sua demonstrao aos bons populares e aos cavalleiros que
no eram de suas casas, creao, ou servio.

Ideia de que no seculo decimo quarto era uma guerra civil, acompanhada
de uma invaso estrangeira, nem todos os que passam os olhos por este
capitulo faro. Hoje hasteam-se duas ou tres bandeiras, ou mais, se
quizerem, mas, o primeiro impeto passado, a machina civil l vae
funccionando peor ou melhor por conta dos governos provisorios;
naquelles tempos, porm, ninguem se entendia por vezes. Cada fidalgo
levantava o seu troo de gente e vendia e revendia a espada; hoje era ao
servio de um, manh ao de outro; os alcaides dos castellos, a maior
parte dominando as povoaes principaes, juravam preito e perjuravam
todos os dias, e as municipalidades lanavam, bom ou mau grado, pela
manh um bando em favor de um monarcha e  tarde acclamavam outro. No
meio desta bella ordem havia caudilho que dava em ambos os partidos
belligerantes, e sobretudo nos pacificos, aventureiros que se batiam por
si e para seu proveito. Na menoridade do pae do regedor, como modesta e
arteiramente se appellidara o irmo bastardo de D. Fernando, e em quasi
todos os reinados antecedentes, a provincia de Entre Douro e Minho tinha
tido a sua amostra destas amabilidades; mas o que a gente da _ordem_
chama revoluo e revoluo politica no estalara em tempo algum como
agora. At ahi o povo contentara-se, salvo um ou outro caso, com evitar
a ponta da lana dos nobres senhores e o virote dos seus homens d'armas,
e ainda mais de lhe franquear as arcas e de correr os cordes da bolsa,
o que raras vezes conseguia. Os burguezes do Porto, o mais desenquieto
povo de toda a provincia e do reino, tinham j dado mostras da sua fora
aos bispos Martinho Rodrigues e Vasco Martins, porm, nestas revoltas se
entrava politica era acobertada: elles no davam por tal. Desta vez o
exemplo da capital fra-lhes contagioso, e mesmo sem to bons motores
como Alvares Paes, desempenhram a sua tarefa por tal arte, que se pde
dizer, que a lei por que se governavam era a sua. Ayres Gonalves de
Figueiredo, o governador de Gaya admirra da outra margem a valentia dos
pulmes dos partidarios do novo governo, e, posto que no estivesse bem
seguro das suas ideias quanto  legalidade da regedoria, e preferencia
de direitos do mestre de Aviz sobre os do infante, dos deste sobre a
irm, ou vice-versa, para no lhes avaliar as iras tambem,
contemporisara, soltando as mesmas acclamaes. Na cidade havia um
cahos. Os vereadores, governavam; governavam os juizes do povo e o juiz
real; governavam os chefes das corporaes; governava, porm menos, o
bispo e os seus meirinhos; governavam at, ou mandavam, os prisioneiros,
ou tidos por taes, como era o conde D. Pedro de Transtamara, que no
campo de Coimbra tivera as suas aspiraes  coroa de Portugal, e a ser
o terceiro marido legitimado de Leonor Telles; finalmente, mandavam
todos, se a mais ninguem fosse, cada um a si.

Do pequeno povoado que ficava extra-muros, composto de uma mescla de
armenios, que nove annos antes tinham deixado cahir o throno de Livonio,
o seu ultimo rei, aos golpes de espada do sulto do Egypto; de gregos da
Asia, escapados  furia dos soldados de Amurath; de flamengos e
genovezes aventureiros, de mouros, os cultivadores da encosta em que o
bairro se abrigava; da pequena povoao, do bairro Armenio, augmentado
ainda depois da tomada de Constantinopla com os piedosos guardas de S.
Pantaleo, ajuntava-se  procisso sahida da Porta Nova uma chusma de
curiosos, que pela variedade de vestuarios, lhe vinha dar realce. Como
em taes casos succede, toda esta gente se embaraava na marcha, pees a
cavalleiros, cavalleiros a pees; todos fallavam, todos tomavam e davam
concelho, e perguntavam por novas de que iam dar ao primeiro encontrado
uma verso correcta e augmentada com reflexes de lavra propria e
extranha. O espao que se estendia desde os muros at onde a Arrabida
deixava apenas um caminho de cabras, aberto na rocha para quem se
quizesse dirigir  Foz do Douro, no foi pois transposto em menos de uma
hora, pela vanguarda: uma grande parte do exercito popular nem l
chegou. Os primeiros que encontraram uma das gals subindo o rio,
gritaram para os tripolantes que lhes dissessem por quem vinham, e como
estes respondessem que pelo Mestre, sem mais attenderem, voltaram atraz,
dando vivas, como se fosse aquillo reforo inesperado, que os viesse
tirar de apuros.

Nas gals no vinha reforo algum para os do Porto, unica terra de
importancia ao norte do reino, que no acceitra como rei o marido de
Beatriz, e tinha a braos setecentas lanas e dous mil infantes do
arcebispo de Santiago e de outros senhores castelhanos e portuguezes,
sem contar os aventureiros de Fernando Affonso, que no eram nem uma
cousa nem outra.

D. Joo de Castella, feita em Santarem a cesso dos direitos  coroa por
D. Leonor, a troco de vinganas promettidas no povo de Lisboa, que a
respeito della e em rosto esgotra um vocabulario immenso de nomes, de
que Ferno Lopes d uma amostra, e a mimosera com pedradas; D. Joo,
resolveu-se, seno a cumprir o ajuste, pois se malquistra com a
ambiciosa sogra por causa de dous judeus, a destruir a rebellio, como
elle lhe chamava, no fco, e avanra at o Bombarral, ao passo que
aprestava uma armada que, fechado o assedio por terra, cerrasse tambem
as communicaes por mar.

Os arredores de Lisboa talados, as povoaes saqueadas no podiam
abastecer de viveres os sitiados; entre elles e Coimbra estavam os
arraiaes inimigos, portanto recorria-se ao Porto, pedindo tambem um
reforo de navios para impedir que o Tejo fosse bloqueado. D. Loureno,
arcebispo de Braga, azafamra-se para armar as gals que deviam levar
estes soccorros, e o mestre de Aviz encarregra Ruy Pereira de uma
missiva, em que aos bons burguezes se promettia mil regalias; pois D.
Joo acceitra o conselho de dar tudo o que lhe fosse possivel dar, e
prometter at o impossivel.

Os vivas e o appendice a todo o enthusiasmo politico de morras, naquella
quadra aos castelhanos, aos traidores e aos scismaticos, prolongaram-se
at que as gals em que vinham Ruy Pereira e Gonalo Rodrigues vararam
perto dos muros da cidade e principiou o desembarque destes e outros
illustres personagens, e ainda maior foi a algazarra quando o estandarte
real appareceu. O conde de Transtamara, como primo do rei de Castella,
no era dos coristas mais fracos deste grande cro desafinado, e fra
dos primeiros cavalleiros que se apearam para receber os reaes
mensageiros, com toda a cortezania. O povo sem f naquella converso e
pouco acatador nesse momento das esporas de ouro, das cotas bordadas e
cimeiras historiadas; o povo, deixando escapar desses epygrammas de que
elle possue o molde particular, em vez de lhe abrir caminho, cerrava-se
na sua passagem, fazendo perder ao fidalgo o aranzel lisongeiro que
tencionava prgar a Ruy Pereira. Ruy era uma notabilidade, como hoje se
diz; porque ento ainda se no tinha inventado as notabilidades, nem
muitas outras cousas. Desde que explicra ao mestre de Aviz a opinio do
povo a respeito da rainha Leonor, notando que quando andava para casar
com sua mulher, fallavam todos em que se queria casar com Violante
Lopes, e depois de casado ninguem mais de tal fallra; depois,
sobretudo, que dra o golpe de merc ao conde valido, abaixo de seu
sobrinho, dos homens de espada com valimento na crte, era o primeiro, e
para quem estava nas circumstancias de D. Pedro, portanto, pessoa que
era prudente lisongear.

J ento, como se ver no decurso desta narrao, se attendia a
conveniencias.

Em quanto os mesteiraes e burguezes embaraavam o conde, Martim Gil,
abbade de Pao de Sousa, substituia-o dignamente com duas rajadas de
latim, a substancia do todo, que o mensageiro perdeu por no entender a
lingua de Cicero, e uma enfiada de periodos em portuguez garrafal, que
entenderia perfeitamente, se a algazarra tivesse cessado. Ruy Pereira
satisfez-se com vr abrir e fechar a bocca ao reverendo, e respondeu a
toda esta eloquencia, fazendo-lhe um ponto no meio do recado,
perguntando onde havia de pousar. Martim Gil indicou-lhe todas as boas
casas da cidade desde os paos da S e o convento de S. Domingos, at
algumas das vivendas particulares, e o tio de Nuno Alvares escolheu S.
Domingos, mostrando mais pressa de descanar dos encommodos do mar, que
de dar conta da sua misso. O abbade tentou ento dar  entrada na
cidade dos passageiros e tripolantes da gal de Gonalo Rodrigues, e das
outras que iam aproando ao longo da praia, um todo processional, porm
luctava em vo; que era at difficultoso fazer desembaraar os sitios de
desembarque, onde o povo se apinhava, se acotovallava sem dar descano
ao pulmo. O Douro no tinha ainda, nas suas soberbas, arrojando as
terras roubadas nas campinas d'encontro  praia; tornado esta to larga
como hoje; nem os homens haviam com parapeitos avanado sobre o leito
daquelle. O espao existente logo alm de portas, onde havia povoado,
era to limitado, que, a distancia, parecia que as edificaes tinham
para a agua serventia, como os da cidade das lagunas, a rainha do
Adriatico; o estado de exaltao, e animo revoltoso ou independente dos
burguezes e viles, porm, at em logares mais espaosos tornava
difficil a empresa do abbade.

Ruy Pereira, apesar de ter presenceado em Lisboa a revolta popular,
fazendo-se popular elle mesmo, no o era tanto que levasse a bem aquella
sem-ceremonia dos portuenses, e lanando sobre os mais proximos um olhar
pouco amavel, reprimindo a custo a vontade que tinha de mandar abrir
caminho a prancha de espada e conto de lana, lamentava _in mente_ os
bons velhos tempos--que j ento havia bons velhos tempos--em que a
cousa peo descortinando a vontade no gesto de um rico homem, logo
obedecia sem mais tugir ou mugir.

Graas  interveno dos juizes do povo e real, que, avisados da chegada
dos navios e de quem eram as pessoas que elles conduziam, vinham para as
accommodar em pousada decente e fazer todas as honrarias, que em tal
caso competia, o embarao terminou. As tres authoridades, duas
municipaes, uma real, duas de muros a dentro, outra ribeirinha, foram
felizes, deve-se confessar, naquella occasio, por no haver conflicto
de poderes, nem recalcitrao dos governados, o que era raro, e deveram
esta felicidade a estar satisfeita a curiosidade dos burguezes, e no
ser preciso empregar barqueiro ou pescador algum na amarrao dos
navios. A procisso comeou pois a mover-se pelas estreitas ruas da
cidade, e, em vez de parar em S. Domingos, seguiu at  casa da camara
no meio sempre de grandes acclamaes ao mestre de Aviz, defensor e
regedor do reino, e morras aos castelhanos herejes, scismaticos e
traidores, o que fazia tragar sem rplica a Ruy Pereira o ceremonial
amofinador a que o submettiam os edis portuenses, e a pressa que tinham
de saber em que podiam servir a sua senhoria, o futuro rei.




II.

Um rapaz travesso.


                                         He elle um par bem 'scolhido.

                                               GIL VICENTE.--V. DA HORTA


Quando o mensageiro do Mestre era processionalmente levado pela porta,
que tempos depois deu a um poeta com o nome um trocadilho para um
requerimento em verso, no marulhar de curiosos e patriotas que se
empuxavam, forcejando por abrir caminho para aquelle gargalo, um burguez
que tornava respeitavel o sizudo do traje, uma barriga proeminente, onde
batia uma gorda bolsa de couro e um esguio punhal, cabello branco,
patrioticamente cortado, luctava para no ser levado na corrente, dando
mostras pelo inquieto do olhar que procurava alguem. A fora da corrente
era grande, porm, e arrastou-o pouco a pouco at junto de uma das
torres de defesa, onde a ressaca o fazia tomar todas as direces e
posies possiveis no meio dos gritos das mulheres abafadas, das
crianas trilhadas, do estalar das armaduras, que, permitta-se a imagem,
eram os crustaceos que as ondas daquelle mar lanavam d'encontro s
rochas. Mestre Gonalo Domingues suava por todos os pros e formava com
os cotovellos um amparo ao abdomen e quebra-mar  mar, receando ser
lythographado no muro, resmungando ao passo uma ladainha contra o
causador daquelle desastre, segundo se lhe affigurava, um sobrinho que o
acompanhra momentos antes, e que perdera de vista. Resolvido j a
deixal-o por sua conta, pois no estava j em edade de se perder, e a
escapar-se daquelle aperto, comeava a recuar, servindo-se dos
cotovellos como de uma alavanca, quando sentiu umas mos callosas
pousarem-lhe no hombro, sustendo-o na marcha. Sentindo aquella
resistencia, sem vr quem a oppunha, pois lhe era impossivel voltar o
rosto, e receando de novo ser levado para o muro, empregou contra o
individuo que assim lhe cortava a retirada um cotovello, que estava na
razo directa da fora que o impellia: tudo isto acompanhado por uma
praga:

--Ms ters te colham, cabea de bogalho!

A praga a meio, e uma das mos a erguer-se a descer fechada em murro,
estourando no costado de mestre Gonalo Domingues, que soltou um
regougo, cambaleou e perderia de certo o equilibrio, se um mesteiral,
que estava na frente, o no amparasse na queda. O burguez, incommodando
com o peso o seu primeiro ponto de appoio, este o saccudiu para um dos
visinhos, que o recambiou sobre o homem do murro, appresentando-lh'o de
cara.

--Se te apanhra aqui, maldito! tornou a exclamar mestre Gonalo,
soltando outro gemido: punha-te as orelhas a fumegar. Tu m'as pagars!

Esta exclamao a meia voz, dirigida ao ausente sobrinho, foi
interceptada a meio pelo homem de murro, um marinheiro, que, vendo o
rosto afflicto do bojudo cidado, se contentou com dar-lhe um grande
encontro, resmungando, como goso que v em perigo o osso que esburga:

--Pois junte l mais isso  conta, meu baleote.

Mestre Gonalo estava affeito a ser mais bem tractado intra-muros:
doeu-se da chufa dirigida ao seu physico pelo maritimo, e fez-se mais
vermelho do que estava; fez-se roixo, se pde dizer, desde a raiz do
cabello at aos queixos, mas no reagiu. A sua indole era pacifica,
apesar do punhal que o acompanhava; e demais, no via perto de si seno
caras desconhecidas e rostos queimados pelo ar do mar, que podiam ser de
vassallos da coroa, e estes, posto nessa occasio estivessem em harmonia
com os vassallos da mitra, e j um pouco apagadas as divises antigas,
era de crr que por elle no tomassem partido. Comtudo, no se ficou,
sem responder:

--Se no est bom, deite-se, ou v travar razes com petintaes,
espadeleiros ou outra gente da sua egualha; no se metta com quem no se
mette comsigo.

--Olhem o outro! resmungou o marinheiro; abalroou-me com os cotovellos
pelos peitos, e diz que se no mette com a gente; traz aquella cara que
parece mesmo um odre a rever, e grita que um homem c est toldado!

Gonalo Domingues, doendo-se da nova zombaria, tornou mais apropriada a
imagem do marinheiro, e cerrando os punhos exclamou:

--Veja como falla!

--Graas a S. Pedro; meu advogado, redarguiu o homem do mar, levando a
mo ao barrete--no  facil de dizer se em atteno ao santo-apostolo,
se em cortezia zombeteira, pelo esgar que fez, ao senhor Gonalo--graas
a S. Pedro, fallo sem trave. E no me faa biocos nem arremessos,
accrescentou com ar mais carregado: que, se me sobe a mar aos
cascos?!...

--Que  l isso, mestre Gonalo? perguntou quasi ao mesmo tempo um
cidado de pouco menos edade que o interrogado.

-- este excommungado, que se metteu onde no era chamado, e me poz a
paciencia em maior apuro do que j a trazia.

--Excommungado  elle! resmungou o marinheiro, recambiando o apdo que
lhe fra dirigido, e fitando ora o novo, ora o antigo interlocutor.

--Olhe, mestre Gil, tornou o burguez rubicundo, dirigindo-se ao
recem-chegado; ia eu amofinado por causa daquella cabea de vento de meu
sobrinho...

--E que tenho l eu com seu sobrinho? tornou o marinheiro.

--Isso mesmo queria eu que me dissesse! acudiu o senhor Gonalo.

E, voltando-se para o seu collega, continuou:

--Ia eu, como lhe dizia, amofinado, porque o maldito do rapaz se me
escapou--ora sei eu l para onde!--e no sei que digo de mim para mim,
quando essa creaturinha, como se no tivesse da sua egualha mais com
quem desenferrujar a lingua, travou-se de razes...

--Isso nada vale, mestre Gonalo! atalhou o homem a quem vimos dar o
nome de Gil, dirigindo-se para o galeote, que lhe voltou as costas,
fazendo uma careta muito expressiva para um companheiro, que, com uma
mo pousada no hombro delle, parecia, na posio que tomava, querer
dizer que alli estava para ir em seu auxilio, se preciso fosse, que no
era.

O gordo burguez, vendo o antagonista voltar-lhe as costas, desafogou
contra elle, com o seu amigo, a cholera, que o ameaava com uma
apoplexia; e em seguida desafogou tambem a respeito do causador, o
estouvado sobrinho, que desapparecera. Apesar de ter escoado a multido
pela porta da cidade, de estar j desembaraado o transito,  volta dos
altercadores havia uma reunio de curiosos, como de costume, cujo nucleo
era uma boa duzia de garotos pertencentes, pelo que dos trapos vestidos
se divisava, a tres religies; pelo typo, a tres raas, e ao qual se
juntavam por um segundo, que mais no fosse, os arrastados daquella
procisso e todos os que por alli o acaso conduzia. Uma velha que
regressava aos lares com os aviamentos para a ceia, comprados na tenda
d'ao p da porta, soalheiro do bairro, no escapou, apesar de carregada,
 fora attrahente das lamentaes de mestre Gonalo; e, sabida a causa
destas, se appressou em dar-lhe remedio.

--Quer saber do seu sobrinho que esteve no convento, mestre Gonalo? Bem
se v que o rapaz no tinha queda para os latins e o hbito; aquillo 
um levantado! Tome sentido com elle, mestre! Agora o vi eu a correr pela
bitesga que vai por p da casa de Joo Ramalho. A modos que elle...

A reflexo da velha, se na phrase ficou incompleta, no o ficou no
gesto. A traduco deste era que o rapaz comeava a inclinar-se s
saias. (Como demos a traduco, ajuntaremos, em nota intercalada no
texto, que a boa santinha parecia, no ar malicioso que tomou,
recordando-se dos seus tempos, ter delles saudade.)

Gonalo Domingues, sem mais attender  mulher da alcofa, tomou a
direco do sitio indicado como o seguido pelo sobrinho, resolvido a
descarregar nelle o mau humor excitado pelo seu desapparecimento, pelos
apertes que levra, o cortejo que perdera, e, sobretudo, os apodos e
murros do galeote. Em quanto para l se dirige, ruminando aquellas
passadas attribulaes, saibamos o que fazia o travesso rapaz.

Como j viu o leitor, no antecedente capitulo, no tempo em que estas
cousas succediam, as habitaes, em Miragaya, estavam mais perto do rio,
ou melhor, o rio corria mais perto das habitaes. Entre S. Pedro e os
muros, havia, no espao que abre a montanha, algumas bitesgas, de que
ainda se conserva uma amostra, povoadas umas, outras correndo entre
cercados e muros; em outros sitios, um fraguedo deixava apenas o logar
preciso para algum carreiro no muito viavel. A povoao cerrava-se,
apinhava-se mais para o p da velha egreja de S. Pedro, e rareava
progressivamente para o oriente e poente. Perto dos muros, havia to
smente uma fieira de casas  beira d'agua; depois o declive rude do
monte onde se edificou o convento dos Agostinhos, coberto de silvados e
matto, que vinha angustiar mais o passo para a cidade. Onde se tornava
mais suave a encosta, subia um carreiro, que, depois de serpear por
detraz de algumas das moradas do bairro do rei, se bifurcava, levando um
brao a uma daquellas ruas, lanando outro pelo monte, serventia a
casaes que se communicavam egualmente com a cidade pelo lado do Olival.
Por este carreiro  que tomra Fernando, ou Ferno Vasques, o sobrinho
do senhor Gonalo Domingues, mal viu absorvida a ateno deste nas gals
reaes e seus passageiros. O rapaz correu por algum tempo sem tropear,
para o que preciso era estar bem affeito a trilhar similhante caminho, e
s affrouxou o passo quando se approximava de uma casa de boa
apparencia, cuja frente dava para a praia, habitao de uma das
notabilidades do bairro, e que o foi depois, na historia, do piloto e
mercador Joo Ramalho.

A casa para o lado do rio nada appresentava de notavel na fachada: era
um edificio de madeira como muitos dessa epocha; para o lado do monte,
porm, era bastante pictoresca. A parte inferior escondia-se em uma
moita de arbustos de um pequeno cercado, onde tambem se levantavam
algumas arvores de fructo, uma das quaes, rompendo, com um brao lanado
 flor da terra o muro de pedra insossa, saccudia sobre o caminho a
folha, a flor e mesmo o fructo, se a gula dos garotos esperava pelos
effeitos do tempo. Acima do verde dos arbustos descortinava-se uma
varanda de pau, onde, no parapeito, davam passagem ao ar e  luz
aberturas symetricas, figurando folhas de trevo, e na parte superior,
zelozias em xadrez, tudo pintado de encarnado vivo e verde esmeralda,
com que realava o branco que tingia o tabique. De ambos os lados da
varanda descia uma escada, cujos maineis se perdiam entre os arbustos,
depois de se ligarem em um patamar, ao centro, para de novo se
separarem, formando da sorte um corpo saliente na fachada. Por cima da
varanda abriam-se duas janellas, todas lavradas, ornadas de zelozias
tambem, e tendo por baixo, sobre traves salientes, em cada uma das quaes
artista rude esculpira um animal sonhado, dous caixes com terra. Em um,
apar do qual duas longas canas formavam um estendal, onde se via roupa a
seccar, a providencia domestica semera salsa e a precauo contra
feitios dispozera um p de arruda; no outro, havia um p de amores
perfeitos e outro de madresilva marinhando por cordes passados para o
guarda-chuva de madeira que os abrigava.

Quando Fernando Vasques se aproximou da casa, depois de alguns assobios,
entre a trepadeira e por cima dos amores, appareceu, aberta a zelozia,
uma cabea bem propria para encaixilhar entre aquellas flores. Imaginae
um rosto oval, de uma carnao que se no podia dizer branca, mas a que
se no podia chamar trigueira, porque o no era; uma pallidez, sem ser
dessas que denunciam uma natureza enfesada, doentia; uma pallidez que
lhe dava um todo de brandura, de carinho, que fazia por vezes realar um
carmim vivissimo e trahia um olhar travesso, de travessura infantil,
innocente; imaginae uma bocca de um lindo desenho, formando em cada
extremo uma covinha engraada; uma bocca que parecia sorrir sempre,
mesmo quando a fronte scismava ou as lagrimas desciam pelas faces;
imaginae que o nariz fra modelado pelo de uma estatua antiga, e
imaginae, sobretudo, uns olhos castanhos rasgados, assombrados por uma
franja de cilias to cerrada, que pareciam negros como a baga do
loureiro; uns olhos, emfim, expressivos, verdadeiros espelhos d'alma,
como lhes chamam os poetas, e tereis uma ideia das feies de Irene.
Esta encantadora cabea enfeitava-se com o mais soberbo cabello que se
pde ter aos quinze annos; negro, longo, serico, ligeiramente ondeado.
Para maior realce da cr, parecia feita  moda que vogava. As tranas,
que vinham pousar no collo, alvo como marfim, eram intermeiadas por
fitas de l de um vermelho vivo, que se cruzavam depois na cabea e
vinham cahir soltas, dos lados, terminando em pingentes de metal
dourado.

As leis que faziam distinguir, pela cabea, as solteiras das casadas e
estas das viuvas cahiam em desuso.

A filha de Joo Ramalho, apesar da curta edade, era uma bellesa. O
sangue de sua me, uma dessas bellas moas da Asia, em que se confundiam
dous typos, o grego e o armenio, predominando, desenvolvera aquelle
corpo garboso; dera-lhe na adolescencia o acabado, a morbidez que s
mais tarde, em geral, em outra edade se alcana. Com o corpo
desenvolvera-se o espirito: desenvolvera-o a esmerada educao materna,
que distava bem da vulgar entre a nossa burguezia naquelles tempos, e os
carinhos da boa mulher, que o senhor Joo no comprehendia bem,
entretido sempre nas suas viagens e rude, voltados todos para aquella
filha unica, em que se embellezava cultivando-lhe o corao,
aformosearam-lhe a alma. Uma bella alma faz um rosto, seno formoso,
amavel; a intelligencia reproduz-se nas feies como aureola que lhes d
realce; a natureza, j o dissemos, fra madrinha e no madrasta para com
Irene: a bella menina, reunindo, pois, todas as formosuras, despertava a
admirao e o amor ao mesmo tempo. A impresso produzida no sobrinho de
Gonalo Domingues fra esta, e que o amor naquelle peito tinha boas
raizes, dizia-o a confuso em que elle ficou, mal  janella appareceu a
gentil cabea. Fernando, um rapaz jovial e resoluto, como o diziam uns
olhos castanhos cheios de fogo, um nariz ligeiramente curvo, os lbios
delgados, accentuados na extremidade por um ligeiro buo; Fernando
baixou os olhos, fez-se vermelho, sentiu que os joelhos se dobravam,
enfraquecidos, e, sem se attrever a fitar de novo aquella appario, bom
tempo gastou em puxar o barrete de um para o outro lado da cabea e
amarrotal-o nas mos, nem creana bisonha que se dispe a abrir brecha
na bolsa paterna, ou tem de responder por avaria feita, acabando por
desafivelar o cinto da jornea, como se carecesse de tomar largo folego
para levar a cabo a sua empresa.

No era esta a vez primeira em que alli se encontrava em taes embaraos,
porm nunca to graves tinham sido as circumstancias. A gravidade no
provinha da escapula feita a seu tio, que j nem de tal se lembrava, mas
da resoluo que tomra de realisar as suas ambies e sonhos, as
combinaes de tantas horas; de passar alm de alguns gestos e sorrisos
e umas saudaes feitas do cimo da encosta, no fallando em uma enfiada
de sons, que palavras se no podiam dizer, pois nem elle lhes soubera o
sentido, soltados  porta de S. Pedro entre uns como arrepios, que
attribuiu ao modo porque o encarou a cultivadora da arruda, a creada a
quem o senhor Joo Ramalho, por morte de sua esposa, confira o governo
da casa e a guarda da filha.

Quasi egual  fora da resoluo fra o abalo, como nestas cousas  de
costume, mas Fernando no estava resolvido a deixar perder mais uma
occasio: puxando o barrete sobre a nuca, subiu a um comoro, ao lado da
quelha, ergueu os olhos e abriu a bocca, porm a palavra
engasgou-se-lhe a um gesto de Irene. O pobre no prevera que prgar a
sua confidencia daquelle sitio fra, querendo que ella a ouvisse,
mettel-a tambem nos ouvidos dos visinhos, ou pelo menos das pessoas de
casa, e a moa, levando um dedo aos lbios e indicando-lhe com um gesto
que descia  varanda para encurtar a distancia, se no enleio, no rubor
se mostrava mal affeita quellas artimanhas, professadas pelo amor, ou
quem suas vezes faz, como do sexo a que pertencia, se mostrava mais
prudente. Irene desceu, mas vencido a meio o inconveniente da distancia,
furtava-se, encoberta pelo cercado da horta, s vistas de Fernando. Este
eclypse, como diria um poeta, foi que deu ao namorado um animo de que
elle proprio se espantou por muitos dias depois: atreveu-se a subir ao
muro e marinhar pela arvore que se debruava sobre a estrada, a
esconder-se entre a ramagem.

Os discursos naquelle dia tinham m sorte: como o que fra destinado a
Ruy Pereira, o pensado e repensado do sobrinho de Gonalo Domingues no
vingou. A erudico do abbade de Pao de Sousa achatara-se de encontro
 paciencia do fidalgo; as flores escolhidas para ornar a declarao
feita a Irene (to rico dellas  o corao em que rebenta o amor!) as
flores de estylo queimou-as um olhar lanado ao mancebo, traduzindo
tanta cousa, que s um desses olhares podia dar bons tres capitulos como
este em que se conta e commenta tanto successo. O olhar de uma donzella,
como a filha do piloto, nestas confidencias de um primeiro amor--deixem
dizer que o amor, o verdadeiro amor s vem muito mais tarde, deixem; que
elles treleem, e julgam que o egoismo aquilata a paixo--; o olhar de
uma donzella assim, encerra um mixto de affecto carinhoso, de volupia
indefinivel, de pudor e innocencia, de receio e ousadia, que, para delle
dar uma ideia, a poesia mesmo  uma linguagem descolorida.

