Project Gutenberg's A Chave do Enigma, by Antnio Feliciano de Castilho

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Title: A Chave do Enigma

Author: Antnio Feliciano de Castilho

Release Date: April 15, 2010 [EBook #32002]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A CHAVE DO ENIGMA ***




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                          OBRAS COMPLETAS

                                DE

                   ANTONIO FELICIANO DE CASTILHO

                             VOLUME 2.




VOLUMES PUBLICADOS:

I--Amor e melancolia.

II--A chave do enigma.

NO PRLO:

III--Cartas de Ecco e Narciso.



[Ilustrao]

CASTILHO

AOS CINCOENTA E NOVE ANNOS

(Reproduco de uma litographia feita em Paris por Desmaisons sobre
photographia feita em Lisboa por Nasi)



                   OBRAS COMPLETAS DE A. F. DE CASTILHO

        Revistas, annotadas, e prefaciadas por um de seus filhos

                                     2.

                             A CHAVE DO ENIGMA

                                NOVA  EDIO


                                   LISBOA
                       Empreza da Historia de Portugal
                             _Sociedade editora_
                              LIVRARIA  MODERNA
                               _R. Augusta 95_
                                 TYPOGRAPHIA
                             _45, R.  Ivens, 47_
                                    1903




ADVERTENCIA ESPECIAL  CHAVE DO ENIGMA


Quando sahiu em 1862 a nova edio do _Amor e melancolia_, entendeu o
poeta enriquecel-a com o precioso appenso que intitulou _A chave do
enigma_.

N'essas paginas de brilhante prosa explicou s legitimas curiosidades do
publico portuguez os seus amores com a incognita recolhida do mosteiro
de Vairo. Precedeu a narrativa d'esse caso com a historia da meninice,
illustrando as suas formosas paginas com esboos de retratos de familia:
sua Me, seu Pae, seu irmo querido, e outros, que servem de documentos
autobiographicos, entre descripes de sitios, e ricas digresses sobre
variados assumptos.

A incognita de Vairo era a senhora D. Maria Isabel de Bana Coimbra
Portugal, com quem o poeta ajustou casamento, sem ainda se conhecerem
pessoalmente, e com quem veio a casar na egreja do mosteiro a 29 de
Novembro de 1834; filha de Francisco da Silva Coimbra de Carvalho, e de
D. Maria Fortunata Agostinha de Portugal.

Algumas rapidas annotaes iro acompanhando o texto; no mais deixemos
falar o poeta. Melhor que ninguem nos saber iniciar nos segredos da sua
vida, que n'este livro decorre desde 1800 at 1837; isto : desde o
bero d'elle at  campa da sua virtuosa e digna primeira mulher,
inspiradora, companheira, confidente, e amiga.

So paginas de saudade, em que elle a retrata, e se retrata a si.

                                                             OS EDITORES.




_quella que j no sente, pendura com mo tremula n'um ramo do seu
cipreste esta pequena cora_

                                                        _O Autor._




A CHAVE DO ENIGMA


                                                        Dezembro de 1861

Digam embora que me biographei; vou escrever uma pagina da minha vida.

Se mais ninguem a lr, ll-a-ho os meus amigos. Ella tambem, rma de
interesses grandes, desenfeitada de estilo, e s attendivel, se o fr,
por verdade e affecto, aspira unicamente a captivar a atteno dos
poucos para quem um murmurio de folhas n'um retiro de estio, e de vez em
quando uns gorgeios ou pios de duas aves que se entrereclamam
emboscadas, supprem conversaes, leituras, e at pensar.

Emfim, se nem para os meus intimos valer o que eu tenho de bosquejar,
muito saudoso de tempos que l vo, ficar sendo s para mim, e para
quem m'o inspirou; ah! quem m'o inspirou j m'o no pde lr, mas por
ventura o ouve. Ser um devaneio, e um solilquio; ser uma folha
slta de uma deliciosa arvore longinqua, hospedeira minha ha muitos
dias; folha que uma virao despegou, volveu nos ares, me atirou 
fronte, e me lanou aos ps, para ahi fenecer esquecida.

No vale a pena de mais prologo. Nem tanto me est parecendo agora que
fosse necessario.


I

Antes de tudo, releva conhecer o individuo. No  empenho muito facil;
mas tentemos.

Levanta-se logo a primeira difficuldade d'este capitulo na averiguao
da identidade:

Reflicta cada um comsigo mesmo n'este grave ponto: a repetio de nome,
a similhana das feies, a conservao, com mais ou menos mudanas, da
indole primitiva, dos gostos, e das relaes activas e passivas com as
pessoas e coisas do mundo externo, bastaro para que, em boa
philosophia, um homem qualquer se repute unidade consoante, e unico
indestructivel no meio da metamorphose universal? Embaraoso problema!

O espirito immaterial e immorredoiro quer, por instincto, por egoismo,
por f, acredital-o; mas o estudo da Natureza, e a propria experiencia
quotidiana, desmentem em boa parte essa presumpo.

O individuo no  s a alma; o corpo que a reveste, a serve, e tantas
vezes a domina,  mais que sujeito a continuas e espantosas variaes;
renova-se incessantemente, perecendo e renascendo a cada instante; a sua
carne de hoje era ainda hontem vegetaes, ruminantes, aves, peixes, agua
nas fontes, gazes na atmosphera, calorico no sol, terra debaixo dos ps,
e electricidade sabe Deus por onde; congregaram-se essas myriadas de
particulas... existiu; manhan partiro, todas ellas destacadas para
novas combinaes e destinos, sem que o espirito lhes haja sentido a
fuga, porque outras particulas, accorridas do universo, tero vindo
rendel-as sem estrondo nem abalo.

N'este sentido cada individuo  simultaneamente filho, irmo, e pae,
influidor e influido, conservador, destruidor, modificador, herdeiro,
usufructuario, e testador, de quantos entes sensitivos, vegetativos,
inorganicos, imperceptiveis, imponderaveis, so, como elle, parcellas
componentes do planeta em que elle se proclama senhor e potentado.

Mas se esta desidentificao incessante do corpo escapa s nossas
percepes, por no apresentar de hora para hora mudanas apreciaveis no
ser, no sentir, e no pensar, j assim no  quando nos outros, e em ns
mesmos, confrontmos a infancia com a puericia, a puericia com a
adolescencia, a adolescencia com a virilidade, a virilidade com a
velhice, a velhice com a decrepidez; ou, supprimindo os graus
intermedios para maior evidencia, a caducidade com a madureza, a
madureza com o desabrochar no bero.

Que ha ahi de commum?!

Unicamente o nome, accidente impessoal, insignificativo, nullo.

O corpo  manifestamente diversissimo, e em tudo outro; e com o corpo
outro e to diverso, outras e diversas egualmente so as faculdades
intimas, outro e diverso o sentir, o querer, o recordar, o ambicionar.

No so pocas de uma vida; so vidas verdadeiramente distinctas, talvez
contrarias, que se encadeiaram por um trabalho simultaneo e occulto da
Natureza e da fortuna, dos successos e de ns mesmos.

 por isso que o louvor ou vituperio, a recompensa ou o castigo,
conferidos tarde, conteem sempre mais ou menos, uma injustia
distributiva; e talvez duas: preteriram aquelle que fez, e j no
existe, e vo-se dar ao que existe mas no fez. Que de vezes se no
haver suppliciado um justo pelo malfeitor que annos atraz o precedra,
e nada mais lhe legra que o seu nome e umas parecenas no semblante!

A solidariedade do homem comsigo, em remotos prasos da existencia, 
pois to infundada, como a de um individuo com outros, com quem nenhuns
vinculos o prendem, e que operam, independente cada um na sua esphera,
como elle na sua propria.

D'aqui vem que, sendo altamente suspeita de romance toda e qualquer
historia que se escreva de um personagem, ou de um povo (s vezes
remotissimos em logar e tempo), sobre tudo quando o narrador pretenda
assignar como causas aos successos o que se passou sem testemunha em tal
ou tal corao, em tal ou tal espirito, pouco menos se eximir de
similhantes suspeies a noticia que o homem mais sincero pretenda
transmittir-nos de si mesmo. Escreve o seu preterito--diro os
benevolos; mas escrever o seu preterito no  escrever j de outrem?

Demais: quantas perplexidades! quantas conjecturas temerarias!
quantas supposies de boa f, mas erroneas, quando ao claro
interrupto de reminiscencias enfraquecidas pretender levantar do p as
flres, e os espinhos que n'elle se converteram, reedificar edificios,
sobre os quaes se levantaram edificios novos, insuflar vida a sombras,
resuscitar o corao de outr'ora, e achar a harpa interior com todas as
suas cordas e a mesmissima afinao!

So estas, para quem bem o pensar, umas difficuldades, e tambem uns
desenganos, e umas tristezas muito grandes. Nunca to claro o senti,
como ao reler agora este pobre livro. Forcejarei todavia por trazer 
vossa intimidade, meus amigos, o autor d'elle, se ainda me fr possivel,
depois de to apartados um do outro.

Um bem que ha n'esta desidentificao, n'este apartamento dos dois
_eus_,  que, se algum bem me fr necessario dizer do que foi, j ao que
 se no poder carregar em conta de vaidade.


II

Presupposto, como bem  de razo, que a Providencia fada para um destino
especial a cada um dos que vimos a este mundo, para que nasceria
eleito, ou precito, um menino que ha hoje sessenta e um annos
desabrochava em plena luz, e recebia um nome que havia de ser meu? Cuido
no me enganar muito affirmando, que simples e exclusivamente para haver
ahi l para o diante mais um cantor de affectos.

Que aproveita ao Pae da Natureza que haja mais um amante, mais um
cantor? Nada sem duvida, pois l tem em roda de si, para o amarem e
cantarem, os seus Anjos; mas no seu systema de harmonias, entraram
tambem os gorgeios dos passaros c em baixo, musica das florestas e do
oceano, a voz suavissima da mulher, e os canticos do poeta.

Assim como nem tudo na terra so seras e frutos, nem tudo na humanidade
lhe prouve a Elle que fosse laborioso e productivo no sentido grosseiro
e restricto da palavra, como presumem economistas.

Emquanto o cavallo peleja, o boi lavra, a ovelha elabora o leite e a
lan, um insecto o mel, outro a seda, plantas a saude, minas os metaes,
ha boninas que s alegram e perfumam; ha murmurios no ar, e vises
coloridas no ceo, que s recreiam: ha pedrarias scintillantes, que s
adornam; ha balsamos, que s rescendem; ha o rouxinol para idealisar os
mysterios da noite; ha no eremita a orao muda que se exhala para as
alturas como aroma; ha na alma que sonha, miragens estereis, mas
voluptuosas; e ha, no sonhar perenne do poeta, com que pague de sobra a
seus irmos as poucas espigas que rebusca das ceifas, os quatro palmos
de solo em que se alberga, a agua da fonte commum em que se dessedenta,
e o ar de que aspira reclinado o seu quinho, para o exhalar convertido
em melodias.

Fadada vinha pois, segundo cuido, aquella creana s para poeta, e poeta
unicamente de branduras. Para a realisao do horscopo se entendeu a
Fortuna com a Natureza, como para o diante vim a reconhecer, quando,
passadas as angustias da preparao, que assaz foram desabridas, e
porventura inslitas, pude, chegado ao alto, abranger com um relance
todos os pontos percorridos, vel-os, por effeito da distancia,
aproximados, e descobrir-lhes ento finalmente o systema e a harmonia.


III

Foi a infancia do innocente, que eu ainda me recordo bem de ter
conhecido, rosada, doirada, chilreada, alegrissima, como quasi todas as
auroras. Mas os penates do seu bero haviam sido na cidade; e os
passaros cantores no se criam e educam bem seno pelas amenidades
tranquillas e scismadoras desses campos.

A ser verdade que a sciencia, com a imposio das suas mos escrutadoras
sobre uma cabea, pode prognosticar o que a organisao interior contem
de germes intellectuaes e moraes, capazes de grande produco, se as
circumstancias lhes favorecem o desenvolvimento, parece-me que, desde
que essa previdente fada humana,--a sciencia--annunciasse uma indole
poetica, a sociedade mesma deveria tomar  sua conta essa nova indole
privilegiada; e a fim de a pr no mais seguro caminho para os seus
destinos, fazel-a crear, o mais que possivel fosse, no seio da Natureza,
sobre a terra larga que produz, ri, e canta, e debaixo do ceo que
inspira, brilha, enamora, e enleva.

As foras do camponez, as graas de saude da camponeza, envergonham os
enxames de frivolos e ephemeros dos grandes focos de populao, E
porqu? A causa no deve ser outra seno, que das barreiras a fra,
longe do alcance do immenso carcere, se vive mais conchegado com a
Natureza, mais debaixo da Mo invisivel, mas tepida e suave, do Creador.

Tudo na cidade  artificial (e de quo ruim e desentoada
artificialidade as mais das vezes!). So prosaicas as occupaes;
prosaicos e arriscados os projectos e os desejos; apertadas, escuras,
doentias, as vivendas; tolhidos os trajos; acanhadas as perspectivas. Se
se escuta uma ave,  mais a queixar-se do captiveiro em que definha, do
que a chamar pela companheira, que no tem, para fabricar bero a
filhos, que nunca ha-de ter. Se se v uma planta, uma d'estas mudas
filhas de Deus que tanto sabem e dizem, to bem florescem e medram na
sua pacifica republica,  enfzada e triste na priso de um vaso,
debruada para uma encruzilhada immunda l em baixo, ou alando-se
n'um saguo  espreita do sol quando elle atravessar fugindo l por cima
pela estreita fita do co, do co immenso em toda a parte, e aqui s aos
retalhos e sumiticamente repartido, Que  da virao balsamica por
estas ruas? Que  da madrugada com os seus descantes? o meio dia com
os seus guardases verdes e movedios de trinta braas? o crepusculo
com as suas despedidas saudosas? a noite com a sua orchestra suave to
grata ao amor, e com que se do to bem os somnos, os sonhos, as
vigilias? Tudo isto, e infinitamente mais, tudo quanto era Natureza,
desterrou-o a mo do homem quando desarraigou as arvores para plantar os
seus estirados colmeiaes de pedra; desterrou as relvas, e as seras,
para assentar as praas; calou as ruas, que no despontasse olhinho
verde; multiplicou as fabricas, o commercio, o estrondo, para que os
harmoniosos filhos do ar s muito por alto, e fugindo, se aventurassem a
atravessar to desmedida e nevoenta cratra de prosa, de cuidados, de
fadigas, e de desgostos.

Longe de mim negar puerilmente s cidades suas vantagens sociaes; digo
s que para a poesia se no fizeram ellas, e que, se n'essa frgoa algum
engenho poetico resiste, se ahi canta, nunca ha-de ser tanto, nem to
bom, nem to innocente, nem to perfumado, como seria sem duvida nos
campos; e apostaria eu uma hora de vida aldean, e at casaleira, contra
dez annos bem medidos de um vegetar em crte (apostaria e ganhava), que
tudo quanto mais deliciosamente cantaram poetas em cidades, se elles
nol-o quizessem ou soubessem declarar, das suas reminiscencias ruraes,
porventura remotas e meio apagadas, lhes proveio.

De Virgilio s tiraria eu provas sobejas, irrefragaveis, se para coisa
to intuitiva fssem ellas necessarias. Aquelle Virgilio, que florescia
em Roma para coroar de gloria Cesares e deuses, tinha as mais vivazes
raizes do seu genio, to suavemente melancolico, longe e bem longe, onde
ninguem lh'as enxergava: pelos cmoros, de murtas da aldeia de Andes,
pelas margens do Mincio ciciadas de cannaviaes.

Redescendmos de tamanho homem ao pequenino de quem iamos... historiar
no, que lhe no sabemos historia, mas simplesmente conversar.


IV

Importava que lhe chegasse com cedo a iniciao campestre. Com as
impresses iniciaes se cunha a feio caracteristica de muita alma, se
no fr de quasi todas. Bem estreado aquelle, a quem as primeiras ideias
do mundo exterior, puras e amoraveis, advieram afinadas pelo instrumento
que a Providencia lhe armra dentro. Isso ao menos teve elle em seu favor.

Uma queda, que por pouco lhe no destruiu a vida logo no comeo, foi
seguida de resultados assustadores: pallido, descarnado, abatido,
pareceu que poucos passos mediria do bero  sepultura. Uma noite acorda
suffocado; golfa sangue em torrentes; sobresalta-se a casa; acredita-se
que j no tornar a amanhecer-lhe; acodem os medicos; resolve-se como
ultimo e unico regresso fuga precipitada para o campo.

Ao rasgar do dia j transpunha as portas da Capital, reclinado no regao
materno, rodando a carruagem to vagarosa e precatada, que facil se
adivinhava ir depositaria de uma existencia que ao minimo abalo se
esvahiria.

Tanta coisa proxima e de vulto se me tem desluzido da lembrana, e ainda
aquella noite angustiosa, e aquella manhan suavissima, aquella morte
pranteada, e aquella resurreio de alleluia atravez de fragrancias,
sombras verdes bordadas de oiro pelo sol, e emboras dos passarinhos, me
esto impressionando como presentes. No sei, nem ha j quem me diga, a
quantos, nem em que mez, nem em que anno, fra aquillo; o que sei  que
todas as copas esto folhudas, e muitas floridas; que tudo quanto vem
vindo para ns por um e outro lado do caminho ri contente, como em
domingo de festa: as casas de quinta com as suas varandas e vidraas
illuminadas do sol novo; bosques ociosos debruando a cabea por cima de
um muro amarello para nos espreitarem; a porta vermelha entreaberta de
uma horta viosissima; aqui piteiras esguias e silvas recortadas nos
cmoros; adiante estatuas, e vasos de marmore lavrados; um oiteiro com o
seu rebanho a fluctuar, e l no cimo um moinho bracejando e cantando
no trabalho, emquanto o dono  janellinha escuta ocioso a virao de
Deus que lhe est chovendo po l dentro.

Notava eu, em meio d'este paraizo, lagrimas nos olhos de minha me, e
no as comprehendia; deviam ser de commoo.

Minha me tinha alma poetica; (l corao poetico todas as mes o teem).
Se a tivessem apparelhado com educao e instruco apropriadas, poderia
ter escripto deliciosamente; florejou sem cultura, e sem saber que
florejava. Nos festins de familia, quando a saude dos seus, a presena
de quantos lhe eram caros, e a prosperidade da casa, a exaltavam,
improvisava versos faceis e melodiosos, em que scintillavam faiscas de
talento, e certa graa natural; pareciam aquelles uns meros reflexos
involuntarios do seu contentamento intimo; e eram; mas o contentamento
intimo s tem resplendores taes n'um espirito de eleio.

Meu pae, a quem a severidade da sciencia e a supremacia da razo no
deixavam logar para ser poeta, que no tinha sequer nascido com a
organisao propria para isso, mas que, pelo complexo de outras suas
qualidades eminentes, era uma das pessoas mais proprias que eu nunca vi
para reconhecer, aquilatar, criticar, e dirigir poetas; meu pae,
costumava repetir que, se minha me no tivera sido obrigada a repartir
todas as suas horas pelas occupaes domesticas, e toda a sua poesia
nativa pela educao dos filhos, se fsse uma cenobita, por exemplo, com
poucos livros, muito remanso, e a Natureza, por certo deixaria de si boa
memoria para entre as escriptoras portuguezas.

Deviam ser logo aquellas preciosas lagrimas, com que minha me me
rebaptisava renascido, menos causadas do manso alvoroo festival de
terra e co em primavera, que da lucta em que lhe iam, no corao, o
temor e a esperana.

A immensa viagem, que no passou de uma legua, deveu lanar-me no
espirito delicado e absorvente, os primeiros germes dos meus, j agora
indestructiveis, amores, para com as lindezas do universo.


V

Conheceis, para alm do arvoredo do Campo Grande, no retirado sitio do
Pao do Lumiar, aquelle edificio, nobre sem fausto, que faz frente ao
pequeno Largo do Poo, e que talvez communicou  povoao o seu nome
aristocratico? Eis ahi o termo da piedosa peregrinao de minha me; eis
ahi onde a reflorescencia me aguardava, e com ella novas e abundantes
sensaes, das que a minha indole ia absorver com avidez, e assimilar,
para fructificar alguma poesia em vindo a quadra.