Fernando, mal se viu frente a frente com a moa namorada, sentiu um
formigueiro nos ps, turbara-se-lhe a vista, e teve de se agarrar aos
ramos da arvore, para no cahir; quiz procurar o cabealho da sua
declarao, porm nem uma s ideia lhe vinha  mente; por mais de uma
vez abriu a bocca, e teve de a fechar sem formular um unico monosyllabo.
Irene, na varanda, com a approximao tambem se acanhra, e occultava o
seu embarao, ou, antes descobria-o, passando a mo pela fronte,
levantando uma trana para logo a abaixar, enrolando e desenrolando uma
das fitas, afogando e desafogando o pescoo com o singelo colleirinho do
corpete. Os minutos que assim passaram no foram poucos. Recuar depois
de ter chegado at alli era desairoso e difficil.

O sobrinho de Gonalo Domingues fez o supremo esforo para no perder
tudo.

--Irene, Irenesinha! disse elle, amarrotando o barrete com a mo que
tinha desembaraada.

A moa fitou-o, sorriu-se, e ainda alguns minutos foram desperdiados,
se desperdiado se pde dizer aquelle tempo passado em enleio, rpido na
passagem, mas que depois enche com a recordao tantas horas de vida.

--Irenesinha! tornou Fernando, continuando a procurar a musa no barrete.

A moa continuou a fitar o embaraado rapaz, aguardando que alguma
palavra mais seguisse  invocao. O barrete no absorvera, ao que
parecia, os galanteios estudados, amimados por tanto tempo, pelo que,
depois de larga pausa, Fernando desceu das regies do amor a cousas mais
terrestres, na linguagem; procurou, se, o que  mais provavel, se no
agarrou  primeira idea visada, um ponto de partida nos successos do
dia, e titubeou:

--No sabe que chegaram ahi umas gals de Lisboa?

--Sei; respondeu a joven, baixinho, depois de olhar para todos os lados
a vr se alguem poderia ouvir aquella conversao _amorosa_. Meu pae
para l foi.

--Foi? interrogou machinalmente o mancebo.

--Foi, repetiu Irene, debruando-se pela varanda e fazendo com uma das
mos junto do ouvido uma concha para no perder uma s palavra.

--Pois veem nellas muitos fidalgos de Lisboa. No os viu desembarcar?

--Vi.

--Disseram-me que iam em procisso  cidade, e que traziam um recado do
senhor D. Joo!

--E no foi vr?...

--Olhe, Irene, atalhou Fernando em voz mais baixa e intercortada, por
muito que tenham que vr, eu antes quero estar aqui. A menina  que no
sei como no vai para o lado da praia.

--Para que? To longe fica o lugar onde vararam as gals, e est um
gentio...

--Ento, se podsse vr, no estava ahi.

--Porque no? disse Irene, crando.

--Porque... porque, titubiou Fernando, baixando os olhos; porque
aquelles fidalgos com as jorneas bordadas, aquellas armas a espelhar so
mais para se verem...

--Da janella, tornou a moa, encolhendo os hombros; da janella no se
podem admirar esses alindes.

Fernando baixou a cabea, desconcertado o seu intento. A moa no vinha
para o campo para que elle a queria trazer: no o entendia, pensava
elle, e se o no entendia  porque o no amava. Se soubesse avaliar a
entonao de certas palavras no pensaria daquella sorte; porm todos os
namorados assim so: no reparam nas rosas e colhem os espinhos.

--Oh! Irenesinha, e se esses fidalgos viessem fazer uma leva para a
guerra contra os scismaticos de Castella? tornou o mancebo, procurando
levar a conversao ao fim desejado.

--Para que pensar nessas cousas!

--E se me levassem? insistiu elle.

--Mas elles no veem para isso; no, senhor Fernando? disse a donzella
com uma inflexo de voz, que pintava o receio de que uma affirmativa
fosse a resposta.

O sobrinho de Gonalo Domingues no notou esta expresso e proseguiu:

--No se lhe dava que eu fosse?

--Eu?

--Sim; parece que no teria pena alguma.

--No diga essas cousas!

--Pois devras magoava-a a minha partida?

--Devras; disse Irene, passando a mo pelo rosto, para occultar as
tintas do pejo, que a elle assomavam com esta confisso.

--No diz o que pensa, acudiu o mancebo, imprimindo, cheio de alegria,
um tal abalo  arvore, que esta, oscilando o roando de encontro ao
muro, fez desprender algumas pedras.

--Jesus! vai cahir! exclamou a donzella, tornando-se pllida.

--Ai! Irenezinha, s para vr se o que diz  certo, de boa vontade
quebrava a cabea.

A moa, em vez de responder, com um gesto impoz silencio ao seu
conversado. Do lado de baixo ouvia-se os passos de quem para alli se
dirigia, e pouco depois appareceu Gonalo Domingues.

-- meu tio, disse Fernando, com voz to sumida, que para si to s
parecia fallar, e no momento em que o rotundo burguez passava distrahido
junto do muro, querendo esconder as pernas que deixava pender de um e
outro lado do galho em que cavalgava, de novo oscilou a arvore
violentamente, mais arruinando o muro a que se encostava.

--Oh velhaco, que fazes ahi empoleirado?

--Eu, senhor tio? accudiu o pobre rapaz, coando na cabea com toda a
furia.

--Sim, tu, Belzebuth! Salta c para baixo, que te ensino a andar a
roubar fructa pelos cerrados.

--Oh meu tio, a arvore no tem fructo; olhe bem.

--Ento que fazes ahi?

--Eu estava a vr...

--O que, rapaz de m morte, cabea cca?

--A vr se o via por algures, proseguiu o desconcertado mancebo.

--Levadigas te colham! Procuraste atalaya bem longe do caminho. Ora,
desce, que eu te vou ensinar chanas melhores.

--Cuidei que ia pela Aljama.

--Algemia  isso que tu ests a prgar. Desce, velhaco!

--L vou, tio; disse Fernando, descavalgando, porm deixando-se suspenso
pelas mos do seu poleiro. Mas...

--Mas o que? Por tua causa em boas me vi, e tu m'as pagars juntas. Eu
farei de modo que no tenhas mais vontade de ir devassar hortas e
cercados. Se vais por esse caminho, acabas nas mos da justia!
exclamou o senhor Gonalo Domingues, com sobrecenho provocado pela
recordao de desaguisado da praia.

Fernando deitou  donzella, que toda trmula se conservava encostada 
varanda, um olhar a furto, no se attrevendo, por envergonhado de ser
assim, alli na presena della, tractado como uma creana, a uma
despedida; com outro relance d'olhos avaliou se as ameaas do tio no
teriam, na execuo, algum desconto, e lentamente, soltando um suspiro,
desceu da arvore em que, ao modo das aves, tinha soltado as primeiras
confidencias do amor. To depressa sentiu nos ps o contacto do
pedregulho da bitesga, como sentiu nas orelhas o da mo de mestre
Gonalo, que acompanhava cada puxo com um epitheto pouco amavel,
terminando pelo de ladro.

--Ladro no! exclamou o rapaz dando um salto, ferido pela insistencia
do tio naquelle ruim conceito.

--Ento que fazias alli, rapaz dos meus peccados?

Alguem, no o interrogado, se encarregou de responder.  janella onde
vecejava a arruda assomou um rosto encarquilhado, meio occulto em uma
enorme touca de linho a feio das que usam as freiras, e gritou com uma
voz de canna rachada, debruando-se:

--Menina Irene! menina Irene!

Gonalo Domingues suspendeu as suas iras, e estendeu o lbio inferior
com um gesto que queria dizer muita cousa, e, entre outras, que atinava
com o motivo de ter o sobrinho trocado a procisso dos fidalgos por uma
ascenso s arvores do senhor Joo Ramalho. Lembraram-lhe as palavras e
os momos da velha da praia.

--J agora vamos pela Aljama, e de passo fallarei com meu compadre;
disse em seguida, dando um encontro ao mancebo e indicando o carreiro
que subia a montanha.

Mettendo-se a caminho, voltou a cabea, como a voltra Fernando, para a
casa do mercador, e viu na janella do andar superior, por entre a
zelozia meia aberta, o rosto da gentil menina.

-- f, disse elle por entre dentes, que o rapaz no tem ruim gosto; e
ella...

A palavra foi terminada por um sorriso, olhando para Fernando, como
desvanecido do seu sangue. Gonalo Domingues era um excellente homem,
apesar de toda a sua aspereza apparente.




III.

Os Velhacos.


     Aquelles cidados nobres praticavam n'isto com mais deliberao,
     como homens, que tinham mais que perder, que os plebeus que seguiam
     o Mestre...

                                                CHRONICA DE D. JOO 1.^o


Uma cidade da peninsula, no seculo XIV, no era um aggregado de
individuos vivendo, como hoje, debaixo da mesma lei--segundo reza a lei,
entenda-se. Afra as distinces de classes e senhorios diversos, havia
a distinco de crenas, e a separao era visivel nas grossas cadeias
que tornavam ao cahir das Ave-Marias incommunicaveis certos bairros. O
Porto tinha de tudo: subditos da coroa e subditos da mitra, e no tempo
em que succedia o que narramos, moradores que nem reconheciam uma, nem
outra; havia christos, mouros e judeus. Sobre um monte alteavam-se as
torres da S, e os paos fortificados do bispo; sobre o outro mais
humilde levantava-se a esnoga, ou synagoga, e na encosta, entre um e
outro, a pequena aljama appresentava-se, como o symbolo da religio do
propheta de Yatreb, querendo approximar-se do Evangelho e da Biblia, e
lanando depois pela encosta um ou outro casebre, como transio para
alguma morada de heresiarcha que se occultasse entre os foragidos do
Oriente. A aljama era a mais pobre: a esnoga era a mais rica; a cruz,
mais alta, dominando as duas, era a mais forte.

Aljama, municipio, cathedral, esnoga, tudo fra cintado pela mesma
muralha, como para viver em boa fraternidade; mas esta aguara entre os
dous filhos de Ado, quanto mais entre tanta gente. O judeu despresava o
mouro; o mouro despresava o judeu; o christo despresava a ambos, e,
como fizera a lei, talhra para si mais regalias e para os outros mais
tributos, reservando, para os que nada tivessem de seu, o direito de se
lamentarem em particular de algum pescoo de burguez arrufado, gilvaz
de cavalleiro, pedrada de garoto e praga de rasca enraivecida, ou velha
rabujenta. Era uma sorte bem agradavel, feliz, comtudo, aquella, em
comparao  que lhes prepararam, aos judeus especialmente, uns beatos
mettidos em politica, de que se serviam para ganhar o cu, suppunham
elles, e um bando de togas, garnachas e roupetas que se serviam do cu
para apanhar dinheiro. Aquella animosidade era a regra geral, mas toda a
regra tem excepo, e na mouraria era s vezes recebido com os braos
abertos o mesteiral; na judearia havia mo que se estendia ao burguez em
prova de amisade sincera, e um ou outro filho de Israel achava agasalho
no chorado na casa do christo, mesmo quando aquelle no tinha a arca
cheia de boas dobras; que em tal caso todas as portas se abriam, desde a
do pao rgio ou episcopal e a do solar do nobre, at  da cella do
reverendo abbade, e a do leigo, e sobre elles choviam honras e mercs;
como eram prova viva D. Judas e D. David, duas creaturas, que, fazendo
grande arruido na crte, jogaram com os destinos do paiz, como bons
ministros de finanas--o nome, o titulo ainda no estava creado, mas a
cousa j existia--no se esquecendo de tirar delle todo o succo
possivel. Gonalo Domingues vivia em boa harmonia com o arabi, ou arrabi
menor, harmonia que o devia lisongear, pois era at certo ponto uma
notabilidade, como chefe dos judeus da cidade e como homem de teres, e
por isso se resolvera a subir a encosta, pelo lado do Olival, para
fallar em certos negocios em que desejava servir um seu compadre, e
tractar da compra de poro de gado. O velho Gonalo, forureiro nos
seus principios, reunira o cabedal bastante para alargar a rea do seu
commercio: estendera-o s carnes-verdes e ensacadas e a pellames de todo
o genero; tornara-se em fim um negociante de considerao, como um seu
collega de Coimbra, que salvou a patria, emprestando a sua senhoria, o
Mestre de Aviz, alguns punhados de dobras, servio que lhe rendeu a
doao de alguns bens nacionaes e a gloria de ser o tronco de uma nobre
familia. A nobreza de elmo cerrado atira-se aos fidalgos do seculo XIX,
lanando-lhe em rosto o no ser com a espada que lavrassem os seus
escudos; mas  porque no teem paciencia ou vagar de revolver os
archivos da familia, seno deixaria de atirar pedra ao telhado dos
visinhos, vendo os seus de vidro: se por tal de vidro os podem
considerar. Deixemos reflexes, porm, e retrogrademos ao bom tempo, que
assim se chama sempre ao tempo passado, a apanhar o rico burguez e o
sobrinho  porta do Olival.

No campo, que, extra-muros, por aquelles lados se estendia, ainda se
viam alguns individuos, que, com os olhos postos no rio, pareciam
analysar as gals chegadas; mas era visivel que, de todos os portuenses,
estes, que assim ainda pasmavam, eram os menos curiosos, os mais
indifferentes  lucta travada. A boa parte, farrapos, que em bom tempo
tinham formado uma aljuba, denunciavam como decendentes de Tarik; a
outros distinguia-os um circulo de l amarella pregado nos grosseiros
tabardos; o resto no se distinguia por cousa alguma da roupa, porque
naquelle cerzido de trapos nada se podia distinguir. Os curiosos, os
verdadeiros curiosos tnham, como vimos, descido  baixa da cidade, e
mais crescera o numero depois que se soubera que nada havia que receiar
das gals, e que Ruy Pereira e os outros capites desembarcaram e
seguiram processionalmente para os paos municipaes. Gonalo Domingues,
intercalando as combinaes de seu negocio com reflexes sobre a
descoberta feita dos amores de seu sobrinho, reflexes que faziam com
que a este mostrasse gesto carregado, e interiormente se sorrisse,
avivando na memoria os seus verdes annos: medindo de tempos a tempos a
altura do sol, que no eram depois de Ave-Marias seguras certas
paragens, passeava de um para o outro lado do campo: Fernando
acompanhava-o, voltando a todo o instante a cabea para Miragaya;
procurando aproximar-se de sitio d'onde podsse ao menos vr a casa do
mercador; reprehendendo-se por no ter aproveitado melhor o tempo que
passra junto de Irene, dizendo uma fineza daquellas do livro de
cavallerias, que frei Gumeado lhe deixra lr; descorooado por aquelle
final, que de certo o rebaixaria no conceito da linda moa. O sobrinho
andava to embebido, que nem sentia os ps tocar no cho, e o campo no
era jardim areado; o tio canava-se j de aguardar seu compadre, que no
encontrra em casa, quando a appario de um personagem veio pr em
movimento os frequentadores do campo: uns deslisaram-se, o mais
sorrateiramente que lhes foi possivel, pela encosta e por entre o
arvoredo, outros perfilaram-se, e levaram as mos aos barretes, os que
os tinham, mostrando, comtudo, pelo gesto, que no era a estima, mas o
temor que os levava a esta delicadesa.

O recem-chegado, personagem lhe chamamos, e mostrava-o ser de conta
entre aquella gente, era uma figura notavel. Um barrete de tela vermelha
de forma exquisita rematava, assentado sobre um capirote, uma fronte um
pouco crescida e saliente, complemento de um rosto ossudo, moreno, em
que dous olhos desesperados com a proeminencia de um nariz, que se
mettia em tudo de permeio, tinham acabado por enviar as pupillas, cada
uma para o seu lado, a tomar conhecimento com as orelhas; o lbio
superior era adornado por um bigode esfarrapado, de cr duvidosa, ou de
todas as cres possiveis--preto, branco, castanho, louro e ruivo--e de
egual mescla eram os pellos que deixava crescer no queixo. Da cabea no
desdiziam o resto do corpo e o vestuario: trajava um gibo bipartido
preto e vermelho, e uma das longas pernas enfiava-se em uma cala e
borzeguim vermelho, a outra em cala e borzeguim preto; do pescoo
pendia-lhe uma medalha de metal amarello, com as armas da cidade, da
cinta um grande punhal e uma enorme bolsa de couro, e na mo sustinha um
basto, terminado por uma cabea de metal cinzelada, ao que parecia, por
artista que tomra a delle por modello. Medalha e basto apregoavam que
Tello Rabaldo era o pae dos velhacos, cargo que no tem hoje
correspondente, por no tolerarem as luzes do seculo absurdos. Tello
superintendia, governava to smente cidados que em noites serenas teem
o docel do leito recamado de estrellas, jejuam sem devoo, deixam
crestar o corpo pelo sol de Agosto e gelar o sangue pelo frio de
Janeiro, e chamar-lhes velhacos era alterar a significao das palavras,
se no era malicia de legislador, que assim arrebanhava e baptisava
alguns centos de creaturas, para que se persuadissem as de boa f que na
terra no havia mais, como os hospitaes de doudos lisongeam muita gente
que no  forada a no ter l moradia. Os velhacos, os verdadeiros,
ento, como hoje, no se deixavam governar, sempre governavam tambem, e
havia-os anafados, vestindo custosas telas e abrigados em paos
soberbos.

--Eh! boa gente! exclamou Tello, dirigindo-se aos individuos que
tractavam de lhe evitar a presena; ento assim querem fugir a seu pae!
Vamos, venham receber a beno, como bons filhos, e com a beno uma boa
nova. Ol, Pedro Choca! accrescentou, depois de honrar com um sorriso a
facecia que servira de exordio, dirigindo-se a um dos que se
desbarretava; que nenhum dos teus falte depois de manh na Ribeira.
Onde est o Joo Bispo?

--Joo Bispo, redarguiu o interrogado, ha dias que desappareceu.

--O velhaco voltaria para o convento farto de estar deitado de barriga
ao sol, ou se metteu outra vez com a filha do velho Humeia, e est a
fazer penitencia por ter peccado com moura?

--Ou se foi lanar com os scismaticos...

--Para que? Toma conta em ti! Chegou-me aos ouvidos que te travaste com
elle de razes por umas nonadas, e se me dste cabo do rapaz, em boa te
metteste! Se no me trouxeres em breve novas delle, a tua pelle m'as
dar. A pol do aljube est nova, e poder bem comtigo.

Choca resmungou por entre dentes algumas palavras, e o pae dos velhacos
proseguiu:

--Avisa aos compadres para que ou vo comtigo e mais a sua gente, ou a
levem para as tercenas. Que no falte ninguem! Quero duzentos homens,
bons pulsos...

--Duzentos homens, bem sabe sua merc que no podemos reunir. A melhoria
da gente levou-a o senhor conde Gonalo; o senhor alcaide tem boa
poro, e se creanas, mulheres e aleijados no servem...

--E esses perros de cabea amarrada! exclamou Tello, designando um mouro
que a curiosidade trouxera para junto de Pedro Choca, capataz de uma
turma de vdios. Quanto aos aleijados, sei de uma msinha que os pe
sos como um pero, ajuntou, mostrando o seu basto; o manco da porta da
S que o diga. Vamos: sua senhoria (uma barretada) appellidou os bons
homens da sua boa cidade (outra barretada) para que o ajudassem a dar
cabo dos perros de Castella, e os alvazires do-vos honra mettendo-vos
na conta dos bons homens... fazendo-vos trabalhar. Que ninguem falte, e
viva sua senhoria!

--Viva sua senhoria! repetiram os vdios e com elles Gonalo Domingues,
que se approximra da roda formada ao pae dos velhacos, roda desfeita a
um signal por este dado com a vara, deixando a importante, incansavel e
incorruptivel auctoridade, como lhe chamariam hoje, que todos os
encargos teem um ou mais adjectivos annexos, face a face com o burguez,
que abria a bocca para indagar quaes os servios que o filho de Thereza
Loureno reclamava dos portuenses.

A interrogao no foi formulada. Tello Rabaldo, cheio da sua
importancia, fez uma leve saudao, carregou o barrete sobre um dos
olhos em rebeldia, e girou sobre os calcanhares ao mesmo tempo que um
outro individuo assentava nos hombros do forureiro uma grande palmada.
Gonalo Domingues voltou-se a vr quem segundava a amabilidade do
marinheiro, e se no reconheceu logo o seu compadre, foi porque um
abrao de metter costellas dentro o suffocou. O bom homem vinha
lisongeado com a carta de que Ruy Pereira fra portador, lisongeado em
extremo no seu patriotismo de localidade, e expandia o seu contentamento
daquella sorte e em exclamaes, que fizeram suspeitar ao tio de
Fernando, que no estava em bom arranjo aquella cabea. D. Joo chamava
aos portuenses o seu bom povo, mimosera-o alm disso com outros
epythetos taes como--leal, esforado, etc., e o portador, resolvido,
apesar do seu enfado, a ser amavel e popular, pintra a amisade e
reconhecimento do Mestre, pela espontaneidade da sua acclamao na
cidade da Virgem, com taes cres, descera da sua dignidade
prodigalisando sorrisos ao corpo municipal, batendo no hombro de Luiz
Giraldes de um modo, que o nosso homem esteve por um triz a deixar cahir
uma lagrima de commoo. Era uma alma candida e enthusiastica, apesar do
involucro grosseiro, o compadre do senhor Gonalo Domingos; to candida
que acreditava no desinteresse do Mestre de Aviz, suppondo que defendia
a coroa para a entregar ao filho de Ignez de Castro; to enthusiastica e
patriotica que, quando,  fora de lhe perguntar o marchante se
encontrra o arrabi, seccas as goellas e j sem alento para descrever a
reunio nos paos municipaes e mais epysodios da embaixada, se recordou
do seu negocio, era tarde. O sol ia quasi a mergulhar no oceano, e era
provavel no s que, na judearia estivessem fechadas as ruas, mas at
que se l fossem, encontrassem as portas da cidade cerradas no regresso.
Os dous burguezes separaram-se, pois: o patriota, compadre de Gonalo
Domingues, seguiu pelos campos em direco ao povoado de Cedofeita;
est'outro, despertando o sobrinho de pensamentos em que no entravam nem
compras, nem vendas, nem os direitos que os filhos de Henrique 2.^o de
Castella e D. Pedro 1.^o de Portugal, podiam ter  terra que pisava,
tomou com elle o caminho de casa.

As nuvens, que o norte espalhra no ar, como flocos de algodo, ornadas
pelas tintas que formam a gradao entre o rubro e o amarello vivo,
davam ao cu a apparencia de um marmore, um todo que em pintura seria
inverosimil; os edificios de Villa Nova e de Gaya cortavam com o perfil
o horisonte, vestindo pouco a pouco uma cr uniforme, o cinzento-escuro.
De um destes edificios, o que mais se avantajava, do castello de Gaya,
as janellas esguias voltadas para o poente pareciam dar sahida aos fogos
de um incendio. De que no era, porm, este chamejar mais que um reflexo
do sol no occaso, se poderia desenganar quem, mesmo nunca tendo
presenceado este phenomeno, se nos anticipasse na residencia do tenente
do conde D. Gonalo, onde uma hora depois lhe provariamos que a
reflexo, ao appresentar Tello Rabaldo, no fra de leve feita: velhacos
no eram s os que no tinham nem leira nem beira.

Em uma das salas que no castello serviam de apposento ao alcaide,
revestida de apainelados de carvalho, em que a luz do dia, coada pelos
miudos vidros de cr, formando losangos, embaava, e embaava egualmente
a que davam as tochas sustentadas por braos de ferro, passeava de um
para outro lado um homem de alguma edade j, magro e de estatura
mediana. No peito de uma especie de camisola de panno de curtas fraldas,
cujas mangas, farpadas nas orlas, pendiam at ao joelho, viam-se
bordadas a verde com nervuras de ouro tres folhas de figueira; o mesmo
distinctivo se reproduzia em uma bolsa de couro, que, do lado contrrio
ao estoque, acompanhava um punhal, nos fartos reposteiros das duas
portas, que para a sala davam serventia, e na manga da jornea de um
pagem, creana de dez annos, que cabeceava com somno a um canto. O
barrete adornava-se com duas pennas de aguia, presas em fecho de ouro, e
os borzeguins apresentavam uns longos bicos, moda que um epysodio da
guerra travada deixou assignalada na historia. Encostados, no vo de uma
janella, conversavam, em voz baixa, uma dama e um individuo que se
tornava notavel por usar crescido o cabello, raro e de cr avermelhada,
e por uma longa espada, de que affagava o punho. Do lado opposto havia
seis individuos, um dos quaes vestia hbito monastico, e outro se
acobertava com uma velha armadura de malha.

O homem que passeava era Ayres Gonalves de Figueiredo; a dama era a
esposa deste, D. Catharina; o individuo, que lhe fazia companhia, o
irlandez Guilherme Down-Patrick; os restantes eram quatro cavalleiros,
homens de solar de Entre-Douro-e-Minho, o capito de besteiros, Pero
Bedoido, e frei Garcia.

As passadas do alcaide soavam mais alto do que as poucas palavras que
toda aquella gente trocava entre si, e visivelmente preoccupava-o
negocio, que no era para os outros estranho, a no enganar o modo
porque de tempos a tempos se fitavam e a meditao que se seguia. Duas
pessoas se subtrahiam  influencia geral, a castell e o irlandez: se se
calavam era, ella para amimar uma galga branca, que se enroscava sobre
um escabello, elle para com a vista percorrer a laaria e pendures do
tecto.

Segredos e silencio, aquelles olhares e gestos tinham um todo
mysterioso, que houve por bem quebrar Ayres Gonalves.

--Que me dizeis, senhores? exclamou, estacando no meio do passeio, como
a procurar alvitre que viesse pr termo  sua irresoluo, parecer que
se conformasse com o que tinha na mente.

Ninguem respondeu, porm, e o castello, lanando  volta de si um olhar
de quem queria lr nas physionomias dos hospedes as suas intenes,
proseguiu:

--Sua senhoria quer em volta de si todas as lanas do reino, e no se
lembra, ou no se quer lembrar de que fica desguarnecida uma terra to
importante como esta, e cercada por tantos senhores que levantaram voz
pela rainha D. Beatriz. Deixa a cidade aos pees, aos pees, que tracta
como a gente de prol?!

--Em boa confuso vae pondo as cousas! Um dia, veremos, seno lhes pozer
cobro s ousadias, vir arraya tomar-nos os solares; atalhou, abanando a
cabea com ar sentencioso, um velho fidalgo de Riba-Tua. Bem altaneiros
andam j burguezes e mesteiraes!

--Deixae, accudiu Affonso Darga, as encamizadas dos pees, que tero
seu cabo. O Mestre precisa de sustentar a guerra, e lisongea por isso
quanto mercador tem a arca bem provida de boas dobras, tornezes, gentis,
florins e pilartes. Aos do Porto pede elle agora uma armada, mantimentos
e dinheiro.

--Armada que nos levar a vr o rosto s hostes de Castella; tornou
Ayres Gonalves.

--Se se fizer.

--O povo do Messias de Lisboa a arranjar. No viram como os alvazires
propozeram logo uma derrama, e juraram a Rui Pereira que teriam antes de
um mez a nado algumas naus e outras se armariam dos melhores navios do
commercio com Flandres?! Esto inchados com o valimento que lhes do.

--Por ahi se conhecem os viles...

-- que do elles ao Mestre? Grande cousa! Em campo se ver de que
servem, e no campo  que a contenda tem de se decidir. Iro com bstas,
virotes e azevans fazer frente s lanas de Castella? Lingua teem
elles; mas brio  que nem toda a algaravia desses mestres em leis e
clerigos, que o regedor tomou para seus conselhos, esses falladores de
Pisa e Bolonha, poder metter nessa gente.

--Mas nella se estriba D. Joo, disse, meneando a cabea, um dos
cavalleiros.

--Para elles appella com boas palavras; a ns manda-nos, no recado, mas
ordem! exclamou o alcaide.  dessas garnachas sahidas do nada que vem a
desconsiderao em que nos tem.

--Tempos do rei D. Fernando! suspirou Down-Patrick, recordando-se talvez
de quando as hostes do duque de Lencastre faziam, entre os alliados
portuguezes e os inimigos de Castella, de tudo roupa de francez.

--Era um bom rei o que Deus tem! ajuntou frei Garcia, fazendo uma momice
de piedade.

--Rei, e creado como rei, bem sabia elle onde estava a fora e grandesa
do reino e sua.

--E melhor agasalho no nos fazem sempre no campo do marido da rainha D.
Beatriz. Aos de sua casa aconselhou D. Leonor que fossem para o Mestre,
que ao menos no era soffrego.

--Com isso perdeu D. Joo: perdeu-o a altivez.

--E ao Mestre no approveitaro as mercs rastejadas.

--Elle no precisa de ns, tornou o velho, o mais desappontado dos
hospedes do alcaide, ao que perecia; faz cavalleiros a seu capricho do
primeiro peo que se lhe antolha.

--Bons cavalleiros! observou, rindo, o mais moo da reunio. Por l
andam montados em mulas fazendo rir com os seus ares de importancia. No
ser preciso, para os derribar, erguer clava ou montante: andam to mal
a geito com arnez e grevas, to abafados pelos elmos, os que os teem,
que ao primeiro arranco das azes vo ao cho.

--Em se tractando de lanadas  comnosco que se havero, bem o vdes,
disse Ayres de S.

--E ireis, senhor alcaide? interrogou Affonso Darga.

--Eu, senhores, respondeu Ayres depois de alguma hesitao, levantei voz
pelo Mestre, mas recebi o castello do conde D. Gonalo: obedecerei a sua
senhoria em tudo, mas s abandonarei o castello...

A phrase do alcaide no terminou. D. Catharina, approximando-se de seu
marido, e impondo-lhe com um relance d'olhos a conveniencia de no
proseguir, atalhou:

--Largos dias tendes para tomar conselho, cavalleiros; alegrae o sarau
com outros contos. Cousas de tanta importancia no se devem tractar de
salto: o tempo que se leva a pensar em casos taes no  perdido. Tomai
exemplo de D. Gonalo Telles, ajuntou mais baixo, dirigindo-se ao
esposo.

D. Catharina de Figueiredo era, at certo ponto, uma dona prudente, como
chama um historiador, por egual conselho fabiano, a Beatriz Gonalves de
Moura, aia depois da excellente rainha D. Philippa. O exemplo do conde
era um grande exemplo, pois era de homem que sabia, ou parecia ter de
memoria o _Sic vos non vobis_ de Virgilio, e dar-lhe o valor devido nas
cousas do mundo. D. Gonalo fechara-se em Coimbra, jogra com sua irm
um jogo pouco leal e parecia aguardar que a sorte decidisse qual dos
pretendentes  cora tinha razo e direito, ou fora e geito para a
segurar na cabea. O alcaide approveitou o conselho e abandonou o thema
em que o lanra o mau humor causado pela mensagem de Ruy Pereira.

Palestra sobre outro assumpto era naquella occasio difficil de
sustentar. Os cavalheiros pouco a pouco deixaram a sala, e quando s
restavam o aventureiro, Henrique Fafes, o mais moo dos da reunio, e
frei Garcia, indicou este ultimo com o olhar o pagem quasi adormecido,
tirando ao mesmo tempo da manga uma tira de pergaminho dobrada. Ayres de
Figueiredo, sacudindo com violencia a creana de quem o reverendo
parecia recear a indiscripo, a poz, extremunhada, fra da porta,
ordenando-lhe que se recolhesse, e em seguida percorreu com os olhos o
escripto, que lhe appresentaram.

--O alcaide de Monsaraz veio? disse elle terminando a leitura e
dirigindo-se ao frade.

--Senhor, sim, veio.

--E no desconfiaram de nada?

--Penso que de nada. As gals castelhanas no appareceram.

--E de boa fonte houvestes esta proposta?

--Do irmo do arrabi-mr, esse judeu a quem sua real senhoria acaba de
fazer merc.

--Misser Guilherme, senhor Henrique, disse o alcaide depois de fitar os
dous por um momento, se pouco caso se faz de ns em Lisboa, no campo dos
que a sitiam teem-nos em apreo. D. Joo no  to soffrego como o
pintavam, e a prova  este pergaminho.

Down-Patrick fez uma visagem e soltou um oh guttural, que expressava a
pouca admirao que lhe causava o apreo em que o poderiam ter, como
certo dos seus muitos merecimentos.

--Gonalo Rodrigues vos fallar depois d'manh em S. Domingos, disse
frei Garcia, attrahindo o alcaide para junto de uma das portas, a
opposta quella por onde sahira o pagem. E depois, accrescentando
algumas palavras em voz baixa, sahiu pelo outro lado.

Ayres de S, chamando Henrique Fafes e o irlandez, seguiu-o.

Quando a sala ficou deserta, o reposteiro, junto do qual frei Garcia
fallra com o alcaide de Gaya, oscillou e appareceu entre elle e a
hombreira da porta um rosto, onde a curiosidade e a malicia se pintavam.

--A mulher tem razo, disse, referindo-se s palavras de D. Catharina,
o curioso, depois de ter o ouvido  escuta por alguns segundos; o tempo
que se gasta em certas cousas no se perde, e eu no perdi o meu. Ah!
Garifa, minha pobre Garifa! exclamou em seguida, mudando de expresso e
ajuntando  exclamao um suspiro, de ti  que no apanho novas.




IV.

Dous namorados.


                                        ... Donde amor se atraviesa
                                        No hay padres reverenciados.

                                                  (ROMANCES DE GAZUL.)


Fernando, chegando a casa, o melhor predio da rua dos Pellames, ao toque
de Angelus, viu seu tio devorar com todo o appetite uma grande posta de
carneiro e um tassalho de toucinho, capaz do pr em debandada um
exercito mahometano, regado tudo com o summo da uva. Gonalo Domingues,
se dava descano aos dentes, no o dava  lingua, pois incetou, ao
_benedicite_, um sermo, que, ao _gratias_, ainda no estava concluido.
O velho fallou na creao do seu tempo, na obediencia da gente moa 
mais idosa em geral, e em especial quella de quem se recebe o po do
corpo e o po do espirito; discorreu sobre as passadas travessuras do
sobrinho, e foi cahir na ultima, terminando pela ameaa de um sevro
castigo, em caso de reincidencia. Fernando, ao inverso do tio, no
tocava sequer em uma mealha do po alvo, que a criada com um prato de
figos passos servira por mimo, e, com os olhos fixos na toalha, no
soltava uma palavra de desculpa. O bom velho, notando aquelle
extraordinario fastio e sizudez, tomou tudo por effeito da sua
eloquencia, converso e compuno do rapaz, e por um triz esteve, no
final, a addicionar ao sermo um palliativo, tirando o exemplo de casa,
pois que o podia fazer; mas a necessidade da disciplina, de conservar
sempre perante o sobrinho um todo de soberania, um sobrecenho, que
julgava indispensavel, embora no quadrasse com a affeio que lhe
tinha, o detiveram. Fernando era, segundo elle, um estouvado, um leviano
como seu pae, do que dra j provas exuberantes, abandonando, depois dos
estudos, o convento de S. Francisco, ento extra-muros, para onde um
outro parente o chamra, a fim de o metter na estrada do cu e do mundo
pela clausura. O que nisto amofinava mais o forureiro era a boa
disposio que mostrava o mancebo para as letras, a intelligencia
desenvolvida, que nos primeiros tempos fizera dizer a frei Gumeado,
grande sabedor para aquellas epochas, que bem podia vir a aspirar a
grandes dignidades da egreja e do seculo, a ser geral, bispo, ou
chanceller. Todo o rigor, pois, que empregasse era pouco, e despediu-se
do mancebo com toda a solemnidade, para dizer  cuvilheira que, como por
seu voto e lembrana, lhe levasse ao quarto alguma cousa de comer.

Se Gonalo Domingues soubera qual a atteno que lhe dava o sobrinho, de
certo no fizera semelhante recommendao.  bem certo que os annos
trazem, s vezes, experiencia e algum saber; mas no  menos certo que 
proporo que vo passando se esquece muita cousa egualmente: aos
sessenta perde-se a memoria dos vinte, seno das aces praticadas, dos
pensamentos havidos; um mancebo pde muito bem avaliar o que no
apreciar, no conseguir distinguir um homem a quem o inverno da vida
tenha gelado o corao. A prdica entrava tanto na absorpo de
Fernando, como entrava a mensagem do Defensor: as palavras do tio
eccoavam-lhe aos ouvidos como sons vagos, que se no reproduziam no
machinismo regulador chamado intelligencia e outros nomes, segundo a
face por onde  visto, porque sons diversos o impressionavam. As fallas
de Irene, as inflexes, os mais leves gestos preoccupavam-no: de uns e
outros tirava esperanas agora, logo motivos de amofinao; traduzia
agora uma phrase, das poucas obtidas de Irene, por um modo que o corao
trasbordava de alegria, e logo parecia-lhe que o timbre de voz, um nada
sonhado lhe dava bem diverso valor; assignalava aquelle dia como o mais
feliz da vida, e recordando-se do desfecho do colloquio, em seguida;
entristecia-se e amaldioava o tio, que o fizera descer do galho da
arvore e dos braos da felicidade. O puxo de orelhas, sobretudo,
doia-lhe, quando o recordava, mais do que lhe doera em Miragaya,
julgando-se aos olhos da sua namorada deshonrado... mais que deshonrado,
ridiculo. Este combate entre o desejo e o receio, durou, trazendo a
insomnia, at altas horas da noite; mas, a final, venceu o desejo, e a
alegria espelhou-se-lhe no rosto. Fernando, nas azas da imaginao;
voava do passado ao futuro, e deste quelle, amontoando as pedras do seu
castello de felicidade. Deitando-se e apagando a luz sorria a todos os
sonhos creados; sentia como nova vida a inflar-se no peito, e parecia
querer affogar-se em ar, tanto era o que respirava de momentos a
momentos. Junto com a imagem da linda filha de Joo Ramalho toda a
natureza era risonha naquella miragem: as arvores reproduziam-se mais
verdes, mais cheias de perfumes e mais bellas as flores; as aves nos
cantos diziam todas--alegria; o cu transparente deixava adivinhar alm
do manto azul uma segunda vida toda amor. O mancebo vira, bem o podem
acreditar, bastantes vezes o cu, as arvores e as flores, mas nunca se
lhe tinham affigurado assim: como  estatua de Pygmalio, faltava-lhe o
fogo no peito. A lavareda atera-se naquelle dia, posto que incubasse
havia muito.

Fernando Vasques amava Irene desde que a vira, e vira-a nessa edade em
que se sente um vacuo no corao; a si mesmo confessra j esse amor;
mas definido, claro, s ento rebentra: o vcuo enchera-se, e a
trasbordar, e para o encher talvez o amaldioado puxo de orelhas, a
primeira grande contrariedade, entrasse por muito: talvez dizemos, e
podiamos dizer certamente. O amor vive de contrariedades, de luctas,
diz um phisiologista; e como um malicioso accrescentou que por isso s
elle nas mulheres se creava, saibam, acreditem as leitoras que todo o
homem tem no corao o seu tanto ou quanto de mulher, na mocidade
sobretudo, e por isso no perde. As mulheres lucram menos com o que
recebem do homem em geral: no as compensamos. Como diziamos, porm,
deixando reflexes, a correco de Gonalo Domingues, e ainda, se
quizerem, as poucas palavras trocadas entre os dous namorados, tinham
ateado a lavareda no peito do mancebo, e um dos effeitos della fra, de
fazer acordar homem quasi quem se deitra creana.

Fernando, no dia seguinte, no era o mesmo rapaz; o tio notou aquella
differena e attribuio-a ao jejum da vespera, com a mesma prespicacia
com que attribuira a causa delle  sua predica; e para contentar o
rapaz, levou-o de manh, depois de tractar dos seus negocios e da
politica do dia, a visitar frei Gumeado, que o costumava regalar, apesar
da sua desero, com gulodices, em que no tocou dessa vez, e de tarde,
a passeio at aos Carvalhos do monte, que assim se chamava o local onde
o cabeudo parodiador do marquez de Pombal no Porto, o corregedor
Almada, edificou um theatro. O effeito destas amabilidades  facil de
adivinhar. O namorado de Irene, que, voltando com a luz da madrugada 
lucta de esperanas e receios, anceava por occasio de ir buscar um
desengano nos olhos da donzella, preso assim todo o dia, revoltou-se
interiormente contra a tutella do tio e desappontou-o com desabrimentos.
O velho pasmou, benzeu-se, e da compaixo, do arrependimento da aspereza
da vespera cahiu com um mau humor verdadeiro, tomando aquelle
procedimento por ingratido, protestou que a severidade, que at ahi
lhe ficava nos lbios, ia ser posta em aco, e como assim se revoltra
pelo leve castigo de uma travessura, elle trataria em primeiro logar de
as impedir, no lhe deixando uma hora para folias, nem arredar p da
loja de pellames; em segundo, se se furtasse  sua vigilancia, de passar
alm do puxo de orelhas, dando causa verdadeira a amuos.

No outro dia, um domingo, no se esqueceu do seu protesto o velho
forureiro, e o desespero do sobrinho augmentou, tanto quanto augmentava
o receio de perder o amor da linda moa; que, se at ao dia em que
conseguira trocar algumas palavras com Irene, muitos se passaram em que
no descera a Miragaya, sem que tanto se amofinasse, aquella meia
declarao e o desfecho mudra as circumstancias: daquellas em que se
encontrava bem podem fazer ideia as leitoras e os leitores, aos quaes a
memoria ainda conserva vivas as paginas da mocidade.

Depois de jantar, porm--refeio que se tomava nessas epochas, mesmo
entre aristocratas, desde as onze ao meio dia, exactamente  hora em que
hoje almoa muita gente--quando Gonalo Domingues executava, dormindo a
sesta, uma musica que se assemelhava a tempestade em chamin na
combinao de assobios e notas de contrabasso, appareceu Luiz Geraldes,
o mais respeitavel individuo da burguezia, a procural-o para irem a S.
Domingos, onde se devia tractar do meio de corresponder  confiana que
o mestre de Aviz depositra nos bons cidados da terra, assumpto em que
o alvitre do forureiro era valioso, por se poder traduzir na linguagem
sonora das boas dobras de el-rei D. Pedro; appareceu Luiz Geraldes e com
elle a occasio que desde madrugada esperava e provocra  sombra de
todos os pretextos. Mestre Gonalo, pois, a sahir, e Fernando a procurar
na arca o seu melhor gibo e o barrete, a alindar-se, e a bater com a
porta da rua na cara da velha creada, que lhe recordava as ordens dadas
pelo tio, avivadas segundos antes, e a trovoada que sobre elle e sobre
ella descarregaria se ou o encontrasse na rua, ou o no achasse em casa,
regressando.

O namorado moo deitou a correr; mas, como em certo apologo, a pressa
foi causa de vagares. Tal era o estado daquella cabea que tomou o
caminho seguido por seu tio e o grande amigo do Mestre, e ao cabo da rua
da Bainharia esbarrava com elles se um encontro de um homem d'armas o
no obrigasse a uma pausa, e na pausa a um espadeiro, que se sentava em
um desses balces ou mostradores que fechavam uma das portas das
estreitas e escuras lojas, conservando nas ruas mais estreitas e no
menos escuras os freguezes, no ouvisse dizer para um visinho que
deitava a cabea por uma adufa:

--L vae em cata de mestre Gonalo, que dobrou agora mesmo para o
terreiro, o sobrinho... o filho de Vasco, que Deus haja.

Fernando, quiz retroceder; porm, como o bom do espadeiro lhe gritasse
que perto ia Gonalo Domingues, se o procurava, no teve remedio seno
responder que ia a recado para as Aldas, e enfiar pelo arco de
Sant'Anna, tomar caminho pelo lado da judearia e descer aos Banhos, onde
lhe tolheu o passo o personagem que no capitulo antecedente vimos no
castello de Gaya, surdir por entre o reposteiro.

--Vindes de S. Domingos? interrogou elle, pondo-se diante do mancebo.

--Oh! s tu Joo Bispo! exclamou Fernando, depois de examinar o rosto do
individuo, assombrado por um farto capuz. Ha muitos dias que te no
vejo.

-- verdade, redarguiu o recem-chegado, dando pelo nome, que ouvimos j
da bocca do pae dos velhacos.  verdade, repetiu; e  palavra ajuntou um
profundo suspiro.

--Que tens, tu? Ests to triste como quando nos tinham no convento.

--D'onde nunca devra ter sahido! tornou Joo, soltando outro suspiro.

--Bem mudado ests, meu folio, ou  isso momice nova?

--Antes fra, Fernando! antes fra! mas finaram-se as alegrias.

--Mas, ao que parece, a vida no te vae peor. Gibo novo de barregana...
boa adaga! disse o mancebo, medindo-o de alto a baixo. 

--Vesti isto; mas embrulhade em almafega respirava melhor: o saio e as
calas riam-se por todas as costuras, mas eu tambem ria, e agora bem
vedes....

--Vejo que ests sizudo como eremito, ou mestre em leis,  verdade...
Mas onde assim te pozeram? d'onde vens?

--Do castello.

--Do castello? Tomaste l moradia e servio?

--Ou cousa parecida... que no se pode assim dizer de praa...

--Segredo! Ora vejam Joo Bispo feito escrivo da puridade do alcaide!
exclamou o mancebo, sorrindo e dando alguns passos para seguir seu
caminho.

Joo segurou-o por um dos braos, e encolhendo os hombros respondeu 
zombaria:

--Mofai, que a vez a todos chega. Algum dia haveis de querer bem a
alguem....

--E por isso te amofinas, quando no tens quem te empea de a vr a todo
o momento! redarguiu Fernando, que se no recordou naquelle instante de
outro contratempo em amores, seno do que com elle se dava.

--Vl-a!... vl-a! exclamou, tornando a suspirar o vadio. Oh! minha
pobre Garifa!

--Garifa, repetiu Fernando; Garifa... ora espera... Garifa no era
aquella rapariga moura que vinha ao terreiro vender fructa?

Joo Bispo fez com a cabea um aceno affirmativo.

--Uma rapariga sempre alegre, que na procisso de _Corpus_ tangia
pandeiro e danava com tanta desenvoltura, trazendo o vestido cheio de
cascaveis?

--Sim.

--Que to bem cantava umas cantigas castelhanas?

--Sim.

--Pois bonita era... pena que fosse moura! E tu, Joo...

--Eu quero-lhe, quero-lhe como se em noite de S. Joo me fizessem
feitio...

--E feitio foi de certo; porque uma moura...

--No sei se  grande peccado o querer-lhe bem; mas c para mim tenho
que no. Ella  moura, ; mas...

-- por isso que to magoado te vejo? Querial-a christ, e casavas.

--No , no;  porque m'a roubaram!

--Roubaram-ta?

--Roubaram. Ha uma semana, no sabbado, estava eu na encosta do Olival,
ao p do regato,  espera della, e eis que vejo o pae, o velho Humeia,
vir direito a mim. O pobre homem chorava como uma creana; as lagrimas
eram como punhos pela cara abaixo e os soluos pareciam affogl-o;
cortava o corao! disse Joo Bispo, limpando com a manga do gibo os
olhos, sensibilisado ou pela recordao da scena, que narrava, ou pela
desappario de Garifa. O velho proseguiu, quando pde comear a fallar,
a pedir-me a filha, dizendo que lh'a entregasse; que bem tinha visto
andar-lhe no seguimento, e na vespera a encontrra ainda alli mesmo a
fallar commigo. Olha, Fernando, fiquei como quando me vieram dizer que
meu pae--Deus o tenha--era finado, e jurei quelle pobre homem que no
fra eu que lhe tirra a filha... e commigo pela hostia consagrada jurei
tambem descobrir-lhe a rapariga. O velho acreditou-me, e disse-me
cousas, que no poderei repetir; que no sei bem o que foram; mas que
pelo modo de as dizer me deram um n na garganta: parecia que tinha
engolido uma ma inteira. Procurei Garifa. Dous homens foram vistos a
passar o rio nessa noite com uma mulher, me disse um petintal, e corri
tudo em Gaya; alistei-me no troo de Pero Bedoido, para ter occasio de
esquadrinhar todos os cantos do castello; mas vl-a... vl-a... ainda a
no vi! Desconfio, porm, que l esteja, e se l estiver, ai do
rausador! Olhai, elles deram-me esta adaga, e eu trago-a bem afiada, os
ouvidos attentos e os olhos abertos!

Joo Bispo, ao soltar estas ultimas palavras, baixou a voz e um veo
sinistro lhe assombrou a fronte; por alguns instantes permaneceu calado,
e proseguiu depois, vendo que o sobrinho de Gonalo Domingues parecia
atterrado com semelhante confidencia:

--A alegria no pde durar sempre. Desde que, morto meu pae, que por
fora me queria vr tonsurado, fiz uma reverencia ao guardio, dei um
cascudo no porteiro e me fiz velhaco, visto que no convento no apprendi
officio e de sujeio estava farto, bem vestido, mal vestido, mais
trapo, menos trapo, barriga mais cheia ou menos, tinha quasi todo o
santo dia os dentes  amostra; agora veio um revez...

--No s s tu, Joo, que os tens; eu...

--Que lhe fizeram, atalhou o vadio; diga, que eu dou uma ensinadella,
e...

-- negocio em que nada podes. No sabes, Joo, disse o mancebo, pondo a
mo no hombro do seu antigo companheiro, e chegando-lhe a bocca perto do
ouvido, como em segredo; no sabes... eu tambem quero a uma rapariga
como s meninas dos meus olhos. Oh!  mais bonita que a tua!

--, disse Joo Bispo, com um meio sorriso.

--Muito mais; porm, meu tio, tenho eu para mim...

--No quer? 

--Parece-me que no.

-- pobre?

--Pobre!... repetiu Fernando Vasques, encolhendo os hombros.

--Mestre Gonalo Domingues  rico, e...

O namorado de Irene, ouvindo o nome do tio, lanou em torno de si os
olhos, como se receiasse que alli apparecesse; lembrou-se que passava o
tempo e elle podia, de volta a casa, no o encontrar, se fosse grande a
demora; recordou a causa do seu passeio, e fazendo um gesto de
despedida, deu alguns passos em direco  porta da cidade.

--Se fr necessario o antigo companheiro das folias, no o poupeis. Os
meus trapos nunca vos fizeram voltar o rosto, quando nos encontramos, e
hei de mostrar que no tendes feito mal, Fernando, disse o ex-novio,
estendendo ao mancebo um pulso que no era fraco. Ah! exclamou em
seguida; no vindes do lado de S. Domingos?

--No.

--Nem pelo caminho vistes o alcaide de Gaya?

--No.

--E que tens a vr com o senhor alcaide, meu velhaco? disse uma voz, que
logo Joo Bispo reconheceu por ser de Tello Rabaldo.

--Ah! sois vs! murmurou o interpellado, visivelmente contrariado por
aquella appario, em quanto Fernando deitava a correr pela rua abaixo.

--Vosso servo, tornou o pae dos velhacos, tirando com ar zombeteiro o
seu barrete e segurando pelo capuz a Joo Bispo. O fidalgo de certo que
s com fidalgos tem tracto e por elles procura; porm como est em
behetria, para no haver desaguisado, pondo-o fra, dou-lhe companhia
mais ch; mas que lhe far bom agasalho. Vamos! exclamou mudando de tom;
para as tercenas j!

--Senhor Tello, porm...

--Vais seccar a goella sem proveito.

--Senhor Tello, quizera fallar a Ruy Pereira.

--Agora  com Ruy Pereira! Grandes so os negocios! Bravo! continuou o
pae dos velhacos, medindo Joo Bispo de cima abaixo, como minutos antes
fizera o sobrinho de Gonalo Domingues, e como elle admirando a mudana
que na roupa havia; bravo! Parece que vamos ter contas graves a ajustar!
Cortaste bolsa, ou arrombaste a porta a mercador ou algibebe para vires
assim garrido?

--Sou bsteiro do rei.

--Bsteiro do rei desde quando, velhaco? desde que fugiste com a filha
do velho Humeia?

--Est excommungado! crdo! gritou uma velha do pequeno ajuntamento que
se fizera  volta dos dous interlocutores. Ter contractos com aquella
condemnada moura, aquella...!

A mulher disse nome que lhe valeu de Joo Bispo um murro, que levava a
fora proporcional  raiva que lhe causra a abelhuda comadre,
insultando Garifa.

--Olhem o maldito! gritaram duas companheiras da aggredida. Onde est a
justia? Que faz o senhor bispo que o no manda aoutar bem aoutado? E
attreve-se em rosto do senhor Tello...

--Calem a bocca, serpentes! berrou o pae dos velhacos, fazendo um gesto
e meneando o seu basto.

--Serpentes? grunhiu a velha, segurando com a mo os dentes que o socco
pozera em vesperas de despedida.

--Serpentes? pipitou uma das novas, esganiando-se.

--Serpentes? resmungou a outra, ferrando os pulsos nas ancas.

--Serpentes! gritaram, grunhiram e pipitaram entre gargalhadas e em
todos os tons os garotos que j embaraavam o transito.

Tello Rabaldo viu a sua dignidade compromettida, o que no poucas vezes
acontecia, e tractou de a salvar pelos meios usados ainda hoje em
embaraos--pela fora; e como  mo no tivesse se no a sua, foi dessa
que se serviu. Segurando sempre o namorado da moura pela extremidade do
capirote, fez rodizo com o seu basto; tomando-o pela parte superior, e
uma escala salteada de ais e uis sahiu dentre a roda de curiosos e
curiosas, que augmentava.

--O senhor alcaide! Ahi vem Ayres Gonalves! gritaram duas vozes quasi
ao mesmo tempo.

--Tolhido sejas tu, maldito! resmungou Joo Bispo, lanado em apuros com
semelhante appario.

--Senhor Pero! senhor Pero Bedoido! berrou o pae dos velhacos, para o
capito de bsteiros, que, seguindo o alcaide de Gaya, se dispunha a
embarcar para o castello, e desepparecia por um dos postigos.

--J nada fao, disse comsigo o ex-novio deitando o olho a vr se o
capito accudia ao chamamento. A pelle corre-me agora grande risco, se
desconfiam de mim. Com a bocca no pixel no os apanho j!

--Ol, senhor Pero! sua merc no me diz se este velhaco tomou servio?
proseguiu Tello, querendo arrastar comsigo Joo Bispo, mais talvez para
 sombra do capito dos bsteiros se fazer acatar, do que pela
curiosidade de saber se o namorado de Garifa lhe mentira, ao que estava
bastante affeito, para regular a sua justia pelo humor em que o
apanhavam e no por depoimentos e confisses. Em materia de confisses
dava f s feitas em potro, ou de borzeguins, quando estava de boa
feio, e felizmente no era isto raro.

--Grande velhaco! continuou, dirigindo a palavra ao seu prisioneiro;
ainda ha pouco no tinhas que dizer a todos os fidalgos? Mais depressa
se pilha um mentiroso do que um cxo.

Pero Bedoido, ouvindo a voz do pae dos velhacos, parra junto do
postigo, que dava sobre a margem do rio, e retorcendo o bigode piscava
os olhos para concentrar os raios visuaes afim de melhor reconhecer quem
o chamava. Ayres de Figueiredo parra igualmente.

Quem no deve no teme. Joo Bispo sentia os seus arripios pelos lombos,
porque um pensamento, que o leitor experto, e que de certo se recorda do
dialogo apanhado atraz do reposteiro, adivinhar, o punha, na
consciencia, em hostilidade com o nobre alcaide, e se na presena delle
Tello Rabaldo de novo se referisse  entrevista que pretendia ter com o
tio de Nuno Alvares, a vida corria-lhe grave risco. Joo no tinha,
porm, cursado em vo os estudos em S. Francisco e a eschola pratica de
velhacarias dos terreiros, praas e bitesgas da cidade da Virgem, para
no achar um expediente bom ou mau com que se sahisse de apuros,
momentaneamente que fosse. Tello segurava-o, tendo-o quasi esganado pela
extremidade do capirote, e o cabeo deste fechava no peito e garganta
por meio de quatro grossos botes. Desabotoado estava livre.

--Senhor Tello, senhor D. Tello?! murmurou o rapaz, levando as mos j
aos botes, e esgotando no submisso, no plangente da voz, e naquelle
dom, o ultimo recurso oratorio.

--Ah! perro, velhaco! Eu te...

O pae dos velhacos no concluiu a phrase: um cascudo que preparava como
paga da nobilitao dada ao seu nome, deu-o no ar, e com o costado no
mesmo momento apalpou o cho, depois de abalroar com as canellas de
alguns curiosos.

Um cro formado de um unisono de gargalhadas e de gritos ensurdeceu os
visinhos que enchiam as janellas e atulhavam as portas. As gargalhadas
provocara-as o desastre de Tello; os gritos soltaram-nos os que abriam
caminho a Joo Bispo. O amante de Garifa deixando o capirote na mo do
pae dos velhacos, que perdera o equilibrio, mettera mos  adaga e
corria na direco da Ferraria.

Ao passar em frente do postigo um acontiado da behetria tomou um virote
para lhe embargar o passo.

Ayres Gonalves, ao mesmo tempo que Pero Bedoido, reconhecendo no
fugitivo um dos seus homens, lhe sustava o arremesso, gritou em voz bem
alta para chegar aos ouvidos de Joo:

--Perro, villo, se tocas n'um dos meus homens!...

E a mo do fidalgo pousou como complemento de phrase no punho do
estoque.

O acontiado fez uma careta de despeito, baixou o virote, e quando o
fidalgo voltou costas, deu com elle com uma fora tal d'encontro 
parede, que o fez voar em hastilhas, resmungando:

--Perros e villes... perros e villes! A nossa vez ha de chegar,
traidores, scismaticos!




V.

Irene.

                           Ma son, mentre ella piange, i suoi lamenti
                           Rotti da un chiaro suon oh'a lei ne viene...

                                             TASSO. Ger. lib. cant. VII.


E a linda Irene, a filha de Joo Ramalho?

Irene, das primeiras fallas trocadas com Fernando, colheu um resultado
quasi igual ao que este obtivera. A impresso primeira foi a da alegria.
Deslembrada da appario de mestre Gonalo, quando foi ao encontro da
cuvilheira, que a chamra, a physionomia illuminra-se, reproduzindo
toda a felicidade que l ia por dentro naquelle corao.  pergunta que
lhe fizeram, mas no ouviu, respondeu com um abrao na velha, que, mal
affeita, pela sua rabuje, a taes carinhos, abriu grandes olhos, e o
espanto desta subiu ainda, levando-a a benzer-se, quando viu que, sem
lhe prestar atteno, a moa comeou a entoar uma copla de amores,
desses cavalheirescos amores da epocha. Aquella alma de virgem saudava o
enfloramento da nobre paixo que no seio lhe germinra, e a velha, como
Gonalo Domingues a respeito de Fernando, nem se quer pensou que nessa
exaltao entrasse por alguma cousa o mancebo, de quem j havia notado
os passeios em frente da casa--o que a levra a fazer-lhe carrancas de
sobrecenho capazes de affugentar qualquer outro que no fosse um
namorado.

--A menina Irene namorar! a menina que depois da morte da nossa ama
tenho creado com todos os cuidados?! pensava ella com os seus botes,
quando lhe vinham desconfianas, ou as visinhas, pela ssta, no cavaco
quotidiano que tinha depois de arranjados prateis, agomias, sart,
pucaros e mais aprestes de cosinha, notavam o volver d'olhos de um ou
outro alindado da terra.