Recebeu-nos com alvoroo, e com affecto patriarchal nos hospedou, a
familia, ainda nossa parenta, a quem a vivenda pertencia, familia ainda
mais ligada comnosco por laos de amisade, e de leal e no interrompida
convivencia. Compunha-se de me, uma filha entre doze e treze annos, e
seu irmo pouco mais idoso.

Amalia (era o nome da minha pequena prima) possuia, com o semblante mais
vivo e sympathico, a indole mais expansiva e carinhosa; os seus olhos,
cujo extraordinario brilho eu estou ainda admirando, eram dotados de um
magnetismo precoce;  tal, que at os de uma creancinha, como eu, se
pasciam n'elles com delicias; mas no era ainda assim nos olhos que
estava o seu maior feitio; a sua voz to suave, como nunca depois ouvi
outra alguma, sahia por uma bocca to singularmente pequenina, que
podra quasi quasi haver tentao de a extranhar  primeira vista, se
no parecesse, com o seu sorriso habitual, uma rosinha das mais
pudibundas a entreabrir-se; era um sculo perpetuo da innocencia.

Amalia, com a superioridade que lhe conferia sobre mim a differena dos
annos, quiz tomar-me desde logo maternalmente sob a sua proteco,
prohibindo-me, por interesse na minha saude, o participar dos brincos
tumultuosos, para os quaes seu irmo me provocava. Meu primo era j
ento militar por genio; a barretina empennachada, o boldri lustroso, a
espada de madeira, as dragonas, e a banda de official, com que a si
mesmo se despachra, faziam-n-o preferir aos passatempos
sedentarios, mais conformes aos gostos de sua irman, e  minha fraqueza,
o estrondo e o movimento.

D'ahi provinha que as mais das vezes, emquanto elle marchava a passo
dobrado ao som de um tambor imaginario, esgrimia contra uma estatua, ou
degolava alguma papoila trmula, Amalia e eu, pacificamente sentados
muito mo por mo a uma sombra do jardim, toucavamos de minhonetes e
amores-perfeitos as suas bonecas, emmolhavamos ramalhetinhos para nossas
mes, e interrompiamos a cada momento a esmerada tarefa, logo que uma
abelha doirada, uma borboleta branca ou azul, ou um pio de ave
escondida, como que por malicia, entre as folhas, vinham suscitar a
minha curiosidade, e accender-me exclamaes de maravilha e
contentamento. Minha prima gosava-se da minha alegria, e tinha
vaidositamente o ar de ser ella quem me estava fazendo as honras da
primavera.

Dissereis, se reparasseis, como eu, na complacencia com que ella
contemplava, ora o seu jardim to formoso, ora o seu priminho to
attento, que era uma poetisa desvanecida com o effeito do seu ultimo
poema n'um ouvinte encantadissimo; e que tudo aquillo que eu amava no
seu jardim, os arbustos enfeitados, os ninhos palreiros, os insectos
volteantes, as aguas harmoniosas, tudo ella tinha feito, ou pelo menos
aconselhado e pedido a um Anjo feiticeiro, feiticeiro como ella. Eu
quasi que assim o acreditava; se me tivessem dito que ao seu mando
podiam rebentar das pedras lyrios e rosas, ia pedir-lhe esse prodigio
como a coisa mais natural de todo o mundo.

Creio que nos amavamos; mais que no sentido da amisade; mais at que no
sentido do amor; no sentido do paraizo terreal, quando a humanidade
vinha despontando resplandecente de innocencia!

Amavamos de certo; posso affirmal-o pela viveza e saudade com que estou,
agora mesmo, sonhando tudo aquillo.

No sei se o corao me latejava; sei que me palpita agora com a maior
fora; sei que dera eu hoje o throno do Celeste Imperio, e todos os
thronos ao mundo, e at a gloria de Homero, e de, todos os poetas, pelo
revivimento para mim de tal primavera com todas suas circumstancias,
embora com a certeza de vir eu proprio a murchar, e destruir-me com a
sua ultima flr.


VI

Todos os ridentes allegorisadores da antiguidade falaram de um Cupido
filho de Venus, armado de fogo e settas, cruel e suave ao mesmo tempo,
incoercivel e fugitivo como os sonhos. Existe esse, no ha duvida; mas
ha outro amor, podra eu affirmar-lhes, que nasceu do casamento de uma
aucena com o zephyro; que mesmo suspirando est a rir; que sbe em
espiraes melodiosas para o ceo at se perder de vista, mas no foge;
reapparece, e redescende fiel s mesmas amenidades d'onde levantra o
vo. No fere, nem envenena; encanta. No accende fogo para deixar
cinzas; brilha na alma como sol. No se rodeia de aves de agoiro, nem de
sonhos temerosos. No desvela as noites, j com prazeres instantaneos,
j com delirios, e arrependimentos contumazes, mas se imbebe na
andorinha do beirado para nos acordar cada ante-manhan com as alegrias
puras que ella sabe. No cura de ciumes; quizera que todos amassem como
elle. No  um amor concentrado, exclusivo, incompleto, que s pe a
mira n'um objecto caduco;  outro amor profundo e infinito como a
Creao, com cujas maravilhas, maravilha elle proprio, se renova; a sua
venda, se a tem, no escurece;  toda de brilhantes diaphanos e
prismaticos, que redobram os prestigios do Universo.  o primogenito de
todos os amores, e o que a todos sobrevive.  o que serviram, adoraram,
e nos ensinaram a adorar, sem nome, todos os grandes poetas, desde
Orpheu at o _Thomaz dos passarinhos_.  o que a virgem mais ingenua
est sonhando voluptuosa, quando absorta suspira, e parece triste.  o
que  mente do religioso levanta escadas floridas para o Empyrio.  o
que annuncia, como boa nova, ao caduco, uma arregaada de saudades, um
choro, um gorgeio estivo, e prateados raios da lua para cima da cova.
, em summa, o que aos impotentes da infancia segreda tantas coisas
ineffaveis que os alvoroam, e de que o outro amor, em chegando, ha-de
receber porventura muita herana. Tal era a mysteriosa divindade que
presidia aos nossos passatempos, sem que eu ento a adivinhasse.

Amavamos pois decididamente.


VII

Vigiava-nos inquieta, suspeitosa, sollicita, a me de Amalia... No
riais: o seu corao materno tinha razo; um corao materno tem razo
sempre. No era um impossivel o que ella temia; apavorava-a um perigo
real; e quanto a ella, segundo todas as mostras, muito provavel, Que
perigo? o da communicao da minha doena a um ente a quem ella sentia
vinculada a sua existencia, e sem o qual, ainda que o quizesse, no
saberia j viver.

O sangue que eu perdra, a minha debilidade, todo o meu exterior,
induziam a crer que a enfermidade que trabalhava to activa por dentro
em me destruir, era.... nada menos que a tysica! mal ainda ento
rarissimo, com que hoje pela generalidade se vive familiarisado, mas do
qual no comeo d'este seculo nem quasi se ousava proferir o nome seno
em baixa voz.

A familia, em cujo seio despontava tal phenomeno, forcejava pelo
encobrir a todo o custo aos de fra, como um castigo divino e uma
ignominia; e abria ella mesma uma area de respeitoso terror, em cujo
centro languescia, soccorrida, mas desamparada, a pobre victima. A
roupa, os moveis, at a loia do seu servio, tinham marca, para que
ninguem lhes tocasse. O confessor, o medico, o amigo, os filhos, a
esposa, no chegavam ao alcance do seu halito; era o leproso; era quasi
o damnado aquelle triste esqueleto vivo, envolto na sua pelle livida e
ardente, e a quem, para luxo de desgraa, a Natureza subtilisava a vista
e o ouvido, conservando-lhe inteiras a memoria e a intelligencia at 
ultima. Emfim, logo que o espelho apresentado aos labios por um brao
estendido de longe, e tremente, testemunhava com o seu cristal no
empanado, que o ultimo bafo se esvaecera, ainda a terra o no tinha
recebido, quando j os seus vestidos, o seu leito, a sua cadeira de
martyrio, o livro das suas derradeiras oraes, tudo era entregue s
chammas, e as mais prolixas ceremonias de lustrao, tanto religiosas
como physicas, acudiam  poisada; acontecendo, muitas vezes, que nem
depois de picadas e renovadas as paredes, havia temerario que se
aventurasse a occupal-a.

Deus louvado, o tempo no tardou em mostrar, pelas mais irrefragaveis
provas, que a minha enfermidade, com toda a sua carranca de profunda e
fatal, era passageira, e que d'aquella frgoa poderia sahir, como de
feito sahiu, uma constituio vigorosa e duradoira.

Aos nossos amores, to bem correspondidos de parte a parte, nem sequer
faltou pois o estimulo de uma quasi prohibio, e o sainete de terem de se
andar recatando, sobresaltados ao minimo rumor, como verdadeiros
criminosos. Se no fosse a presena de minha me, e o affecto e delicadeza
com que sua prima a tratava, ter-nos-hiam, provavelmente, separado,
enclausurando na casa a amante, e deixando livres, mas desertos, para mim,
o jardim e a quinta, largo e formoso banho dos ares balsamicos, de que eu
ento sobre tudo necessitava. Quem havia de lucrar com isso era Joo, meu
primo; o que sua irman perdia, ganhava-o elle; era um namorado de menos, e
um soldado de mais para o seu regimento, em que at ento era elle s a
fora e o commando, o porta-bandeira e o tambor.

Havia muitas horas, entretanto, em que a me de Amalia, com a razo, ou
com o pretexto do estudo ou dos bordados de sua filha, a retinha no
gyneceu da casa; essas horas (bem o sabem todos os que amaram) deviam-me
parecer eternidades; para as abbreviar, ora ia sentar-me n'um banquinho
ao p do seu bastidor, enlevado em vr rebentar flres debaixo dos seus
dedos, e ouvindo os contos, que ainda hoje me lembram, da velha e gorda
cosinheira Escholastica; ora me detinha encostado ao grande porto de
grade de ferro no lado fronteiro do pateo, com os olhos pregados na
janella do quarto de lavor; feliz quando de traz da vidraa me alvorecia
a miude, saudando-me com um sorriso, aquella pequena rosa que eu
esperava, e que j de l como que me estava ensaiando os beijos que eu
d'ali a pouco havia de colher s escondidas no caramancho, especial
asylo, e o mais seguro, dos nossos furtos.


VIII

 uma grande pena que no saibam as creanas escrever, e no registem,
para depois as lerem, as suas memorias, e que a torrente caudalosa dos
successos ulteriores lh'as desgaste e confunda quasi todas; a sua
historia poderia ser muito mais gentil, muito mais elegante, muito mais
instructiva, que as historias e novellas de outras idades.

 mingoa de taes documentos, que bem preciosos me seriam agora, fui
hontem 19 de Dezembro d'este 1861 visitar, ao cabo de tantos annos,
logares to queridos, e evocar n'elles os phantasmas verdes dos arbustos
do meu tempo, o phantasma candido d'aquella que eu tantas vezes arraiei,
como gentil Maia,  custa d'elles, e o meu proprio phantasma pequenino,
alegre, bulioso, to puro, to amante, e diante do qual, como diante
d'ella, eu me ajoelharia, se o encontrasse. Palpitava devras ao
approximar-me, como sem falta deve acontecer a quem se acerca de um
logar de mysterios, ou a quem excava um solo, de que espera enthesoirar
reliquias santas da antiguidade. Parecia-me que o mal transparente veo,
que, tanto ha, me collocou o mundo n'uma penumbra, de repente se
levantaria por um milagre da vontade e do affecto, e que eu ia rever
tudo tal como o levava no corao e na saudade.

Ai ninho de tantas delicias! quem se atreveu a desfazer-te! De tudo
que ali havia, e que era tantissimo, quasi que s eu resto! No
importa: profanados, perdidos mesmo, esses logares conservam, indelevel
ainda para a minha alma, a sua primitiva sagrao. Tornarei a visital-os
na proxima primavera; talvez se me recordem ento do que hontem s
confusamente lhes lembrava; encontrarei porventura valverdes flordos,
rainunculos matizados, quinquagesimos descendentes, e mais, dos que to
suavemente brilhavam no meu tempo; e esses alguma coisa sabero
relatar-me de to antiga historia. O portico vioso, estrellado de
jasmins, que bordava de sombras graciosas o vestido branco de Amalia,
quando, abrigados ali n'um meio dia de vero, escutavamos as cigarras
emboscadas, ha-de por fora com a sua fragrancia falar-me d'ella, e
avivar-me no espirito um cardume de sensaes lyricas ineffaveis.

Por agora, que estou dictando a uma legua de distancia estas paginas,
talvez indifferentes a todo o mundo, e frias como a estao em que
nascem, que me acho diante de outras arvores nuas, que aguardam,
saudosas como eu, dias de festa, o mais que posso dizer  que a primeira
impresso photographica da bella Natureza, toda esplendida e de uma
admiravel nitidez, foi ali que a minha mente a recebeu. Um tal quadro,
que tinha de me ficar no sanctuario intimo para todo sempre inspirativo,
fecundo, milagroso, e contendo a synthese da galeria do Universo real e
imaginario, mal podra haver tido tal perpetuidade e tal virtude, se l
m'o no collocassem uma fada e um genio, uma mulher e um amor; mulher
recem-cahida das estrellas e ainda ignorante da sua destinao; amor
puro como o dos Anjos encarregados de enfeitar a Natureza, e que,
terminada a tarefa, dormitam entre os obeliscos que levantaram, e sonham
co.

Assim, ao mesmo tempo que as minhas foras medravam a olhos vistos de
dia para dia, e que os diversos receios das duas mes diminuiam de
manhan para manhan ao alegre florir do meu aspecto, se foi a minha
indole compondo com duas religies, que a final se reduzem a uma s: o
culto das gemeas e eternas amantes universaes,--a Natureza e a Mulher.


IX

De to ameno passeio na alva da vida chego de repente  escarpa de um
precipicio, d'onde  inevitavel o despenho para um abysmo.

Encetava eu apenas a carreira do estudo, to menino, to menino, que o
ouvirem-me j ler, e verem-me formar caractres, era (nunca a minha
vaidade o esqueceu) um thema de admiraes e de felizes prognosticos
para os parentes e amigos da familia. De repente outra doena, mais
terrivel que a primeira, e menos esconjuravel do que ella, no paga com
martyrisar-me, no contente de balanar-me por um fio largos mezes entre
a vida e a morte, me atira vivo para um sepulcro! Eu respirava; mas os
bellos olhos, idolatras das flores e de Amalia, e vangloria de minha
me, no sabiam se havia ainda no ceo o sol de Deus!  impossivel
recordar-me d'esse prazo, prazo de no sei quantas eternidades, sem que
ainda agora o corao se me confranja.

Imaginae um homem  hora em que se fosse embarcar n'um bergantim
doirado, por um mar de prata, com viraes balsamicas dos vergeis da
terra, cuidando j velejar horizonte em fra para um mundo de
delicias... e lanado de improviso no mais fundo subterraneo de uma
torre. Esse homem to desafortunado, e desafortunado to sem culpa, que
nem ainda era homem, fui-o eu; e tanto mais sem-ventura, quanto ninguem
ento, nem eu por conseguinte, me julgava possivel a ressurreio, e a
soltura.

Convalesci; d'esta vez sem os soccorros do campo. Tinha as foras e a
edade para folgar, tinha o desejo e a preciso do movimento, da
convivencia, da fraternisao geral, da conquista, emfim, que pelos
olhos se opera de continuo nos inexhauriveis dominios da Natureza e da
sociedade; no podia permanecer immovel; mas o meu carcere sem lanterna
me seguia por toda a parte. A ave da poesia, que me pipilava dentro,
debatia-se contra as grades, quando ouvia l de fra estrondear a vida
festival, e pelo ecco deshumano das suas vozes se lhe revelava o sem
numero de bellas coisas, que at os insectos e vermes senhoreavam pela
vista.


X

Dera-me a Providencia, entre meus irmos, um, dois annos mais novo do
que eu, cuja indole sympathica inteiramente com a minha, cujos gostos em
admiravel harmonia com os meus, nos constituiam mais que irmos,--duas
metades inseparaveis do mesmo todo. Ardia tambem n'elle a faisca
sagrada. No era tudo o palpitar o corao de cada um dentro no peito do
outro; os nossos espiritos se adivinhavam de parte a parte; a nossa
conversao tinha... (como hei-de dizer isto?) o que quer que fosse de
um solilquio, ou de um cantar ao ecco. Levava-lhe eu a vantagem de
vinte e quatro mezes mais, elle me levava a de mais um sentido. Havia
equilibrio, e compensao; cada um dava, e cada um recebia. Este mesmo
interesse mutuo contribuia para a espontaneidade da nossa fuzo
necessaria e suavissima.

Chegou a edade dos estudos. Era tempo de aparelhar com as chamadas
humanidades para as sciencias. Que inveja e que tristeza, quando meus
irmos, ambos mais novos do que eu, sahiram pela primeira vez
deixando-me s para se irem inscrever na classe de latim!
Permittiu-se-me accompanhal-os; attendi; devorei; li pelos ouvidos;
corri aposta com os mais applicados.

O preceptor, bom e honrado velho, que, trinta annos havia, professava
com devoo o idioma de Cicero e Virgilio, observa a minha atteno;
interroga-me curioso; reconhece e declara no ter discipulo que mais em
cheio haja absorvido as suas doutrinas.

D'essa hora em deante fui eu o filho adoptivo, o predilecto, o mimoso, do
seu enthusiastico romanismo. No s erudito de amplos cabedaes, mas
poeta, poeta elle mesmo, poeta _utriusque lingu_, julgou reconhecer em
mim, pelo modo como lhe eu traduzia as paginas inspiradas que elle me
lia com fogo, e pela promptido, sobre tudo, com que eu lhe restituia
nos versos originaes os trechos que elle para isso me recitava das Musas
cesreas reduzidos a proza portugueza, julgou, digo, reconhecer uma
indole fadada para a poesia; e pz com generoso exforo peito a cultival-a.

Tratar as Musas, e em particular as latinas,  desenvover a um tempo
phantasia e sensibilidade:

    _......lecto carmine doctus amet._

O poeta que assim cantra, logo ali se apossou de mim para toda a vida.
O seu estudo, que eu nunca mais interrompi, que depois alarguei, e que
ainda agora me  delicias, entrou pois como elemento energico, tanto
como as amenidades do Pao do Lumiar, e os amores infantis de minha
prima, na composio mysteriosa e providencial do meu verdadeiro
destino, que nunca foi desde o principio, nem j agora pde ser outro
at ao fim, seno, repito, a poesia.

Meus irmos passaram-me dentro em pouco de condiscipulos a discipulos; e
o mais novo, Augusto, de discipulo a inseparavel. Que annos! Que
annos esses! Quem, tendo-os uma vez desfructado, os esqueceria em
nenhum tempo, em nenhuma fortuna?!

Augusto e eu, que afinal j ramos um s, fanatisados deveras com as
grandiosidades heroicas, com as fabulas ridentes e floridas que nos
surdiam de continuo ao excavarmos por aquelle mundo fossil e classico,
pode-se dizer que nos naturalismos Romanos antes de sermos Portugueses;
fomos antiquarios enthusiastas na puericia; os cobres, que os d'aquella
edade desbaratam em doces e brinquedos, convertiamol-os ns em qualquer
_alfarrabio_, que no frontispicio nos trouxesse um dos nomes Romanos
immortaes, cuja ladainha sabiamos de cr, e recitavamos com venerao,
desde o principio da _edade aurea_ at ao cabo da _edade ferrea_ e
_lutea_, desde Livio Andronico at aos escriptores j christos, ultimas
reliquias do Imperio e da lingua a desfazerem-se. Devoravamos tudo
aquillo sem guia, sem escolha, temerariamente, mas com uma perseverana,
com um affecto, com um encantamento, inexplicaveis. Excusavamos,
repelliamos qualquer outro passatempo; visitas, passeios, tudo nos era
enfadonho, comparado com a delicia de vaguearmos pela Italia velha, de
ouvirmos os seus heroes pela bocca de Tito Livio, de entrarmos com
Virgilio familiarmente no palacio rustico d'el-Rei Evandro, de nos
espairecermos com elle, Calpurnio, e Nemesiano, por entre as amenidades
campestres, e ouvirmos cantar Horacio n'um pomar da sua Tibur:

    _...... ad aqu lene caput sacr_

coroando-nos como elle

    _...flore, terr quem ferunt solut_

ou de escutarmos suspiros e galanteios de Tibullo, Propercio, Gallo,
Catullo e Ovidio. Ovidio mais que todos nos levava traz si as vontades.
(No prgo moral; historo).