A tia Genoveva tinha de si para si que o corao de Irene se abriria s
quando ella, ou o senhor Joo Ramalho muito bem quizessem.

As tias Genovevas ainda hoje no so raras.

A linda moa, quando a deixou a cuvilheira, insensivelmente comeou a
reflectir nas palavras de Fernando, e pouco a pouco no semblante e no
corao comeou a tristeza a vencer. A pobre no sabia que o amor se no
traduz bem em palavras, e esmorecera pensando que podia no ser amada,
ao passo que bem sentia definir-se-lhe no seio a paixo; e quando, noite
cabida, a velha trouxe para o quarto de trabalho um velador do qual
pendia um grado candil, no respondeu s boas noites dadas, possuida
de sentimento bem diverso do que horas antes a distrahira. Ainda mais: a
tia Genoveva, ao espiar a roca e terminar a ultima ave-maria da coroa
que todas as noites rezava  Senhora da Silva, para a ter por sua
intercessora; a tia Genoveva notou uma lagrima a balouar-se nas cilias
da linda joven, como aljofre matutino nos estames de uma flor.

--Porque chora, menina? perguntou a velha criada tomando-lhe o rosto
entre as mos, para melhor se certificar de que no era illuso sua
aquelle pranto.

--Chorar... eu? murmurou Irene, limpando os olhos.

--Sim, a menina. Ento no veem o espanto que faz?

-- que eu no choro... Porque havia de chorar?

--Porque? Ora sei eu o porque?

--Nem eu...

--Credo! Anjo bento da minha guarda! Feitio por certo lhe fizeram! De
tarde a rir e a cantar como uma louquinha, e a fazer-me momices
carendeiras; agora a choramingar sem que nem para que!  quebranto,
menina...  feitiaria; e bem far em pr esta noite debaixo da
almadraquexa um ramo de arruda.

A velha atinava: que maior feitiaria que a do amor no pde haver. S
elle tem o privilegio de dar a uma palavra ecco que, por vezes, dura at
com elle se casar j bem fraco o das ultimas preces: de perpetuar uma
imagem ante os olhos at que os cerre o frio osculo da morte.

Pranto e risos, succedendo-se rpidamente sem explicao para quem os
v, sem explicao mesmo para quem os sente humedecer as faces, ou
descerrar os lbios, so em geral o resultado vulgar do toque da vara do
grande feiticeiro: emquanto o feitio conserva toda a fora, o pranto 
como os chuveiros de Maio, que veem como para fazer ressaltar o sol que
lhes succede, ou como os orvalhos de Junho, que refrigeram as flores;
quando o feiticeiro se ausenta, o riso  como o luar em noites de
Fevereiro, quando tudo  silencio: contrista como elle, traz
melancholia. As lagrimas da linda filha de Joo Ramalho eram chuveiros
de Maio. Correndo  vontade sobre o travesseiro, em que no pozera a
arruda, no lhe imprimiam nas faces a aridez; regavam, permitta-se mais
esta imagem entre tantas, o amor que, como no sobrinho de Gonalo
Domingues, repetimos, se definira naquella tarde.

O amor na juventude, no sexo que chamamos fragil, porque ns, que nos
dobramos a todo o momento a seus ps, lhe esmigalhamos o corao em um
circulo de ferro chamado positivismo, realidade e conveniencia, quasi
sempre nasce entre lagrimas, lagrimas das que chorava Irene quando
repetia baixinho, comsigo, o nome de Fernando; lagrimas que rebentam
espaadas, se demoram nas palpebras, e descem lentas pelo rosto.

No outro dia muitas vezes correu a moa namorada  janella da praia,
muitas  que dava para o lado do monte, e impacientou-se e
entristeceu-se quando viu cahir a tarde sem apparecer o sobrinho do
forureiro; no domingo, durante a missa do dia, na velha igreja de S.
Pedro, fez cochichar umas poucas de comadres, que lhe ficavam na
rectaguarda, tantas foram as vezes que voltou, durante o officio, a
cabea para o lado da porta, e ainda mais se impacientou e entristeceu
quando, feitas ante todas as imagens as estaes que eram da devoo da
senhora Genoveva, regressou a casa sem vr uma sombra rastejando ao lado
della (que olhar face a face, de perto, para Fernando, nunca a gentil
menina olhara) sem ouvir certas passadas, que distinguia de todas as
outras e lhe causavam uma impresso nervosa agradavel.

Neste descontentamento, sentada na varanda, que tentamos j descrever,
prestava atteno a todos os ruidos, quando a velha criada com quem Joo
Ramalho havia conferenciado depois de jantar, arrastando um tamborete de
pau e umas contas com que se entretinha todas as vezes que no
trabalhava ou dava  lingua, lhe veio fazer companhia. Genoveva
engorolou um _pater_ e tossiu; engorolou outro _pater_ e tossiu outra
vez; terceiro _pater_ a meio e mais prolongada foi a tosse, e, ao
findar, a esta juntou um arrastar de tamborete e um suspiro. Era
evidente que rebentava por fallar; porm a sua joven ama estava bastante
distrahida para notar todos aquelles preparativos oratorios. A velha
ainda se resignou a fazer passar mais algumas contas, a mudar o
tamborete da direita para a esquerda e a passar na tosse do _piano_ ao
_forte_, do _moderato_ ao _vivace_ e at  _furia_; mas vendo que era
trabalho perdido, pousou o rosario, puchou a touca, crusou os braos
sobre a barriga e exclamou:

--A menina que tem?

--Nada, respondeu Irene, olhando pela abertura da zelozia para o cu,
que mostrava um azul soberbo.

--Nada! Ento eu estou cega; ha dias que no sei o que tem... anda
triste!...

--Triste? atalhou Irene, com um desses sorrisos, que se denunciam como
contrafeitos. Ainda esta manh me disse que andava com a cabea no ar, e
achou que ria como louca... no sei quando...

--Sim, sim: veja se me engana com esses risinhos sccos, menina. Por
mais que faa no me faz acreditar que no est magoada. Eu desconfio
que...

--De que? interrogou Irene, fazendo-se vermelha, julgando ser do
sentimento dominante no seu corao que lhe iam fallar.

--Nada, nada. O senhor seu pae no lhe fallou... no lhe deu a
entender...

--Meu pae, tornou a joven sobresaltada, no me disse cousa alguma...

-- que... pensei...

--O que, Genoveva? Que tinha meu pae a dizer-me?

--Nada, nada; respondeu a velha, recomeando de novo o rozario.

--No, alguma cousa era! Diga, diga, Genoveva; meu pae est de mal
commigo?

--De mal! elle que no v outra cousa, que a traz nas palminhas das
mos, apesar daquelle modo assim de poucas palavras?! Se se amofina ...

--Acabe! supplicou a joven.

--Triste j est a menina; para que a entristecer mais? disse a criada
mastigando.  --No me quer entristecer mais? Pois que ha? exclamou a
filha de Joo Ramalho, erguendo-se com a anciedade pintada no rosto.

--... nada, nada, redarguiu a velha. E baixo accrescentou, tornando a
carregar a roca:--Cala-te, bocca. Ora, no ia eu j dizer tudo?

O parte da cuvilheira, por uma mania que tinha de sempre dar  lingua
para que a ouvissem, pareceu-se com todos os partes do theatro, e mais
anciosa ficou Irene.

--Jesus, Genoveva! Succedeu alguma cousa?

--Nada:  que...

--Acabe por uma vez.

--Como tem de ser... porm, olhe, triste j a menina est, e quanto mais
tarde...

--Est a fazer-me mal, minha boa Genoveva! exclamou Irene, juntando e
erguendo as mos em aco de supplica.

--Ora vejam! mal  que eu lhe no queria fazer; mas visto que teima...
sempre lhe digo: seu pae embarca por estes dias.

--Embarca... disse a joven tornando a sentar-se. Julguei que fosse outra
cousa. No estou j affeita a vr partir meu pae, todos os annos, uma,
duas e tres vezes para essas terras de Christo? Se podsse fazer com que
no andasse sobre aguas do mar, exposto; porm...

--Ao mar, atalhou Genoveva, j o senhor Joo Ramalho est affeito.
Parece que tem todos os santos e santas por elle... e merece-o, que no
ha tempestade que mal lhe faa; e mais dizem que so bem ms as da
Inglaterra e Flandres! Mas no  agora s o mar...

--Ento que mais , Genoveva?

--... que... que volta a Lisboa... e...

--Jesus! agora... que anda a guerra por l!...

--Deus ha de querer que nenhum mal lhe venha, e eu hei-de recommendal-o
muito  Senhora da Silva e  Senhora do Amparo, as duas santas de mais
valimento que ha no co... de maiores milagres pelo menos... ao Senhor
S. Pedro, advogado da gente do mar, e s almas milagrosas! redarguiu a
senhora Genoveva, fazendo uma especie de mesura a cada nome dos beatos
patronos que proferia.

--Bem me dizia o corao que destas nus e gals chegadas me viria mal,
disse Irene recordando-se naquelle instante das palavras de Fernando.

--Mal... mal? Tenha f em Deus, que  grande peccado descorooar assim.
O senhor Joo Ramalho, seu pae, se anda cuidadoso  por si, menina
Irene: como est j uma moa... eu c me entendo... quer deixal-a bem
amparada, em logar seguro; que nestes tempos revoltos, e nos que o no
so, todo o cuidado  pouco. Como no vae lobo a redil nem raposa a
gallinheiro seno quando acha a porta mal cerrada e no ha mastins para
aular, queria deixal-a em abrigo seguro, e lembrou-se de um convento.
J dei recado para uma prima, que tenho, sergente em Entre-Rios, a vr
como poderei ir fazer companhia  menina...

--Ento, Genoveva, vamos para to longe! exclamou a linda moa com voz
magoada.

--Ainda no  de certo.  precisa licena do senhor D. Joo Affonso, e
no sei que outras requestas... e como no  para j o caso... por estes
dias...

--Genoveva! Genoveva! gritou do andar terreo o senhor Joo Ramalho,
fazendo estacar a falladora cuvilheira, que incetando um Padre-nosso em
um tom de voz que, sem offensa da boa da beata, se podia comparar ao
rosnar de um co, desceu as escadas.

--Virgem santa, valei-me! murmurou a joven fechando uma na outra as
mos, brancas e delicadas, e deixando sobre o seio pender o rosto, que
no desfeiavam os assomos de tristeza.

Irene assim permaneceu longo tempo, e quando ergueu os olhos orlava-lhe
as palpebras uma cr mais rosada que de costume, e as lagrimas
borbulhavam mais intensas do que as trazidas pela desconfiana de que
Fernando Vasques no correspondesse ao affecto por ella consagrado. Eram
mais intensas, porque junto com as arrancadas pelo amor filial--pois
bemqueria a joven a seu pae, com um extremo inexplicavel, attenta a
rudesa apparente do piloto, se  que uma fora occulta a no fazia
corresponder ao sentimento por elle votado ao unico ente que na terra
lhe restava,  imagem de uma esposa adorada com o fogo que empregam
essas almas reconcentradas, os homens que jogam a vida sobre o mais
terrivel dos elementos, e passam dias e noites seguidas a soletrar no
livro da natureza a pagina do infinito, em circulo fachado por co e
mar;--junto com as saudades e receios por seu pae, se ligavam penas
avultadas pela sua imaginao, suppondo-se j separada, longe de
Fernando, clausurada para a vida talvez; que no amor tudo  coado por um
prisma que engrandece e multiplica os objectos.

s lagrimas do travesso moo succedera a resoluo: Fernando fizera-se
homem; s lagrimas de Irene succedia o anniquilamento: pde-se dizer
tambem que se fizera mulher a pobre menina porque: a coroa do seu sexo 
formada por essas perolas nascidas no corao, perolas que resgatam a
propria culpa e a alheia. Para o resgate da humanidade Deus, tornado
homem, deu o seu sangue; para completar essa regenerao, para abrir s
mulheres as portas da vida, inflar-lhe no seio uma alma, verteu lagrimas
uma virgem.

Irene chorava pela segunda vez, depois que se apoderra do seu corao a
imagem de Fernando, quando lhe veio ferir os ouvidos um som distante e
confuso; confuso porque era grande o arruido que petintaes, espadeleiros
e galeotes faziam na praia, sanctificando o dia do descano com libaes
frequentes de verde e maduro, cidra e outras bebidas. Era o som de um
toque de caa, assobiado por um valente folego. A moa estremeceu,
quando se lhe afigurou reconhecel-o; estremeceu e a alegria repelliu
naquella fronte as nuvens de tristeza com tanta ou mais rapidez de que
nos leva a dar uma ideia dessa mudana. Ergueu-se e correu ao extremo da
varanda, encostou  adufa o ouvido attento a linda namorada; mas
calra-se a marcha, e os berros da chusma iam em um _rinforzando_
prodigioso. Alguns minutos de anciedade assim passou, com o seio a
arfar, os lbios meio-abertos, deixando vr uma enfiada de dentes alvos
como o fructo das camarinhas, com os olhos brilhantes, fixos, at que
com novo sibilo rompeu um grito da joven, um grito de alegria, e
deixando a varanda subiu a assomar a cabea por aquella historiada
janella das flores, onde com ella travamos conhecimento.

A cabea appareceu e desappareceu logo.

Irene soltou outro grito, porque os seus olhos encontraram os de seu
pae, irados, em vez de outros que de certo procurava carinhosos.

Junto com o sibilo, com os gritos, com o bater das adufas da varanda e
portadas da janella--junto, se pde dizer, tal foi a rapidez da
successo--ouviu-se um grande fragor.

A arvore do cercado oscillra e o muro da quelha fra a terra.

A filha de Joo Ramalho deixou-se cahir no estrado em que costumava
costurar; o piloto soltou uma praga, e a cabea da tia Genoveva, que da
cosinha presencera parte desta scena, appareceu de bocca aberta no
quarto da donzella, persignando-se e abanando a cabea como um manequim,
pintando em toda esta gesticulao o seu pasmo, e terminando por entre
dentes com esta phrase, que havia de ser, como j fra, repetida
milhares de vezes:

--Ora fiem-se l nas innocencias deste tempo! O mundo vai perdido!




VI.

Causa publica e cousas particulares.

/#
     A nenhu era ouvida rezo, nem escuza, que por sua parte dar
     quizesse, mas como hum falava dizendo: que foho he delles; no
     havia cousa que lhe desse vida, nem justia que o livrasse das suas
     mos: e isto era especialmente contra os melhores e mais honrados,
     que havia nos logares, dos quaes muitos foram postos em grande
     cajo de morte...

     FERNO LOPES.--Chronic.
#/


Em quanto Irene soluava, Tello Rabaldo vociferava, sacudindo a poeira
do gibo, e Joo Bispo evitava na rde de bccos e escadas do bairro a
sanha do bsteiro e de alguns mesteiraes, que o suppunham ro de crime
grave, ou queriam nelle desacatar o alcaide, que viam, como a grande
parte dos nobres, com maus olhos, no terreiro de S. Domingos havia
grande ajuntamento de povo, e na portaria do convento e claustro da
igreja se reuniam os homens bons da cidade, burguezes e cavalleiros; que
a ordenao de D. Diniz era desattendida durante aquelles transtornos,
como o tinha sido por vezes, e depois havia de ser.

Ruy Pereira e a edilidade portuense combinavam os meios, j o sabemos
por via de Luiz Giraldes, de corresponder ao appello do Mestre, e
corriam as cousas s mil maravilhas. Affonso Eannes Pateiro e Alvaro da
Veiga, bastante compromettidos com a acclamao do novo governo,
juntamente com o rico mercador que fra despertar Gonalo Domingues
sopravam em pequenos conciliabulos o enthusiasmo de amigos e conhecidos,
e no perdiam o tempo. Os periodos mais ou menos bombasticos, mais ou
menos curtos, tinham, depois de um ou outro commento, como ponto, a
deslocao de dous ou tres individuos, que se dirigiam a uma mesa
cercada de tamboretes e cadeiras, onde dous homens vestidos de negro, um
redondo, de nariz globuloso e vermelho, outro cr de pergaminho e de
feies angulares, se viam ao par de alguns vereadores, afagando este
com a rama da penna os lbios ressecidos, abanando-se aquelle com um
caderno de papel. Um dos patriotas segredava tres palavras ou quatro ao
ouvido de um dos alvazires; os burguezes diziam outras tantas; os homens
negros traavam algumas letras e algarismos, que liam em voz alta, e de
tudo isto sahia, pde-se dizer, a Milheira, a Estrella e a Sangrenta, o
levantamento do cerco e bloqueio de Lisboa, a dynastia de Aviz e--quem
sabe?--a salvao e civilisao da Europa. Se julgam paradoxal a ultima
parte, provem como sem os donativos daquelles bons homens se accudiria
ao Mestre; se este no se veria obrigado a tornar real o fingido
embarque para Inglaterra; se, simples Joo Pires, casaria com a exemplar
filha de Joo de Ghaunt; se haveria quem formasse um viveiro de
navegantes to destemidos, arrojados, para devassar a costa d'Africa e
penetrar na Asia pelo Oceano, como o infante D. Henrique; como sem o
crte dado naquellas paragens ao poder ottomano, se lhe sustaria a
carreira victoriosa dos seus estandartes, que chegaram a tremular junto
dos muros de Vienna, na costa da Italia, na Hungria e na Bohemia, que
pendiam bafejados pelas tpidas aragens de Aldjesireh, da Arabia, e
aoutavam os ares impellidos pelos ventos gelados na Polonia, se
espalhavam nas aguas do Mediterraneo, no mar-Negro, no golfo Persico e
no Oceano, e acobertavam os recebedores de pareas at ao Dekan.

Se algumas circumstancias concorreram tambem para este gigante resultado
foram as narradas nos antecedentes capitulos, desde as dos namoros de
Irene com Fernando e de Garifa com Joo Bispo, at  daquelle virote
quebrado.

No cuidem que um escriptor consciencioso escreva uma linha s com o fim
de encher papel; que invente um episodio por seu alto recreio: tudo aqui
vem a pello desde o mais somenos facto ao de mais vulto, e os leitores
phylosophos, que esquadrinham os fins moraes, procuram o succo de todo o
livro e folheto, farejam uma ideia em cada letra impressa, acharo neste
romance demonstraes de que grandes successos, que pasmam do mundo, so
como os neves: um floco de neve, que rola do cimo dos Alpes, ao chegar
s fraldas destroe casas e plantios; uns bigodes cortados em 1152, ainda
no seculo em que viviam estes nossos heroes, destruia cidades, assim
como as bagatellas acima apontadas salvavam este canto da terra de ser
hoje em dia... um pachalik ou cousa peior.

E Joo Bispo, Fernando Vasques, e at para muita gente Joo Ramalho,
Affonso Eannes, Alvaro da Veiga, Domingos Pires das Eiras, Luiz Giraldes
e outros com quem o leitor tomar ainda conhecimento, estavam no
olvido?!

Lamentemos esta m sina de ingratido pelos grandes homens... que em
vida no tiverem condados d'Ourem, nem terras do Alfeite; lamentemos, e
vamos de novo para S. Domingos.

Ao passo que os burguezes davam que fazer a Gonalo Pires, escrivo de
chancellaria e ao seu companheiro, na casa do capitulo, bocejavam os
poucos cavalleiros que tinham adherido, como hoje se diz, ao
pronunciamento do Porto, por vontade, ou circumstancias. Dissemos que
bocejavam; pois movimento, aco em poucos se notava, a no ser um
alguns dos recem-chegados de Lisboa, dos quaes o mestre soubera captar a
benevolencia com aquella largueza de mos, que o deixaria rei das
estradas de Portugal, se no fossem depois as garnachas, de que j se
queixavam ento, e em alguns pobres infanes e simples cavalleiros. Ruy
Pereira reunia em volta de si, os dous sobrinhos do rei de Castella, D.
Pedro e Affonso Henriques de Transtamara, misser Manoel Pessanha, Joo
Rodrigues Guaday, Ayres Pires de Cames, Affonso Furtado e os irmos
d'Alvalade, e em uma das extremidades da quadra segredavam, ou antes
fallavam quasi por signaes o alcaide de Monsaraz, Affonso Darga, o
irlandez Down-Patrick e o velho fidalgo de Riba-Tua. Do resto, faziam
uns retinir pelo sobrado os acicates dos seus sapatos de ferro, que
vinham em traje de guerra no poucos, outros descanavam nas grandes
cadeiras de espaldar, que os reverendos para alli tinham feito conduzir.
De tempos a tempos um pagem ou um leigo entravam com recado para o tio
do condestavel, ou este fallava a alguns dos seus homens, que
estanceavam  porta, e elles partiam s carreiras para diversos pontos.

Ruy Pereira tractava de aproveitar o tempo o melhor possivel, como bom
cabo de guerra e bom politico, depois de ter conferenciado com os
influentes da cidade, conferencia que dra em resultado decidir-se que
se chamasse ao partido do defensor o conde Gonalo, combinao que no
era mais do que uma lisonja aos bons burguezes: pois, soprada pelo
mensageiro de sua senhoria a Domingos Pires, e por este appresentada,
fra j decidida nos paos de S. Martinho. D. Joo resolvera comprar o
conde com os bens pertencentes  irm desthronada, bens que j tinham
servido de engodo a outros. O escolhido para o ajuste do balso do nobre
senhor, de quem tinham sido j indagadas as ambies--que se iam
encontrar com as de Nuno Alvares, felizmente bastante patriota para
ceder s circumstancias;--o escolhido fra o alcaide de Monsaraz,
Gonalo Rodrigues de Sousa, e devia seguir logo com alguns navios para a
Figueira, emquanto outros iriam correr a costa da Galliza, inquietar em
casa o inimigo, e nos seus barcos, pescarias e alfandegas procurar um
reforo para as arcas exhaustas do thesouro.

O movimento dos pagens, dos sergentes do convento, dos bsteiros e
homens d'armas tinha produzido o ajuntamento da pequena praa ou
terreiro, que ficava em frente do convento, e das tortuosas ruas
visinhas. Na praa, vistas do alto, as cabeas dos curiosos formavam uma
massa, que ondeava como as espigas de trigo sazonado, impellidas pelo
vento, e no meio de borborinho constante, especie de gemer de tempestade
em praia cheia de recifes, surgiam ora estrepitosas gargalhadas, ora
gritos, apodos e vivas. As gargalhadas eram provocadas pelo bbo da
cidade. O Porto no era uma terra de pouca monta para no ter um bbo
seu, como qualquer principe, mesmo no meio daquellas calamidades e
sustos, e tinha-o at que no ficava nada a dever aosque se importavam
de Frana, por aquellas epochas, com o mesmo cuidado com que se haviam
de importar cabelleireiros--o que, entre parenthesis, no quer dizer que
para escolha dos primeiros se expedissem to gordas personagens como
para o dos segundos--.Voltando ao nosso caso, ao bbo da cidade: os
leitores que comnosco fazem esta viagem ao seculo XIV e ao terreiro de
S. Domingos, devem confessar que a verba votada no oramento municipal,
verba insignificantissima, no devia ser chorada. D. Golias era uma
raridade; uma creatura de seis palmos de alto, se tanto, comprehendendo
esta medida uma desmarcada cabea, cortada de lado a lado no tero
inferior por uma bocca, cousa unica que correspondia naquelle todo ao
nome com que o tinham baptisado. D. Golias quella bocca, mais do que ao
infsado da estatura e uma mobilidade de feies extraordinaria, devia o
seu emprego e a sua popularidade. Os mesteiraes e burguezes que o
encontraram, vindo do acampamento, onde exercia as suas funces,
tinham-lhe feito um acolhimento brilhante, uma ovao, e elle,
escarranchado sobre um vdio espadado e meio idiota, com o seu vestido
variegado e o seu capirote, notavel por duas immensas orelhas
asininas, correspondia a tanto extremo disparando, entre esgares e
tregeitos, epygrammas para a direita e esquerda, na portaria do
convento.

Uns bons dous teros destes gracejos, dos mais pesados, eram dirigidos a
nobres senhores ou a alguns ricos burguezes, o que os fazia ser
acolhidos com prazer pela gente da praa.

--Ol, mossem Methusael, D. Methusael, tio Methusael! ginchou elle
sacudindo os cascaveis do vestido e da palheta, dirigindo-se ao
arrabi-menor, que por entre a multido abria caminho; o vinho que 
socapa comprastes a mestre Manoel do Arco, subiu-vos  cabea, ou foi
exconjuro que vos trouxe aqui?! Mossem Methusael, as vossas dobras vo
tinir como a minha jornea, e o vinho vae desfazer-se em lagrimas! No 
verdade, manos, que vai haver juderega dobrada e tresdobrada. Mossem
Methusael antes quer que elles roubem a pequena Lea do que um punhado
das boas barbudas da arca!

O arrabi resmungou algumas pragas, que se perderam entre as risadas do
povo, e appressou o passo, seguindo um cavalleiro, na direco da
portaria, a fim de em tal companhia ter mais facil accesso.

--Guarda! berrou o bbo, attravessando a palheta; guarda! Se queres
entrar pede a frei Roque que te lave em agua-benta!

--Tira a tua vara, truo, gritou o cavalleiro, ao pousar o p no limiar
da porta.

--Arreda, Portugal! tornou Golias; arreda, que ahi vem Castella em peso!
Passe l, don cavalleiro; eu levanto o meu sceptro e arredo-me, porque
no quero tocar em scismaticos. Don cavalleiro, tornou, quando o fidalgo
subia j a escadaria, tendes novas do mano Garcia Manrique? Quando lhe
ides dar a mo?!

E voltando-se para o leigo porteiro, que, depois de fazer uma grande
reverencia ao nobre recem-chegado, o fitava, espantado da ousadia,
proseguiu:

--Eh! beguino de m morte, se cuidas que te ests a vr a espelho de
Veneza, enganas-te: estas orelhas so do capirote. As tuas so mais
compridas e mais felpudas!

Estes e outros gracejos, que no  licito escrever, pois no curava o
truo da polidez da linguagem, nem eram por esses tempos malsoantes
palavras que o so hoje; estes e outros gracejos eram a pedra de toque
da popularidade dos individuos a quem os dirigiam: a gargalhada e os
assobios, as palmas, os grasnidos e murmurios que provocavam, diziam a
conta em que eram tidos. Quando a vaia partia, e o povo se calava, no
insistia o bbo, certo de que era a personagem aggredida estimada por
aquella boa gente, e no teria, por isso, defensor, se algum syllogismo
contundente fosse servir de censura s suas burlescas reflexes.
Regulando por este thermometro, o piloto e mercador Joo Ramalho e
Gonalo Domingues eram bemquistos na cidade da Virgem. O forureiro,
sahindo aodado pela porta do convento, esbarrra em cheio com o piloto
que entrava, e do choque resultou a oscillao dos dous corpos, que
procuravam o equilibrio, e um regougo abafado do burguez. A risada foi
inevitavel, pois as pequenas desgraas teem sempre o riso por
caudatario; mas um olhar do pae de Irene engasgou nas fauces de Golias o
motejo.

Joo Ramalho no vinha para graas.

Ao olhar sevro dirigido ao bbo seguiu-se outro lanado a mestre
Gonalo, que lhe estendia a mo com a costumada lhaneza, e o piloto
comeou, quasi sem tomar folego, uma lenga-lenga de recriminaes, que
fizeram abrir os olhos do burguez desmarcadamente. Porque se espantava
um, adivinha-o o leitor, porque desabafava o outro a sua clera, se o
no sabe, aventa-o: Fernando sahira contra ordem expressa da rua dos
Pellames e fra colhido em flagrante delicto de namoro, acompanhado das
aggravantes circumstancias de escalada e destruio de um muro. O piloto
deduzira de tanto ruido peccado mais gordo do que sonhra o mancebo, e,
como este se lhe tinha salvado da furia, valendo-se da sua agilidade na
carreira, avinha-se com o tio. Mestre Gonalo Domingues, se naquelle
instante apanhasse a geito o travesso rapaz, de certo o punha em maus
lenoes, tal era a indignao e raiva, traduzidas nas faces em uma cr
arroixada, que lhe incitava a narrao deste successo, feita pelo rude
marinheiro. O sangue subia-lhe  cabea e ameaava-o com uma apoplexia.
Sem o querer, applicou-lhe o pae de Irene o remedio; porm, continuou a
aggresso to viva contra o travesso rapaz; chegou a taes ameaas, que o
forureiro julgou dever fazer algumas observaes a esse respeito, e as
observaes fizeram desviar o raio de uma cabea para outra. A culpa
daquelle attentado, to grave para o cego piloto, era de Gonalo
Domingues, que no soubera morigerar o seu pupillo; que lhe dra largas
illimitadas; que lhe deixra damnar alma e corpo com ruins paixes. Quem
ouvisse aquella recapitulao de queixas e accusaes tomaria o namorado
de Irene por um D. Juan, se Tirso de Molina j tivesse modelado no
_Burlador_ o typo famoso, que, com um arrebique para aqui, uma limadella
para acol, um nariz de carto, uma cabelleira empoada, ou os tezos e
cortantes colarinhos de um mylord tem servido a tanta e to boa gente. O
bom do tio, posto que chofrado, e duvidando de tanto aggravo, julgou o
caso de consciencia, comtudo, e mentalmente resolveu a questo por um
dos lados; por onde a lei, se fossem veridicas as supposies do
forureiro, a resolveria, mesmo naquelle tempo, visto que no havia
desigualdade de castas. O rico burguez no mettia em linha de conta a
vaidade do piloto, no se recordava tambem de que o commercio e
industria com que se locupletara eram marcados com despreso tradicional,
despreso ecclipsado para as maiorias pelo brilho das dobras,  verdade;
porm no de todo para os mais pechosos. Joo Ramalho,  primeira phrase
em que o forureiro dava a entender a sua resoluo, feriu-o vivamente
no fraco, e emcambulhando-se as palavras em dialogo alternado, a voz do
tio de Fernando chegava ao diapaso da do pae da linda namorada deste,
quando arruido maior lhes abafou as vozes, e uma onda de povo os
separou, lanando um para um lado, outro para outro.