A poder de lidarmos com aquella gente, aformosentada pela distancia, e
to ideal vista de c; tudo gue no era ella, o seu viver, o seu pensar,
o seu idioma, as suas festas, nos parecia mesquinho, insipido,
repugnante; sonhavamos acordados.

D'isso me adveio, cuido eu, e no podia deixar de ser em edade to
branda para receber cunho, uma confirmao no pouco efficaz para a poesia.


XI

E na verdade, j que estamos conversando desenfadados, sinceros, e sem
armar a vanglorias, ou, por outra, j que me estou confessando dos meus
peccados de poesia pratica, direi aqui (embora quebre o fio da narrao,
depois o atarei) que, estendendo a considerao por todo o longo e
variado decurso da minha vida at hoje, no descortino em toda ella
seno... (como direi isto que me no afronte em demasia?) seno um
predominio constante da phantasia sobre a realidade; uma extranheza
activa e passiva dos homens, successos e coisas do mundo, em que vivo
como que emprestado, semi-pago, semi-classico, semi-republicano dos
Gracchos, semi-conviva de Mecenas, semi-Tityro, semi-captivo das
Corinnas e Delias, e, com tudo isto, a esvoaar-me sempre da poesia que
foi, ou que se nos figura l traz, para outra que l adiante ri aos
santos amigos da humanidade, aos utopistas.

Sempre que o individuo, de quem falo, entrou, ou cuidou entrar, na politica
(n'esta parte, Deus louvado, j escrevo o necrolgio) foi sempre levado do
enthusiasmo, ignorante da historia contemporanea, e da mesma politica, no
ajuramentado a bandeira de cr alguma, no adstricto a tal ou tal plano de
estadista, curando pouco de nomes, e menos ainda de interesses proprios;
foi campeo sem divisa de uma causa apenas prophetisada, vaga, confusa,
remotissima.--a civilisao pela moral, pelo amor, pelo trabalho, e pelo
saber. Pueril e incorrigivelmente seduzido por miragens humanitarias e
poeticas, nunca passou entre os politicos positivos de alvitrista
chimerico, e homem para nada; pugnou com o ardor de quem reivindicasse
algum morgado pingue, pugnou at vencer (vde isto!) para que se fechasse
aos tentados de suicidio a paragem vertiginosa que mais por seu contagio os
attrahia; empenhou sabios em procurarem remedio, se o houvesse, que
diminuisse as duas pestes:--duello, e infanticidio; incitou para o cultivo
serio das Lettras quantos talentos esperanosos descobriu; foi de todos
amigo sem inveja, pregoeiro sem restrices; propoz para os veteranos dos
estudos e da poesia uma Runa gloriosa, abundante, e aprazivel, em vez do
hospital que ainda no mandou queimar a enxerga de Cames,  espera dos que
podero vir; pediu, e tambem debalde (debalde at isto!) um Campo Elysio
terrestre para os mortos memoraveis; suas effigies postas pelo publico
agradecido nos passeios, e uma lamina commemorativa pregada pelo Municipio
na frontaria de cada casa, testemunha do nascimento, dos trabalhos, ou do
obito, de um benemerito; procurou e descobriu as reliquias do Cantor dos
_Lusiadas_, para que as desagravassem; forcejou com a persuaso para que se
desse  agricultura o seu apreo,  imprensa o mais amplo favor, premios
reaes aos talentos operosos e productivos, subsistencia e honra aos
educadores, ensino liberal, christo e ameno  puericia; pela puericia, que
 a nao de amanhan, fez mais, muito mais, quanto poude e mais do que
podia: invocou por ella ceo e terra, throno e plebe, sabios e ignorantes,
ricos e miseraveis, o clero e as mulheres; foi na vanguarda dos consociados
para se promover a educao popular; fez-se, a expensas de tudo seu,
mestre-escola de plebeus e descalos; evangelisou de terra em terra o novo
ensino, o ensino racional, a centenares de professores honestos; pelejou na
imprensa, com o amor e com o odio, desde a supplica at  verrina, em prol
dos calcados direitos da infancia, da maternidade, e da Patria; e
convencido, pela evidencia dos factos, resposta eloquente e peremptoria aos
negadores das vantagens da reforma, que riem, que riem da caridade, que
riem da philosophia, que riem do progresso, que riem de seus filhos, que
riem de si mesmos, deixou pendente a envelhecer por dez annos, desenfeitada
e esquecida, a sua lyra (oh! milagre summo de uma f verdadeira!), para
andar sollicitando a redempo e o baptismo de luz dos captivosinhos de
sete e menos annos; foi levar o beneficio espontanea e gratuitamente ao
Brazil; ambicionou que lh'o acceitassem do mesmo modo na Hespanha e na
Italia. Se n'estes dois lustros de lidas obscuras, s pagas com desgostos,
alguma hora se recordou de poetar, foi s para convidar com o exemplo
e com o discurso talentos melhores que o seu a encetarem cantares
de civilisao, a enxertarem nos loireiros estereis alguns ramos
fructuosos; e no se levantou da cadeira de um ensino quasi ignobil aos
olhos do mundo, seno para escrever livros sem vulto, mas necessarios ou
uteis:--_Noes rudimentaes_;--_Guia pratica de mestres_;--_Tratado
de Metrificao_;--_Tratado de Mnemonica_;--_Felicidade pela
instruco_;--_Felicidade pela agricultura_;--_Tentativas grammaticaes_--um
_Curso de lingua latina_;--e, de envolta com tudo isso, requerimentos
reiterados e instantes aos poderosos, s sociedades, s academias, aos
principes, aos tribunaes de instruco, para que o ajudassem.

Quando um Rei _amigo dos que trabalhavam_, e cheio elle mesmo de nobres
ambies, convidava ao poeta de outr'ora para ir colher fructos de oiro
num ensino altamente litterario, ousou o poeta pedir-lhe commutao no
servio, offerecendo-se-lhe operario para a trasladao dos monumentos
classicos romanos  lingua patria, por entender que ia n'isso muito
maior vantagem aos estudos e  poesia, ainda que para elle menos lucro e
menos brilho.

Todos estes rasgos de loucura se provam e documentam d'aquelle pobre
sonhador, a quem, deneguem tudo mais, corao e muitissimo no lh'o
podem contestar.


XII

Que digo! Esta mesma digresso aqui no  porventura uma sobreprova de
quanto o amor, na sua mais vasta accepo, o amor que no suppre assim a
poesia seno porque o , constitue o caracter do pobre homem? Nem os
desenganos o desenganam; nasceu affectivo; affectivo tem vindo
caminhando pela vida fra, da primavera para o estio, do estio para o
outomno, que j se lhe desverdece, e nem os glos do inverno lograro
provavelmente resfrial-o.

Na festa da Primavera, n'esses dias do amor s sensual e egoista, bem
que innocente, que pedia elle aos amigos para quando j no existisse?

Deixae-me escutar n'um ecco d'alma aquelles versos:

    Depois que entre os abraos delirantes
    de todos os que amei findar meus dias,
    sepultae-me n'um valle ignoto e fertil.
    Para marcar da sepultura o sitio,
    sobre o cadaver que vos foi to caro
    mangeronas plantae, cuja verdura
    em roda fecham variados lirios.
    Na raiz funda da soberba olaia
    poise a minha cabea, e o tronco amigo
    sobre mim curve a copa florescente.
    Mil piteiras unidas, ostentando
    na hastea vaidosa as flores amarellas,
    em quadrado no grande me defendam
    das incurses das cabras roedoras.
    Em meu tronco se escreva este epitaphio:

       _Foi poeta amador da Natureza:_
       _d'entre as sombras ancioso a procurava,_
       _qual terno amante a bella fugitiva._

    Sobre isto pendurae sonora flauta,
    que se revolva  discreo do vento.
    No cerque os ossos meus, no m'os ensombre,
    nem teixo nem cipreste; arvores quatro
    quizera s no meu jardim de morte.
    N'um canto a laranjeira graciosa,
    que mescla util e doce, a flor e o fructo;
    n'outro a figueira sob as amplas folhas
    modesta occulte seus nectreos mimos;
    defronte um pecegueiro em fructos mostre
    que amavel  pudor, quando enche faces
    de penugem subtil inda cobertas;
    no ultimo canto... (a escolha me confunde)
    plantae no ultimo canto uma ginjeira;
     a arvore da infancia, at na altura;
    d'esta por sua mo colhe um menino
    a mui ridente baga, e ri de ufano.
    Alguns tempos depois que a fria terra
    meus restos encerrar,  minha olaia
    vs, meus amigos, vs dareis meu nome,
    pois de mim se nutriu, e eu serei n'ella.

    Dos guerreiros nos tumulos afiem
    faminta espada os barbaros guerreiros;
    no sepulcro do sabio o sabio estude;
    e dos Reis nos marmoreos monumentos
    v sonhar a ambio grandeza e pompas;
    vs soltos de freneticas loucuras
    aqui vireis mil vezes visitar-me,
    na amizade pensar que nos unira,
    e unir-nos dever transposto o Lethes.
    Por que me interrompeis com taes suspiros?
    ah! deixae-me acabar. Quando sentados
    em torno a mim na flrida alcatifa,
    guardardes meditando alto silencio,
    se d'entre as mangeronas que me cobrem
    sahir acaso a borboleta errante,
    no vereis n'ella o espirito do amigo
    que vem gozar do sol a claridade?
    Quando o suave rouxinol de noite
    da minha olaia gorgear nos ramos,
    no pensareis, de santo horror tranzidos,
    que feito rouxinol, meus cantos slto?
    Sim, pensareis, e erguendo-se inspirado
    algum lhe ha-de bradar: Oh! meu amigo!
    Respondero: Oh meu amigo os bosques;
    e vs direis que o meu phantasma errante,
    da argentea lua  muda claridade,
     conhecida voz d'alem responde,
    e em tudo encontrareis a imagem minha.

    Se inda ento meus costumes vos lembrarem,
    se vos lembrar meu corao piedoso,
    velae que em meu retiro as bellas aves
    de caador cruel cantem seguras;
    Amor, o leve Amor, com arco d'oiro,
    s elle, e mais ninguem logre atirar-lhes;
    careo de amorosa melodia
    que me poetize o somno derradeiro;
    morto que nada tem, preciza d'estas
    pobres delicias rusticas, se folga
    que a namorada moa, o terno amante,
    juntos, ou ss, a visitl-o acudam.
    Ento ao som de languidos suspiros,
    de alegres cantos, de amorosos versos,
    de ternas queixas, de perdes suaves,
    muitas vezes contente a minha sombra,
    formando ao pr do sol vermelha nuvem,
    girar n'estes ares revolvendo
    da passada existencia almas lembranas.

Andaram tempos. Amores mais serios, mais vastos, mais duradoiros, mais
uteis, ainda que menos entendidos das turbas a quem se referiam,
inspiraram j outros desejos:

     terra de Colombo, um navio de esmola
    do abysmo te evocou, e aurea brotaste  luz.
    Por outra regia Heroina esmolada uma escola
    vai transformar-te em ceos, terra de Santa Cruz.

    E eu, que j uma vez, largando o patrio ninho,
    romeiro do progresso em balde te busquei,
    retomarei de novo o undvago caminho,
    e irei juntar meu hymno ao seu triumpho; irei

    pender na escola-templo os festes da poesia,
    e, novo Simeo, findar a vida em paz.
    Onde o homem que se humana affoito invoca o dia
    direi:--A patria  esta; aqui viver me apraz;

    apraz-me aqui morrer, onde as mes porventura
    co'os filhos pela mo me ho-de vir visitar;
    saudades esparzir na minha sepultura,
    e dizer: _Este sim, que soube o que era amar._

Passaram tempos ainda, e at essa esperana consolativa se desfloriu.
Ouvi o esmorecimento no j cantar, mas gemer, no seio da amizade:[1]

Depois vem a reparao, a rehabilitao, no ha duvida. Do sepulcro
brota o loiro, e a posteridade amarra a elle os inimigos dos amigos dos
homens, os areopagitas idolatras envenenadores dos Socrates crentes. Mas
as cinzas no sentem; as estatuas no vem nem ouvem.

O premio que eu devaneava a principio, quando via to s claras a
bondade da obra que estava fazendo, era que os filhinhos, e as mes, me
acompanhariam, chorando, ao cemiterio. A esse cro de amor imaginava que
at o cadaver se me alegraria. No dava aquelle triumpho posthumo pelas
torrentes de carroagens e salvas funebres dos magnates. Pois nem j
com isso conto. Conseguiu esta gente, no sei se invejosa, se qu,
diffundir to copiosamente os seus preconceitos, escurecer em tanta
maneira a luz do beneficio, que nem j espero aquillo. As mes
ver-me-ho passar, sem saberem quo grande amigo de seus filhos e netos
ali vai; e d'estes s porventura me iro dar despedida os que n'esta
hora esto cantando e amando por essa meia duzia de escolas regeneradas.


XIII

Saiamos d'aqui a toda a pressa, leitores amigos, antes que nos degenere
em paginas de santa mas feia indignao, um escripto que eu vos prometti
e destinei todo pacifico e amoravel. Torno-me pois  minha Arcadia da
mocidade, como o soldado mal ferido das guerras, e ainda mais dos
menoscabos que dos golpes, se acolhe  quieta poisada em que se creou.

Apz algumas tentativas incertas e incoherentes de lavor poetico, de que
o publico se esqueceu, e eu quizera esquecer-me tambem, foi a fabula
selvatica de Narciso e Ecco a primeira produco que me rebentou nativa,
e verdadeiramente congnita quella indole campestre e amoravel, que os
successos e os estudos me tinham andado a preparar desde o principio.
Nunca jmais essas singelas _Heroides_, impetuosamente e quasi de
improviso brotadas (posso hoje dizer isto sem jactancia, e sem que os
entendidos m'o descreiam) ousaram esperar o extraordinario, o excessivo
favor com que foram recebidas, multiplicadas em edies sobre edies em
Portugal e no Brazil.

Ora, quem poderia jmais lembrar-se de que um livrinho assim, todo vo,
todo fabuloso, uma especie de globo de espuma, nascido de um sopro para
boiar nas viraes por alguns instantes, espelhando os verdes da terra e
o azul de cima, e apagar-se para sempre, filho do nada restituido ao
nada, conteria o germen de uma historia muito real!

Pois foi assim: Das _Cartas d'Ecco e Narciso_, sahiu, como de flr
ephemera um fructo, o _Amor e Melancolia_, este _Amor e Melancolia_, que
j no era um devaneio e um canto, mas sim registo disfarado de uma
historia do corao: _lacrim rerum_.


XIV

Tres annos havia que tinham apparecido pela primeira vez as _Cartas
d'Ecco_; e dois os poemetos da _Primavera_.

Residia ento o autor de ambas estas bagatellas nos sitios mesmos, que,
em harmonia com os vinte e quatro annos d'elle, lh'as haviam inspirado.
Repoisava, j fra do estdio academico, nos ocios to poeticos do seu
Mondego. A casa da vivenda conheceil-a vs, desde que o mais poeta dos
nossos prosadores[2] pela magia da sua penna, que  ao mesmo
tempo varinha de condo, vol-a descobriu, vol-a franqueou, vos fez,
queridos leitores meus, entrar n'ella a visitar-me.

Pois bem: Era ali, n'aquella casa, ainda hoje lembrada do nosso nome,
n'aquelle espaoso e singular edificio, encostado, de uma parte 
vertente de Subripas, de outra ao Arco moirisco de Almedina; dominando o
rio convisinho e a margem ulterior, e dominado pelo castello de
templarios, theatro do tragico fim de Maria Telles; era ali, n'aquella
estancia, de aspecto meio senhoril, meio claustral, com seu pateo
espaoso, e escadarias de pedra, suas enormes laranjeiras enclausuradas,
suas varandas ajardinadas, seus erguidos miradoiros; era ali, ali, para
onde eu tantas vezes me recolho em espirito, ainda agora, a escutar os
descendentes dos rouxinoes que festejavam, como ns, a _Lapa dos
poetas_; ali, ali era, que os dias e as noites se nos devolviam, ao meu
inseparavel e a mim, nas leituras amenas, nas conversaes mais amenas
ainda, com os bons engenhos juvenis, que a to hospedeiro retiro nos
acudiam de boa mente.

Era o Setembro de 1824; um donoso Setembro na verdade: estio em cheio e
sombras  farta. Liamos os dois, isto  o um; por outra: recitavamos de
cr pela centesima vez as elegias de Tibullo,  sombra de uma laranjeira
merecedora de as ouvir, e muito bem capaz de as ter ditado, se fra
em Italia, e para tanto lhe desse a velhice, que todavia no era pouca.
(Nenhuma circumstancia d'aquelle tempo se me desbotou ainda da memoria).

Chega uma carta! lettra desconhecida!... Abre-se, reza assim:


    Azurara, pelo correio de Villa do Conde, 27 de Setembro de 1824.--


    _Amar o mais perfeito  um dever:_
    _Virtudes tantas devem ser amadas:_


    Se vos apparecesse uma Ecco, imitarieis vs o vosso Narciso?

                                           A desconhecida

                                _Maria da Expectao Silva e Carvalho._


Que significava, que podia significar aquillo? Era uma pergunta
candida? era um brinco malicioso? era masculina, era feminina, a mo
que tal escrevra? como responder? a quem responder? O corao, ou
presago, ou desejoso, dizia uma coisa; a prudencia, outra. O Tibullo era
do parecer do corao; todos os mais poetas votariam como o Tibullo. O
sol, que observa ha tantos mil annos coisas de todas as castas, e de
certo no ignorava o segredo d'aquella, espreitava-nos, e ria. A
laranjeira, scismava calada; como aia e enfeitadeira de noivas, l se
inclinava para o sim; mas tambem, como velha, desconfiava. O Samso de
marmore do angulo do terrado, esse continuava a escachar pacificamente o
seu leo, e no se intromettia na contenda.

Por muitas vezes se releu a carta  espera sempre de algum subito
reflexo revelador; e o enigma cada vez mais fechado!

Era caso para pesquizas, pois de qualquer dos oppostos lados que a
verdade estivesse, no faltava que fazer, e tinha-se de lhe acudir com
resposta.

Armou-se uma verdadeira caada; empenharam-se n'ella quantos visinhos e
praticos de Villa do Conde e Azurara se puderam desencantar; e o
mysterio a cerrar-se cada vez mais! e a curiosidade, o interesse, a
recrescerem-me na mesma proporo!

Respondi emfim ao meu phantasma:--Que no ousava eu muito acreditar em
apparies de Eccos para quem no fosse Narciso; mas que, se por milagre
houvesse uma, nunca eu seria to insensato como o filho de Lirope.--

At aqui podia eu chegar com a resposta sem me comprometter; para diante
fra j arriscar-me. Partiu. Fiquei aguardando com certo dessocego pela
rplica. Chegou, correio por correio.

Era a mesma lettra sem disfarce, e a mesma assignatura supposta. Mas
d'esta vez, em logar de linhas contrafeitas, paginas com todo o
desartificio amavel e persuasivo, com toda aquella graa nativa feminil,
que se no imita. Quasi com certeza andava ali mo e espirito de mulher.
Era ella porm interprete solitaria de sentimentos proprios?; ou
consocia e agente de uma conjuraosinha zombeteira? Como
descriminl-o? No havia melhores razes para uma, que para outra
supposio.