Para explicar esse alvoroo voltemos outra vez s assoadas de D. Golias,
o bbo da cidade.

Como em baile de etiqueta annunciava o maninelo quanto individuo de seu
conhecimento se approximava do mirante semovente, em que se empoleirara,
quando um claro se fez do lado do arco, que dava serventia para as
Cangostas, rua que no desmente ainda hoje o nome posto, para a
Bainharia e almuinhas, e appareceu aodado o nosso conhecido Joo Bispo.
Se a pressa, que mostrava trazer, e o conservar na mo a adaga no
fizessem notada a pessoa do ex-subordinado de Tello, chamariam sobre
elle a atteno os gritos de Golias.

--Upa! acima sineiros da maldio, berrava elle. Os sinos no tangem?
Beguino, frei velhaco! campas e sino grande, tudo a chocalhar! Venha
toda a monjaria de cruz alada, que chega o senhor bispo, o bispo Joo!
Sua merc traz pressa; mas nem por isso deve ser recebido sem as
honrarias de usana. V: deitem-lhe agua benta aos olhos, para que no
veja por ahi moura perdida pelas celas!

E terminando a exclamao imitava com a bocca o repique de sinos,
baloiando-se sobre os hombros do espadaudo vadio, em quanto este, que
no tinha a insensibilidade de campanario, grunhia incommodado pelo
revolver dos ps do bbo ante os olhos, e arrepeles dados na hirsuta
cabelleira.

A cidade ficava de certo sem o importante Golias; pois que o vadio
estava j disposto a sacudil-o no lagedo, como o besoiro, que lhe
fizesse cocegas no cachao, e de certo o estatelava, seno se ouvissem
gritos no meio da praa, e o novo bsteiro de Gaya se no viesse
embaraar, tentando penetrar na portaria, nas pernas da victima do bbo,
ao mesmo tempo quasi que o acontiado do municipio.

--Castelhano! gritou este, deitando as mos ao namorado de Garifa,
castelhano, aqui no te valem os fidalgos traidores!

O homem do virote, que sentira subir-lhe o sangue  cabea com a ameaa
de Ayres Gonalves, correra, mal este embarcra, a procurar desafogo em
Joo Bispo, e mais desesperado pela velocidade da carreira deste e pelo
emmaranhado dos beccos por onde seguira, quando o encontrou, ao dobrar o
arco, sentiu o despeito renascer; o nosso bsteiro, porm, deitou-o no
cho com um cambap e seguiu caminho. A vontade de tirar desforo do
novo desappontamento trouxe aos lbios do homem do virote aquella
palavra castelhano. Joo Bispo correra menos risco quando lhe chamaram
ladro, entre os bons burguezes, na baixa, do que baptisado com
semelhante nome.

--Castelhano?! exclamaram alguns mesteiraes correndo para junto dos dous
soldados, emquanto Joo se desembaraava do seu aggressor.

E um sussurro indicador de que a tempestade, as iras populares estavam
eminentes se levantava no terreiro, ao passo que a portaria era
invadida.

--Mata, mata! gritaram em seguida alguns garotos do outro extremo da
praa; mata o castelhano!

Joo Bispo sentiu um suor frio correr-lhe pelo corpo todo, e murmurou
dando um salto, encostando-se a uma das hombreiras da porta, e cobrindo
o peito com a adaga:

--Castelhano... castelhano? Quem falla aqui em castelhano? Affastar,
proseguiu em voz mais forte, affastar! Em castelhanos vou eu pr o dedo.

--Mata, mata! berraram com os garotos alguns dos homens mais
esfarrapados da chusma; e uma pedra veio ferir fogo nos umbraes do
convento.

O amante de Garifa, metteu a mo no seio e tirou uma pequena tira de
pergaminho, ao passo que o bbo, atterrado com o arremesso de projectis
em semelhante direco, julgava dever intervir:

--Ss, boa gente; quem chama castelhano a Joo Bispo? Frei Joo no foi
sagrado pelo papa dos scismaticos... foi pelo papa dos velhacos.

--Oh!  Joo Bispo? perguntaram duas ou tres vozes d'entre a chusma.

--Joo Bispo, ou o bispo Joo, tornou o bbo, fazendo mesuras ao
publico, ao qual soubera modificar as iras com o seu gracejo.

O homem do virote via de novo escapar-se-lhe a victima.

--Vde, vde, gritou elle apontando para o pergaminho, que o bsteiro
segurava na mo, e tentando apoderar-se delle: vde como quer esconder
aquillo.

Joo Bispo levantou o brao para furtar o escripto, que trazia a Ruy
Pereira,  mo do bsteiro do municipio, ao mesmo tempo que Golias
estendia o brao e o apanhava.

--Ui que esgaravunhos! pipitou elle desenrolando a tira. Isto 
esconjuro de bruxa, ou pacto de venda de alma de judeu?

--Ou mensagem para os do arcebispo! resmungou um dos mesteiraes.

--Mensagem para os do arcebispo... disseste a verdade, mal-cuidando!
accudiu o bsteiro de Gaya, soltando ao mesmo tempo uma praga, e com a
raiva pintada no rosto dando um salto para rehaver o pergaminho.

O escripto voou das mos do truo assustado para junto de Joo Ramalho,
que, levantando-o, passou pelos olhos as primeiras linhas:

--Traidor, Gonalo de Sousa?! exclamou elle.

--Traidor, sim, disse Joo Bispo; e ainda ha pouco aqui tramou no sei
que outras villanias! Estes ces que trouxe s pernas no me deixaram...

Joo no proseguiu. O alcaide de Monsaraz desembocava no pateo,
acompanhado de Affonso Darga, vindo do lado da casa do capitulo. Entre
os mesteiraes entrados na portaria reinava profundo silencio. O joven
cavalleiro fallava com o commandante da flotilha enviada pelo Mestre de
Aviz s aguas do Douro:

--Senhor Gonalo de Sousa...

Como Joo Bispo no acabra a phrase no a acabou tambem Affonso Darga.
Joo Ramalho dirigira-se para o alcaide, e batendo-lhe com uma das mos
no hombro, appresentou-lhe o escripto. Aquelle pergaminho apanhara-o o
ex-novio ao capello de Ayres Gonalves. Scismando nas palavras
ouvidas atraz do reposteiro, quando, ao regressar de uma visita 
ucharia, se perdera nos lanos de escada e corredores dos paos de Gaya,
pensou que no aposento do frade lhe acharia a explicao. A prova de que
no pensou mal era o ter encontrado alguma cousa, e essa cousa--o
pergaminho--fizera perder a cr ao alcaide de Monsaraz.

 pallidez, seguiu-se o rubor, e depois de novo a pallidez. Gonalo de
Sousa sacudiu a mo do mercador, como se fosse um reptil, que lhe
tivesse pousado nos hombros; quiz fallar e a voz prendeu-se-lhe na
garganta; a espuma produzida por um accesso de bilis appareceu-lhe aos
cantos da bocca. O nobre senhor, nesse instante, temia menos as iras das
turbas, sentia menos a deshonra, se deshonra via na sua traio, do que
a ousadia do homem do povo, que assim se arvorava em seu juiz.

--Arreda, villo! gritou, mal a voz se desembaraou.

--Villo! repetiu Joo Ramalho, refece  quem assim atraioa a terra que
o viu nascer; no , senhor alcaide?

A voz do piloto tremia; mas no de susto. Gonalo Rodrigues de Sousa
arrancou-lhe das mos o pergaminho, e rasgando-o, lanou-lhe os pedaos
ao rosto.

--Quereis resposta? disse elle com um sorriso nervoso, symptoma de um
excesso de raiva; quereis uma resposta? Eil-a... Outra s a darei quando
o meu accusador no fr da tua ral.

O punhal de Joo Ramalho lampejou no ar. O alcaide de Monsaraz contra
aquella hora como a ultima da vida, se uns poucos de mesteiraes e
bsteiros do municipio no fizessem o mesmo, lanando-se sobre elle,
embaraando-se uns aos outros.

A onda popular, levantada pelas primeiras palavras do homem do virote,
pela accusao feita ao namorado de Garifa, crescera furiosa, estuara no
meio dos gritos de morra o traidor, o castelhano. A portaria do
convento fra invadida, esmagado quasi o porteiro, apeiado e pisado o
pobre D. Golias, e azevans, ascumas e agomias luziam ameaadoras por
cima daquellas cabeas inquietas, como na crista das vagas os flocos de
espuma feridos pelos raios do sol. Quatro braos possantes seguraram o
alcaide, mais j lembrado de que era homem do que fidalgo: Affonso Darga
e uns dous monges, que o quizeram cobrir com o corpo, foram repellidos
em um abrir e fechar d'olhos.

--Ao pelourinho, ao pelourinho! gritou um dos mesteiraes arvorados em
justiceiros. Aoutado e enforcado!...

--Jesus! gritou o dominico, tentando salvar Gonalo Rodrigues; Jesus! o
que ides fazer  um homizio, e o sangue...

--Vamos fazer justia. A traidor como a traidor! Pees, no temos cepo
nem cutello; mas temos boas cordas de canave.

--Ao pelourinho, ao pelourinho!

--Morram os traidores!

--Bsteiros, a mim bsteiros! gritou o alcaide de Monsaraz, vendo
apparecer do lado do claustro dous acontiados da esquadra.

--Quem  aqui por traidores?! exclamou um dos que empunhra o alcaide.

Os bsteiros no se moveram. A celeuma na praa crescia.

--Por Christo crucificado! tornou o dominico pacificador, erguendo a
cima da cabea a imagem do Redemptor. Quem com ferro matar, morrer pelo
ferro...

--Ide-vos, homem de Deus; ide-vos, seno quereis que vos tomem por
traidor.

A voz de Ruy Pereira, avisado do risco em que estava Gonalo de Sousa,
trovejou por cima daquella celeuma:

--Quem falla aqui em traies? Traidores, se os ha, deixai-os  justia
do regedor. D. Joo vol-a far boa e prompta, bons homens! Senhor
meirinho, senhor meirinho!

--O povo do Porto sabe fazel-a to bem e to boa como o de Lisboa.

--Senhor meirinho, senhor meirinho, gritava o tio de Nuno Alvares,
barafustando para se approximar do commandante das gals do Mestre, e
procurando com o vista o meirinho da cidade, que abafava entre os
mesteiraes.

--Ao pelourinho! vozeavam estes.

Um bsteiro neste momento atravessava o terreiro, soffreando o cavallo
em que montava, para no pisar o povo, nessa occasio soberano em
verdade. Conhecido de alguns dos amotinados, abaixara-se a fallar-lhes,
e pouco e pouco,  proporo que se approximava da portaria do convento,
ao berreiro de morras succedia um borborinho destas palavras trocadas
em voz baixa:

--Os gallegos! os gallegos!

--Os gallegos! exclamou o mesteiral que segurava o alcaide e parecia ter
grande influencia nos seus companheiros; os gallegos veem? Boa ida:
mandar-lhe-hemos este bom cavalleiro para o arraial. As machinas que
esto do lado das Hortas podem com pesos maiores.  uma boa lana que
enviamos aos do arcebispo. No  para elles que se queria partir?

Uma gargalhada saudou a lembrana, apesar de no ser original.

Gonalo Rodrigues de Sousa estava salvo com aquelle addiamento das
vinganas populares.




VII.

Recontro de Lea.

                                          Todo oro que se afina
                                          Es de mas fina valia,
                                          Porque tiene mejoria
                                          De cuando estaba en la mina,
                                          Ansi se apura y retina
                                          El hombre y cobra valor
                                          En la fragoa del amor.

                                          GIL VICENTE.--FRAGOA D'AMOR.


--Bof, por aqui?!

-- verdade, Joo.

--Mas como? Se o no vira com estes olhos que a terra ha de comer...

--Pois eu sou.

--Como S. Thom, parece-me que ser preciso tocar-vos para crr. E como
vindes armado! Nem moo escudeiro vos leva as lampas! Mas ainda o no
posso acreditar. E mestre Gonalo?

--Meu tio...

--Sim! O bom do velho veio tambem na arrancada.  o que faltava vr...
elle que no  para estas cousas, apesar de bom portuguez. Mas, em fim,
est ahi o Porto em peso; velhos e cachopos... at mouros. Por pouco
vinham as mulheres! Ala f, mestre Gonalo Domingues...

--Meu tio no veio...

--Ento...

--Ai, Joo, se souberas?!

--O que?

--Estou como tu; sem leira nem beira.

--S. Jorge e todos os santos batalhadores sejam commigo! Que foi o que
vos succedeu, Fernando? Morreu mestre Gonalo?

--No morreu, no... nem Deus queira tal.

--Ento, que foi?

--Ai, Joo, hontem foi um dia bem de mau sestro!

--Para mim tambem: por um argueiro duas vezes escapei  morte!... Pois
no vi, ao sahir de Gaya, nem gato preto, nem chapim de sola para o ar,
nem velha varrendo lixo: nem ouvi piar a coruja, nem uivar os ces!
Valeu-me o anjo da Guarda...

--A mim no me quizeram matar; mas... parece-me que me foi peior...

--Peior?!

--Sim, Joo: lembras-te de me encontrares nos Banhos, e de te fallar em
certos amores? ..... Fui vl-a.

--Ah! fostes vr a tal menina, e estava arrufada...

--No, Joo; Irene...

--Irene? chama-se Irene?  um nome que no  feio.

--E ella  mais linda; mas, como te ia contando, fui vel-a. Ia a subir a
um muro do lado do quintal para lhe fallar--queria tirar um peso que
tinha no corao; dizer-lhe que, apesar de meu tio ralhar, lhe havia de
querer muito e... nem eu sei o que mais; mas queria-lhe fallar,
vel-a--ia a subir ao muro, e o muro... zas... no meio do cho, e cara a
cara dou com o pae...

--Ora! E por tal  essa amofinao?

--Olhe, Joo, que no  o caso para folgar! Como no ralharia elle 
minha pobre Irene, elle, que no tem ar de palavras de mel, e ficou com
um senho... que descarregou nella... de certo...

--Isso de nada vale, Fernando.

--Ainda no ficou ahi o mal. Deitei a correr... eu sei l para onde!
Quando me lembrei de voltar para casa era tarde; pouco faltava para o
sol posto. Appressei o passo, lembrado de que se meu tio me no
encontrasse nos Pellames, elle, que me guardava m teno por me haver
encontrado j na maldita arvore, faria de sorte que eu no tornaria a
pr ps na rua. Ao chegar quasi a S. Domingos, havia uns alaridos, um
grande vozear, e parara ao p do arco, quando mestre Duarte, o nosso
visinho, veio aonde eu estava, e contou que vira o pae de Irene fallar
com meu tio, e que ambos esbravejavam, por palavras que lhes ouvira,
contra mim. Voltei a Miragaya...

--Para que?

--Nem o sei dizer. Receiava de meu tio... e no receiava. Quando de novo
me dirigi  porta da cidade estava fechada. Do lado da Esnoga via-se um
grande claro, e continuava o alarido...

--Era a chamusca da casa de mossem Moyss, o irmo de D. David Algaduxe;
era o escote dos judeus.

--Assim me disseram de manh.

--Passastes a noite ao relento?!

--Passei, Joo, e se visse sequer uma luz  janella, parece-me que
ficava consolado. Ao alvorecer, como depois daquella noite assim corrida
maiores razes tivesse para no voltar aos Pellames, subi a encosta em
cata de mestre Pedro, e, como o no encontrei, fui pelas Hortas. No
campo, a chusma das gals, os acontiados da cidade, e a gente de armas
dos ricos homens vindos de fra, estava tudo em movimento; chegava povo
a todos os momentos e sahia no meio de vivas; ao p da torre, junto 
porta, do lado de dentro, distribuiam armas. Um anadel deu-me um
encontro, e disse-me que fosse buscar tambem alguma cousa, e fui;
pozeram-me a caminho para aqui, e puz-me a caminho tambem...

--Amores! amores! E agora que ides fazer?

--Boa pergunta, disse, erguendo e cabea com certo enthusiasmo, o
namorado de Irene, Fernando Vasques, de certo j reconhecido, bem como
Joo Bispo desde as primeiras linhas deste dialogo; agora  batalhar, e
ou ficar para ahi, ou fazer aco de fama; e depois...

--E depois ides pr a espada aos ps da vossa dama, como naquelle conto
da Tavola-Redonda ou naquell'outro que tinha frei Gumado... Ama...
Ama...

--Amadis, queres dizer?

--Isso : um em que havia combates de gigantes e uma princeza muito
formosa: deixai vr se me lembra o nome... Oriana!...

--A dama de Amadis.

--Bonitos contos, Fernando, esses de cavallerias e amores; pena  que
hoje nada succeda assim de geito.

--Pena que no haja quem tenha a vontade de boas aces e famosas! O
senhor Nun'Alvares, tem-se, ainda assim, havido como alguns dos mais
pintados, e ouvi contar a meu tio, que o viu simples pagem, acompanhando
a rainha Leonor, pela qual depois foi armado.

--Tomou o leo para o fazer lebreo de estrado; mas elle, mal chegou a
idade, mostrou-lhe os dentes todos, e foi para o monte a monteal-a.
Desde nado trouxe boa sina Nuno Alvares. Mestre Thomaz, grande
astrologo, que andava em casa de seu pae, leu nas estrellas, e viu que
empresa em que se mettesse seria boa, e elle sahiria vencedor, se fosse
para bem sua teno.

--Por isso deixou elle a rainha Leonor; pois em servio della no andava
bem, e podia-se quebrar o encanto com que foi fadado.

--A mim tambem me leram a sina; porm a maldita da moura que o fez disse
uma tal embrulhada, de que s percebi que havia de entrar em grandes
batalhas, e salvaria um rei...

--No ouvis? atalhou Fernando, sobresaltado.

--Ouo.

--Alm do rio...

--Um como tropear de gente, e quebrar de ramos. Estas fogueiras no
deixam vr bem. As vigias dormiro?

--No... olha, no vs alli ao p daquelle fraguedo, onde bate o luar,
aquella que se move? est bem desperta. Ainda ha pouco se recolheu uma
rolda, a que acompanhou frei Patinho.

--Escutai, tornou Joo Bispo, deitando-se no cho para melhor distinguir
a direco do rumor, depois de retesada a corda da sua besta.

A noite descera havia muito; os galos de algumas choas visinhas tinham
j annunciado que ia alta, a meio do seu curso, e a lua erguia-se
redonda, avermelhada, semelhando um escudo candente, por entre as ramas
dos pinheiros, que fechavam ao nascente o horisonte, fazendo destacar a
uns por contornos negros, cobrindo de uma luz phantastica os curutos de
outros, e projectando sombras immensas pelas clareiras.  proporo que
ella minguava no cu, tornavam-se mais vivos os reflexos azulados com
que tingia alguns objectos, fazendo contraste com os fogos dos dous
acampamentos quem e lem de Lea--fogos que em pontos ainda se
mostravam vivos, fazendo ressaltar vultos negros, tocados, sobretudo nos
arnezes, braaes e grevas dos homens d'armas, de linhas ardentes,
vermelhas quasi; em outros quasi extinctos, mostrando, atravs de uma
luz vaga, frmas indecisas, movendo-se, tregeitando. Aqui o ferro de uma
azevan, volteando, espelhava um raio da lua, e imitava os fogos ftuos;
acol o bacinete polido de um bsteiro de pol lampejava, ao cruzar
rpido por p dos fogos das vigias. De vez em quando o relincho dos
cavallos se reproduzia nos eccos; as vozes das roldas se alteava;
erguia-se aqui uma risada, alli um clamor, e depois recahia tudo em um
silencio, que s interrompia, alguma conversa a meia voz, como a que
cortaram os nossos dous namorados.

Pela bocca de um delles j todos sabem que os combatentes de que podia
dispr a cidade da Virgem, homens e rapazes se tinham nessa dia de
madrugada posto a caminho de Lea, e se esto lembrados da noticia dada
pelo bsteiro em S. Domingos, noticia que tirou Gonalo Rodrigues das
mos dos populares e o entregou  justia, que lhe fez grande favor em o
reter preso em Gaya; se se lembram de que D. Joo Manrique, arcebispo de
Santiago, abalra de Braga com setecentas lanas e dous mil infantes,
portuguezes, partidarios de D. Beatriz, e gallegos, e quando chegra a
mensagem do Mestre acampava perto da cidade, atinaro qual o intento que
ahi os levava. Alguns corredores do bando inimigo tinham, ao tempo que
pecuniariamente se salvava a patria, chegado a Paranhos, alarmando os
poucos camponezes no recolhidos  cidade, e os bons burguezes, que j
os tinham esperado duas vezes sem verem apparecer uma s lana, haviam
resolvido affugentar estes hospedes importunos.

Seis a sete mil homens, pois, acampavam quem do Lea, occupando uma
extensa linha.

Esta tropa, superior  do arcebispo em numero, era, encarada por outro
lado, talvez inferior. Dos nobres que com os seus homens d'armas tinham
seguido as hostes populares, em alguns no eram firmes as crenas de
partido, como vimos; nos outros, em geral, havia certa m vontade por
vrem ao seu lado cavalleria burgueza, para a qual olhavam pouco mais ou
menos com os mesmos olhos com que ainda hoje, no seculo XIX, olha o
militar para o miliciano que marcha ao seu lado. Os bsteiros da
behetria, trezentos ao todo, era gente de animo resoluto, porm fracos
atiradores, e os quinhentos, tirados da esquadra e de Gaya, tinham os
outros quasi na mesma conta que s lanas que rodeavam a bandeira onde
entre torres a Virgem apparecia mostrando Jesus inda menino, aquelles
que seguiam balses historiados, e mesmo ainda ao mais historiado
labaro, museu de imagens santas ideado pelo futuro condestavel.

Cinco mil homens, exceptuando a chusma da armada, pertenciam a essa
gente que parecia entregue a uma mascarada, quando levamos o leitor aos
adarves que tinham vista para Miragaya. Eram porm estes, era o povo e
os acontiados do municipio que tinham de fazer retirar os muito
esforados cavalleiros Lopo de Lira, Ferno Gomes da Silva, Martim
Gonalves de Athaide, Gonalo Pires Coelho e outros nobres, que seguiam
com elles o arcebispo de Santiago. As ascumas e os mangoaes affaziam-se,
a passar aquellas entre o gorjal e a barbuda, a malhar estes em
cimeiras; amestravam-se para a grande tarefa de Aljubarrota.

Como dissemos, os defensores do Mestre estendiam-se na margem do Lea
por bom espao. Joo Bispo e Fernando Vasques encontravam-se em uma das
extremidades da linha, ou acampamento, quando extranho ruido vindo de
uma mata visinha os fez interromper o dialogo que ahi fica exarado. O
amante de Garifa, depois de se conservar por alguns segundos deitado,
com o ouvido attento, ergueu-se, fez um signal ao seu companheiro, e,
empregando o maior cuidado possivel para no fazer rumor, dirigiram-se
ambos para o lado do poente, onde de novo se pozeram a escutar.

--So os nossos, disse o bsteiro novel a Fernando; so os nossos, que
esto abrindo caminho no bosque.

Palavras no eram ditas, um grito sahia da selva, e um bsteiro
levantava quasi debaixo da cara do sobrinho de Gonalo Domingues a sua
besta armada, mirando-o.

--Eh! Gil! abaixa l isso, gritou Joo Bispo: guarda os teus virotes
para os gallegos! Que desbravar de matto  esse?

--Eram! ests ahi, Joo? tomei-vos por esculcas desses condemnados!
Abrimos caminho na mata, e vamos passar o rio. Joo Ramalho est l em
baixo com trezentos dos da cidade.

--Comea o folguedo?

--Boa festa! Vamos fazer danar os do arcebispo ao som de assobiar de
virotes, e ranger de pols e garruchas. Os malditos deste lado dormem,
ao que parece, e no  mau despertal-os.

O amante de Garifa deu alguns passos para se internar na mata. Fernando
reteve-o.

--Espera, Joo, eu sei um sitio onde se pde passar melhor do que ahi.

--Sabes?

--Alm, abaixo daquelle casal que est a alvejar, pelo aude.

--Bom discorrimento teve o cachopo! exclamou o bsteiro, com um sorriso
de escarneo. Vo l passar pelo aude!  o mesmo que fazer caminho para
o outro mundo. Dous homens na outra margem tragam-vos uma hoste, como a
uma tigella de migas.

--E se de l no houver ninguem?

O bsteiro, como unica resposta, voltou as costas, encolhendo os
hombros; Joo Bispo, depois de curta reflexo, tomando a mo do seu
companheiro, exclamou:

--Vmos ao aude!

O desbaste do arvoredo continuou com affinco, e uma hora passada, havia
uma soffrivel clareira aberta, onde tinham j penetrado alguns homens
d'armas. No campo inimigo, em frente, no se ouvia seno o ciciar da
aragem. Um troo de bsteiros e populares, armados estes com toda a
sorte de armas, desde o montante farpeado e o machado, a maa de puas,
at ao chuo e mangoal, comearam a passar o pequeno rio pouco abaixo do
mosteiro dos Hospitaleiros. Cem homens teriam tomado p na outra margem,
quando um sibilo se ouviu, e um virote se veio cravar em um velho roble,
ao p do qual Joo Ramalho dava ordens aos acontiados da cidade. Em
seguida, a outro sibilo juntou-se um grito, o som da queda de um corpo
na agua, e logo um alarido immenso. Bsteiros de p e a cavallo,
burguezes e mesteiraes, que se tinham lanado ao Lea, recuaram.

Do campo do arcebispo haviam notado o movimento da gente do Mestre, e o
silencio guardado fra alliciente para os chamar alm. Cem homens
estavam na outra margem prisioneiros, se o grosso da fora no
avanasse.

--Santiago! Santiago! gritaram os castelhanos; e a margem appareceu como
por encanto coberta de frecheiros, e d'ahi a momentos o relinchar dos
ginetes e o som das trombetas eccoava pelos valles.

--S. Jorge e Portugal! gritou Joo Ramalho, arrebatando a bandeira da
cidade das mos de um cavalleiro do municipio, e lanando-se ao rio.
vante, filhos, vante!

Um troo de mesteiraes lanou-se em seguida do caudilho popular; porm
recuou de novo.

As folhas das arvores cahiam, como varejadas, e os troncos lascavam aqui
e alli, que os bsteiros de Garcia Manrique faziam a sua obrigao.

--Assim deixaes os vossos nas mos daquelles perros?! exclamou Nicolau
Domingues, apontando para a outra margem onde havia um concerto de
pragas, vivas e morras. Bsteiros! bsteiros, pela Virgem de Vandoma,
vante!

--vante! responderam alguns mesteiraes e acontiados, seguindo o exemplo
de Joo Ramalho.

A lucta travada alm do Lea era uma temeridade. O luar alto j,
allumiava o necessario para o inimigo vr o inimigo que tinha junto de
si, para uma lucta quasi corpo a corpo; e os homens d'armas do
arcebispo, avanando sobre o ponto invadido, iam dar cabo dos attrevidos
portuenses; demais, os fundibularios e bsteiros d'aquem temiam ferir os
seus, ao passo que os gallegos, prolongando-se de lado opposto pela
margem, enviando tiros mesmo ao acaso, difficultavam a passagem. Martim
Correia, o escrivo da chancellaria, Gonalo Pires, e o filho do Mestre
de Santiago, D. Pedro de Transtamara, com alguns escudeiros e um troo
de cavalleria da cidade, forcejavam em vo por enfiar mais alm a
estreita ponte, ainda hoje existente naquellas paragens. O grosso dos
homens d'armas e cavalleiros embaraavam-se uns e outros, nos vallos,
fraguedos e silvados, pelos sitios onde tinham acampado, alarmados pelo
rebate extemporaneo.

No rio, se se ouvia o chapejar, era o de um ou outro burguez fugitivo;
no bosque o estallar dos ramos, o rumorejar dos fetos no era s
produzido pela queda de virotes; era tambem pela queda de homens.
Nicolau Domingues gritava a bom gritar; mas a chusma da esquadra, vinda
de reforo, no se resolvia a ir juntar-se aos acontiados do Porto,
quando um sucesso inesperado deu um fim brilhante ao que at ento no
se podia dizer mais que uma imprudencia do pae de Irene, e da sua gente.

O mosteiro dos Hospitaleiros appareceu illuminado por uma luz
avermelhada: nas ameias da egreja e das torres veria quem dellas se
approximasse vultos negros correndo de um para outro lado aodados, e um
alarido immenso se casava ao fragor do combate da margem.