A substancia d'aquella carta, que eu no devo nem quero tirar do
sacrario em que a enthesoiro como reliquia, reduzia-se a querer-me
convencer de quanto eu era injusto para comigo, e de quo mal conhecia o
sexo amoravel, se o julgava todo unicamente sensivel aos encantos dos
_Narcisos_; emfim: que o poeta, que to verdadeiros affectos suspirra
por uma deusa ideal,--a Primavera, merecia bem que uma mulher o
procurasse para compr a felicidade d'elle, e pela d'elle a sua propria.

Isto, e muito mais a este modo, expunha a carta; mas por uns termos to
obsequiosos, to lisonjeiros, e ao mesmo tempo to naturaes, como os eu
no saberia expor aqui em traduco.

O inverosimil principiou ali a figurar-se-me provavel. Nas regies
imaginarias em que vivem os poetas, no ha extranhezas seno para o que
 natural e corrente; o ordinario so os prodigios.


XV

Sem me atrever a confessar a minha nascente, ou j nascida, persuaso,
senti ir-se-me levantando n'um recanto do animo um altarzinho todo verde
e florido para uma divindade ainda invisivel, mas cuja aproximao j
por um certo calor suave se me denunciava.

Diz que muitas leguas ao largo de Ceylo j o gajeiro, embalado l em
cima no sol doirado do Mar Indico, percebe na fragrancia das viraes
tepidas as selvas de canelleiras da ilha, ainda occulta pela convexidade
marinha, mas que vem correndo a encontrl-o. Assim me sentia eu levado
para uma ilheta de amores, que, j aspirada, e ainda no descoberta,
vinha por cima do seu mar de aljofares offertar-me, toda donosa e
festiva, a hospedagem das suas sombras inebriativas. Um cro de sereias
a meio caminho nos revelava, nos annunciava de parte a parte; e, assim
como se v tantas vezes no mar um navio pela acertada disposio das
velas demandar a terra, com o mesmo vento que de l sopra, a aura que me
falava do meu porto, a mesma era que para l me conduzia.

No ha cubia do que se no conhece, dizia um antigo poeta; extranha
sentena; e para de poeta, muito mais extranha. A mui veridica historia
que vos narro, duas vezes a desmentiu: nem a que me buscava me conhecia,
nem eu conhecia a que buscava.

E nem por isso  a coisa to para espantos como de fra e  primeira
vista se representa. Que de consorcios se no teem celebrado, at com
amor, entre ausentes, pela simples troca de retratos! Que mancebo se
poder gabar de no ter sonhado muitas vezes, dormindo e acordado, com a
heroina de um romance, ou com o invento prestigioso de um pintor? Quem
ha que no saiba o caso d'aquella moa franceza, que se finou de paixo
pelo seu Telemaco? Ninguem o prediria a Fnelon, quando, accezo no santo
amor do genero humano, compunha para a eternidade o seu homerico poema
social. Temperae de um pouco de poesia a qualquer corao (o nosso
era temperado de muitissima) e vel-o-heis palpitar todo credulo por um
phantasma. Para uma Virginia, este phantasma ser Paulo; para um Paulo,
Virginia; para um astronomo, um planeta, que elle, em nome do seu
calculo, intima aos abysmos celestes lhe apresentem; os phantasmas das
religiosas, so os anjos; os dos cenobitas, virgens do Empyrio; o dos
artistas inspirados, a gloria na posteridade; o meu, tinha sido com
effeito a Primavera, continuava a sel-o, mas agora humanada em figura
feminil.


XVI

Se eu me no temesse da gente em prosa, que s acredita no que se palpa,
havia de dizer que a aspirao para o bello desconhecido, para a
perfeio ideal, entresonhada onde quer que seja, e com qualquer dos
milhes de frmas em que ella se pde metamorphosear, tanto no 
extranha  Natureza, que no so unicamente os individuos privilegiados
da nossa especie, os que a experimentam.

A rla, a pomba, o rouxinol, a gemerem de saudade, a arrulharem de
ternura, a gorgearem de immenso affecto, por que enlevam tanto, e tantas
coisas inefaveis dizem aos animos devaneadores, seno porque os seus
gemidos, suspiros, e canticos, almejam coisa diversa dos deleites faceis
que os rodeiam, e que j possuem?

E depois: o Pae Commum no  avaro de seus dons, e ha-de folgar quando
cada uma de suas minimas creaturas, alando-se quanto pde e sabe pela
esphera dos gosos puros, se aproxima cada vez mais a Elle, que  a Summa
Belleza, o Summo Bem, de que todos os bens so emanaes ou reflexos.

O rouxinol, a pomba, e a rla!... mas os insectos mesmos, quem
affirmar que no se pascem, como ns, ainda que muito longe de ns, 
meza infinita, perenne, e perennemente renovada, do amor ideal?

Quem sabe at o que ir de mysterios nas flores e nas arvores!? que
idyllios, que elegias, que divinos poemas no correro nas florestas com
o murmurinho dos ventos em estrophes de aromas, intelligiveis s
arvores congeneres, e s flores da mesma especie!...

A carta, que de algures levantra vo para algum fim, a carta que eu
tinha nas mos, to candida, to vivida, to palpitante e amoravel, to
segura e to certa, podia ser portanto, e, se o podia ser, era-o, uma
especie de borboleta, que sahira das flores de uma alma solitaria e
longinqua, para vir fecundar as da minha com um polen ardente e
inesperado. Os effeitos que ella em mim produzia (logica ordinaria dos
desejos) eram,  mingua de outras provas, uma vehemente presumpo de
que o bom do papel vinha mensageiro leal, e no explorador perfido da
minha credulidade; e entretanto mal sabia eu como lhe respondesse.

Deixar-me ir de vo rasgado ao reclamo fra temeridade indesculpavel;
mas fra tambem excesso de prudencia, repugnante a um sentir delicado,
aventurar offensas, embora leves e disfaradas, para rebater um aggravo
s possivel; queria-se o meio termo; e esse era difficillimo; e
difficillimo sobretudo como eu o desejava, que era propendendo mais para
o corao, que para o espirito; para abrao, que para duello.

Meditei todo o dia.

O que eu nas falas gracejava por cautella, j no fro intimo se me
discutia como negocio.

Empenhei todas as potencias da alma, como poderia fazer o Edipo deante
da Esphinge. Levei o sero e a noite a ss, no laranjal, a interrogar a
lua, antiga confidente de namorados.

A lua, ou nada sabia no caso, ou, se o sabia, no o quiz dizer.

Mas a noite, grande terceira e fautora n'isto de amores, segredava-me ao
sabor do appetite, com umas taes razes, to cheias de poesia, isto  de
verdade, que o genio fogoso dos meus vinte e quatro annos fez sahir, sem
grandes evocaes, no sei se de algum tronco, se das nuvens, se d'entre
as pedras e heras da varanda de D. Maria Telles, uma Sombra de mulher,
uma Fada, uma Sylphide, com quem eu tive ali horas ineffaveis de
colloquio, desabroxando e enramalhetando futuros em commum.

Tenho pena de no poder j copiar aquellas praticas, nem as achar mesmo
para mim bem inteiras na memoria.

Se o leitor, ou leitora, tem a edade que eu tinha ento, e  poeta, mas
poeta verdadeiro, d'estes que no s lem e escrevem a poesia, mas a
vivem, l rastrear por si aquella scena to cheia, to real, to
animada. Se bem a concebem, tenho-lhes inveja eu; digo como a Santa da
lenda:--Ai! que saudades me no comem do tempo em que eu era to
infeliz!--ou, como a outra, toda delirante de ternura:--Tenho d dos
demnios; pois se elles no amam!--O meu Virgilio, to poeta na voz,
na alma, e no corao, exclamava saudoso:--Oh! quem me dera nos
campos, l pelas ribas do Sperchio; pelos cumes do Taygte,
bacchanalmente retoiado das virgens lacedemonias! Ai! quem me pozera
hoje nos valles, to frescos, do Hemo, e com a sombra grande de suas
ramarias me protegera!--

Que melhores Sperchio, Taygte, e Hemo, que melhores campos, delicias,
e feitios, que a adolescencia com o amor, e o amor com os seus extasis
e raptos!

Que de coisas se no descortinam e ouvem ento, que depois se calam e
desvanecem!... engano-me: no se desvanecem, nem se calam; so vivazes e
immortaes no seio da Natureza; mas ns,  que transpomos a paragem
bemdita de reconcavos e eminencias, onde se recebem em eccos
augmentativos todas aquellas vozes, d'onde se descortinam em cheio todas
aquellas vistas maravilhosas.

Oh! detende-vos ahi; detende-vos; abraae-vos aos troncos floridos o
mais pertinazmente que poderdes, que em principiando a descida... adeus
primavera! adeus amores! adeus sabedoria das loucuras! adeus miragens
e musicas da vida! adeus de vs a vs mesmos! e adeus esperanas de
reascenderdes nunca mais! Os leitos de rosas e as coras de violetas, j
l esto hospedando a outros viajantes que vos expulsaram. Resignae-vos,
se podeis,  peregrinao, por sobre espinhos, e por entre saudades,
cada vez mais espessas.

Ah! de quantas, e quantas no vou eu j carregado para o ciprestal que
l ao fundo me negreja! Tiremos d'elle os olhos, e deixemol-os ir ao que
l nos fica perdido, perdido para todo sempre!...


XVII

Passeava eu pois com a minha appario candida; sentava-a ao p de mim;
apertava-a nos meus braos; mostrava-a com ufania ao astro das noites,
que no era mais puro, nem mais limpido; pedia-lhe, promettia-lhe uma
ventura ainda no experimentada na terra; unificavamos pelas nossas
confidencias o nosso passado; o nosso porvir entretecia-se n'um ser
unico. O existir eu, era para mim, n'aquelles momentos extraordinarios,
a mais solemne e convincente demonstrao da existencia, da realidade,
da indispensabilidade d'ella: ella existia, visto que eu existia.

No riais: eu amava perfeitamente. A um espectro! no: a uma mulher,
a uma mulher, de quem s o corpo, talvez, ali faltava, e cuja entidade
moral e espiritual me pertencia me acompanhava, me velava.

No me sentia eu repassado do calor das suas azas invisiveis? no
tirava a cada momento de cima do corao palpitante, para a rebeijar, a
carta por onde tinham girado os seus olhos, em que poisra a sua mo,
que aspirra to de perto as exhalaes do seu seio, do seu corao e da
sua alma?

Aquella carta exercia incontestavelmente em mim um influxo magnetico,
dominador, prestigioso; eu no sabia, nem tentava, explicl-o; mas
negl-o, por um scepticismo ingrato e mal philosophico, muito menos o
podia, muito menos ainda o desejava.

Sentia-me to bem sob aquella dominao absoluta, era to bom permanecer
assim, que o meu voto summo seria que nunca mais amanhecesse, se as
falsas alegrias da madrugada me haviam de dissipar to afortunado Elysio.

Mysterios intimos da grande Isis, religio do amor, infeliz quem vos
no conhece! mais infeliz quem chegou a conhecer-vos e vos perdeu! Esse
 como o tronco scco: vicejou, florejou cem annos, cantou com todas as
aves debaixo do co, mimoso da terra, familiar com o sol, confidente das
estrellas, abrigo aos amantes, depositrio dos seus nomes e votos,
suspirando suave com elles, inebriando-os com suas exhalaes,
promettendo-lhes, e promettendo-se, primaveras sem numero e sem fim;
depois, murchou; cortaram-n-o, cahiu; fizeram d'elle, se o no deixaram
apodrecer, ou o no queimaram, um instrumento grosseiro para revolver o
solo, um barco para transportar mercadorias; ou, quando mais bem
livrado, um Satyro tosco, de quem riem os passageiros, ou uma apparencia
de Bemaventurado para um altar. Oh! como aquelle arado, se podesse
pensar, trocaria com alvoroo o seu prestimo, aquelle barco os seus
servios, aquelle Satyro o seu arremedo de riso, aquelle Santo a sua
alampada e os incensos, por uma s das horas frivolas e sem historia, da
arvore, que vivia, que amava, e que era amada!

A minha viso, a minha mulher sem nome, nem frma determinada, prestes
para receber qualquer frma, e qualquer nome, era, se me podem bem
entender isto, uma cifra, um symbolo, e o ideal da feminidade. No seu
ser se epilogavam para mim todas as perfeies, todos os encantos
dispartidos por quantas existem, existiram, ou podero jmais existir;
por isso a minha ternura para com ella era sem limites; era um amor, que
n'aquellas horas de enthusiasmo abrangia todos os amores, presentes e
futuros.

Oh! O amor! o amor! se ha n'este mundo coisa que nos possa dar ideia
da grandeza da alma, da profundeza da adorao, do infinito da
bemaventurana,  o amor.

Contam que uma s noite de terror e angustia j cobrira de cans e rugas
a um mancebo; uma s noite como esta no meu pomar de estio, abraado,
confundido com a minha invisivel, remoaria a um Nestor.

Que seriam todos os gosos materiaes comparados com aquella religiosa
voluptuosidade?

Onde ha ahi alcova de noivos, estreada apoz dez annos de suspiros, onde
ha ahi harm de hurs circassianas sobre rosas, ao som dos epithalamios
dos rouxinoes do Bsphoro, que se no trocasse por este noivado mystico,
to sem rumor, to puramente celebrado debaixo do co e no seio da
Natureza estiva pela poesia e pelo amor?


XVIII

Em quanto assim me corriam ali horas de feitio, onde estava e que
fazia realmente ella?

S muito depois o vim a saber: pela sympathia inexplicavel que nos
attrahia mutuamente, sentia-me tambem comsigo na sua soledade. Eu era l
o seu phantasma carinhoso, como ella c o meu; a lua que de c e de l
contemplavamos em commum, observava l e c as mesmas scenas to
parecidas, to eguaes, que a duplicidade lhes no tirava a identidade.
Supprimam os accidentes de logar; era no mesmo ponto do oceano dos
tempos um s ninho de duas alcyones, que, embaladas mollemente no seu
bemquerer, ignoravam que houvesse mundo para fra da esphera dos seus
affectos. Assim, no eram j imaginarios os abraos que dava, os abraos
que recebia cada um de ns; as nossas declaraes, juras, e protestos,
entravam nos ouvidos, desciam ao corao a que se dirigiam.

O amor, a quem os milagres so naturalissimos, triumphava j da
distancia, como havia de triumphar do tempo e da fortuna.

O sol e o movimento mundano e prosaico do dia seguinte, enfraqueceram
seu tanto as impresses do drama nocturno e intimo. Encerrei-me no meu
quarto; fechei as janellas para revocar no remanso de trevas artificiaes
a sombra magica; reappareceu-me, porm no j a mesma; faltava-lhe a
animao que a vehemencia da minha f lhe prestra; de to real que
tinha sido, tornava-se de novo problematica. As objeces da razo
gelada e desabrida, oppunham-se outra vez  prophecia da vontade. A
linguagem nativa e sincera da carta, era um protesto eloquente e
energico da innocencia e do amor contra as suspeitas; mas as suspeitas
murmuravam sempre; a vaidade (quem a no tem?) a vaidade, similhante
quelles rhetoricos subtis das escolas antigas, sustentava
alternativamente o pr e o contra: ora pretendia se acreditasse n'um
affecto, que enobreceria a quem lhe servia de objecto; ora repulsava uma
crena, que, a sahir burlada, redundaria em vergonha muito grande e
muito certa.

N'estas alternativas passaram dias e noites; dias penosos, estirados, e
ermos; noites acompanhadas, festivas, instantaneas. S quando repoisava
tudo, velava e vivia eu. Os meus pensamentos e as minhas alegrias, com
as flores nocturnas se abriam, com as flores nocturnas se fechavam. S
as estrellas se podiam mirar n'elles, n'elles que tanto se lhes
assimilhavam no brilho e na pureza.

Quando, apagadas em casa as ultimas luzes, e reinando j profundo
silencio ao longe por toda a cidade, cerca de meia noite, eu entrava com
p furtivo e o corao pulando, no aprazado arvoredo dos meus amores, j
ali encontrava  minha espera a figura branca. Com mil beijos soffregos
nos saudavamos, vingando-nos em minutos da eternidade do sol. Pedia-lhe
de joelhos perdo de a ter renegado, de ter duvidado da sua existencia,
durante as horas insipidamente allumiadas. Com um abrao restauravamos
as pazes.

Sentava-a ao meu lado, n'um banco rustico, afoufado para ella por minha
mo com mangeronas, que as havia em grande espessura  sombra da
laranjeira mais alta. Reclinava ella a sua cabea languida para cima do
meu hombro, ou eu a minha face ardente sobre o seu seio, a escutar-lhe e
a interrogar-lhe o corao. Repetiamos os nossos incendidos dialogos da
vespera, como novos. Misturavamos lagrimas de ternura e felicidade.
Reviviamos antecipados os mais bellos futuros. A qualquer tenue rumor,
d'estes com que a noite, maliciosa amiga dos namorados, se diverte a
assustl-os, estremeciamos como dois culpados colhidos em flagrante;
ella, forcejava por fugir; eu, escondia-a, rindo, com os meus braos
contra o meu peito; guardava-a ali muito tempo como filha; embalava-a,
adormecia-a, inspirava-lhe com beijos os sonhos que havia de sonhar,
insinuava-me n'elles, e lhe repetia em voz baixinha as mais suaves
coisas d'este mundo. Se um grillo cantava ento, se um ramo ciciava l
por cima, impacientava-me de que m'a acordassem. Perguntava-lhe ao
ouvido pelo seu nome, pela sua familia, pela terra da sua vivenda; no
respondia. Inquiria-lhe, em tom ainda mais leve, se j porventura em
algum tempo outro amor lhe sobresaltra o corao; levantava-se de
repente, grande, sublime, aggravada da suspeita, prestes a
desaparecer para sempre; e fal-o-hia, se ambos os meus braos a no
retivessem pela cintura:--Se eu no tivesse um corao ainda virgem,
como ousaria offerecer-t'o! offerecer-t'o espontanea! a ti! ao meu
poeta!--dizia ella com uma voz que no saberia mentir por mais que
fizesse. Pedia-lhe outra vez perdo, agradecendo-lhe a ineffavel certeza
que me dava da minha felicidade tambem no passado; outorgava-m'o
generosa; mas impunha-me, como penitencia, que lhe improvisasse poesia.
Era a poesia o que a fascinra? o que a attrahira para junto de mim; e
eu (bemditos os vinte e quatro annos!) derramava, inspirado s por
ella, poesia nova e fervente, por entre aquelles troncos mudos, como as
Philomelas no seu enthusiasmo a esperdiam pelos choupaes do seu Mondego.

Como a das aves, se perdeu a minha; mas nunca a exhalei to de dentro,
nem to para a alma, como ento.


XIX

Agora caio eu de repente em mim, e me envergonho de tudo que tenho
estado doidejando. Tinha eu direito, ou necessidade, de fazer em
publico similhantes confisses? No deixarei ahi violados dois pudores:
um meu, outro alheio e mais que meu? Haver indulgencia que baste para
devaneios to frivolos e pueris? No me desdenharo at, como fices
inverosimeis, absurdas, impertinentes, estes idyllios elegiacos, to
verdadeiros todavia? So verdadeiros, e eu prometti historiar; eis aqui
a minha unica defensa.

De mais, eu confio em que os leitores, alis benevolos, se no
esqueceram do que se ponderou no principio d'este escripto; a
saber:--que, nem em bem nem em mal, se pde carregar  minha conta o que
fazia ha trinta e oito annos um que tinha o nome que eu hoje tenho; e
que esse nascra e se crera, unica, simples, e exclusivamente, para
poeta, poeta de amores e delicias.

Pressupposto isso, continuemos o pobre romancinho, que nunca o houve
mais historico; e tornemo-nos  carta, que, tantos dias ha, espera uma
resposta.

Ignorava eu pois, e de nenhum modo podia conjecturar, d'onde procedra,
e que mo a havia escripto; mas propendia, por no sei que vaga
revelao, para crr que no era seno mulher, poetisa, enthusiasta, e
muito superior ao vulgar pelo talento, quem assim me desafiava o
corao, enamorando-me o espirito.

Reflectistes alguma vez no que seja aquelle bichinho de Deus, que pelas
noites de vero est scintillando do fundo de um relvado, sua immensa
floresta? Pois aquillo  uma namorada. O seu resplendor, que allumia as
hervas at  enorme distancia de um palmo em redondo,  a manifestao
esplendida do vago e poetico amor em que ali se consome solitaria;  uma
Hero, mais sublime, chamando e attrahindo com o seu facho um individuo
da sua especie, que ella nunca viu, mas que adivinha ter-lhe sido
predestinado pela Natureza. Deixae-o andar a elle saltitando
inconstantemente pelo labyrinto dos silvados, nas choras aereas e
loucas dos seus eguaes, como um cardume de pequenas faiscas
intermittentes; deixae-o volitar to altivo da sua liberdade, que a
energia do luzeiro l em baixo, to formoso e mais vivido que o seu, o
arrebatar em vindo a hora, e no leito de seda de uma florinha, sob o
docel de uma folha verde, o amor e o hymeneu accendero os seus fachos
quella duplice chamma confundida n'uma s.

Tal se me affigurava a minha ingenua correspondente, irradiando
d'aquelle modo at a mim, l do interior do seu pacifico retiro, o
poetico brilho dos seus affectos innocentes.

Na carta refulgia, com effeito, um amor. Era como um carbunculo, que,
trazido para o escuro, continua a expedir os raios de que o impregnou o
sol.

Respondi finalmente. Foi heroica a determinao; foi o salto fatal de
Leucade; foi dar de cabea para baixo na voragem, que, ou me havia de
atirar arrogado e desconhecivel para cima do lodo, ou restituir-me ao
dia, feliz, glorioso, coroado dos myrthos de Paphos pelas sereias.


XX

Entretanto, no meio da minha allucinao vaidosa, nunca me desamparou de
todo o previdente instincto da dignidade; as minhas paginas confessavam,
sim, o amor; amor profundo, amor immenso; mas este amor immenso e
profundo, qual eu o emprestra  Nympha aerea dos montes, qual eu
proprio o tributra  deidade phantastica da Primavera, e qual mulher
nenhuma deixaria de o colher com avidez, se o encontrasse, apparecia
aqui como um rico fructo do paraizo, ainda pendente no ramo, j maduro,
j proximo a despegar-se, baloiando-se a um lado e a outro, indeciso
para onde haveria de cahir; era, na realidade, como fra na fabula o
ramo de oiro, passaporte para os campos ditosos de alm mundo,
mysterioso ramo que ninguem por fora, nem por fraude, esgalharia da
arvore, mas que por si se deixava tomar da mo chamada pelos destinos
para o haver.

Tal foi, mas em phrase chan, e sem atavios de estylo, a substancia da
minha resposta: enigma contra enigma, oraculo contra oraculo.

N'este vago, de que um e outro, por motivos differentes, mas com egual
cautella, evitavamos deslisar para o positivo, se foi continuando, cada
vez mais frequente, mais ampla, mais amigavel, mais sincera, e mais
interessante, a nossa correspondencia.

Se quem escrevia era aquillo que eu desejava, devia estar contente de
mim; se era outro, e mal benevolo, o empenho que dirigia aquella penna,
esquivava-lhe eu escrupulosamente os azos para triumphos. Eu por minha
parte estava satisfeito de mim, e encantado com tudo quanto se me ia de
novo de dia a dia descobrindo de perfeies na minha Galata, que, ao
exemplo da de Virgilio, me atirra a maan refugiando-se para os
salgueiros; entrevia-a eu por entre as ramas; no a chegava ainda a
conhecer de todo, mas differenava j com evidencia, que no era satyro
travesso, mas sim nympha, namorada e negaceadora como os passaros:

    .............................._lasciva puella_.

No descontinuavam, no emtanto, diligencias para se descobrir o
esconderijo, em que se homisiava sempre que se presumia ir-lhe j lanar
a mo  ponta do veo. Com a obstinao do mysterio, recrescia o affinco
das pesquizas.

Apparece um fio no labyrinto: as minhas cartas vo por Villa do Conde
para Azurara; mas quem as toma em Azurara? Espia-se, colheu-se:  uma
servente do proximo convento de Vairo. Est pois a caada circumscripta
a um pequeno recinto, d'onde j no ha fuga possivel para a pobre cora:
agora  deixar-se tomar s mos rendida e envergonhada.


XXI

 Vairo um nobre mosteiro de Donas da Ordem Benedictina. Est situado
quatro leguas ao norte do Porto, na terra da Maia (Palencia dos antigos)
entre Douro e Minho; corre-lhe perto o formoso rio Ave, que, por entre
as villas do Conde e de Azurara, entra, grosso de caudaes, e j
senhoril, no mar. As convisinhanas do edificio o tornam grave e
meditabundo: a uma parte, serranias altas e solitarias; a outra, o
Oceano, que rumoreja resguardado da vista por immensidade de pinheiraes.

 to fidalga a antiguidade de Vairo, que ninguem, ha j muito, nem
elle proprio, lhe conhece a origem. Fundal-o-hia, segundo uns, em 1148,
D. Touris; segundo outros, na muito mais apartada era de 485, certa
senhora nobre, Marispala, de quem se delettreia ainda o nome n'uma
incompleta loisa grande, como campa de sepultura. Fra, resam memorias,
convento duplex de monjes e monjas da regra de S. Bento, que debaixo dos
mesmos tectos tinham extremadas as clausuras, e communs no templo os
exercicios religiosos. Exhala-se ainda agora d'aquellas paredes um
grande e bonissimo cheiro poetico de seculos e santidade.

Ali pois vivia desde a meninice, secular e educanda, a minha
desconhecida. No foi difficil adivinhl-a d'entre as companheiras; de
sobejo a denunciavam a notoria superioridade da sua instruco e
talento, e as suas tendencias todas litterarias e poeticas, herdadas no
sangue e nos exemplos domesticos.

Constava por tradio ter sido uma das illustraes longinquas da
familia o classico Doutor Antonio Ferreira, autor da primeira tragedia
de Ignez de Castro, e particular amigo de Antonio de Castilho. O no
menos classico Nicolau Tolentino de Almeida fra irmo da av da nossa
educanda, senhora de virtudes to iguaes aos seus altos espiritos, que o
grande satyrico usava dizer que s se casaria, se o casamento com irman
fra permittido.

Desappareceu a mascara: Maria da Expectao Silva e Carvalho  j,
descoberta e confessa, D. Maria Isabel de Bana Coimbra Portugal.

O meu romancinho devia terminar n'aquelle ponto, ou proseguir
transformado em historia; estava escripto que proseguiria.

Tal era tambem, e fra desde a primeira hora, a teno resoluta e
inabalavel da que viera despertar-me para a festa do corao.

Assenti; deixei-me por ella conduzir, indifferente a calculos, adverso
por natureza a previdencias; to poeta no real, como no imaginario o
tinha sido, e como o hei-de j agora ser at ao fim; em summa:
verdadeiro crente na Providencia.


XXII

Parecia que eu e Maria tinhamos ouvido da propria bocca do Salvador o
admiravel sermo da montanha; tanto nos estava profundamente impressa
dentro a sua doutrina! Eram com effeito evangelicas, ou de boa nova,
estas palavras de Christo:

--No hajais cuidado do vosso viver, d'onde comereis, d'onde bebereis,
ou d'onde vos heis-de vestir.

Olhae-me para as avesinhas do co; vde l se ellas semeiam, ou ceifam,
ou encelleiram coisa alguma; quem as mantm  o vosso Pae Celeste. Pois
vs sois para elle muito mais que as avesinhas do co.

Vestido!... A que vem o dessocegar-se por elle? Reparae no como
crescem os lyrios dos valles: no trabalham, nem fiam.

E mais vos digo, em verdade, que o proprio Salomo nunca trajou galas
como qualquer d'elles.

Ora: se Deus assim reveste umas hervas do campo, hoje viosas,
amanhan queimadas no forno, no vos revestir de muito melhor grado a
vs, creaturas de apoucada f?

Portanto, nada de vos inquietardes dizendo:--Que havemos de comer, que
havemos de beber, que havemos de vestir?

Que se desvelem com isso os pagos; o vosso Pae Celeste bem sabe que
todas essas coisas vos so mistr.

No vos atormenteis pelo amanhan; o amanhan l curar do que lhe
pertence: bem bastam a cada dia as suas penas.--

No sei, nem nos importava saber, se Thomaz Roberto Malthus, o
economista algoz dos casamentos pobres, approvaria, ou no, esta nossa
f to commoda, e que a mesma Providencia tomou depois a si o justificar.

Se quereis verdade ainda mais em cheio, e sem disfarces, nenhum de ns
ambos se lembrava de pensar no futuro por esse lado; entre ns e o
porvir material, mettia-se uma seve de affectos to espessa, to alta, e
to florda, que no nol-o deixava perceber. Era como o pinhal a
cortinar o Oceano revolto de ante a vista do conventinho descanado.

Olhae que eu no vos prgo  sermo da montanha para que nos imiteis,
mancebos e donzellas na febre aguda do amor, vs para quem uma cabana,
uma fontinha, quatro raizes do monte, e para postre amoras de silva, e
as glandes do filho prodigo assadas n'uma fogueirinha de gravetos, se
figuram banquete em palacio, sobrando-lhe para salsas o bemquerer; no,
Robinsons do affecto e da adolescencia descuidosa e credula; o que s
fao  relatar-vos, sem apologias nem recommendaes, o que por ns
passou n'uns tempos de loucura, que (ainda mal!) no podem j voltar.
Lde muito nas boas horas, como ns a reliamos, a consolativa prgao
dos passarinhos e dos lyrios; mas, se vos parecer, no deixeis de
folhear tambem um poucochinho os economistas; no ser mau. Os corvos da
Thebaida acudiam, verdade seja, aos santos eremitas  hora do jantar com
pes tomados sabe Deus d'onde; mas no ha muitos d'esses hoje em dia, c
pelas cidades. Corvos que vos empolguem o vosso po da mesa, e at da
mo, isso mais depressa.


XXIII

Maria conhecia-me pelos meus livros e pelas minhas cartas; alguma coisa
era; mas os meus escrupulos melindrosos pediam mais: enviei-lhe o meu
retrato, uma expressiva miniatura em marfim. A mo engenhosa do pintor,
no paga de me reproduzir, enchera de um rosal florescente o fundo do
seu painelinho; era o poeta da _Primavera_, rodeado dos seus preteritos
amores. Guardo-o como preciosidade e reliquia; se andou tanto tempo
occulto no seio com que eu sonhava!... A carta em que ella me agradecia
este pequeno penhor, repoisa, outra reliquia, no mesmo cofre junto
d'elle; seria profanao o publicl-a. Fique ali a sonhar eternamente a
immensa ternura de que a repassou a melhor, a mais carinhosa mo de
quantas jamais pegaram na penna para revelar a uma alma a formosura de
outra.

 a este segundo periodo das nossas relaes, comeado ao desfazer-se a
nuvem da divindade, deixando apparecer a mais sympathica das mulheres,
que pertence inteiro o livro sobre que emprehendi derramar agora alguma
luz.


XXIV

Lstes sem duvida a historia de Pygmalio; ento sabeis como aquelle
phantasioso escultor, com a arte no corao, e a f na alma, lavrou uma
estatua, se ennamorou e endoideceu por ella.

O sol da Grecia, que tantos portentos allumiou, nunca vira coisa assim
formosa.

O Real estatuario, pois era Soberano, esqueceu por ella mais que o seu
throno de oiro, e os seus estados que o adoravam; esqueceu todas as
beldades de umas regies como aquellas, digno bero de Venus e das
Graas, e onde os lacteos marmores e as ceras coloradas, para copiarem
aos olhos as formosas do Olympo, e povoarem os templos com Hebes e
Junos, Dianas e Minervas, de mais no precisavam que retratar os bandos
vivos e buliosos das filhas da terra. A todas offuscava para elle,
para elle Jupiter do cinzel, a Pallas brotada da sua cabea poetica
e fogosa; assim a lua cheia, ao levantar-se de traz dos cumes selvaticos
dos Dctyles, desterra o scintillante cardume das estrellas.

No contente de a vr todo o dia, vinte vezes se levantava cada noite
para tornar a vl-a, e de cada vez lhe descobria gentilezas novas. Com a
alampada trmula na mo, erguendo-a, abaixando-a, ora de longe, ora de
perto, a rodeava, scismando, palpitando, sorrindo, figurando-se-lhe
vl-a corresponder com a expresso do aspecto s blandicias com que
elle, mais poeta que Anacreonte, a affagava. Oh! que no daria elle
por ter a lyra de Orpheu e de Amphio, cujos sons escutados pelas pedras
as animavam!

s plantas nuas da sua Galata, mil vezes rebeijadas, tomava as suas
refeies, offerecendo-lhe sempre com suave convite as primicias de
Baccho e Ceres, os mais perfeitos favos de Hybla e do Hymetto, e os mais
delicados dons de Pomona, que em canistreis de vimes de prata lhe vinham
pr deante virgens, por quem o Pae dos numes se metamorphosearia vinte
vezes.

Cochichavam ellas entre si, e riam doidinhas  socapa os mais tentadores
risos que sabiam, sem nunca lograrem que os olhos fitos nos da estatua
se abaixassem, nem por descuido, para os d'ellas. Retirada a mesa,
fechava o Principe as portas eburneas do aposento, incendia-se com
segundas libaes rituaes de Naxos e Chios; exhalava o seu fogo
tresdobrado em abraos e beijos; cingia de perolas e diamantes o collo e
os pulsos da effigie; banhava-a com essencias de nardo e dictamo;
engrinaldava-lhe a fronte com as rosas mais frescas das emmolhadas em
vasos aureos esculpidos, coroando-se com as restantes a si mesmo;
tornava a encaral-a; e o reflexo das flres de Amathunta, que Sapho
algum dia havia de proclamar rainhas de todas as flres, e a que a Me
de Cupido fadra as mais extranhas seduces, quando as viu retintas com
sangue do seu Adonis, aquelle reflexo purpurino no alvor das faces lhe
parecia, no seu estatico enlevo, uns assomos do pudor virginal
sobresaltado com a desnudez propria, com a solido e voluptuoso
desamparo do sitio, com o olhar a um tempo supplicante e audaz do
adorador.

Era ento que, delirante, perdido de desejos impossiveis, elle se lhe
pendia amorosamente ao pescoo, forcejava por animal-a com sculos; e
reconhecendo quanto eram baldados os seus desejos, imbebia o rosto
ardente entre os arfantes seios, frios, de marmore, e os ljofrava com
um chuveiro de lagrimas. Nestas porfias, sem victoria nem derrota, se
lhe exhauriam as foras; deixava-se cahir esmorecido para cima do tapete
de purpura de Tyro, cerrava os olhos, e um somno transparente, um
meio-sonho, dando-lhe por momentos a posse da sua beldade, ouvindo-a,
sentindo-lhe palpitar o corao, repassando-se do seu calor, o
restaurava, para se tornar com mais vehemencia, em acordando,  sua
adorao perptua, s suas cubias insensatas.

A deusa dos mil amores, que perscruta at ao intimo os coraes dos
mancebos, podia bem ter ciumes d'aquella pobre e insensivel beldade to
amada; mas foi generosa; generosa... no: antes muito justa. No era
aquelle o mais solemne culto, o culto mais sincero e desinteressado que
jmais se rendra  sua divindade?

No odiou a Galata; sorriu-lhe como para uma irman mais nova; mirou-se
n'ella complacente como n'um espelho. A filha das ondas do Egeu foi
benigna para a filha dos marmores de Paros.

--O amor que nasceu de mim--dizia ella--no me tem a mim propria
ferido e felicitado, tantas vezes? Por que no farei eu que esse amor,
no menos maravilhoso, que nasceu d'aquella, lhe d tambem um quinho
nos cos que eu disfructo sem limite?--

Pygmalio, o Rei artista, havia afeioado para muitos altares os mais
perfeitos, os mais adoraveis simulacros da Immortal; e se no se
inflammra por elles, como agora por este de Galata, era s por que a
santa majestade do ser divino lh'o prohibira; mas os templos, em que os
milagres d'essa arte crente e inspirada resplandeciam alvejantes, eram
sempre os mais frequentados, os mais servidos com offertas, sacrificios,
e grinaldas. A officina mesma, em que avultava entre um povo de outras
estatuas e grupos a estatua da sua rival em fascinaes, era sympathica
aos olhos da Omnipotente, e sollicitava o seu favor. As pombas, que a
ella lhe vogam o carro aereo, jungidas com festes de murta, tinham
ali entrada livre. Dos loireiros rosiflores, e das grutas dos jardins do
palacio, esvoaavam-se familiares at aos peitoris das janellas, sempre
francas s inspiraes dos ceos diphanos, do cico das auras pela
folhagem, e do estrpito das fontes, melodias como de nautas migdneas.
D'ali observavam, conversando umas com outras, a profuso que l dentro
ia, de coisas to brancas, to suaves: tanta nympha! umas, trajadas
como para choras! outras, despidas como para o banho! e entre todas,
e sobresahindo a todas, o vulto da propria deusa, to sua conhecida, e o
de Galata, no menos celeste, candida como ellas, e, a julgar pelo
sorriso, como ellas affectuosa! Alguma das espreitadeiras aladas dizia
ento l pela sua lingua s companheiras:--Olhae, olhae como est em
ambas enlevado! os escravos chamam-lhe Rei, mas no  tal: , como ns,
um captivo do amor; e de quo benigna condio!...  reparar-lhe no ar,
nos movimentos. No vdes como olha para ns, to benevolo, e quasi
invejoso, quando nos beijmos? entremos sem medo, que nos no ha-de
fazer mal. Mal aquelle!... Apostaria eu que j foi pomba, antes de ser
gente. Chva-lhe a nossa rainha, como sobre ns, amores sem espinhos, e
delicias renovadas de hora a hora.--

A estancia era ento invadida pelo bando festivo. Pygmalio exultava,
tomando por feliz agoiro ver as conductoras do coche de Dine
arraiarem-lhe a casa toda com os reflexos argenteos das suas azas
irrequietas, e cobrirem de ternura, de voluptuosidade, de poesia, como
um veo alvo, roto, e esvoaado, as estatuas dos dois idolos do seu corao.

No era tudo isto mais que bastante para merecer  me do amor um
prodigio sem exemplo, e que a ficasse glorificando nas lyras namoradas
de todo o mundo?...

Acabava um dia o Principe de queimar aos ps de Venus, segundo o seu
costume de todas as manhans, uma copiosa oblao do mais puro incenso.
Tinha regado o fogo, em que elle fumava n'uma amphora de bronze, com
vinho amadurecido havia cem annos pelos oiteiros pampinosos de Chypre, e
reservado em talhas de barro para sacrificios aos deuses maximos. Tomada
respeitosamente venia da Immortal, transporta por suas mos o vaso
depositario do fogo para deante de Galata. Quer offerecer-lhe, ainda
que em segundo logar, poro igual, tanto da rescendente massa, orgulho
da Arabia, como do liquido generoso. Enganou-se-lhe a mo no incenso, e
lanou nas brazas poro avantajada. Venus sorriu, e no se agastou. As
distraces do amor, ninguem melhor do que ella as conhece por experiencia.

Emquanto o veo alvacento do innebriante fumo, elevando-se d'ante o
pedestal da nympha, a envolvia toda, e tornava a sua presena mais
celestial, Pygmalio, acompanhando-se com a lyra de sete cordas, cantava
de joelhos um hymno, que as pombas escutavam n'um silencio religioso;
pareciam querer decorl-o para o repetirem  sua rainha, quando ella se
jazesse em amoroso ocio, reclinada sobre as violetas em algum secreto
pavilho de rosaes da sua Paphos:

    --Tu que exhalas de ti, qual vrte a rosa aromas,
    effluvios de prazer, universal ternura,
    Me das Graas e Amor, deusa da formosura,
    que envolves a nudez co'o veo das aureas comas,

    Venus; pois que so teus os ceos, a terra, os mares,
    e at s sombras do Oro abrange o teu poder,
    lana um propcio olhar, Venus, aos meus pezares;
    do teu jugo me solta, ou d-me emfim morrer.