Fernando Vasques e Joo Bispo tinham passado o aude e approximado,
fazendo um rodeio, do acastellado mosteiro, pelo lado do norte, lado
desguarnecido, e bastante custra ao namorado da filha do velho Humeia a
suster o seu companheiro, que na effervescencia do seu amor, cheio de
enthusiasmo, imbuido de mais na leitura dos livros de cavallerias, para
conquistar renome se dispunha a commetter temeridades, que serviriam
apenas para alarmar os castelhanos e arriscar a vida. Joo persuadiu-o a
voltar  outra margem, a procurar reforo para uma ideada surpresa, e
no tinham do lado de quem dado muitos passos quando lhes chegou aos
ouvidos um vozear confuso, e toparam com uma mulher, que, soluando, com
os olhos arrasados de lagrimas, conduzia pela mo uma creana, chorosa
tambem. Guiados por essa mulher, a quem Fernando, condoido, perguntra a
causa daquelle pranto, foram ter a um casal. As portas todas da casa
estavam arrombadas: por uma sahia um grande claro. Uma velha arca e
outros trastes ardiam ao canto de uma adega, e  volta das pipas
tripudiava um troo de bsteiros. O vinho derramado em uma grande celha
de pau, e que, trasbordando, se esbanjava pelo cho, mostrava em que
estado tinham as cabeas, e mais ainda o modo porque recebiam as
admoestaes de micer Guilherme: danavam, tregeitavam, grunhiam e
berravam em vrias linguas e dialectos, chegando alguns dos que se
mostravam menos firmes nas pernas ao nariz do nobre aventureiro uma
escudella a trasbordar. Para bem da verdade deve-se dizer que o
irlandez, pretendendo conter os seus patricios, os inglezes, escocezes,
gasces e normandos, que, recrutados pelo chanceller em Londres, tinham
vindo nas gals, deitava  escudella um olhar to terno, que no era
para delle esperar grande sanha contra os indisciplinados, nem grande
vontade de se metter  agua.

Joo Bispo via no meio de gargalhadas e motejos desfazer-se o plano
combinado com o sobrinho de Gonalo Domingues, quando este se lembrou de
notar aos nossos fieis alliados por palavras e gestos que o vinho dos
cavalleiros de S. Joo devia de ser cousa muito superior ao de pobre
lavrador. Um hurrah saudou Fernando, e, cambaleando, a turma tomou o
caminho do aude, apesar dos protestos de Down-Patrick.

Vinte homens, se tanto, seguiam aos dous namorados: uma duzia de
archeiros de Gilles de Montferrand e alguns subordinados de Tello
Rabaldo, encontrados tambem na adega do casal: os demais, embriagados,
tinham ficado pelo caminho, e uns dous ou tres afogados no Lea.
Bsteiros e vdios penetraram na cerca com o maior silencio em quanto
Joo e Fernando rodeavam um pteo junto da igreja, onde os do arcebispo
tinham amontoada bagagem, carros e grande poro de escadas, com que
ameaavam um assalto  cidade. A sentinella, posta desse lado, dormia,
cabeceando, encostada  lana, quando Fernando deitou mo de uma das
escadas para a encostar ao muro. O pobre archeiro, extremunhado, abriu
os olhos, esgaziados logo pelo terror, e a bocca para dar o signal de
alarme; porm aquelles embaciaram, e desta sahiu apenas uma golphada de
sangue; deu umas outras duas passadas, cambaleando, estendendo as mos
como a procurar appoio, e cahiu no cho soltando um som rouco e um
assobio, como de homem que desperta de pezadello. O castelhano, no
despertava; adormecia para sempre: aquelle estertor sahia pela garganta
e feridas abertas no peito por Joo Bispo.

--S. Jorge e Portugal! exclamou o namorado de Irene, abraando-se s
ameias do eirado, e arrancando a bandeira dos partidarios de D. Beatriz,
que tremulava ao p da vermelha dos cavalleiros. S. Jorge e Portugal!

--Estamos perdidos! resmungou Joo, ouvindo o grito do mancebo; e
estropeando o nome do aventureiro irlandez, gritou: Micer D. Patrico!
micer D. Patrico, por aqui! por aqui! A mim, bsteiros!

Nas torres ergueu-se um alarido immenso: alguns penedos cahiram do
eirado no pteo, e uma nuvem de virotes sibilava nos ares. Ao chamamento
de Joo apenas tinham acudido Pedro Choca e tres vdios. O sobrinho de
Gonalo Domingues, com a haste da bandeira defendia-se dos castelhanos,
que, alarmados, mais tratavam de lanar a escada a terra do que de se
desfazerem do temerario inimigo.

--Abaixo, Fernando, abaixo! gritou Joo; e no alto das torres
appareceram algumas luzes.

--Viva o Mestre de Aviz! gritou o mancebo quasi ao mesmo tempo que lhe
fugia a escada debaixo dos ps, deixando-o suspenso das ameias e
estribado em uma enorme salamandra de granito, que servia de goteira ao
eirado.

--Ahi vem ginetes, disse Pedro Choca, fazendo um esgar. Recommendemos a
alma a Deus!

--Se elle t'a quizer! redarguiu um dos vdios soprando a uns ties alli
deixados em rescaldo, que embrulhra em uma pouca de palha.

--Fernando! exclamou Joo Bispo, encostando outra escada ao muro, apesar
dos arremessos; afferra-te, Fernando, que eu sou comtigo. 

--S. Jorge! S. Jorge! se ouviu do outro lado do mosteiro em altas vozes.


--A mim, bsteiros, a mim! tornou Joo Bispo, em quanto o seu amigo se
defendia na goteira, procurando saltar no eirado.

--Hurrah! S. Jorge!

--Malditos! aquelles odres onde estaro! Micer D. Patrico!

--Arriba, Joo, arriba! accudiram os vdios, marinhando pela escada, que
de novo tinham erguido. Aquelle endemoninhado cachopo vai morrer!

Uma grande lavareda, de repente, illuminou a lucta travada entre
Fernando Vasques, os seus companheiros e alguns homens d'armas do
eirado. Pedro Choca tinha lanado fogo a uns carros de palha, e este
ateava-se aos enormes pavezes de vime, proprios para assalto, amontoados
entre as escadas e bagagens. Era uma fogueira soberba que dentro em
pouco faria estalar o travejamento dos aposentos de D. Mafalda, ao mesmo
tempo que os castelhanos abandonavam o eirado da egreja.

--Os do Mestre! os do Mestre! se ouvia por todos os lados; e nas torres,
besteiros e fundibularios perdiam os seus tiros.

--Hurrah! continuavam, j roucos, a berrar, do outro lado da cerca, os
inglezes.

--S. Jorge e Portugal! gritaram algumas vozes, com boa clara, pronuncia
portugueza, do lado do rio, apparecendo por entre os castanheiros,
retirando os homens d'armas de Garcia Manrique.

--Ter! gritou um dos seus caudilhos, ameaando com o estoque os mais
medrosos; ter, rapazes! No se diga que retiramos diante de meia duzia
de villes!

--Ter, ter! exclamou o guerreiro arcebispo, apparecendo no meio dos
fugitivos.

--Os do Mestre esto no bailiado! disse uma voz d'entre a multido.
Vde, o mosteiro est a arder, e foi derribada a bandeira!

--Por Sanctiago! tornou o arcebispo para os seus companheiros, espantado
da audacia dos portuenses, embrulhados j com os gallegos, e suppondo-se
cortado por foras immensas; estes excommungados esto decididos a
morrer, e trazem comsigo o poder do mundo. A caminho de Braga,
senhores! Temos tempo sobejo para desforra.

--Covarde! resmungou Joo Rodrigues Portocarreiro, esporeando o seu
ginete para se lanar sobre os do Mestre. Covarde! repetiu; e o fogoso
animal, ferido nos peitos por um viroto, ergueu-se com as mos no ar,
e cahiu, arrojando com ruido o portuguez rebelde a alguns passos de
distancia, abollando-lhe a armadura e o capacete e fracturando-lhe o
craneo.

--Covarde! repetiu tambem o arcebispo com um sorriso de mofa,
voltando-se para um dos seus capites, e designando o fidalgo portuguez:
temeridades no aproveitam.

A ponte tinha sido forada ao mesmo tempo quasi, e a cavallaria de D.
Pedro de Transtamara cortava j pelo meio dos gallegos, atterrados.

--A caminho de Braga! tornou a gritar o arcebispo D. Joo, que,
lanando-se na estrada partiu, a galope, seguido de grande poro de
cavalleiros, e pouco depois de todo o exercito, deixando os apprestes
d'assalto, viveres e bagagens nas mos dos burguezes do Porto.

--Senhor conde, senhor conde, aqui est a bandeira de Castella,
exclamava momentos depois, attravessando no meio de vivas por entre as
hostes do Mestre, o sobrinho de Gonalo Domingues, com as mos cheias de
sangue, de feridas do corpo e da cabea, mas to contente, que nada lhe
doia naquelle instante, e, em vez do perigo corrido, se recordava to
smente de Irene, alegrava-se por saber que o seu nome lhe havia de
chegar aos ouvidos na historia daquelle recontro.

Era um heroe feito pelo amor.........................................
.....................................................................

O mosteiro dos Hospitalarios tinha sido abandonado, mal o incendio
mostrou aos seus guardas as hostes portuenses alm j do Lea, abatida a
bandeira e em fuga Garcia Manrique. No entanto, ainda do lado da cerca,
sol j nascido, as mesmas vozes roucas gritavam:

--Hurrah! S. Jorge!

--Onde demonio estaro estes bargantes? perguntou o namorado de Garifa,
procurando o sitio donde sahia aquelle vozear.

Uma gargalhada estrondosa se seguia, pouco depois,  pergunta. Os
besteiros encontrados no casal, no se esqueceram, chegados ao mosteiro
dos cavalleiros de S. Joo, que vinham para humedecer a garganta com bom
vinho, e foi a adega a primeira cousa que procuraram. Era de l que
tinham, com os seus hurrahs, ajudado a alarmar os gallegos.

Desta vez micer Guilherme Down-Patrick no resistira  tentao.




VIII.

Torneio.

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     E elles no Porto por ledice de sua vinda ordenaro hum torneo
     vespora de S. Ioho, que era em que os moradores daquella cidade
     costumavam fazer gram festa.

     (Ferno Lopes _Chronic._)
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Por uma tarde de mez de Junho, pouco mais de uma hora seria, caminhavam
em direco s Hortas, no meio de extraordinario concurso, mestre
Gonalo Domingues e Fernando Vasques. O feito de Lea, tornando um
heroe, entre os patriotas da terra, o moo namorado, os gabos por elle
publicamente recebidos de Martim Correa e do conde D. Pedro, a ovao
feita pelos populares, que em charola, o conduziram, quando perdidas as
foras, pelo sangue derramado, cahira ao voltar do recontro; tudo fizera
passar por alto ao bom tio a fuga da loja. O velho abraou-o
enthusiasmado tambem, com o riso nos labios e ao mesmo tempo umas duas
lagrimas nos olhos e s se lembrou de fazer algumas reflexes sobre as
imprudencias da mocidade, quando em casa notou a necessidade de chamar
um medico, ou physico, como ento se dizia.

Gonalo Domingues tinha, como muita gente, na cabea uma boa dse de
ideas em opposio com as inspiraes e sentimentos do corao,
sobretudo a respeito de seu sobrinho. Se dissessemos que queria ao
mancebo tanto como s suas dobras, diriamos que lhe tinha affeio de
pae; porm, ia mais longe o velho: queria-lhe mais; pois bom dinheiro
sem d com elle tinha dispendido. E comtudo dava-se de vez em quando a
perros por causa de certas travessuras e inclinaes do filho de seu
irmo, sobre as quaes fazia observaes muito sisudas, cheias de um
positivismo tal, que obrigava a dizer aos que o ouviam que elle era um
homem de grande tino e prudencia. Reflexes e ralhos, terminavam quasi
sempre por aquelle sorriso que lhe viram os leitores quando elle voltava
de Miragaya.

Fernando vinha ainda alguma cousa pllido, debilitado, ao que no corpo
mostrava; porm nos olhos havia um fogo extraordinario, uma alegria
pintada em todo o semblante, e nos movimentos uma fora, uma rapidez,
que no parecia de quem entrra pouco havia em convalescena. O tio bem
lhe dizia que moderasse o passo, pois lhe fazia mal aquella violencia, e
elle mesmo a custo o poderia seguir sem correr; mas o mancebo, se o
affrouxava, era por instantes.

O sol, ainda quasi a prumo, podendo, dardejar os raios por entre as
esguias e altas edificaes das estreitas ruas, que percorriam,
rarefazia o ar, appresentando nos terreiros  vista a illuso de um como
doudejar de tomos no ambiente, um tremor que fere os olhos; porm
Fernando nada sentia. Ia vr Irene, Irene que no vira desde o
esboroamento fatal do muro; Irene, que Joo Ramalho, em vesperas de se
fazer de vla para a Figueira, d'onde seguiria para Lisboa, recolhera ao
castello de Gaya, recommendando-a a D. Catharina. A nobre senhora era
bastante astuciosa para no affagar em quanto fosse conveniente um homem
popular como o piloto mercador, e fallando elle em metter a joven em um
convento, em quanto ia servir o Mestre, para a guardar dos riscos a que
a idade a expunha, se offerecera para a tomar como donzella sua e tel-a
como filha palavras della. D. Catharina devia ir ao campo das Hortas
nessa tarde, e por Joo Bispo soubera o mancebo que  sua namorada fra
concedida a honra de formar parte do seu cortejo. Em logar do sol que
fazia, podia queimar o dos tropicos, que o mancebo o sentiria tanto como
a aragem fagueira por sesta do outomno, ou a gellos de hinverno.

O recontro de Lea deixra desassombrada a cidade, e os bons burguezes
entregaram-se todos aos cuidados de aprestar as embarcaes e mais
soccorros pedidos pelo Mestre de Aviz, posto em apuros pelo aperto do
sitio e bloqueio. Em quanto o abbade de Pao de Sousa se dirigia a
Coimbra, transtornada, como vimos, a embaixada do alcaide de Monsaraz,
as gals vindas de Lisboa e outras do Porto, j prestes, para no
perderem tempo tinham-se feito de vla pela costa da Galliza,
capitaneadas pelo conde D. Pedro, lanando contribuies aos povos que
no queriam experimentar o nosso ferro. Destruido completamente o Ferrol
e queimadas algumas naus, pelos fins de Junho de novo a frota appareceu
nas aguas do Douro, rebocando umas sete presas, e carregada de despojos.

Os sinos de todas as torres da cidade balouaram-se, atroando os ares;
berrou-se em todas as escalas os vivas do costume, e os edis, no fogo do
enthusiasmo, decretaram uma festa esplendida, como appensa  de S. Joo,
santo sempre popular e mais nessa quadra, por ser o do nome do Mestre,
que o povo tinha por um Messias, como diziam os partidarios de D.
Beatriz. A vespera da commemorao do nascimento do Baptista, morto por
ter desdenhado da dana, devia ser celebrada com danas, guinolas,
touras, momos e por um vistoso torneio, que tinha de ser o assombro da
terra, pouco affeita a to grados folguedos.

Desde o amanhecer do dia 23 o campo das Hortas estava cheio de gente
embasbacada para o tablado levantado na vespera, que alguns operarios
cobriam com tapearias, em quanto outros davam a ultima demo ao circo,
ou estacada, adornando-a com bandeiras, panoplias e festes de ramagem.

Aos gritos e cantigas dos trabalhadores, aos commentos dos curiosos, s
risadas pouco e pouco se juntavam os preges das vendilhonas de fructa,
dos taberneiros, fritadeiras e padeiras, que assentavam as suas mezas,
as suas tendas, ou os carros enramados por todos os lados, que o circo
deixava devolutos, e pouco antes do meio-dia era j difficil mover-se
no campo, apinhando-se alm disso um gentio immenso nos adarves e torres
da cidade, por aquelle lado, e na encosta dos dous montes do Olival e
Batalha. Se at ahi os bons burguezes tinham aberto a bocca para as
tapearias onde a agulha ou a lanadeira traara os episodios dos contos
de cavallerias, mostrando o rei Arthur, Amadis, Lisuarte, Galaor, a
duqueza Iguerna, Mabilia, Oriana, Urganda, Brisena e outras muitas
personagens, que para maior illucidao dos seus feitos e ditos tinham a
sahir pela bocca o texto da illustrao; se ficavam embellesados nos
grandes pannos de ouro, trazidos da cathedral para enfeitar o esperavel
do estrado das damas, nos estandartes, onde havia divisas de toda a
sorte, bordadas ou pintadas, mais pasmaram quando comearam a apparecer
os mantenedores das justas, os improvisados arautos, mestres e juizes de
campo, passavantes, sergentes, menestreis e trovadores, que para a festa
tinham sido igualmente apenadas as musas.

O Porto, behetria havia muito, entregue todo ao commercio, quando no se
divertia a jogar as cristas com os seus bispos e a pugnar pelas suas
liberdades, o Porto tinha visto passar os cortejos de alguns reis e
principes; mas de fugida, meios envergonhados, como o de D. Fernando, ou
em som de guerra, e em devota romagem e peregrinao: cortejo assim,
festa egual nunca se dra, pois nunca, como ento, se reuniram de muros
a dentro tantos e taes elementos: tinha uma crte de seu. Os mesteiraes
e os burguezes nesse dia, to enlevados estavam nas louanias que se
desenrolavam, que abriam caminho com a melhor vontade aos cavalleiros, e
alguns mesmo suspiravam por que fosse levantado o interdicto a quem com
tanto garbo soffreava um ginete, vestia to airosamente, e fazia to
acabadas mesuras.

Tinham as corporaes apparecido com as suas bandeiras, precedidas pelas
figuras que davam para abrilhantar o acto, como na procisso de Corpus:
tinham-se reunido, amontoado os trajes mais variados, desde as vestes
negras, compridas dos juizes, alvazires e meirinhos, as jorneas
partidas, de panno bristol, de seda e velludo, os briaes blasonados, as
marlotas dos mouros danarinos, as olandilhas, as opas dos folies e
jograes, os arnezes polidos, espelhando o sol, adamascados ou tingidos
de vivas cores, os vestidos de brocado, de panno de ouro e prata, os
arminhos e zibelinas das damas e donzellas, a almafega e o burel de
certos momos; casavam-se os preludios de todos os instrumentos; o
arrabil e o tiorba, a charamela e o clarim, o tambor e o pandeiro,
estrugiam, chiavam, rangiam; mas tudo aquillo dava vida e animao,
afinava, no meio da sua desafinao, permitta-se dizer, com o ressalte
das cres, que como em brazo pareciam postas, com os alaridos, as
risadas e os vivas, quando Fernando penetrou no palanque, onde seu tio,
como notabilidade da terra, conseguira bom logar.

O mancebo, mal entrou, estendeu a cabea, a procurar com a vista no os
arautos improvisados, que se pavoneavam de ambos os lados da lia,
vistosamente trajados de branco e azul, com as armas da cidade bordadas
no peito, nem os mestres de campo, montados j em bem ajaesados corceis,
e correndo de um para o outro lado: foi para o estrado ou cadafalso das
damas. Estava porm cerrada a cortina, e, que no estivesse, no palanque
era tal o rebolio, tanta gente estava de p, que no seria facil
descobrir l alguem, a no estar em logar eminente. Mestre Gonalo
Domingues, parte por natural curiosidade, parte por desejo de ostentar
perante os visinhos, como os paes costumam, quando se embellesam nas
prendas dos filhos, inquiria a significao de todas aquellas
tapearias, e amofinava-se por ver que o sobrinho mal lhe prestava
atteno, respondendo de tal sorte, que facil era ver que nem sequer
olhava para o sitio indicado.

De repente notou-se um marulhar de cabeas, e  algazarra succedeu o
silencio. Os alvazires appareceram no estrado para elles preparado, e em
outro, contiguo ao das damas, os juizes do campo--Ruy Pereira e Ayres
Gonalves de Figueiredo.

As trombetas soaram; alvazires e juizes tomaram assento, e depois de
feitas as costumadas ceremonias, um dos trovadores ergueu-se, desenrolou
um pergaminho cheio de illuminuras, e comeou em voz alta a recitar o
seu poema, que era nada menos que um elogio aos guerreiros da espedio
maritima. A poesia nessa epocha era tida em grande conta, e as
attenes, por tanto, da assemblea voltaram-se todas para o bardo. Uma
cabea, uma s se volvia attenta para outro lado, e esta cabea era a de
Fernando.

A cortina de cadafalso das damas fora corrida por dous pagens, e D.
Catharina e mais umas oito damas da nobresa das visinhanas da cidade
tinham apparecido rodeadas pelas suas donzellas.

Os trovadores podiam dizer bocados de ouro sobre faanhas militares,
que as palavras eccoavam como sons vagos aos ouvidos do namorado moo;
os versos de amores, esses, como se affinados pelo sentimento que o
dominava, ligados por uma corrente magnetica, faziam-no sorrir e crar,
sem comtudo desviar os olhos do estrado.

Depois que as palmas de todos os lados, e as trombetas soaram, quando o
vencedor proclamado, appresentando o seu manuscripto a Gonalo Pires,
escrivo da chancellaria, com uma cora de louros, recebeu em soberba
bandeja um bonito sacco de argempel, rico pelo bordado, e mais ainda
pelas boas dobras que o pejavam, premio votado pela municipalidade,
segundo antigas usanas, appareceu no meio da lia o mantenedor das
justas.

D. Pedro de Transtamara vinha, sobre garrido, aprimorado, formoso.

Bem fraca figura fazem hoje nas nossas festas e folguedos, com a esguia
casaca preta e a gravata branca de rigor, os alindados do seculo XIX 
vista da que faziam os nossos avs. Para o namorado de hoje em dia no
baile no ha meio de se distinguir, de lisongear o amor da sua dama,
como ento nos torneios, nos jogos de cannas e argolas, nos bafurdios e
cavalgadas; no apparecem hoje os vistosos trajes de seda, ouro e prata,
as mangas bordadas, de honra, as charpas ou bandas, nas quaes em cores
preferidas pela donzella querida se via a teno ou divisa, que
recordava a ambos um protesto, uma confidencia, ou descobria um
pensamento. O amor tinha, sobretudo no cavalheiresco seculo a que
transportamos o leitor, um culto, que hoje no tem, hoje em que
arrancaram a aljava a Eros, o facho ao Hymeneo, e a ambos deram por
distinctivo um saquitel de lona, como a imagem globulosa de bemfeitor de
confraria. (Entre parenthesis, fao aqui excepo dos meus leitores: os
que so casados, o so por amor, e os solteiros e as solteiras ainda no
deram um sorriso, um olhar a dote algum de boa somma, simplesmente pelo
dote e nada mais. So a nata das creaturas.)

O conde D. Pedro vestia sobre ricas armas de Toledo cheias de relevos,
esmaltes e embutidos, um brial cr de cereja, onde, em vez do braso
proprio, havia bordadas chammas de ouro, e no escudo, esmaltado da mesma
cr rubra, e taxeado de ouro, lia-se a palavra _Cuydado_ entre duas
palmas, que enramavam um sol feito de espadas. Um malicioso notou que o
desenho do escudo podia figurar a roda de navalhas de Santa Catharina, e
que a esposa de Ayres Gonalves trajava um corpete de tela, da cr
favorita do mantenedor do torneio, adornado com um peitilho e fraldilhas
de arminho; todos poderiam notar egualmente que, quando, ao fazer
caracolar o seu ginete, o conde deu uma volta  roda do circo, antes de
tomar das mos do escudeiro que o seguia o elmo, a lana e o escudo,
entre elle e a nobre castell se cruzra um olhar expressivo; porm, o
governador de Gaya mostrava-lhe um sorriso de agrado, e eram to sabidos
os recentes amores, que o tinham feito abandonar a crte de seu tio, que
a maledicencia achava-se um pouco embaraada nos vos.

O mantenedor do campo foi saudado com tanto enthusiasmo ou mais que o
trovador, e da mesma sorte foram acolhidos, em seguida, os
contendedores, que se appresentaram: Vasco Martins de Mello, Gil
Esteves, Affonso Darga, Henrique Fafes, um dos irmos Alvalade, micer
Manoel Pessanha, Affonso Henriques de Transtamara, e outros mancebos,
todos to adornados e vistosos, que  multido iam-se-lhe os olhos
nelles, no sabendo a qual dar primazia. Depois das ceremonias do
costume e de um bafurdio, jogo em que cada um mostrava a destreza no
arremesso das lanas, diverso tomada dos arabes, comeou o combate.
Vasco Martins, Henrique Fafes e Alvalade perderam a sella, no
supportando o embate das lanas; micer Manoel, como mais affeito ao mar
que  terra, ao dar a volta em um dos extremos da lia, para arremetter
contra o seu antagonista, o fez de sorte, que, roando pela barreira com
o cavallo, o arremessou este para o outro lado, deixando-o menos
maltractado que a uns dous burguezes, que lhe amacearam a queda com o
corpo.

As damas debruavam-se curiosas na balaustrada do cadafalso, e mais
curiosas do que as damas as donzellas de honra e as burguesas, para quem
tudo aquillo era inteiramente novo e de fortes impresses, como hoje se
diria. D. Catharina de Figueiredo, entre as do seu sexo, era a excepo,
como Fernando entre os homens. Alguma cousa lhe prendia a atteno, e
essa cousa ficava perto da bancada onde estava o mancebo. Seguindo a
direco dos olhares frequentes da bella dama, encontrar-se-hiam as
vistas do sobrinho do forureiro, e ao primeiro relance dir-se-hia que
se provocavam e comprehendiam. D. Catharina notara Fernando; notara nos
olhos os reflexos do incendio ateado no corao, e illudira-se, como se
poderia illudir muita gente. Extranhar a audacia a principio, podia-a
extranhar; porm, mulher, havia de achar-lhe indulgencia, por virtuosa
que fosse. No o era. De sangue ardente, fogosa por temperamento
pertencera, demais,  corte de Leonor Telles; era uma das damas com que
a astuta rainha jogara, para formar partido, cativar a benevolencia dos
cavalleiros a principio um pouco do parecer do povo que apedrejara os
paos de apar S. Martinho, e no desdissera depois da escla em que se
criara. Nos seus galanteios no encontrara nunca um olhar de adorao
como o que interceptava; Fernando Vasques fizera-lhe mesmo uma impresso
mais que extraordinaria: fizera-lhe no s, alli, esquecer o conde; mas,
depois, ainda mais, a distancia em que estava ella, dama de alta
linhagem, de um simples burguez, um peo.

A illustre dama no contava com Irene, que se occultava, crando, atraz
da poltrona em que se sentava: o filho do mestre de Santiago no contava
tambem com o sobrinho de Gonalo Domingues; mas via claramente que as
cres e divisas que tomara podiam ser taxadas de vaidade, presumpo e
nada mais.

Quando um novo contendor entrou na lia, estava to preoccupado o nobre
mantenedor, a procurar quem lhe podia roubar completamente as attenes,
que no reparou que era esse o mais destro de todos, affeito aos jogos
dos arabes de Granada, a medir-se com os cavalleiros da Africa ao
servio dos Alhamarides; que era seu proprio irmo, Affonso Henriques. O
moo castelhano, passando junto do conde guiou to destramente o
cavallo, que lhe roou pelas joelheiras, e dando um geito  lana, na
carreira, desviou completamente a do seu antagonista e tocou com a sua
no escudo de tal sorte, que o brao que o segurava, estendeu-se; a mo
abriu-se e aquella arma defensiva foi ao cho. D. Pedro, ao ouvir os
applausos levantados a seu irmo, e com a cabea perdida pela distraco
da sua dama, ergueu-se furioso nos estribos e arremetteu contra elle. A
sua lana desfez-se desta vez em hastilhas no arnez do mancebo; porm
este no saltou da sella, e em poucos instantes estava outra vez em
frente do conde. A lucta tornou-se ento um verdadeiro duello, e as
regras do cartel apresentado no principio, consentindo tudo que fosse
destresa, e mandando parar ao primeiro ferimento ou queda, pois que no
era justo que grande mgoa enlutasse to grande festejo, foram
despresadas. O conde tinha sido desappontado nos seus galanteios como
homem, e nos seus brios como cavalleiro. s lanas succedeu a espada; e
as espadas como a lana quebraram, amolgando os elmos, disjuntando e
torcendo peas dos braaes. Tomaram um a maa, outro o machado, e
furiosos correram um para outro.

O tio de Nuno Alvares Pereira e Ayres Gonalves de Figueiredo, estavam
tomados de assombro para intervirem na lucta; os mestres de campo, que a
principio haviam tentado manter com os arautos as condies do cartel,
tinham-se, embaraados, por novios, retirado para junto das bancadas, e
olhavam uns para os outros e para os juizes, procurando conselho, que
no viam nos olhos de ninguem. Os espectadores, homens e mulheres, esses
applaudiam os epysodios da lucta.

A massa ressoou na armadura de Affonso Henriques, e a um rugido, um
regougo seguiu-se um fio de sangue a correr por entre as fendas do
gorjal sobre o arnez. Os contendores tinham-se esquecido de que eram
irmos. D. Pedro, sobretudo, estava cego. O brial do conde fez-se em
farrapos, enrodilhado pela machadinha; o ginete em que montava D.
Affonso, ferido na cabea, apesar de acobertado de ferro, cahiu na arena
levando o cavalleiro. Os gritos da multido, como nos circos romanos,
eccoaram pelos montes visinhos.

--A p, a p! gritaram alguns cavalleiros enthusiasmados, exigindo a
egualdade de combate.

No foi preciso repetir a exigencia: ou melhor fra ella escusada: o
conde de Transtamara lanara-se abaixo do cavallo, e corria direito para
o irmo, que, j erguido, com o machado no ar o esperava.

--Cavalleiros, cavalleiros! exclamou Ruy Pereira ao mesmo tempo que
Ayres Gonalves, querendo sustar o combate.

Os passavantes e o mestre de campo correram para a arena, porm quando
chegaram junto dos irmos, um delles, D. Pedro, soltva um grito
doloroso, e cahia com todo o peso do corpo, fazendo ranger e estallar
todas as peas da armadura.

O guante de ferro que lhe guarnecia a mo direita estava despedaado, e
despedaado o pulso. O sangue tingiu a areia da lia.