    Com to cruel supplicio, ignoto  humanidade,
    ria teu filho em vo, tu, deusa, s mais piedosa.
    Ardo por uma pedra em chamma vergonhosa,
    perdi a paz e a gloria, o siso e a liberdade.

    Qualquer ente alardeia ufano os seus amores:
    a ave, piando; o peixe, aos pulos pelo mar;
    o rebanho, mugindo; em cantos os pastores;
    e eu, Venus, s a ti ouso este ardor mostrar.

    Quo menos insensato o moo do Cephyso
    se finou por si mesmo ao p do espelho aquoso!
    Suppoz a sombra nympha; espera ser ditoso;
    cai no engano; perece; apiadas-te,  Narciso.

    E eu, eu sei que a beldade, iman d'est'alma ardente,
    s a mim deve o ser; nasceu de minha mo;
    no me ouve, no me v, no se condoe, no sente;
    no lhe pude formar l dentro um corao.

     Venus! se ha mulher que eu possa crer retrato
    do immenso que sonhei compondo a Galata,
    revela-me onde habita a amavel Semida;
    assim teu filho Amor jamais te offenda ingrato.

    Seja embora pastora, obscura, humilde, escrava;
    ter por choa um throno, e por captivo um Rei;
    e eu, j salvo da insania, eu, que a teus ps chorava,
    a ti uma hecatomba alegre immolarei.--

Ainda bem no findra a prece, quando lhe pareceu notar nos labios da
Immortal um sorriso auspicioso. O Cupido, que junto d'ella estava em p,
e que era tambem obra de suas mos, agitou as azas de marmore, soprou as
labaredas petrificadas do facho, que instantaneamente coruscaram, e
rompendo por entre a cortina do incenso, que ainda envolvia a nympha,
lhe lustrou com o milagroso calor a fronte, os olhos, as faces, a bocca,
o seio, o corao. Ao fogo d'este segundo e divino Prometheu, a estatua
estremece; a pallida brancura se tinge da cr da vida; o peito palpita;
os olhos se voltam para o co da Grecia, que logo os embebe do seu mais
brilhante azul; baixam sobre Venus; parecem attonitos! descem;
encontram-se com os de Pygmalio! duas rosas subitas se abrem nas
faces; o sorriso, aurora de uma existencia de amores, alvorece em labios
nacarados.

--Filha dos meus sonhos! Galata!-- exclama o artista delirante,
correndo a toml-a em braos, ao vel-a descer do pedestal. Galata,
filha dos meus sonhos! se  esta uma nova illuso que Morpheu me
envia, compassivo, mas cruel, possa eu no acordar jmais!

Vistes vs alguma vez rasgar um dia magnifico depois de uma noite
profunda? Notastes como ento sahiam do nada as amenidades das terras e
dos rios, a animao e o movimento dos campos e das cidades, as cres,
os cantares e as esperanas? assim, repassada a subitas de calor e luz
pelo sol dos espiritos, pelo amor, a alma recemnascida de Galata
adivinhou para logo a adorao de que era alvo. Comprehendeu a turbao
que inspirava, pela que sentia. Viu nas profundezas interiores do
seu ser, diaphanas como um lago limpido, a sua pureza virginal, a sua
magica-branca, a sua suavidade irresistivel, o seu destino de ser feliz
felicitando.

A turbao instinctiva de um pudor que a si proprio se ignorava, cobriu
o rosto de Galata do mais amavel escarlata; abaixou a vista sobre si
mesma, e no sabendo para onde se refugiar, mariposa attrahida da luz,
voou para os braos do amante, escondendo o seio no peito d'elle,
fechando os olhos para no ser vista.

N'este momento a Philomla, occulta na folhagem de um platano visinho,
entoou um brilhante epithalamio, e o hymeneu fechou as cortinas
purpureas do aposento.


XXV

Despidos os accessorios esplendidos e sobrenaturaes, a fabula de
Pygmalio reproduziu-se na minha historia; o simulacro que eu incensra
e servira, o simulacro filho da minha imaginao, era emfim mulher;
mulher amante, capaz de bemaventurar-me, e desejosa de o fazer. S a
Philomla do platano, e o hymeneu, andavam ainda to longe e to
emboscados nas brenhas do futuro, que eu mesmo no ousava crer-lhes bem
deveras na existencia.

Entretanto, como a encarnao e os sentimentos do meu idolo para commigo
eram innegaveis, comeou logo a haver entre ns uma especie de
semi-consorcio tacito; era j a communidade dos coraes, se no era
ainda a dos somnos, visto que o bom Ducis, chamou ao casamento

    _Douce communaut de coeurs et de sommeils._

As nossas mutuas confidencias passaram a ser, por minha parte, o que por
parte d'ella desde o principio tinham sido: reservadas inteiramente de
ouvidos extranhos e curiosos. Com isso lucraram muito maior affoiteza,
e um novo encanto, que nos concitou a amplil-as de dia a dia.

Quanto  dado a ausentes conhecerem-se, conhecemo-nos. Pelas mutuas e
circumstanciadas descripes que trocmos das nossas vivendas, dos
nossos gostos, do emprego das nossas horas, e de todos os nossos
pensamentos, podemos, como sylpho e sylphide, visitar-nos de continuo.
Estavamos simultaneamente: eu junto d'ella, no seu mosteiro; ella
commigo, no meu castello. J no havia l nem c, ladrilho de pavimento,
nem abobada, accidentes de luz ou sombra, movel ou planta, que nos no
fosse familiar. Via ella gostosa ao meu lado, o irmo inseparavel que me
excitava a querer-lhe, a aml-a, com a mesma espontaneidade com que me
acompanhava nas outras excurses poeticas; eu, achava ao p d'ella a
Religiosa sua intima, que a vira crescer, que a estremecia como a filha
e irman, que a ajudava com os seus conselhos, a protegia como Anjo da
guarda, se revia na sua bondade e no seu talento, e que, apesar de no
saber como viveria se a perdesse, nem por isso apressava menos com os
seus votos o momento de m'a entregar.

Assim mesmo, grande era na verdade a minha solido! mas tenho que a de
Maria era ainda mais profunda, poetica, e enamorada.

Ha uma natural propenso que nos leva sempre o desejo do que possuimos,
para o que no temos, para o que muitas vezes no poderemos alcanar; a
imagem de um ermo attrai o mundano; a do mundo dessocega ao eremita. So
palpitaes e adejos da alma captiva para o ideal. Somos assim. Se o no
framos, onde estariam os horizontes luminosos da alma? Onde, como, e
de qu, podra crear-se poesia?

Eu, que tinha em redor de mim uma cidade, e a liberdade de me expandir
para toda a parte, punha as minhas mais cordeaes delicias em me ir
encerrar no pressentido, nem presumivel, n'aquella remota clausura.
Maria, costumada a ella, sem quasi conhecer outra coisa, e devendo
estremecer s ao pensamento de trocar o seu pacifico viveiro pelas
extranhezas e perigos do ar pleno e sem limites, Maria, compunha agora
l os seus melhores devaneios no phantasiar outro viver, outro sentir,
outros deleites, e de todos os deleites o maior, dizia ella, o de gastar
a sua existencia em amenisar outra; ambio verdadeiramente feminil: a
abnegao absoluta!

Se viessem no futuro a citl-a como a socia, a guia, a auxiliar, a
afinadora da lyra do poeta, e a serva ministra das suas festas, seria
isso para ella um triumpho (mil vezes m'o repetiu). Mas, embora o seu
nome viesse a esquecer de todo (acrescentava com uma effuzo de ternura
encantadora), a certeza de haver obscuramente cumprido todo esse
encargo, j lhe bastava para no trocar a sua dita pela de outra alguma.


XXVI

As abobadas de um claustro encobrem thesoiros de sensibilidade
inapreciaveis, inexhauriveis, e bem mal avaliados dos profanos.

Cada um considera aquelles encerros mysticos  luz dos seus proprios
preconceitos. Um espiritual, v ali um alfobre de plantas para o Co;
uma terra de Gessen allumiada de cima pelo sol, no meio de um Egypto
ennoitecido; um paraizo passageiro sotoposto ao Paraiso perennal, com a
mais curta e directa serventia de um para outro. Ao incredulo, figura-se
um pantano antigo de fanatismo e supersties. Um economista, lhe chama
desperdicio anachronico de riquezas, de foras productivas, e de
populao. Um naturalista, execra, em nome da Natureza, que se ousem e
se permittam votos de a renunciar; e, propheta de infortunio, commina,
em nome d'ella, como infalliveis penas do desacato, as tristezas, as
enfermidades moraes e physicas, as allucinaes, os delirios, o
definhamento, o envelhecimento no incompleto dos annos, a morte
prematura. Finalmente, um romancista licencioso sonha, e se arroja a
escrever os seus sonhos como historia, que o amor, bannido em vo
d'aquelles recintos, em parte nenhuma  to despota, to insensato e
monstruoso como l. Segundo esses moralistas de abominao, os mysterios
vergonhosos da deusa Bona, ter-se-hiam perpetuado ao abrigo e no seguro
inviolavel dos nossos asylos religiosos.

Desprso a tantos exageradores systematicos. Se um mosteiro no  Co,
porque o no ha nem cabe na terra,  um santo e bemdito refugio, onde
muitas penas se atalham, e muitas se adormentam.

O caracter de contranatural, que acintosamente se exprobra ao mosteiro,
existir porventura, como se comprazem de declamar os seus
antagonistas? No de certo; no mosteiro feminil principalmente.

Se a felicidade terrestre, por outra, o contentamento,  o unico alvo
racional, a que tendem por diversas vias todos os exforos humanos,
quem affirmar com a mo na consciencia, que a mulher do nobre no seu
solar, a do burguez na sua casa, a do artifice no seu sto, a do
rustico na sua cabana, a do pescador na sua choa, para no falarmos de
tantas outras mulheres sem poisada certa, sem familia, e sem sociedade,
disfructam maior quinho de ventura que as Religiosas? Ser tudo, ser
mesmo o essencial para a felicidade, o ter um esposo e ter filhos, esses
dois bens, essas duas ufanias tantas vezes descontadas pelos mais
pungentes cuidados, pelos mais amargos desgostos, e no raro pelo
encurtamento da existencia?

Possuem a liberdade, diro elles. A liberdade!... que liberdade?
interrogae-as a uma e uma; no ousaro responder-vos; mas um
involuntario sorriso triste vos responder por ellas. Quantas so das
foradas que remam n'esta gal mundana, as que no tero muita vez
pensado com inveja no viver manso e sem estrondo d'aquellas solitarias,
sem os cuidados do amanhan, sem as fadigas improbas do hoje, sem os
arrependimentos e os pesares do hontem?...

Cada uma d'estas diversas operarias do futuro, colhe,  verdade, aqui ou
alm, mais ou menos abundante, mais ou menos imperfeito, algum deleite
que o mundo nega s cenobitas; mas quanto no compra ella caro esses
deleites, essas escaas compensaes dos seus pobres destinos, que vs,
philosophos exclusivos da populao e da riqueza publica, chamarieis
naturaes, se vos atrevsseis!

A eremita, pelo contrrio, privada d'estes gosos passageiros, est livre
das sollicitudes que tantas vezes os precedem, os envolvem, os seguem,
os descontam, os aniquilam.

As faculdades amantes de que se compe essencialmente o ser feminino,
no se anihilaram entrando para o ermo; exaltar-se-hiam porventura; e,
se lhes faltasse emprgo e alimento, devorariam afinal miseravelmente, e
com medonha rapidez, as miseras depositarias d'esses dons celestes.
Felizmente no succede assim. Ellas amam tambem.--Amam?! Oh! e
quanto! e quo bem! e quo satisfeitas! Ellas?!! Sem nenhuma
dvida. Os seus amores so melhores que paixes: so simplices affectos.

Uma cultura especial, e o influxo dos ares que respiram, operaram
n'ellas, sem as destruir, uma curiosa transformao: tinham nascido
flores singelas para fructificarem vulgarmente; uma jardinagem milagrosa
as converteu a pouco e pouco em flores dobradas, mais fragrantes, mais
para cubias. Do que originariamente havia de servir para a reproduco,
fez petalas; fez vio; fez flor de flor: monstruosidade embora para o
botanico e para o naturalista, mas ufania para a terra, e orgulho para a
arte, que, sem destruir a natureza, logrou apresental-a com aspecto mais
formoso. D'estas flores viventes pde coroar-se a Religio, que so
dignas d'ella; pde inspirar-se a Poesia, que em nenhuma outra parte as
encontrar to celestiaes; e pde a Moral mesma comprazer-se, que tem
n'ellas modelos perfeitos de virtudes, sempre raras, e cada vez mais
recommendaveis.

Mas teimais em perguntar que  o que realmente amam estas mulheres?
Tenho medo de que no chegueis a entendl-o bem, porque eu mesmo,
grosseiro, carnal, mundano como vs, no cheguei ainda bem a
explicar-m'o. Para isto, falta-nos a ns todos um sentido, sentido sem
nome, que descobre mil coisas subtis no mundo moral; a metade mais
delicada da nossa especie  que o possue; as mulheres  que o saberiam
explanar.

Se em espirito devassmos a furto uma clausura, que  com effeito o que
descobrimos n'aquelle mundo tepido, to suave, melodioso, e perfumado
por dentro, como triste, spero e mudo parece c de fra? A alteza dos
muros, e as grades de ferro, tem razo: no esto ali para evitar a
fuga; esto porventura para disfarar a seduco do retiro, que, a ser
conhecido, fascinava excessivamente; esto sobre tudo para rebater
audacias de desejos impuros, qua a pureza mesma attrahiria, como o balir
manso das ovelhas no aprisco est innocentemente chamando os lobos em
seu damno.

Por traz d'aquellas gradarias severas, d'aquellas muralhas ameaadoras,
est uma cidadinha toda feminina, sempre em paz e em festa; paz
talvez com leves quebras, para melhor se apreciar; festa sem tumulto nem
estrondo, sem custosos preparos, nem recordaes afflictivas.

Os dormitorios so bellas ruas direitas, caladas de lageas polidas, e
onde o silencio, amigo da meditao, se casa harmoniosamente com a
sombra fresca, e deixa perceber o som dos proprios passos que vem da
extremidade opposta, como se at o andar tivesse ali a sua reflexo.

Por ambos os lados d'estas ruas, abobadadas como hoje as de Herculanum,
e condecoradas cada uma com o gracioso nome de uma Santa, se enfileiram
os modestos palacios das habitantes. As portas sem chave,  primeira
saudao affectiva, ao minimo toque, se descerram. Descobre-se no
interior a riqueza da desambio; um sorriso hospedeiro, que illumina
tudo como sol; o leito alvo para os alvos sonhos; os paineis
meditabundos, que a musa da lenda explica, ora em idyllios, ora em
phantasticos romances, ora em tragedias gloriosas. Sobre a mesa sem
espelho, a jarra de flores entre duas velas de cera alvissima, e alguns
livros, d'estes cuja leitura se interrompe a scismar, e se continua
mentalmente por uns mundos nunca vistos, em que tudo so maravilhas. Um
pintasilgo saltitando e scismando tambem n'alguma coisa do passado, do
futuro, ou do possivel, alterna suspiros e cantares, pendente do tecto
na sua thebaidasinha de arames, enfeitada de ramos frescos; v de um
lado a arqueta do seu po sempre cheia, do outro a sua cisterna de
vidro, em que se mira como Narciso, em que bebe como a Samaritana, ou se
banha na ssta como odalisca; em baixo, v a sua providencia, que em
frma de boa amiga o considera, lhe fala, e interrompe os seus lavores,
ou oraes, para lhe atirar beijos. Emfim: a janella completa as
magnificencias do palacete, juntando-lhe, como dominios contiguos, o
vergel proximo, e o ceo, que pouco mais distante se figura.

Nas casas d'esta singular cidade, que o mundo no v, e muito d'elle no
quer ver, para mais a seu salvo a poder negar, ajuntam-se frequentemente
assemblas, em que se no gosa por certo  moda de ns outros, mas se
gosa no menos, e talvez mais,  moda do ermo: so conversaes entre
espiritos. Se as paixes vehementes as quizessem invadir,
resvalavam-lhes pela superficie. Os affectos sim que as povoam, e
constituem a sua essencia;  um papear como dos passarinhos n'um bosque
ao principio e ao fim do dia; porque n'aquellas vozes meigas, ora
transpiram os influxos de um crepusculo, que apoz as trevas se abre para
um dia grande, ora os de outro crepusculo, que se vai a pouco e pouco
fechando sobre as alegrias, para acabar na escurido; mas, quer um, quer
outro, todo o crepusculo tem rosas, todas as rosas teem amores.

No se discutem ali, nem as novidades do periodico, jornal das modas dos
politicos, nem os caprichos dos enfeites, politica das mulheres. Os
eccos dos espectaculos, dos motins, dos escandalos, das heroicidades,
das demolies e das edificaes das outras cidades, das grandes, das
Babylonias, ou no chegam at esta povoao, ou lhe entram to
amortecidos e como de coisa to extranha, que nada ou pouco desconcertam
a immutabilidade do pensar, e nada absolutamente a do viver.

O amor sensual  da Natureza, no ha duvida, e no entra ali;
afugentam-n-o, exorcizam-n-o, como o demonio do meio dia e da meia
noite; debalde o pobresinho se faz Protheu para as captar: agora
cantando-lhes convites d'entre a copa de uma arvore, agora passando como
virao que vem de ver namorados, e vai correndo por cima das hervas
trmulas a espreitar outros; uma vez  som de flauta longinqua, que
desperta suspiros por onde passa; outras, um nome de homem proferido ao
acaso, palavra sem virtude onde elles abundam, mas ali occasionadora de
devaneios; reveste a frma de alguma coisa, de alguma pessoa, de algum
sitio, de alguma scena, que se viu em quanto se andava l por fra, em
que se ficou pensando, e que ainda na memoria do corao se no apagou.

Sim, sim; no ha negl-o: o Amor, ladeado das Graas, deve espreitar bem
a miude, trepado nas grades exteriores, para o que vai l dentro, como
os passeantes n'um jardim devoram com os olhos as flores e moveis de uma
estufa, ou como as pombas de Pygmalio lhe consideravam as frias e
ridentes estatuas da officina.

Mas que mal faz isso? tambem as Amazonas haviam de ser salteadas,
no raro, por vagas tentaes voluptuosas. Todavia, a gloria de lhes
resistirem, junto s occupaes que lhes enchiam a vida, as mantinha
satisfeitas umas das outras, e ufanas do seu forado celibato.

Toda a differena : que as heroinas do Thermodonte, cortando o seio
direito para melhor pelejarem, como que despediam de si metade da sua
feminidade, e, endurecidas com a prtica das guerras, se indemnisavam
com a alegria de vencer a inimigos, dos deleites de serem vencidas por
amantes; ao mesmo passo que estas amazonas pacificas da Religio,
conservando inteira toda a sua sensibilidade, a enganam, dispartindo-a,
furtada aos impetos da natureza carnal, por um cardume de objectos qual
a qual mais consentaneo  sua indole delicada:  o trato das flores, que
so suas irmans;  a creao dos passarinhos, que so, voadores do ceo,
os irmos de suas almas; o canto, exercicio de Anjos;  a caridade,
enlevo do Creador; so as miragens infinitas da esperana; so as
perdoaveis altivezes de um estoicismo temperado; so tambem os
entretenimentos manuaes: ora de vestir e ataviar a santa Imagem
predilecta, que para o corao suppre uma filha, ora de coser o enxoval
branco para a creana que est para nascer na cabana visinha, ora tambem
de seroar na grinalda de flores de laranja, com que se ha-de enfeitar no
seu dia grande uma noiva muito amiga.