--Jesus! se ouviu do lado das damas e depois uma borborinha correu pela
assemblea; pois a queda do sobrinho do rei de Castella, tomada como o
baquear extremo, produzira no povo uma impresso desagradavel.

Aquelle rumor e assombro fizeram cahir em si Affonso Henriques.

Os momos que se seguiram ao torneio foram sem interesse para os
espectadores entretidos a commentar o combate extraordinario dos dous
nobres castelhanos. Se recrearam alguem foi a Fernando Vasques e a
Irene, e pela durao; no por outra cousa.

D. Catharina no havia tambem despregado os olhos do mancebo. Ao
cavalleiro que a invocra no torneio, se concedera um olhar, fra de
curiosidade. Quando este tornra a si do desmaio em que a dr e o sangue
perdido o haviam feito cahir, passando junto delle, ao entrar para as
andas em que viera de Gaya, teve algumas palavras; mas ainda, se no
dirigidas, allusivas ao sobrinho de Gonalo Domingues, que tratra de
seguir Irene, apesar das exclamaes do velho forureiro, pouco amigo de
se metter em apertos, lembrado do desembarque de Ruy Pereira.

--Bello pagem se fizera daquelle mancebo... se fra de linhagem! No 
certo, micer Guilherme? disse ella.

--Bello pagem! disse o irlandez, que de certo devia ter achado a festa
menos divertida que o recontro de Lea, e sem mesmo olhar para o joven
que D. Catharina designava com a vista.

Fernando, perto da linda filha de Joo Ramalho, mais formosa agora e
esbelta com as galas que lhe consentira a castell, embellecido o rosto
pelo amor; Fernando no ousra erguer os olhos, e sustentra assim a
illuso para a antiga donzella de Leonor Telles, que repetio:

--Bello pagem!




IX.

Garifa.

                                   Cade in tanto dolor, che si dispone
                                   Allora allora di voler morire......

                                      _Ariosto_--Orland. fur. cant. V.

                                   Maravilhou a todos o spectaculo
                                   Inesperado...
                                   Que ser? disse emfim um rumor surdo
                                   De vozes dos que tremulos pararam...

                                        _Garrett_--D. Branca--cant. I.


--Para longe o agouro! Ora esta! dizia, horas depois do torneio, em
Gaya, junto da fonte do rei Ramiro, a mulher de um galeote.

--Pois que , tia Dordia? interrogava outra.

--Que ha de ser? Vindo s vozes do lado do monte, ouvi fallar em
affogado, e bem sabe que o meu Manoel anda por esses mares!

--Para longe o agouro, repetiu a outra mulher. Isto de agouros nem
sempre so certos. F em Deus, que elle far as cousas pelo melhor.

--F em Deus tenho eu; mas bem mau  que em noite de S. Joo se ouam
cousas destas! A velha Mafalda, o anno passado, ouviu, ao passar ao arco
de S. Domingos, fallar em um justiado, e bem sabe o que aconteceu ao
filho.

--So signaes que cada um traz ao nascer. Mas ainda no  meia-noite,
proseguiu a mulher, querendo consolar a senhora Dordia da crena ainda
hoje existente junto da foz do Douro, de que, quando, vespera de S.
Joo, ao cahir da meia-noite, se procura um prognostico, ou noticias da
sorte de pessoa ausente, as do as primeiras palavras de qualquer
conversa.

--Deus a oua, visinha... Deus a oua; mas parece-me que j ser: o
sete-estrello vai alto!

--No , no. l, Joo Canhoto, meia-noite ser?

--No , tia Luiza. Quer ir saltar as fogueiras?

--Eu no: foras para tal Deus as dra. O meu tempo j passou. Quando
rapariga!...

--Ento deitou ovo em escudella?

--Para que?

--A vr se lhe sahe arco de egreja, respondeu o homem, que dava pelo
nome de Joo Canhoto, rindo.

--A mim agora s se me sahir tumba. Isso  bom para cachopas.

--Vamos, vamos, tia Luiza; ainda est fra, rija como um virote, e um
noivo agora era mel pelos beios.

--Seu bargante! exclamou a velha, mostrando no rosto que a mofa do
galeote no era inteiramente recebida como tal.

--Ento, ainda no  meia-noite? tornou a perguntar a senhora Dordia,
bastante impressionada pelo agouro tomado, para delle tirar o sentido,
no obstante os gracejos dirigidos pelo galeote  sua amiga.

--Qual meia-noite! Ao cantar do gallo toda a chusma, que anda por ahi,
ha de vir em descante.  uma festa de estrondo c da gente. Ver se l
os da cidade nos levam as lampas! S violas  uma meia duzia, e os
rapazes que as tangem so mestres acabados.  de se abrir a bocca. E o
Safio? Se ha por ahi quem saiba deitar uma cantiga como elle, que eu
beba agua toda a minha vida! O Safio vem no rancho.

--Ento, temos grande descante? interrogou uma outra mulher.

-- esperar para ver.

--O sitio no  l dos melhores.

--Dizem que por aqui...

--O que?

--Que em noite de S. Joo apparece na fonte uma moura encantada... Ora
uma moura de no sei que rei...

--Ba, ba! exclamou o galeote. As mouras no se vem metter assim com um
homem do mar, por mais tresloucadas que andem. Se ella quizesse bailar
na festa...

--Credo! No diga isso, que o pde ella ouvir! exclamaram duas ou tres
mulheres ao mesmo tempo.

--Ai, senhor Joo, bem se v que no  da terra, e no sabe que  certo
o apparecer s vezes ahi a maldicta. Minha av, que Deus haja, quando
era rapariga, viu-a, disse a tia Luiza.

--E vi-a eu, vai em tres annos, com estes que a terra ha de comer,
accudiu a tia Dordia.

--E eu, disse outra.

--E eu, exclamaram em seguida mais cinco ou seis.

--Ento, como  a moura?

--Ora como ha de ser a moura?  uma figura branca, toda branca, muito
branca, com os cabelos, nem fios de ouro, soltos pelas costas; e
apparece a bailar na agua de um para o outro lado...

--Hoje quebra-se-lhe o encanto, atalhou o galeote, que era para o seu
tempo um grande incredulo ouvindo um desfinar de instrumentos do lado da
povoao.

--Alli vem a festa! Lenha para ahi! exclamou em seguida, dirigindo-se a
um rancho de creanas de ambos os sexos, que saltavam por cima do
brazido deixado pela fogueira.

A festa annunciada no tardou com effeito a apparecer. Uma grande poro
de galeotes, petintaes e espadeleiros de Gaya e Villa Nova arranhavam em
violas, tocavam tamboril, ou cantavam, fazendo coro, a cano entoada
por um rapaz alto e de ar jovial, que era nem mais nem menos o Safio
apregoado por Joo Canhoto. Para se dizer toda a verdade, deve-se
accrescentar que a desafinao dos instrumentos no destoava das vozes,
um pouco roucas, como as de todos os embarcadios, e demais
ressentindo-se de brodio feito em tasca.

Uma voz cantava:

  Em noite de S. Joo
  At no mar traioeiro
  Accendem anjos ou fadas
  Em cada vaga um luzeiro.

  E, velas de seda ao vento,
  Passa a gal encantada;
  Remos de ouro batem n'agua
  Ao som de branda toada.

  No ceo bailam as estrellas
  Bailam as mouras nas fontes...
  ..............................

--Jesus! exclamou uma mulher, pallida, com os olhos espantados,
lanando-se a tremer no meio da festa.

As violas calaram-se, o cantor, que desta vez dizia versos, que no eram
de sua lavra; os coros, que repetiam no fim de cada estrophe um
estribilho maritimo, calaram-se tambem; os rostos tornaram-se de
finados, como se tornara o da mulher. Esta, com o brao estendido,
designava a fonte de D. Ramiro.

Se vs, leitora, que talvez por mais de uma vez apregoastes que no
credes em muita cousa natural, quanto mais nas que o no so, visseis o
que Safio e os festeiros de Gaya estavam vendo, a cr do rosto vos
fugira, como a elles lhes fugiu, e talvez, como a vossa organisao no
 a de qualquer petintal, um desmaio vos tirasse de sustos.

A lua no extremo da sua carreira, redonda, mergulhava no mar, marcando
nas aguas uma esteira tremula, de um brilho duvidoso. O disco, meio
embaciado pelos vapores do occeano, podia servir para uma imagem
funebre: dir-se-hia que era o espectro do sol. Na outra margem, para o
lado da cidade, por entre fogos vermelhos, appareciam e desappareciam
figuras negras, como possuidas de uma vertigem, de frenesi, e a aragem
trazia nas azas humidas pelo orvalho, um concerto de rizadas em todas as
notas possiveis da escala, e uma discordancia de instrumentos, como em
ronda de feiticeiras. O rosto tornava-o negro uma immensa fogueira feita
na praia. Os reflexos da luz davam ao rosto dos marinheiros de Gaya,
tomados de assombro, um todo phantastico, assustador. Toda esta scena
momentos antes era alegre. Uma s cousa bastra para a transtornar.
Entre o fundo escuro em que se mergulhava a margem opposta, em
consequencia da fogueira que fizera avivar Joo Canhoto, e o lano do
rio tocado pelos derradeiros raios da lua, junto da fonte,  beira da
agua, via-se uma figura branca, indefinida em tudo que no era o
contorno, movel, conforme as oscillaes e intensidade dos fogos,
accesos que parecia, mais do que a pousar na terra, suspensa do ar,
baloiada por fio invisivel.

Aquella appario, como transtornra o aspecto da scena, como dra aos
cantos e aos risos um tom sobrenatural, tornra immoveis quasi os
collegas de Safio. Se no fosse o movimento que faziam para se
aconchegar uns aos outros, dir-se-hia que ella os havia petrificado. O
suor innundara-lhes a fronte, e o frio corria-lhes pela espinha dorsal.

A campa do convento de Corpus-Christi dobrou compassada marcando a
meia-noite, e ao mesmo tempo quasi uma nota plangente vibrou no ar.
Marinheiros, que tinham affrontado a tempestade com o corao sereno,
que nas gals reaes ouviram sibilar os pelouros, sentiram perto do
craneo o embate do machado no machado tremeram como as folhas dos
alamos. Das mulheres nem fallamos. Todas as oraes, todas as frmas de
esconjuros se lhes embaralhavam na memoria, e os lbios negavam-se a
pronuncial-as.

--Meia-noite, tartamudeou Joo Canhoto, momentos antes emprazador de
phantasmas, e fazendo ao soar a ultima badalada o signal da cruz s
avessas.

--Valham-me os santos e santas do cu!

--Jesus! bento nome de Jesus!

O silencio que estas exclamaes interrompiam era tal que se ouvia o
respirar no muito desembaraado daquella boa gente, e o terror tambem
era tamanho, que as passadas e mesmo a appario de um homem junto do
rancho dos festeiros no foi por elles notada. Daquelle pasmo pasmou o
recem-chegado, mas no por muito tempo.

--Ui, Canhoto, exclamou elle; que mau olhado vos deu, e em toda essa
gente, que tendes cara de quem viu o trpo em encruzilhada?!

--Jesus! bento nome de Jesus! repetiram as mulheres, deitando a correr
para o lado da povoao, como se a presena daquelle homem quebrra o
encanto de terror em que estavam.

--Ui! tornou elle, que demonio se lhes metteu no corpo?! Nem bando de
cotovias que farejaram besta armada. Eh! Canhoto, que feio esgar que
ests a fazer! Ests mudo, homem? Aquelles pergaminhos velhos de saias
que fugiram a grasnar eram bruxas? Em noite de S. Joo...

Joo Bispo, pois era o nosso conhecido o recem-chegado calou-se, e
recuou espantado, fitando um gesto dos galeotes de Gaya a appario
phantastica que os atemorisra, e quasi ao mesmo tempo dous gritos se
confundiram com o baque de um corpo no rio. O phantasma branco, a moura
encantada durante a enfiada de perguntas de Joo Bispo, approximara-se
da margem do Douro, erguera os braos ao co, como em supplica, e
precipitara-se na corrente. Durante este movimento o bsteiro
reconhecera naquelle vulto um ente querido, e ao grito, soltado como em
adeus extremo ao mundo, juntara-se outro de angustia tambem. O pasmo
produzido pelo reconhecimento feito em taes circumstancias no foi
longo, porm; ao baque na agua do corpo da moura seguiu-se outro, o do
bsteiro.

--Joo! Joo! exclamaram alguns galeotes perplexos; sem saber como
traduzir na sua intelligencia o passo do condiscipulo de Fernando.

Joo no ouviu sequer aquelles gritos.

--A moura saltou ao rio! disse um espadeleiro, que se attrevera a
procurar com a vista a causa do terror geral.

--Foi para casa de _Brazabu_! redarguiram dous ou tres, tomando de um
folego o ar necessario para cem homens, e limpando com as costas da mo
o suor frio que lhe banhava o rosto.

--Joo! Joo! tornaram os que mais perto estavam da praia.

--Arrastou-o a maldita. No viram os olhos que ella deitava. Eram dous
luzeiros.

--Guay delle! Aquillo no era moura; era o tinhoso, resmungou o
espadeleiro, fazendo o signal da cruz, o vigessimo talvez nessa noite.

--A modo que sim, tio Vasco. Cheira aqui a no sei que.

--Olhem! olhem! disse com voz abafada outro marinheiro, que se attrevera
a approximar-se da margem, e de novo recura atterrado. Olhem! olhem!
No veem na agua aquelle marulhar? A moura filou o bsteiro.

--A Virgem santa seja com elle! murmuraram tres ou quatro a um tempo,
dando o nosso homem como perdido de corpo e alma.

No rio, mesmo na esteira que prateava a lua, com effeito apparecia e
desapparecia, para de novo surgir  flor d'agua, um vulto, a bracejar.
De uma das vezes no veio s. O vestido da moura alvejou, tocado por um
raio de luz, e a crena, dos marinheiros, de que Joo Bispo era
arrastado por um espirito ou pelo demonio, mais se confirmou, levando-os
a novos esconjuros. O bsteiro sobraando o corpo e segurando com os
dentes as vestes da infeliz, embaraado nos movimentos, luctava com a
corrente afim de alcanar a margem.

--A mim! a mim! gritou elle de uma das vezes em que veio ao lume d'agua;
porm os marinheiros olhando espantados uns para os outros no se
moveram em seu auxilio.

--S. Pedro seja com sua alma, murmurou o velho Vasco, recuando ao passo
que o bsteiro se approximava da margem, um pouco escarpada naquelle
sitio e ento mais do que hoje. Que se apegue com a Virgem, no com a
gente, que nada pde com encantos.

--Oh de terra! soccorro, por Deus, que se me fina esta desgraada!
tornou Joo Bispo com uma inflexo de voz, que denotava o desespero que
ia naquelle corao.

Safio e Canhoto, por um impulso sobre o qual nem tempo tiveram de
reflexionar, correram  praia. Safio approximou-se da rocha junto da
qual o bsteiro se debatia, segurando sempre a mulher de branco.

--Uma mo a esta pobre, que j mal respira.

-- uma rapariga! exclamaram os dous marinheiros, estendendo os braos
a segurar aquella que, momentos antes, tomavam todos por um ente
sobrenatural.

Os petintaes, galeotes e mais festeiros pouco a pouco se tinham
approximado, ouvida esta exclamao, e vendo que se no tratava de mais
do que de arrancar  morte uma creatura, o exemplo de Safio e Canhoto
foi seguido, e, instantes depois, Joo Bispo a depositava em terra a sua
preciosa carga.

De novo reinou o silencio. Os marinheiros atordoados com as sensaes
diversas experimentadas em to curto espao de tempo, formaram roda ao
corpo da mulher, que inane, desmaiada haviam conduzido para junto de uma
fogueira, e deitado sobre um monte de trevo, alfombra improvisada das
moas da terra, dispersas pouco havia. Joo Bispo com o olhar fixo,
espantado, as mos pendentes, os lbios entreabertos contemplava o rosto
da moura, pois moura era a desfallecida. Parecia ter-se-lhe apagado
completamente da memoria o que acabava de se passar: o corpo alli
prostrado era uma surpresa. De repente deu um grito; lanou-se de
joelhos junto da moura, tomou-lhe a cabea no regao, e palpou-lhe as
faces e o seio, a vr se encontrava o calor da vida, e, curvando-se,
entre carinhos, como se com elles a quizesse acordar daquelle lethargo,
exclamou:

--Garifa! Garifa!

Garifa no respondeu. Os lbios contrahidos, lividos, perdido o fogo que
animava aquelle rosto moreno, quando, pelas grandes festas, nas danas e
folias, com que as da sua raa contribuiam, fazia girar sobre a cabea o
adufe, ou agitava os cascaveis que lhe adornavam o curto saio; os olhos
cerrados; as longas cilias cheias de gotas d'agua, como se a morte a
surprehendesse entre prantos, nem um suspiro desprendia; nem um
movimento, por leve que fosse, se lhe notava.

--Morta! tornou a meia-voz, atterrado, o bsteiro, tirando do cinto o
punhal, e chegando-lhe a folha aos lbios depois de a ter limpado.

Um raio de luz, um raio de alegria passou pelos olhos do magoado amante,
quando o fraco alento da moa formou uma mancha na folha luzidia.

--Garifa! Garifa! tornou elle a exclamar.

-- viral-a de cabea para baixo! resmungou o velho Vasco;  a msinha
dos afogados.

--Garifa... minha pobre Garifa! murmurava o bsteiro.

--Safio, chega-lhe vinho; um trago no lhe far mal, gritou Joo
Canhoto; e em seguida, tomando o pichel que o seu companheiro trazia 
cinta, derramou algumas gotas sobre os lbios da desfallecida moa, ao
passo que este resmungava, vendo correr o licr a que no parecia
desaffeioado:

--Boa cera com ruins defuntos!

Joo Bispo lanou-lhe um olhar terrivel, e fez um movimento, como se
tentasse desafogar em clera contra o imprudente marinheiro todo o peso
do corao, e estallar, quando Garifa moveu os lbios fazendo um gesto
de repugnancia.

--Basta, Canhoto, basta! acudiu Safio, que no reparara no bsteiro;
vais fazer perder a alma  rapariga. No cu dos mouros... que  o
inferno, accrescentou por entre dentes... no entra quem prova do sumo
da uva, ouvi dizer.

O bsteiro arredra Canhoto, e, com um brao debruando-se sobre o corpo
da sua namorada, tomava-lhe as mos entre as suas, quando ella abriu os
olhos, murmurou algumas palavras inintelligiveis, e tornou a fechl-os,
soltando um suspiro.

--Garifa! Garifa! tornou a exclamar o amigo de Fernando.

--Quem me chama? perguntou a moura, como se acordra de um somno, com
voz fraca, descerrando de novo as palpebras, e fazendo um esforo para
se erguer.

--Eu, eu, Garifa! acudiu Joo Bispo cheio da alegria.

--Porque me no deixaram morrer? murmurou a filha de Humeia cobrindo o
rosto com as mos.

--Morrer, Garifa?! E que querias depois que eu fizesse no mundo!
exclamou o mancebo affastando-lhe com brandura as mos do rosto. Que
faria eu? proseguio... Morrer... morrer tambem!

A moura meneou a cabea; fixou a vista, como admirada no besteiro;
estremeceu toda, e dos olhos rebentou-lhe o pranto ao mesmo tempo que os
soluos do peito. Joo Bispo, que, em alguns minutos apenas
experimentara os mais contrariados affectos, a extrema dr e a alegria,
redobrou os seus carinhos, as palavras affectuosas; mas as lagrimas
continuavam a correr em fio dos olhos de Garifa.

--Garifa, minha Garifa, porque choras? Deixa esse pranto com que me
amofinas. Eu estou aqui, Garifa, e ninguem nos ha de agora separar. Tu
cumpres a tua promessa... e teu pae, que no espera j vr-te...

--Oh, meu pae, exclamou a moa interrompendo-o, e de novo cobrindo as
faces; com que rosto lhe poderei eu apparecer?!...

--Elle perdoar tudo, Garifa; esquecer tudo... e que no perde, eu...

--Nem elle, nem tu; Joo... Oh! porque me no deixaram morrer!

--Eu? Garifa? Eu no te entendo... Que mal me fizestes? porque te hei de
malquerer?...

Joo Bispo estacou, e de um salto ficou de p. O que se passara
causara-lhe um violento abalo, para dar logar a reflexes, e
esquecera-se de que a mulher, que assim tentava pr termo  vida, tinha,
duas semanas havia, desapparecido; esquecera-se do que lhe dissera o
petintal e das suspeitas que o levaram ao  castello de Gaya. Tudo,
porm, resumido em uma idea unica acabra de lhe passar pela mente.

--Rausada?! exclamou, abaixando-se a arredar-lhe de novo as mos das
faces, procurando vr se dos olhos mais depressa do que dos lbios
obtinha uma resposta.

A moa s redarguiu:

--Porque me trouxeram  vida... porque?

--Rausada! tornou Joo, passando uma das mos pela fronte, em quanto com
a outra apertava o cabo do punhal. O nome desse homem, e pela hostia
consagrada juro que dentro em dias o repetiro em resa de finados.
Falla, Garifa: o nome desse homem? Vilo ou cavalleiro que seja, eu me
pagarei em sangue de quanto elle me roubou. Garifa, Garifa!

Soluos e lagrimas foi a resposta que obteve da filha de Humeia.

--Garifa, no respondes? Dize... dize que no te pozeram mo, dize,
proseguiu o mancebo fra de si; livra-me desta idea que me faz perder a
cabea; livra-me della ou aponta-me um homem em quem desafogue todo o
desespero que sinto. Tu no me atraioaste, no; no era possivel...
Empregaram a fora; empregarei a fora, e hei-de esmagar quem quer que
seja o rausador. Garifa, no respondes? Uma palavra!

--Que queres que te diga, Joo? Esmagaram o nosso amor, tornando-me
indigna de ti: a filha de Humeia no pde mais apparecer com a face
descoberta!

--E o refece, o maldito?! gritou o bsteiro apertando com violencia os
pulsos da moura.

--A aguia va to alto que no a alcana a garrocha, murmurou meneando a
cabea, depois de alguns instantes de silencio, a namorada de Joo
Bispo.

--Quem foi, Garifa, quem foi?

--Deixa-me, Joo.

--O nome desse homem!... o nome desse homem!

--No, no posso.

--No pdes?...

--No, no posso: dizer-te o nome era fazer-te aoutar manh no
pelourinho... era matar-te...

--Ayres Gonalves... Henrique Fafes!... gritou Joo Bispo.

--No... no m'o perguntes...

--Qual delles, Garifa; qual delles? Affonso Darga?

--Ninguem!

--Ninguem?! O nome desse homem, ou tu s to vil como elle!

--Serei, Joo... sou. A moura do Olival, que te queria tanto como  luz
dos olhos, morreu no dia em que lhe pozeram uma mordaa na bocca e
ataram os pulsos: atiraram depois o corpo ao monturo... como de moura
que era. Garifa morreu, Joo: o que aqui est  uma desgraada corrida
por palafreneiros... a quem a lanaram...

--Calai-vos, calai-vos! exclamou o moo bsteiro, pondo a mo na bocca
da sua namorada. No pde ser...  impossivel!

--Antes fra!... murmurou Garifa.

--Em m hora vim ao mundo!

Joo Bispo calou-se e deixou pender a cabea sobre o peito. Quando de
novo a ergueu, as palpebras estavam vermelhas, mas seccas; os olhos
vagavam-lhe incertos; o rosto estava pllido, e uma contraco nervosa
dos musculos parecia emagrecer-lhe, avelhentar as feies. O amigo de
Fernando Vasques, occultava sob as vestes grosseiras um grande corao,
cheio de fogo, de energia, e toda essa energia empregra-a no amor da
filha de Humeia. A moura do Olival era tambem a unica mulher que topra
no seu trilho capaz de no esfriar essa paixo. No prendia, no
captivava smente com a bellesa do corpo; captivava com os dotes do
corao, da intelligencia. Garifa tivera na infancia faixas bem
superiores s telas grosseiras dos vestidos que trajava no Porto. Para
corresponder  exaltao, que a vida ociosa e ao mesmo tempo cheia de
sobresaltos e de incertesas produzia na mente do escolar de S. Domingos,
era necessaria a exaltao do sangue arabe, fervente nas veias de
Garifa.  facil de avaliar qual o abalo que o mancebo recebeu no caes de
Gaya. Aquella desventura, receara-a, temera-a; mas no se afizera  idem
de que se realissse; achra sempre a providencia a estender a mo  sua
namorada, a protegel-a. Na mar mais negra seguindo-a com o pensamento,
depois que ella desapparecera do Olival vira-a morta; mas se encontrasse
no Douro o seu cadaver, a mgoa no fra tamanha como a que sentia.

Mesteiraes e marinheiros fitavam commovidos os dous amantes, que se
conservavam mudos affastando as vistas um do outro: Joo de p, sombrio,
pensativo; Garifa de joelhos, lacrimosa, tremulla, branca como a roupa
que vestia por baixo do roto gabo, que um marinheiro lhe lanara aos
hombros.

--Rausada! murmurou passados momentos o mancebo, sacudindo a cabea,
como se assim podesse repellir aquella ideia.

Depois, estendendo a mo  pobre moura, ajuntou:

--Vem, Garifa; j no sou tambem o mesmo que era. Vem commigo.

A moa, levada pela solemnidade da voz e do gesto do mancebo, e ajudada
por elle, levantou-se machinalmente, e com passos mal seguros,
seguiu-o, perdendo-se os dois na escurido da estreita rua que guiava ao
povoado.

Os marinheiros ficaram olhando uns para os outros.

--Pobre rapaz! murmurou um delles.

--A rapariga era a que chegou a noite passada, quasi nua e toda magoada
 taberna do tio Pero, e que elle abrigou por caridade, e livrou de dous
mal encarados que a seguiam.

--Deu-me os seus ares della.

--Era a mesma, sem tirar nem pr.

--Mal a puzeram em terra, conheci-a: era a moura do Olival.

--Coitado do Bispo, resmungou o velho Vasco. Bem enfeitiado o traz a
tal moura. Estas condemnadas teem taes artes, que, se vos lanam olhado,
fica-se perdido de todo. Teem feitios para tudo. Um rapaz conheci eu no
meu tempo, que se myrrou de todo, e morreu por causa de uma destas
maldictas. Em casa da rapariga, uma moura, e linda at alli, encontraram
uma figura de cera feita a imagem d'elle com os olhos pregados, e um
alfinete enterrado no sitio do corao.

--Qual feitio, nem meio feitio! resmungou Joo Canhoto.

--No acreditas! accudiu outro mesteiral. As mouras todas sabem de
feitiaria, e quando querem querem que um homem lhes queira, a ellas ou
a quem isso lhe pede, apanham um sapo, e cozem-lhe os olhos.

--No digo que se no faam desses maleficios; mas a rapariga do
Bispo...

--Homem,  moura e basta.

--Moura ou christ, se enfeitiava, era com os olhos. No precisava de
outra cousa, accudiu Joo Canhoto. A ba gente vi ficar de bocca aberta
para ella, este anno ainda na procisso de Corpus, e depois no tem sido
nem a um, nem a dous senhores de alta linhagem que tenho visto seguil-a,
todos requebrados. A um dos que est no castello ainda ha semanas
encontrei em seu alcance pela aljama, era j noite cahida. No disse
nada ao Bispo, por que elle faria alguma!

--Feitios, feitios, para nos perder a alma, resmungou o velho.

--Ora, mestre Vasco! Tambem enfeitiou ella a quem o poz naquelle
estado? A pobre, que se queria finar por se vr assim,  porque no foi
por sua vontade que a tiraram de casa. Christs conheo eu, como as
palmas das mos, que no a valem. Se mestre Vasco estivesse mais novo, e
ella lhe dissesse palavras de bem querer...

--Credo! era um peccado!

--Deus me perde; mas eu no o tenho por peccado; se o , muita gente
pecca.

Joo Canhoto no deixava de dizer a verdade: as mouras por aquelles
tempos roubavam s christs bastantes coraes, tanto de nobres, como de
pees, o que as obrigava a crr em poderes occultos, para no se
confessarem derrotadas nos encantos. Nos paos dos cavalheiros e
ricos-homens, muita descendente de Agar, forjava dos ferros que lhes
lanra a escravido cadeias para os seus senhores: nas cidades as mais
jovens e formosas eram como Garifa foradas quasi a mostrarem as suas
graas em publico nas grandes solemnidades: eram as bailarinas da
epocha, e as bailarinas teem feito danar muita cabea desde Herodiade
at aos nossos dias. Os escrupulos do velho Vasco no eram partilhados
seno pelos que se viam no seu estado. Os legisladores, entretendo-se a
impedir relaes ou ligaes entre as duas raas com penas mais ou menos
sevras, no quizeram, ao que parece, mais do que deixar prova de que
ellas eram um pouco frequentes, e que j ento se faziam leis para
ficarem letra morta, salva uma ou outra excepo feita com algum pobre
de Christo. Nos principios do seculo XVI ainda apparecem trovadores,
que, apregoando o seu affecto por descendentes de Azharat e de Shobeia,
no nos deixam ficar por mentiroso.

Para crdito das nossas avs christs, attribuamos a maior recato
dellas, as conquistas das moas do Islam. O leitor, comtudo, no fique
pensando que estas no tinham sobre a virtude, sobre o pudor e sobre o
amor ideas identicas s professadas por aquellas. Garifa no era uma
excepo unica feita para Joo Bispo: as ideas com que hoje so creadas
as mulheres no Oriente, no eram as das mulheres arabes de Hespanha. Com
pequenas excepes, o amor no seculo XIV tinha em Granada as mesmas leis
que na crte da condessa de Champagne.

O leitor poder agora dizer-nos o mesmo que Safio a Vasco e Joo
Canhoto:

--Deixemo-nos dessas cousas.

O marinheiro accrescentou:

--Vamos: a noite de S. Joo  para descantes e folias! Venham as moas
para o terreiro. Eia! mos  obra: avivar as fogueiras e tanger as
violas, que as cachopas acudiro! Ehuh! Mafalda! Joanna!

Pouco depois ninguem diria que na praia da velha Cale se tinha passado
uma scena de lagrimas; que uma pobre rapariga tentra pr termo aos seus
dias; que um corao se despedara. Um bando de raparigas, de
marinheiros e mesteiraes, dando as mos uns aos outros, danavam, ou
melhor, giravam, formando circulo, em volta de uma grande fogueira, e
entoavam todos esta cantiga, que os musicos da festa faziam por
acompanhar:

  Todas as hervas so bentas
  Em noite de S. Joo
  S o trevo, coitadinho!
  Anda a rasto pelo cho.

E o sol, nascendo, ainda os encontrava no mesmo local.




X.

Uma idea.

                                No falta com razes quem desconcerte
                                Da opinio de todos na vontade.
                                Em quem o esforo antigo se converte
                                Em desusada e m deslealdade.

                                          Cames. _Lusiad._ Cant. IV.


Os burguezes do Porto tinham desempenhado a sua palavra: os navios
promettidos estavam a nado nos aguas do Douro, promptos para dar  vla.
Os cavalleiros e ricos-homens nem todos procediam do mesmo modo; o fogo
do amor da patria era em alguns, tibio, em outros nullo. Ayres Gonalves
de Figueiredo era deste numero. Approveitara os conselhos de sua mulher,
e fazia todo o possivel por aguardar que a situao se definisse para
entrar com segurana na contenda. Martim Gil, mandado pelos portuenses,
ao conde D. Gonalo, delle recebera uma resposta favoravel, depois de
feita, entende-se, a concesso das terras da rainha D. Leonor a sua
merc, e a das de Lordello e Bouas seu filho D. Martinho, fra outras
miudesas, taes como dinheiro e peas de panno; porm o conde adiava, sob
pretexto de aprestes, a sua partida, quanto lhe era possivel. O Mestre
lembrava continuamente os apuros em que estava a sua boa cidade de
Lisboa; mas os nossos homens no se queriam metter tambem nelles, sem a
certesa de bom resultado. Ayres Gonalves tinha os olhos no conde de
Neiva; Affonso Darga e outros cavalleiros aguardavam a resoluo do
alcaide de Gaya. Ruy Pereira, no entanto, enfastiara-se de tanta
delonga, e tendo Alvaro da Veiga, Luiz Giraldes e Domingos Pires
lembrado que se enviasse a armada receber o conde  Figueira, o alvitre
fra acceite, com grande amofinao dos Fabios politicos, que trataram
logo de procurar embaraos  sua realisao.

Uma circumstancia os favoreceu.

Quando, pouco depois do S. Joo, a municipalidade tratava no s de
abastecer as gals, mas at de enviar alguns viveres para os sitiados,
como fra requerido, alguns companheiros de Fernando Affonso de Zamora,
deslembrados da lio dada em Santo Thyrso, ou outros aventureiros
similhantes appareceram nas visinhanas da cidade. Mal a noticia se
espalhra, frei Garcia fora ter com Pedro Choca, e causra nas tercenas
um alvoroo extraordinario, pintando as cousas o mais feias possivel.
Este alvoroo, graas a outros individuos, se tornou contagioso; o temor
calou nos animos fracos, e na tarde desse mesmo dia nas ruas, terreiros
e praas lamentaes no faltavam.

--Eis de novo esses malditos gallegos! ms teres os colham! dizia um
mercador. No nos deixam tomar folego os hereges, e em bem mau estado
vo j os negocios. O tempo vai bom para espadeiros; que os outros no
veem pogea. Tudo so guerras, agora, e desordens. Dantes no era assim.
No tempo do rei D. Pedro!... suspirou o bom homem, e concluiu meneando a
cabea, e fitando os olhos no tecto da loja.

Este gesto queria dizer que no tempo do pae do Defensor a paz florescia
na terra, e era, talvez, copiado de outro identico, feito pelo senhor
seu progenitor quando o amante de Ignez de Castro talava o Douro e o
Minho, e mesmo de algum feito por seu av, affectado pelas desavenas de
D. Diniz com o pae do rei D. Pedro.

--No foram bem sangrados, e veem por mais esses castelhanos ou
acastelhanados, redarguia um visinho; pois tero o seu escote, como o
teve o de Zamora e o arcebispo.

--Mal haja quem mal faz!

--Ruy Pereira, Ayres Gonalves, ou qualquer os recebero como merecem.

--Assim creio; e por isso, como me dizia ha pouco mestre Loureno,  que
no acho muito acertado mandarem para Lisboa quanta ba lana ha por
ahi.  dever acudir ao proximo; mas em primeiro logar esto os da casa.

Quasi todos os dialogos, travados em diversos pontos appresentavam,
espremidos, o mesmo succo que o do bom mercador quando pelo lado das
Hortas entrava uma grande manada de bois, e rebanhos de ovelhas e
cabras, destinados ao abastecimento das gals. Alguns ociosos,
encontrando-se com a manada fizera-lhe cortejo; alguns mesteiraes,
vendo os ociosos, pousaram a ferramenta e engrossaram-no; os garotos,
que possuem o faro dos grandes ajuntamentos, conhecendo que se formava
um, surdiram de todos os bcos, para o completar. Ao chegar o gado a S.
Domingos, caminho das tercenas, onde deviam os carniceiros preparar as
carnes, a procisso era solemne pelo numero. A ideia que presidia a
todas as lamentaes ia ser formulada de outra sorte: frei Garcia e
alguns outros apaniguados do alcaide, achavam-se entre as turbas; Pedro
Choca, desembocra do lado da Esnoga, sahido de uma taberna, onde, junto
com individuos que deviam estar debaixo da jurisdio de Tello Rabaldo,
tinha enxugado algumas medidas de vinho, e no era pelo menos destituido
da manha necessaria para certas empresas.

Se o concurso era grande, tambem era ruidoso. Os conductores da manada
gritavam, vendo que uma ovelha tresmalhava, picada por algum rapaz
travesso, ou um boi estacava, atemorisado por negaas; os homens d'armas
da escolta praguejavam no meio de tantos embaraos; aqui uma mulher
queixava-se de que a pizavam; alm alguns homens altercavam com os
bsteiros, que os repelliam do transito; mais longe chorava uma creana.
Os garotos e os vdios praguejavam, gritavam, riam-se, assobiavam,
cantavam e imitavam o balido de ovelhas e cabras, e o mugido dos bois,
como se os animaes se recusassem a tomar parte naquelle concerto.

Entrando no terreiro a multido, crescera a algazarra. Uma chusma de
homens cobertos de andrajos, bem similhante  que estacionava no Olival,
no dia da chegada da mensagem, correra para as boccas das ruas que iam
dar ao rio, obstruindo-as completamente. Quando os guardas dos rebanhos
quizeram abrir caminho para as tercenas, os vadios demonstraram a sua m
vontade com apodos a que responderam os acontiados da behetria com os
contos das azevans, ou as bstas, manejadas em ar de clava. Nesta
destribuio de pancadas foram, como succede muita vez em casos taes,
contemplados bastantes innocentes. Um bsteiro, querendo chegar a um
velhaco, feriu no rosto uma mulher, levada para o centro do motim pelas
ondas de povo. O sangue, correndo pelas faces da pobre creatura,
indignou alguns circumstantes, que s a curiosidade alli trouxera.

--Fazei praa, exclamou d'entre elles um burguez, fazei praa, mas com
tento. Guardai os virotes para castelhanos escismaticos. Em recontro ou
batalha talvez o brao no ande to destro.

O acontiado fez um gesto como de quem ia empregar syllogismo
contundente; mas a prudencia o aconselhou melhor, e contentou-se com
redarguir:

--Cuidai no vosso mester, bom homem, e deixae-me. Onde pozeram a mira
estes velhacos sei eu. No lhes passa ha mezes pelas goelas bocado de
cabrito, e querem fazer bdo com algum que filem.

--Olha o outro! gritou um petintal. Se no comemos cabrito todos os
dias, comemos po; mas amassamol-o com o nosso suor: no o vamos roubar
pelas padeiras. Os tagantes do aljube ainda teem a pelle de dous dos
vossos! Ns no nos servimos das adagas para cortar escarcellas de
mercadores encontrados fra d'horas.

--Muito nos custa a viver! acudiu uma grda cidada, e mais custar
agora que levam todo isso para Lisboa.

--E no parar ahi, disse um dos companheiros de Pedro Choca do meio da
turba: vai quanto mantimento se encontra pela redondesa e ha na cidade.

--Se os de Lisboa esto cercados pelos de Castella, que faam como
fizemos em Lea: se por l esto minguados de mantimentos, tambem no
nos sobejam.

--E os do arcebispo ainda no foram desta to malferidos, que no possam
voltar, disse uma voz. Alguns corredores teem sahido de Braga.

-- verdade,  verdade! berraram ao mesmo tempo dez ou doze mesteiraes.
Os de Lisboa que se avenham como poderem.

--Teem braos como ns.

--E no havemos de finar-nos  mingua. Os mercadores mandam boas dobras.

--E a prata da S vai tambem!

--J os alvazires carregaram uma gal de armas, e de Coimbra e Montemr
vieram outras.

--Que se contentem com isso, e com o biscouto e farinha que embarcaram!

--Deixai que no faltar, louvado Deus, mantimento na cidade, embora
levem tudo isso ao Mestre.

--Fallais assim redarguiu um dos queixosos, voltando para o ordeiro, que
proferira estas ultimas palavras, porque se um po de praa vos custar
dous reaes brancos, tendel-os na arca! Nem mealha deixaremos embarcar.

--Nem mais tanto como uma unha negra!

Este dialogo, ou esta scena, que se passava ao p do arco, como nas
tragedias antigas tinha o seu cro n'uma gritaria descompassada de que
seria difficil dar uma ideia. O que sobresahia no meio de tudo, eram os
_vivas_ e os _morras_. Se se perguntasse a cada um dos coristas em
separado porque davam essas vozes, nenhum talvez vol-o diria, a no ser
que confessassem que sentiam a necessidade de gritar, e que na falta de
melhor cousa, aquellas palavras serviam perfeitamente para tudo:
enthusiasmavam, animavam o tumulto, e de mais apregoavam que eram muitos
bons patriotas. Os vivas eram ao Mestre; os morras aos scismaticos:
levar a mal aquella berraria, ninguem podia levar.

Do lado opposto a algazarra era a mesma, com pequenas variantes.

Os conductores de gado e os guardas embrulhados pela chusma no tratavam
j seno de se deslimdarem della, e de acudir aos rebanhos.

Alguns amotinados tinham, para desembaraar o terreiro, conduzido a
maior parte do gado grado para as azenhas: ovelhas e cabras, essas
corriam em todas as direces. Para cumulo da confuso, quando Pedro
Choca e os seus companheiros persuadiam o povo a que se dirigissem ao
pao episcopal ou  casa do municipio, dous touros, enfurecidos ou
assustados pelo ruido e negaas d'alguns garotos, tinham aberto caminho
para o lado da Esnoga, derribando e maltractando algumas creanas e
mulheres. A culpa do desastre era dos amotinados; mas todos elles  uma
tinham procurado origem mais remota, e lanaram aos vereadores e bons
homens que tinham ordenado a remessa dos mantimentos. Um velhaco
lembrara-se de juntar aos morras da ordem um aos alvazires, que
queriam matar o povo  fome e entre multido, mesteiraes, que horas
antes teriam dado a sua ultima pogea, se para sua senhoria lh'a
pedissem, repetiram aquelle grito.

Uma voz ampliou-o:

--Morram os traidores, que querem dar cabo da arraia miuda para entregar
a cidade aos de Castella!

--Morram os traidores! uivou a chusma.

E apparecia j o alvitre de se ir em procura de alguns alvazires, e at
mesmo de os tractarem como ao arrabi-menor, quando dois daquelles
appareceram no terrao do arco de S. Domingos. Ruy Pereira, que vira
rebentar o alvoroo, mandara-os chamar e a alguns bons homens para que
socegassem os animos como podessem. O tio de Nuno Alvares, a principio
tivera, ao ouvir o arruido, vontade de baixar ao terreiro e cortar
naquella villanagem, que de cabea to levantada, insolente e turbulenta
trazia o Deffensor; mas, apenas mandara sellar o seu cavallo, a reflexo
lembrou-lhe a inconveniencia de um tal passo, e a reminiscencia poz-lhe
diante dos olhos os tumultos de Lisboa e Evora e tantas outras terras do
reino. O mensageiro do mestre, contentou-se, pois, em desabafar em
pragas, em dar duas grandes punhadas sobre a mesa, e desappareceu pelo
lado da cerca do convento onde pousava, para no se ver obrigado a
aturar o bom povo, deixando as authoridades municipaes em apuros. No
eram fortes em rhetorica os bons homens, e a pouca que lhes concedera a
natureza fugira assustada.

Os velhacos, dando por elles saudaram-nos com uma ladainha de apdos que
faria pasmar ao leitor pela quantidade e pelo desusado.

A arraia do terreiro tinha grande vantagem sobre os burguezes do arco:
para o attaque bastavam palavras soltas, ou mesmo gritos inarticulados;
para a defesa, para satisfazer as exigencias de Ruy Pereira, era
necessario um discurso, pequeno ou grande, mas um discurso.

Os alvazires e mais cidados que os acompanhavam, depois de se empuxarem
e acotovellarem uns aos outros, por bom espao de tempo, tinham
resolvido, ou antes forado o mais bojudo e o mais endinheirado d'entre
elles a tomar a palavra, e o nosso homem depois de um gesto bastante
solemne feito ao bom povo; depois de tossir e escarrar, como o faria, ao
encetar um sermo, o frade mais sabedor do convento de a pr, balbucira
uma ou duas duzias de palavras.  de crr que fossem boccados de ouro;
mas asseverl-o ninguem, a no serem os collegas, o poderia fazer, pois,
quasi nada perceberam no terreiro os que lhe quizeram prestar atteno.
Uma grande parte no lh'a dava, e continuava a formular as suas queixas
ou accusaes.

--Querem dar cabo do povo, e entregar a cidade aos de Castella!

--Morram os traidores!

--Morram os scismaticos.

--Amigos, tornou o alvazir levantando a voz, logo que a tempestade
popular serenou mais; o Mestre nosso regedor e defensor se encomendou s
vossas boas lealdades, e vos mandou dizer que, como este reino andava
todo revolto com desvairadas tenes...

--E bem desvairadas so as que tendes! exclamou cortando a palavra ao
orador, um amotinado, pouco reverente para com o plagio da mensagem de
Ruy Pereira, de que em apuros aquelle se valera.

O pobre homem, olhou em torno de si espantado; limpou o suor, que lhe
corria em bagas pela fronte; tossiu de novo; poz a mo no peito para
tomar um ar mais solemne, e comeou novo aranzel:

--Todos vs sabeis que esta cidade levantou voz pelo Mestre...

--Viva o Mestre! Alcacere por sua senhoria! gritou a chusma...

--Todos vs sabeis, repetiu o alvazir, que esta cidade deu voz pelo
Mestre, que jurou defender-nos e amparar-nos, e tambem sabeis que el-rei
de Castella veio sobre Lisboa com toda a sua gente...

--Morram os castelhanos! gritaram do terreiro.

O illustre orador, como hoje lhe chamariam, se ele vivesse, as gazetas,
orgos ou respiradouros do partido em que se tivesse lanado; o illustre
orador, vendo que no havia com tal gente meio de atar duas phrases sem
uma interrupo, tratou, j desesperado, de resumir o seu discurso:

--O regedor mandou pedir a esta boa cidade que lhe enviassem todas as
gals e barcos que fosse possivel armar e equipar, e bem assim
mantimentos e dinheiros, os quaes--ajuntou o bom do alvazir, como se
entre os amotinados houvesse alguem que com tal se importasse--como
filho de el-rei que , por toda a sua verdade jurou pagar muito bem...

--E ressuscita os que tiverem morrido  fome? perguntou um velhaco, que
subira acima de um poial, arrimado ao arco, e de braos cruzados, com
gesto zombeteiro encarava o orador.

--Morram os traidores!

--O regedor no quer que matem o povo!

--Viva o Mestre!

--Fora os alvazires, gritou Pedro Choca.

--Fora, fora! vozearam d'entre a multido.

O orador tornou a limpar o suor, que se tornava copioso e frio cada vez
mais, e ainda tentou proseguir; mas a sua m estrella quiz que ao
examinar o seu auditorio dsse de novo com os olhos no velhaco do poial.
O maldito riu-se, e fez-lhe um esgar; e risada e esgar seccaram-lhe
completamente a prosa na garganta. O bojudo cidado bateu com a lingua
nos dentes, soltou dous ou tres sons, estendeu os braos, e meneou-os,
como se pertencesse  seita dos mestres pedreiros que, pouco havia,
tinham concluido os muros da cidade, ou quizesse nadar em secco; mas nem
uma palavra mais conseguiu formular, nem com todos aquelles tregeitos
exprimir uma ideia.

A atrapalhao do orador deu incremento ao alvoroo, e os bons-homens
que tentaram substituir aquelle na tribuna, no conseguiram um momento
de atteno. Era este o estado das cousas, quando Gonalo Domingues e
Fernando, appareceram no terreiro, vindos do lado do Palmeirim. Mestre
Gonalo e o compadre, que j encontramos no campo do Olival, tinham sido
os encarregados de arranjar o gado, e portanto a sua appario trouxe
quellas cabeas  desorientadas a ideia de que uma boa parte da culpa
dos males que receiavam, delles provinham. O acolhimento foi pois o
menos amavel possivel. As relaes de mestre Gonalo com o judeu Moyses,
em quem o povo j fizera justia a seu modo, foi a primeira pecha que
lembrou a alguns dos amotinados, e mal lhes lembrou, logo foi lanada em
rosto. A chusma fez cro, como fazia a todas as lembranas, e o bom
burguez ficou perplexo: fez-se vermelho e fez-se amarello quasi ao mesmo
tempo, e o caso no era para menos. Quem no respeitava nem bispos, nem
abbadessas, no era muito que desacatasse um forureiro, por mais
endinheirado que fosse. No era mesmo naquellas circumstancias o
dinheiro carta de seguro; bem pelo contrario: era mais uma razo para
temores.

Gonalo Domingues, impallidecendo, agarrou-se ao brao do sobrinho e
quiz retroceder; mas a rectaguarda estava-lhe j cortada, e entre
ameaas foi levado pela multido at junto do paiol, onde se empoleirra
o vadio que seccra a eloquencia ao orador do arco. Fernando tomado de
assombro seguiu o tio. O sangue do mancebo, porm, no era o do velho, e
a vozearia, os insultos bem depressa o fizeram ferver. O primeiro
impulso do namorado de Irene, recuperada a exaltao que o dominava
desde o recontro de Lea, e levado por assomos de cholera foi o de se
lanar contra os amotinados. Desembaraando-se das mos de seu tio,
atirou-se a um mesteiral, que junto do rosto daquelle erguera o punho
cerrado, e ia ser victima talvez dos seus brios, quando dous braos
musculosos seguraram o seu antagonista, e uma voz, que devia ser
conhecida de alguns dos que se mostravam mais enfurecidos contra mestre
Gonalo, exclamou:

--Ter mo rapazes!

Pedro Choca vira Fernando Vasques ameaado e correra em seu auxilio. O
velhaco, apesar de tudo, no deixava de ser um bom patriota, de ter o
seu enthusiasmo pelos defensores da arraia meuda. Conhecia Fernando do
assalto ao bailiado, e o denodo do mancebo fizera com que elle o tivesse
na conta de um heroe, contra o qual no levantra mo, nem consentira
que se levantasse por todo o dinheiro que lhe dessem.

As suggestes e os tornezes do capello de Ayres Gonalves, e mesmo o
prazer de fazer arruido no eram as unicas causas que o tinham feito
estafar os pulmes; frei Garcia gastra tempo e algumas malgas de vinho
para o convencer de que entre os alvazires havia partidarios de
Castella, que tinham tido o negregado pensamento de se vingarem do povo,
por meio da fome, fingindo que serviam ao mestre. Que Fernando pactuasse
com traidores no acreditava porm, o velhaco, e por isso repetiu com ar
ameaador, vendo que alguns animos ainda se mostravam hostis ao mancebo:

--Que ninguem lhe toque em um cabello da cabea, seno commigo tem de se
haver!

--A traidor, como a traidores! gritou o mesteiral, querendo
desembaraar-se da priso em que estava.

--Traidor, quem tomou uma bandeira aos gallegos, quem eu vi atirar-se a
esses perros como se os virotes fossem palheiras?!

--Se no  traidor,  por elles, que vale o mesmo. Que tem elle com esse
forureiro de m morte!

--Que enriqueceu furtando ao peso.

--E mais sabe Deus se era cabrito ou co o que dantes vendia!

--E agora comprou o gado todo, para nos deixar  fome!

--Mentis! exclamou Fernando, respondendo a estes capitulos de accusao;
mentis!

--Ahi o tendes! ponde a mo no fogo por elle! resmungou um dos vadios,
dirigindo-se a Pedro Choca.

--Se to bom  um como o outro! ajuntou uma mulher. O rapazelho  filho,
ou cousa que o valha do forureiro.

Pedro Choca coou a cabea, e olhou para Fernando com ar indeciso, mas
logo formulou este raciocinio:

--O mancebo era incapaz de pactuar com os inimigos do Defensor, e
protegia Gonalo Domingues logo a no quadrava tambem o appellido de
traidor.

--Se  pae do meu homemsinho  outro caso, exclamou em seguida,
voltando-se para os circumstantes. Deve ser dos nossos.

Gonalo Domingues, vendo que alguem mais de que o sobrinho vinham em seu
auxilio, tartamudeou.

--Domingues Pires ou Affonso Eannes, se aqui estivessem vol-o diriam!

--Que resmunga elle?

--Acoberta-se com o trato que tem com Domingues Pires?

--Sim, sim; mas tambem era dos amigos do perro Moyses! se ouviu dentre a
multido.

A arraia meuda, como se baptisra o povo naquella quadra, tresvairada,
estreitra o circulo formado  volta do burguez e as suas intenes
pareciam ser bem pouco pacificas, quando Fernando, saltou acima do
poial, abandonado pelo companheiro de Pedro Choca. A vis oratoria,
molestia que se d em quadras revoltas como sezes em terrenos
alagadios, acommettera tambem o namorado de Irene. O rapaz emprehendia
tarefa espinhosa, como os respeitaveis edis o podiam attestar,
commettia, pode-se avanar uma loucura; mas  sabido que neste mundo por
vezes as loucuras aproveitam mais do que as cousas pensadas. Fernando
tivera uma idea, que vos far rir talvez leitor, e que podia ter entre
os amotinados o mesmo, ou peior acolhimento; porem que foi agua em
fervura, como diz o povo. Fora uma idea feliz, uma idea luminosa a do
mancebo.

--Metteram-vos em cabea que vos queriam matar  fome... porque se
embarca alguma carne na esquadra! exclamou elle: mas no se lembrou
ninguem de que todos os miudos c ficam.

-- verdade?! acudiu com outros Pedro Choca, que desfazia agora, por
causa do seu heroe, a obra para que concorrera;  verdade!

--E depois? interrogou um mesteiral, embasbacado.

--E depois com tanta forura, com tanta miudagem de todo esse gado no
se morre  fome.

--E a carne no  cousa que engasge a arraia muita vez no anno! observou
o vadio.

--Demais, proseguiu o mancebo, aos corredores gallegos ns os
ensinaremos, e haver ahi mantimentos de sobra. Para dez scismaticos
basta um portuguez. A gente que foi a Lea e Santo Thyrso est ahi, e
antes da chegada das gals os do Porto esperaram a p quedo os do
arcebispo, sem que elles se atrevessem a vir s mos comnosco. Deixai ir
as gals...

--Quem as quita? exclamou um mesteiral, a quem aquellas palavras tinham
inflamado o orgulho patrio. Se os de Lisboa carecem de ns, ns no
carecemos delles. No nos atraioem os de casa...

--De casa... aqui neste boa cidade no ha traidores, atalhou o namorado
de Irene; aqui, ninguem pe o seu brao em almoeda: as lanas e ascumas
dos populares no teem preo!

--Como certas espadas.

O mancebo apesar das interrupes, de approvao agora, no se calou.
Surprehendendo, como vimos, os amotinados com a primeira lembrana que
tivera, lanando por instincto mo dos argumentos melhores em taes
circumstancias, proseguiu appellando para os brios do povo, appellando
com a convico de ser attendido, e o rumor levantado pouco a pouco em
torno de si provar-lhe-hia, se a isso dsse atteno, se elle mesmo no
se enthusiasmasse com as suas palavras, que seno havia enganado. Quando
terminou o descontentamento da arraia, estava convertido em abnegao
civica, em enthusiasmo patriotico. O povo tem, como o oceano, destas
mudanas repentinas. Pedro Choca, cuja bossa decididamente era a de
vivorio, encarregou-se de dar expanso aos sentimentos que o agitavam.

--Viva Fernando Vaz! que... gritou elle; mas no pde proseguir, porque
o distrahiu e engasgou uma pancada em um hombro e uma voz zombeteira,
que lhe dizia ao ouvido:

--Assim  que sua merc trabalha nas tercenas?

O impulso estava porm dado, e Choca, desapparecendo, pois bem
reconhecera pela amabilidade da pancada e da voz a presena do pae dos
velhacos, deixava de novo o rico forureiro em suores nos apertos da
ovao do sobrinho. O nome de Fernando Vasques era bastante popular
desde o recontro de Lea... pelo que demonstravam os successos, mais do
que a pessoa.

Quando Pedro se eclypsava com os seus companheiros, os acontiados do
municipio, ha pouco apupados, arrebanhavam sem a menor opposio o gado
que se espalhra pelos campos das azenhas. Os planos de Ayres Gonalves
goravam completamente, graas sobretudo ao namorado de Irene. O rapaz,
tivera, repetimos, uma ideia feliz, e soubera tocar no fraco dos
amotinados melhor do que os alvazires, que no convento ainda discutiam,
embaraados, a maneira de darem conta da sua misso. Falho o expediente
do alcaide de Gaya, as indecises dos seus nobres companheiros tinham de
ser cortadas pela emulao dos caudilhos.

Os portuenses davam o primeiro passo para obterem em chrisma uma alcunha
que tinha de durar seculos; mas a honra da cidade estava salva. O pae
dos velhacos capitaneava os vadios, que, juntos com os besteiros,
levavam o gado s tercenas, e os mesteiraes, que momentos antes to
descontentes se mostravam acompanhavam-nos, berrando:

--Viva o Mestre de Aviz! Viva a arraia meuda do Porto!


FIM




PREO 300 REIS.

LIVRARIA DE IGNACIO CORREA, _Rua de Bellomente, n.^o 65 e 66--Porto._


*Louzada.*

Rua Escura--1 vol.                          500
Na Consciencia--1 vol.                      500

*Camillo C. Branco*

Anathema, 2.^a edio                       500
Duas Epochas da vida, poesias--1 vol.       600
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Neta do Arcediago (A)--1 vol.               400
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Purgatorio e Paraizo, drama--1 vol.         300
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Scenas Contemporaneas, contendo a
Poesia e dinheiro drama, e outros--1
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Scenas da Foz--1 vol.                       500
Um homem de brios--1 vol.                   400
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A Cigana, drama--8.^o                       200
A Moura, drama--8.^o                        200
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*P. J. Conceio*

Mysterios do Porto.--2 vol.                 480
Amante e Irm--drama                        200


Lista de erros corrigidos

Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:


  +----------+---------------------+----------------------+
  |          |      Original       |      Correco       |
  +----------+---------------------+----------------------+
  |#pg.   11| presonagens         | personagens          |
  |#pg.   13| edificapes         | edificaes          |
  |#pg.   52| o insomnia          | a insomnia           |
  |#pg.   53| rebem               | recebem              |
  |#pg.   53| ingratido,;        | ingratido,          |
  |#pg.   68| ressaltar           | ressaltar            |
  |#pg.  103| desonvolver         | desenvolver          |
  |#pg.  263| gallegos?           | galegos!             |
  |#pg.  119| curiosidadade       | curiosidade          |
  |#pg.  121| embtuidos           | embutidos            |
  |#pg.  132| o ocorao          | o corao            |
  |#pg.  132| ?ibilar ?s pelouros | sibilar os pelouros  |
  |#pg.  139| Que ma?             | Que mal              |
  |#pg.  143| hemem               | homem                |
  |#pg.  144| principiosdo        | principios do        |
  |#pg.  144| prdor               | pudor                |
  |#pg.  144| id enticas          | identicas            |
  |#pg.  151| demonstaram         | demonstraram         |
  |#pg.  151| pobrecreatura       | pobre creatura       |
  +----------+---------------------+----------------------+





End of Project Gutenberg's Os tripeiros, by Antnio Jos Coelho Lousada

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     and discontinue all use of and all access to other copies of
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both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark.  Contact the
Foundation as set forth in Section 3 below.

1.F.

1.F.1.  Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
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or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.


Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
https://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at https://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit https://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including including checks, online payments and credit card
donations.  To donate, please visit: https://pglaf.org/donate


Section 5.  General Information About Project Gutenberg-tm electronic
works.

Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.


Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
unless a copyright notice is included.  Thus, we do not necessarily
keep eBooks in compliance with any particular paper edition.


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