Que so os presentes que saem continuos d'aquelas portas, se no coisas
todas formosas e suaves como a cera e o mel das colmeias? laminas
devotas e scintillantes; doces de mil gostos, de mil cres, de mil
frmas; flores e fructos artificiaes, com que as abelhas se enganariam;
aromas para toucadores e festas; cartas, mensagens, e convites quasi
pueris na simpleza, e sempre rescendendo  innocencia mais sympathica e
mais alegre.

O segredo de tantas e tamanhas branduras, por si mesmo se descobre: a
mulher no trafego do mundo, se infiltra suavidade para o sexo forte, com
quem convive, recebe d'elle em troca o que quer que seja de mais grave,
que no quero dizer de menos extremoso; e uma beneficiao mutua e
perenne, que a Providencia ideou quando partiu em duas metades a nossa
especie; mas a mulher na convivencia exclusiva do seu sexo, mantem
inteiras, completas, e no mais perfeito estado de graa original, todas
as suas disposies nativas;  como a violeta, que emboscadinha  sombra
conserva o cheiro subtil e o frescor virginal, que as mos e o sol lhe
estragariam.

A mulher aqui no  esposa nem me, porm no deixa de ser mulher, se
no que o  em muito maior auge.

No vos basta? deplorais a encantada cidadinha por estar carecente de
praas, de passeios, de espectaculos? Outro engano; outro engano
manifesto: pois no so donosas praas aquellas crastas arborisadas,
com suas sonorosas fontes de repuxo no centro, e  volta majestosas
arcarias  romana? claustros guarnecidos de baixo a cima com azulejos
de biblica erudio, no recordam os Porticos, em que os antigos
senhores do mundo se espaireciam das calmas por entre estatuas e
pinturas de suas fabulas? no so passeios publicos, e mais apraziveis
por libertos de constrangimentos, os jardins, os pomares, as frescas
hortas da cerca? theatro de espectaculos augustos, no o ser o templo
aos olhos da f e da piedade? no se representam ali em seus dias
prefixos todos os lances da vida do Salvador, desde o Presepio at ao
Calvario, desde o Calvario at  Ascenso? todos os passos da Rainha
das Virgens, desde a sua Natividade at  sua Assumpo? todas as
glorias dos principaes Bemaventurados? No  ali, no magnifico
santuario, que entre a profuso de marmore, luzes, oiros, sedas, flores,
incenso, resoam em musicas solemnes, que s o orgam  digno de
acompanhar, os mais graves e poeticos pensamentos dos Prophetas, dos
Apostolos e dos Doutores, e que, inspirando-se de todos elles, a
eloquencia sagrada derrama a doutrina para a ignorancia, a esperana
para os afflictos, os desenganos para os vaidosos? aos pobres annuncia
thesoiros, thronos aos conculcados, festins eternos aos famintos,
sobrecora aos Santos, invoca luz perpetua para os finados, e va, como
o Dante, por uma espiral infinita, do fundo dos abysmos at ao cume do
firmamento.

Cada festividade  precedida de longe pela ancia de a ver chegar, e
deixa apoz si recordaes para muitos dias.

As donzellas dos sales, que revolvam e troquem entre si memorias
das contradanas, do valsador infatigavel, do discreto que as entreteve,
dos trajos e penteados que se distinguiram, do novo duetto que se
executou, do romance ou das poesias que se annunciaram de autor querido,
de uma inclinao encoberta de que j todos segredavam, do baile
estrondoso que se ia ter, de uma regata, de um duello, de um passeio a
Cintra, de uma lua de mel, ou de uma exposio de bellas-artes. As
virgens do que se cuida solido, no acham para si menor nem menos
attractivo assumpto, o revolverem na conversao, o repastarem no
espirito, as circumstancias, os minimos accidentes, de que se acompanhou
o dia festivo do seu templo; os enfeites e a elegancia de cada altar, o
inesperado primor d'esta ou d'aquella cantora, a maviosidade com que o
orgo gemeu na Adorao, o como a ponto acudiram de fra o repique e a
girandola, o rasgo de pintura, ou de affecto, com que o orador
maravilhou o auditorio, a multido e a variedade de vestidos que
affluiram  egreja, as largas distancias d'onde accorreu povo a ella, a
satisfao com que todos sahiram, e o bello e saudoso effeito que fazia
aquella torrente ondeante de cabeas, ao engolfar-se e desapparecer da
nave para o terreiro, por baixo do cro, como um rio fugaz por baixo de
uma ponte inabalavel.

Direis que ha um travo particular de tristeza em tudo isto. E quaes so
os prazeres do seculo em que esse resaibo se no mistura? denunciae-me
um unico, se o descobristes.

Murmurais que em tudo isto  sempre mais ou menos a contemplao inerte
e passiva, e que a vida fraudada de todo o movimento proprio e
espontaneo no  vida.

Mas ento no sabeis que n'aquelle povoado ha tambem, a seu modo, uma
Paschoa de flores, estreias de anno bom, fogueiras de S. Joo, dias
duplices para regosijos, banquetes e alegrias de abbadessados, visitas
ao locutorio, quanto mais raras tanto mais bem vindas, e em que o ermo e
o mundo se confrontam de perto! e no  por certo o ermo o que mais se
pde queixar do seu quinho.

Que dirieis vs da monja, que negasse existirem passatempos nas nossas
cidades, s porque os no via, e descriptos os no imaginava? Pois outro
tanto podia ella dizer, se o no diz, de vs outros, que descredes
da bemaventurana da sua cidadinha.

O cenobio, tal como o esboamos aqui, existe em realidade; e contra os
d'esta especie no aventamos que sria objeco possa pr a philosophia
humanitaria. So refugios para coraes feridos, que em nenhuma outra
parte o encontrariam; so asylos para muito desamparo da fortuna; so
taboa de salvao para muito naufragio; repoiso para muito canao;
gruta mysteriosa para muito animo poetico; seguro para muita innocencia;
e se a Liberdade os no pode proscrever sem contradico, sem a si
propria se annullar, a philosophia, me, filha, e socia, da mesma
Liberdade, o que s pode contra taes mosteiros, ou antes em favor
d'elles,  exigir que os severos votos, alis licitos em si mesmos,
sejam soluveis, e se desatem apenas finde a vontade que os dictou; e que
a prepotencia, a ambio barbara, calculos ou vinganas, no atirem para
os ps do altar victimas consternadas, em vez de sacerdotisas radiosas.

Franca a entrada, franca a sahida, o mosteiro no ficar sendo seno a
sde do contentamento, da virtude, da perfeio, e at da Liberdade mais
ampla, mais inoffensiva, mais formosa, mais completa.

Apressemo-nos em confessar, que nem todas as clausuras se assimelham a
esta que entrevimos, de que j existe metade, e de que a outra metade
hade vir por certo, quando ressentimentos politicos emmudecerem, e a
razo dos povos, desassombrada de todo o genero de preconceitos, for
adulta e governar.

No; nem todas as clausuras so assim; e contra as que assim no so,
pouco nos maga que a Philosophia troveje, e que a Liberdade se levante.
O convento que amamos e defendemos, o convento que o bom senso applaude,
que a natureza approva, que a cidade deve acarinhar, e o Co cobrir com
beno de prosperidades, est equidistante do convento fanatico,
suicida, e assassino, e do convento relaxado, vicioso, onde impera, em
odio aos ceos e  terra, o monstro execrado sob o titulo de _crasta_ na
linguagem mesma das chronicas monasticas.

Estes ultimos (ainda bem!) dissolve-os a podrido interna; passam, e a
sua memoria s fica subsistindo nos contos asquerosos da escola de
Bocaccio e La-Fontaine; mas a vida d'aquelles, mais dura, mais
resequida, mais resguardada, no se gasta seno muito lentamente.

A Religio e a Humanidade caminham sorrindo uma para a outra; logo que
se encontrem n'um abrao estreito de irmans, para nunca mais se
dividirem, aquelles institutos, que nem uma nem outra reconhecem por
seus, ou ho-de desapparecer com todas as suas sevicias, como
desappareceu a Inquisio, ou se ho-de converter  Natureza, cujas
branduras licitas e bonissimas rejeitavam. Nunca mais uma triste me
sentir estalar-se-lhe o corao a fibra e fibra, vendo sumir-se-lhe
para a catacumba de um claustro a filha mimosa das suas entranhas,
creada com o seu leite, crescida entre os afagos, ufania dos seus olhos,
bordo florido para a sua velhice. Velhice! Que me, verdadeira me,
poderia chegar at l, dizendo-se a cada hora do dia:--Nunca mais a
posso ver!, nunca mais a hei-de ouvir, se no fr por sonhos! quando eu
acabar de morrer, dir-se-ha no meio da communidade, silenciosa como
espectros pallidos, e tremulos todos: _Resemos pela alma da me de uma
de nossas irmans_; e nada mais, seno chorarem todas, suppondo-se todas
orphans na orphandade que s  de uma.-- mesa, onde no v sua filha,
salgar com lagrimas o po, porque a sua innocente, defecada da
penitencia e dos jejuns, no ter, para matar a fome, no seu canto
escuro e solitario, seno um pedao de po negro e duro, que o mendigo e
o co esfaimado de tres dias recusariam. No poder encarar com donzella
alheia coberta de galas, e trocando risos de alma com toda a Natureza,
sem logo se atirar de mos postas, e debulhada em lagrimas, aos ps da
imagem da sua ingrata, coberta de burel scco e mordente nas calmas do
estio, descala, apertada n'um cilicio, cortada das disciplinas,
entregue aos mistres mais trabalhosos e obscuros, definhando-se de
semana para semana, com o corao j morto, com a alma j meio morta a
pezar dentro na fronte pendida e despojada, que no ha reconhecel-a! e
os olhos sempre no cho,  procura do sepulcro, que assim tarda! Como
dormir e me, quando, encarnada pelo amor na pessoa da filha, cogitar
(e cogita sempre) que a pobresinha nem tem, como a ovelha, um feno
em que descance, mas pernoita vestida, ora n'uma taboa nua com uma pedra
por cabeceira, ora prostrada em orao sobre as lageas regeladas do
pavimento!

Arredemos d'ali os olhos; mas isto existe. O proprio Martyr Sublime, no
n-o pde ver sem pena do alto da sua Cruz, Elle que proclamou que o seu
jugo era suave, e que fez do amar a pae e me o primeiro dos seus
mandamentos em relao ao proximo.


XXVII

Vairo era de antigos tempos uma das casas religiosas da especie mdia
entre os dois extremos, uma das poucas em que as familias piedosas e
discretas punham confiadamente suas filhas a educar, para depois as
reconduzirem ao mundo, graves sem fanatismo, puras sem mingua na
sensibilidade, mulheres emfim, quanto mulheres o podem sr, anjos
perfumados em paraizo.

Havia em Vairo outras educandas e seculares. Todas ellas, assim como as
religiosas, davam a Maria a preferencia do seu affecto, sem que uma
unica pensasse em lh'o invejar.  porque a doura da sua indole fazia
esquecer a superioridade do seu espirito.

s prendas manuaes, em que primava, reunia o gsto da leitura, at algum
tanto o do estudo, e a meditao reflexiva, que extrema em cada
escripto, como em cada conversao, o verdadeiro do supposto, e o
proficuo do prejudicial:

    _Florigeros ut apes per saltus......_

Entretanto, dotada de um tacto verdadeiramente feminino, possuia a
grande e difficil arte de se mostrar ao nivel do commum do seu sexo,
quando mesmo as ideias que expunha desciam o vo de mais alta esfera. Um
veo de modestia, que s vezes chegava a parecer timidez e acanhamento,
temperava, por assim dizer, o brilho do seu saber, da sua imaginao, e
do seu juizo, para no offender a miopa dos espiritos vulgares. Era-lhe
at facil e usual o calar-se, simulando ignorar as coisas que melhor
sabia, quando se arreceiava de humilhar a vaidade de quem quer que
fosse; o que no tolhia que at as mais edosas a tomassem por
conselheira, convencidas, pela experiencia, de que ninguem calculava com
mais acerto do que ella, de que ninguem poderia guiar por mais seguro
caminho a um alvo honesto e proveitoso.

O melhor da herana de sua av e de seu tio, o poeta, reduzira-se a uma
boa poro de livros, francezes, hespanhoes, e italianos, quasi todos
escolhidos e de substancia, e classicos portuguezes. Devorra, relra
tudo, comparando, assignalando o que tinha por mais ou menos bom, e
enthesoirando o optimo em volumosos cadernos de excerptos, que,
folheados por um litterato de lei, para logo lhe revelariam o apurado
gsto da collectora. O francez, o italiano e o hespanhol, se lhe
tornaram d'esta sorte familiares. Quanto  lingua patria, essa, tradio
e gloria de sua familia, foi a que sempre lhe attrahiu particulares
desvelos; e em verdade, que ninguem a conhecia mais por dentro; ninguem
a tratava com mais acerto, graa, e facilidade. No  louvor pequeno
este, mesmo para dama, e dama em provincia; em nossos dias sobre tudo.

Sem pejo declararia eu aqui, se tal noticia podesse a alguem interessar,
que do meu trato com ella  que principalmente se originou o meu
empenho, no digo de classicismo, mas de vernaculidade em todo o caso.
No ha estudo, nem mais apetitoso, nem mais aproveitado, que o da fala
da nossa terra, quando se tem por mestra uma mulher a quem se ama.

Ahi me ia eu agora desviando por um atalho que no convm. Tornemo-nos 
educanda de Vairo.


XXVIII

Cuido que no haver ledor que no tenha l o seu livro predilecto, para
o qual de todos os outros se aparte por natural tendencia. O escriptor
mais do nosso peito pode variar, e varia, com as transformaes da
edade, da saude, da fortuna, das circumstancias; mas ha sempre um, com
quem melhor nos entendemos; com quem nos parece conversarmos; com quem
permutmos o nosso espirito, porque nos entende, e o entendemos, porque
nos parece vivo e presente, e o qual por derradeiro chega a
encarnar-se em ns, e a influir nos nossos actos e na nossa vida.

A preferencia de Maria para as suas leituras, comeadas n'uma pagina, e
continuadas quasi sempre nos espaos imaginarios, no acertava porm
n'uma s obra: pendia indecisa entre Petrarcha e Santa Theresa de Jesus.
Eram dois caudaes brilhantes, ainda que tristes, que iam, patentes ao
Co um e outro, parar ambos n'um mar de affecto.

Que alma houve jmais to namorada como a da formosa de Burgos, a no
ter sido a do cysne de Arezzo? ou que espirito s haveria de equiparar,
na doce melancolia da adorao, ao segundo Dante, mais sympathico, se
menos colossal, ao poeta, no j do _Inferno_, mas do _Purgatorio_ e do
_Co_ do amor, ao bom Petrarcha emfim, se a Hespanha, est'outra Italia
das graas e das paixes, se esquecesse de procrear a Matriarcha das
Carmelitas?

Que espantosa similhana entre ella e elle!

So dois coraes desmedidamente grandes, a quem no basta para os
encher qualquer affeio terrestre e vulgar, e que s em flres e
fructos de paraizo podero achar confrto.

_Fulcite me floribus, stipate me malis, quia amore langueo. Loeva ejus
sub capite meo, et dextera illius amplexabitur me._[3]

O Cantor to religioso, e a Religiosa to cantora, como que s teem de
corpo e sentidos quanto baste para os reter na terra dos deleites
ephemeros, e retardar a sua fuga para regies de affectos sem limite.

Um e outro amam no intimo, pela delicia do amar, pela necessidade de
amar, e sem pedirem merc nem recompensa.

Um e outro fabricam da sua ternura, religies attractivas, dominadoras,
perduraveis: elle, a dos trovadores mysticos e fervorosos; ella, a das
noivas para a eternidade.

Petrarcha tinha-se criado com as poesias voluptuarias da Roma classica:
mas, de amavel pago, que o estudo o podra ter feito, se converteu em
eremita namorado.

Theresa, segundo ella mesma se nos histora, seduzida nos primeiros
annos pelos feitios do mundo, dominada da turbulencia da phantasia, e
escandecida pelos fogos da juventude, s muito a poder de exforos, s
depois de muito bafejada pela Graa, logrou desenlear-se das vaidades,
pegar e lanar raizes no retiro.

Ella e elle podem exclamar como S. Bernardo:--_O beata solitudo! o
sola beatitudo!_--porque para um e para a outra o ermo  egualmente
povoado por um phantasma luminoso: l, pela imagem de Laura; c, pela de
Jesus; dois verdadeiros ideaes dos amores ao mesmo tempo mais ferventes
e mais castos.

Petrarcha, sabe que no ha-de gosar Laura em toda a vida; espera e
anceia, como Theresa, pelas bodas celestes.

Theresa, desafoga a sua impaciencia, como Petrarcha, em jaculatorias to
mimosas, que a Esposa dos cantares se deteria para lh'as ouvir.

          O POETA

      Tennemi Amor anni ventuno ardendo
    Lieto nel foco, e nel duol pien di speme,
    Poi che Madonna, e'l mio cor seco insieme
    Saliro al Ciel, dieci altri anni piangendo.

      Ornai son stanco, e mia vita riprendo
    Di tanto error; che di virtute il seme
    Ha quasi spento; e le mie parti estreme,
    Alto Dio, a te divotamente rendo.

      Pentito e tristo de' miei si spesi anni,
    Che spender si doveano in miglior uso,
    In cercar pace, ed in fuggir affanni,

      Signor, che 'n questo carcer m' hai rinchiuso,
    Trammene salvo dagli eterni danni,
    Ch'i 'conosco 'l mio fallo, e non lo scuso.


            A RELIGIOSA

      Ay! que larga es esta vida!
    que duros estos destierros,
    esta carcel, y estos hierros,
    en que est el alma metida!
    solo esperar la salida
    me causa un dolor tan fiero,
    que muero porque no muero.

      Acaba y de dexarme,
    vida, no me seas molesta;
    porque muriendo, que resta,
    sino vivir, y gozarme?
    No dexes de consolarme,
    muerte, que assi te requiero,
    que muero porque no muero.


            O POETA

      Io vo piangendo i miei passati tempi,
    I quai posi in amar cosa mortale,
    Senza levarmi a volo, avend' io l' ale,
    Per dar forse di me non bassi esempi.

      Tu, che vedi i miei mali indegni, ed empi,
    R del Cielo invisibile, immortale,
    Soccorri all'alma disviata, e frale,
    l suo difetto di tua grazia adempi.

      Sicch, s' io vissi in guerra, ed in tempesta,
    Mora in pace, ed in porto; e se la stanza
    Fu vana, almen sia la partita onesta.

      A quel poo di viver che m' avanza,
    Ed al morir, degni esser tua man presta:
    Tu sai ben, che 'n altrui non ho speranza.


            A RELIGIOSA

      Ay! que vida tan amarga
    d no se goza el Seor!
    Y si es dulce el amor,
    no lo es la esperanza larga.
    Quiteme Dios esta carga,
    mas pesada que de azero,
    que muero porque no muero.

      Solo con la confianza
    vivo de que he de morir:
    porque muriendo el vivir
    me assegura mi esperanza.
    Muerte, d el vivir se alcanza,
    no te tardes, que te espero,
    que muero porque no muero.

No parecem duas rlas melancolicas respondendo-se l do fundo de suas
apartadas espessuras? E ainda n'este momento foi mais o canao da vida
que lhes escutastes, do que verdadeiramente o impeto dos seus amores;
esse  tal, que a muitos periodos da prosa da Hespanhola s falta
mudar-se o nome de Jesus no de Saint-Preux, por exemplo, para se
imaginar que se est ouvindo Julia de Wolmar; ao mesmo passo que muitos
sonetos e canes do Italiano, trocado o nome de Laura no da Rainha dos
Anjos, e encorporando-se n'um horario, muitos olhos devotos os regariam
com lagrimas.

_Valchiusa_ ou, como dizem, _Voclusa_, onde Petrarcha passa tantos annos
sonhando com o espectro, primeiro de uma viva, que no vive para elle, e
depois, de uma defuncta que nunca para elle morrer, Valchiusa  para
todos brenha alpestre, cavernosa, brava, despovoada, mas  vergel e
universo para elle, e o casebre do seu refugio, palacio oriental.

Outro tanto se figuram aos olhos de Theresa o escuro, o desconforto, a
austeridade do seu mosteiro, e da sua cella.

Aos eccos da voz italiana sahida d'aquelle esconderijo, como de um vaso
rustico um perfume precioso, todos os espiritos poeticos se innebriam, e
lhe respondem, imitando-a; o Cames c no Tejo  um d'elles. s melodias
da Castelhana, cardumes de almas suspiram de toda a parte, e vo
procurar nos cenobios as voluptuosidades da penitencia.

Ambos ficam sendo mythos: um, da perfeita idolatria tributada  mulher;
a outra, da adorao perfeita, offerecida ao Salvador.

Petrarcha, emfim, apparece  nossa imaginao, qual Roma o applaudiu em
realidade, cingido no Capitolio com triplice coroa; _ter geminis
honoribus_; a cora de hera, como poeta; a de loiro, como triumphador; a
de murta, como amante.

Santa Theresa tambem a no concebemos seno tres vezes coroada: como
escriptora e poetisa, pelos estudiosos; como virgem, pela Rainha das
Virgens; como Santa, pela Egreja Romana.

No maravilha que a leitura assidua de taes obras, e ento n'uns sitios
e edificios to moldados para as fazerem resoar em cheio, elevasse a
alma poetica de Maria at ao enthusiasmo. No admiraria mesmo se tivesse
feito d'ella uma fanatica. Felizmente no succedeu assim, porque a
absorpo ascetica da Bem-aventurada diluiu o que tinha de excessivo e
perigoso, nas tendencias mais suaves e humanas do Visionario de _Laureta_.


XXIX

A secular amava o convento pacifico onde se crira, e que era, por que
assim o digmos, a sua patria, e o seu mundo; amava-o sim, mas nem por
isso deixava de se inclinar insensivelmente para outro viver mais
liberto e amplo, sobretudo mais natural, mais completo para o corao,
mais conforme aos instinctos femininos. De tudo isto  que resultou o
ennamorar-se, sem saber como, de um phantasma de poeta, que se lhe
revelra como dotado de uma grande faculdade de amar, e cujos gostos
amenos, e facillimos de preencher, tanto com os seus se harmonisavam.

D. Anna Lucinda, a sua inseparavel e confidente (repisemos embora isto
que ha pouco tocramos) no se animou a contrariar-lhe a inclinao. Era
freira, mas de grande juizo casado com grande virtude; no se
assimilhava s que parecem querer vingar-se do seu captiveiro, retendo
n'elle, e attrahindo para elle com seduces de todo o genero, a
incautas; portanto secundava, se no com exhortaes, ao menos com o
benevolo sorriso de amiga desinteressada, as vises mundanas de Maria.
Autorisara-lhe a primeira carta; felicitara-a pelo exito que lhe ella
surtira; deixara-a progredir; e fra vendo com satisfao, ainda que no
sem alguns longes de cuidado pelas incertezas do futuro, os progressos
de um primeiro affecto, que de dia para dia se foi activando, at que
chegou a verdadeiro amor, apaixonado e invencivel.

Ora, em quanto Maria, de quem eu por ento ignorava quasi todos estes
pormenores, vivia, sem que as outras lh'a suspeitassem, vida to
romantica no seu mosteiro, outro tanto, pouco mais ou menos, acontecia
ao que tinha a gloria de lhe occupar os pensamentos. Se ella se havia
comprazido de crear nos dominios da phantasia uma especie de Ossian, sem
cans na fronte nem rugas no corao, e disfructava o nobre prazer de ser
apontada como a sua companheira, a sua guia at aos cumes de Morven, a
aurora da sua alma, a interprete da Natureza para com elle, e d'elle
para com os homens; eu da minha parte queria-lhe como  minha Malvina, e
no dava j um passo na existencia sem me acompanhar do meu phantasma
candido.

Nunca ento pensei em que d'esses meus sonhos acordados se podesse
jmais fazer um livro, e muito menos que o houvesse eu em tempo algum de
explicar, como agora estou fazendo.


XXX

Onde, quando, e como o compuz? ao acaso; por toda a parte; e sem me
sentir. No o poetei, trovei-o; menos ainda que isso: trovou-se-me elle,
e eu colhi-o.

Em realidade, e em mais de um sentido, reconheo eu ao presente que
estes versos se aparentam muito menos com obra de poeta, que de trovador.

Que eram com effeito, e que faziam, esses filhos prodigos do undecimo,
duodecimo e decimo terceiro seculo, a que chamamos trovadores?

Era o trovador pelo commum um moo de phantasia e arrojados espiritos,
nascido as mais das vezes n'uma choupana entre a floresta e o castello
feudal. Ainda no bero uma cigana lhe lra a _buena-dicha_, em que
ninguem creu.

O unico livro em que solettrou foi a Natureza. O rouxinol, veio de
proposito, mandado por Deus, um mez em cada anno, para lhe ensinar o
canto; e quando elle repetia mais ou menos imperfeitamente essas lies
selvaticas, a andorinha do seu beirado debruava a cabea fra do ninho
para o ouvir, e o animava a ir por diante; de cantigas de ternura,
entende a andorinha como ninguem. Depois, a fonte prateada nas
noites de luar o instruia nas sonatas argentinas da mandora; e as
viraes, depois de se terem detido no cimo dos carvalhos a
escutar-lh'as, proseguiam o seu caminho aereo, comprazendo-se de as
diffundir. Isto nos annos a crescer, mas ainda mancebinho, e ainda no
trovador.

Trovador, sagrava-o de repente um dia a dama do castello, sem attentar
n'elle nem lhe saber da existencia. Foi elle, que do fundo da sua
humildade a enxergou na capella  Missa por manhan cedo, ou na caa,
montada no seu palafrem branco, ou  tardinha, entre as aias, no vergel.
Desde essa hora perdeu liberdade e alegria; fez voto de no querer a
alguma outra; pediu  fortuna, a todos os Santos e a Virgem, no que lhe
obtivessem merc de correspondencia, que fra temeridade e loucura o
esperl-a, mas unicamente o fazer-se d'ella conhecido por seus cantares
nas _crtes de amor_, quando j no fosse por seu denodo contra
inimigos. Este voto secreto, sem testemunhas na terra, ignorado
d'aquella mesma a quem se referia, improvisava algumas vezes um heroe;
mas quasi sempre um poeta, em quem o fogo da paixo suppria a sciencia e
a arte, duas coisas que faltavam ambas n'aquelles Orpheus da Provena,
obscuros fundadores da poesia de toda a Europa.

O ecco dos applausos, que l em baixo no burgo animavam a nova musa
elegiaca, pouco tardava que penetrasse at ao salo onde cavalleiros e
damas se reuniam.

O castello desejava conhecer o talento seu vassallo, que algum dia
porventura lhe immortalisaria as proezas; o villo, no sem pasmo seu e
inveja dos visinhos, era chamado para vir com a sua mandora entreter uma
hora do sero de inverno. Na enorme chamin, estralava a fogueira; de
seus espaldares lavrados, as nobres o consideravam curiosas; quem
poderia dizer a cada uma d'ellas se lhe no estava destinado um papel na
historia, ainda sem titulo, que por acaso se ia abrir?

O mancebo, em p, de olhos baixos, na postura de um peregrino devoto
perante um mausoleo de esculturas nobiliarias sob uma abobada de
cathedral, comeava a sua primeira recitao; se o effeito correspondia
nos ouvintes  espectativa, o sero seguinte j lhe dava assento n'um
escabello; to insigne favor, redobrava-lhe posses ao talento;
excedia os prestigios da vespera.

Ao terceiro dia abria-se-lhe inesperadamente o Capitolio; era proclamado
pelo marido, pagem, ou escudeiro da senhora, que muitas vezes era ella
propria trovadora tambem, como Azalais Porcairagues.

D'ahi vante progrediam as coisas pelo seu lveo natural. A senhora era
sensivel; a proximidade, tentadora; a poesia e uma gloria a nascer, mais
tentadoras ainda que a proximidade. O pagem, a principio, contemplra
com terror o abysmo que separava as duas situaes. Voar da profundeza
do seu valle natal at  altura vertiginosa em que se via, fra um
milagre; mas para se despenhar, sobrava a minima imprudencia. Era-lhe
mister cantar o amor, sem denunciar a amada, nem a ella mesma. Mais e
peior: era-lhe foroso dizer muito, calando tudo; desconcertar ou
prevenir suspeitas de rivaes, de invejosos, de cortezos, e de soberbos;
arrastar cadeias de bronze; como quem passeasse slto e alegre pelo
relvado de um parque; ter a mira interior n'um ponto fixo, e a pontaria
da bsta sempre n'outro.

To desinteressado, to heroico servir, no escapava  perspicacia de
quem o inspirra.  a gratido uma ternura, que sem custo fermenta e se
faz amor.

Um dia, no sei em que estao... talvez no estio, que  fogo; talvez no
inverno, que  frio; no outono, que  melancolia; ou na primavera, que 
amores; n'uma certa hora, d'aquellas em que uma estrella cai do ceo sem
se entender como, um olhar da castellan baixava sobre o pagem, e lhe
revelava a sua dita. D'ahi avante, eram dois segredos para esconder, em
logar de um; eram dois infortunios occultos, fundidos n'uma felicidade
ainda mais occulta. Occulta! Nem sempre. Que de tragedias, como a de
Faiel, se no misturam com as festivas delicias na historia dos
trovadores! laudas de sangue por entre paginas doiradas!

Alguma vez, ainda que rara, era a dama que tomava n'estas difficeis
declaraes a iniciativa: Margarida, mulher de Raymundo, senhor do
Castello de Roussillon, fez a primeira proposta ao trovador, seu pagem
Guilherme de Cabestaing.

A que veem sorrisos de estranheza? a dama era tanto, e o servo to
pouco, na estimativa da sociedade de ento, e a Natureza tendia tanto
por todos os modos, pela magia do amor sobretudo, para a realisao do
seu bemdito sonho da igualdade humana, que onde ao villo falleciam azas
de atrevimento para se remontar at  esphera da castellan, emprestava o
amor as suas  castellan, para ella baixar at  cabana do trovador.
D'ali subiam juntos  felicidade. A abelha rainha da colmeia, e o
insecto que ella escolhe d'entre os seus adoradores, vo, dizem os
naturalistas, consummar nos ares, longe do alcance d'olhos, o mysterio
por onde o enxame se regenera.

Assim se ajudava com estas mui frequentes descidas das aristocratas a
fuso das castas, e a restaurao da dignidade humana. Talvez se possa
presumir sem temeridade, que as fraquezas das grandes senhoras para com
os seus subditos mais distinctos por gentileza, valentia ou talentos,
no concorreriam menos para a demolio do feudalismo, que os
monstruosos direitos dos senhores, s primicias nos casamentos das
villans suas vassallas.

Deixemos porm philosophias tamanhas, que no cabem em to pequena
historia, e tornemo-nos a ella. S digo que a humilde consciencia que eu
tinha de mim, nunca me haveria permittido abalanar vo at  eminencia
moral onde habitava Maria; e que, se a minha alma era, como talvez
fosse, a que Deus talhara para a sua, muito bem fez ella em vir provocar
o seu trovador.

Trovador, repito, e no cuido haver presumpo, nem modestia, se no
verdade muito chan e muito clara, em appellidar assim o autor d'esta
colleco; quando no, consideremol-a, se vale a pena, e comparemos.

Que era com effeito o nativo e desartificioso trovar da edade mdia?
falo do trovar namorado, e no do guerreiro, nem do satyrico; falo do
que se comprehendia sob a denominao de _gaia sciencia_, e que dava
assumpto s discusses e sentenas das famigeradas _crtes de amor_: era
um verdadeiro trovar; uma caada  ventura, sem guia nem itinerario,
pelos campos da phantasia e do sentimento.

A elegia dos Gregos e dos Romanos, comera chorosa, e passra, sem
mudar de nome, a interpretar igualmente os desejos bem succedidos; e as
festas do corao. A _gaia_, ou folgasan, _sciencia_, pelo contrario,
tendo devido comear, como o seu nome o inculca, por celebrar as boas
fortunas, foi por natural pendor descahindo a pouco e pouco para a
tristeza, para a saudade, para a desesperana, que vieram por derradeiro
a constituir o habito e principal caracter da poesia da edade mdia.

O cantor apaixonado era o proprio heroe dos seus cantos. A historia que
celebrava, em termos vagos, mysteriosos, sem referencia a nomes certos
de pessoas nem logares, no era d'estas que podem ser vistas em quanto
se operam; no se compunha de actos exteriores; corria toda no mundo dos
espiritos; entrevia-se apenas sob um veo de mysticismo, muito similhante
quelle com que a linguagem theologica obumbrava os mysterios da
Religio; percebia-se sempre pelo fundo da scena ir e vir uma figura de
mulher, encarregada de algum papel singular. Mas quem era ella? Ninguem
o affirmaria. Amava? sabia-se que era adorada; sabia-se que o merecia;
nada mais.

O espirito do adorador attrahido, mas ao mesmo tempo intimidado, pela
aurola, esvoaava-se-lhe em roda, ora mais perto, ora mais longe,
esperando e desesperando, impondo silencio aos sentidos, e cilicio aos
appetites, sem de todo os poder domar; feliz como um anjo, infeliz como
um demonio; invejando toda a especie de glorias para merecer, invejando
a paz dos mortos para descanar; maldizendo e apertando os laos;
misturando, como as creanas, o riso com as lagrimas; e no admittindo
para confidente seno as arvores e o vento, os rios, as flores, e as
estrellas.

Tal foi o trovar nas eras juvenis dos enthusiasmos, quando os homens que
no eram cavalleiros eram poetas, os que no eram poetas eram
menestreis; quando a mulher na Europa tinha um altar, e Christo na Asia
um sepulcro, e a devoo d'aquelle sepulcro e a d'este altar traziam em
fluxo e refluxo contnuo as povoaes. Extraordinarios tempos, em que a
heroicidade era lyrica, e as fraquezas heroicas! tempos extraordinarios,
resumidos em dois versos pelo seu chronista epico, o Ariosto:

    _Le donne, i cavalier, l'arme, gl'amori,_
    _Le cortesie, l'audaci imprese io canto._

Abstrahi do que se referia s guerras dos Logares santos; recordae s os
cantares de galanteio ascetico, e, sincera paixo do fim do seculo
undecimo, do duodecimo, e do principio do decimo terceiro, se porventura
os lestes; sentireis isto mesmo que eu vos confesso: que toda a presente
poesia no parece seno um ecco tardio do cantar nativo e ainda inculto
dos Provenaes. No os conhecia eu ainda quando a compuz, nem me parece
que se os conhecesse os tomaria para exemplares; mas o certo  que os
meus amores se assimilhavam aos de muitos d'elles em mais de um ponto; e
portanto, sendo eu sincero, como elles o tinham sido, era impossivel que
a lyra em que eu improvisava, no gemesse, sem o cuidar, no estylo da
mandora, da mandora pendurada ha mais de seiscentos annos no cemiterio
das litteraturas.

Maria continuava a ser portanto para mim, ainda depois de convencida de
existir, a minha nobre dama encantada no seu solar remoto e
inaccessivel; e eu, o servo seu poeta, cantando-a s pelo gosto e pela
necessidade de a cantar.


XXXI

A maior parte dos meus versos no lhe chegava s mos, nem mesmo
apparecia ao publico, ou se revelava aos amigos. Recatava-os a ella,
parte, porque os sentia inferiores s continuas, to gentis e to
admiraveis paginas das suas cartas; parte, porque aqui ou acol
desdiziam d'aquella virginal e santa pureza, de que a minha imaginao e
a sombra do mosteiro m'a revestiam, e que realmente era, e foi sempre,
um dos seus maiores attractivos; ento aos olhos extranhos sonegava-os,
e mesmo aos ouvidos dos intimos, porque me repugnava poder outrem
espreitar para dentro do ninho das nossas almas. Amava s para mim;
poetava s para mim; e poetava como amava: sem premeditao, sem
esforo, sem reconsideraes, e sem emendas.

Bons tempos, que to verdadeiros fostes, como vos desvanecestes?
como passastes vs, eternidades voluptuosas?

Compunha eu tudo isto como as arvores ora murmuram, ora rugem, ora gemem
varrendo o p com as ramas, segundo passam por ellas os zephyros ou os
furaces. Toda a differena era: que a mim, as bonanas e as tempestades
no me vinham de fra; formavam-se umas e outras inesperadamente na
phantasia.


XXXII

Aqui uma voz imperiosa da consciencia me intma que no demore por mais
tempo uma solemne reparao. Fao-a de joelhos abraado a um cipreste.
Concluida ella, espero que me levantarei da terra alliviado.

Os ciumes que obscurecem a ultima parte d'estes cantos, existiram sim;

    _........quis enim securus amavit?_

mas causa, mas pretexto, mas sombra de pretexto para as suspeitas, nunca
jmais a encontrei no pobre Anjo que eu flagellava. Mentia eu pois?
Calumniava para ser algoz? Longe to infame supposio!

Houve delirios na minha alma, e reproduziram-se nos meus versos. Eis ahi
tudo.

O meu amor era verdadeiro; e todo o verdadeiro amor  visionario, 
supersticioso,  pessimista; e, similhante quelles enfermos que
preferem aos alimentos sos e agradaveis, substancias amargas e nocivas,
procura por uma tendencia irresistivel, desencanta, cria para si
tormentos reaes, e com aquillo mesmo que o devra destruir se vai cevando.

Se eu ouvia o caso de uma infiel, de uma enganadora qualquer, de que
tantas se nos deparam nas historias, nos romances, nos poemas, nos
dramas, e na vida contemporanea, perguntava-me logo, com terror, quem
me affianava a lealdade de Maria? ninguem, seno as suas cartas. Ento,
esquecendo que a assiduidade, e sobretudo o estylo d'ellas, excluiam
toda a razo de desconfiana, a poder de meditar no possivel,
convertia-o em provavel, e do provavel me abortava o certo. A
paixo com que eu me lisonjera nas horas desanuveadas e alegres,
merecia-a eu porventura? Sabia que no. Logo, que insensatez no contar
com ella! depois, a distancia! depois, as suggestes da solido, mais
tentadora s vezes que o povoado! depois, annos preteritos que podiam
ter semeado tanta coisa! por ultimo, uma indole to manifestamente
inflammavel! Tudo, at as suas cartas mais ardentes, at a sua insolita
deliberao de se me offerecer, tudo ento depunha conteste contra ella
no tribunal tumultuoso da minha alma. Os sonhos se me tingiam na cor dos
pensamentos lugubres de todo o dia; e eu, carecente de noticias reaes e
positivas com que os rebater, acceitava os seus embustes como revelaes
vindas, fosse d'onde fosse, mandadas no sabia por quem nem para qu,
mas nem por isso menos attendiveis.

Sonhos, acceitos como prophecias, e meditaes extravagantes como os
sonhos, ahi tendes as unicas fontes d'onde rebentaram essas elegias
tormentosas, que eu haveria queimado quando acordei e volvi a mim, se j
ento se no tivessem derramado por esse mundo.

Desabafei-me de um peccado horrendo; levanto-me, e prosigo.


XXXIII

O mais do volume dimanou puro e sereno do corao namorado, mas em paz.
A essa procedencia  que eu lhe attribuo, conforme toquei no prologo, a
boa fortuna que logrou; que outros merecimentos no lh'os posso
descobrir, por mais que lh'os procure. Como eram taes affectos os que
n'elle predominavam, por isso levou, e conserva, o titulo de _Amor e
Melancolia_; _Melancolia_ no ha separal-a do _Amor_.

Affirma a Baroneza de Stal, com razo, que amor verdadeiro e alegre no
cabe n'este mundo. Aos que levianamente a contradissessem,
responderiamos com palavras tambem d'ella:--que ha mais gente habilitada
para entender Newton, que para tratar a fundo d'esta paixo.

Eu por mim cuido ter sido do escao numero: o amor pareceu-me sempre um
prado florescente de primavera, mas coberto de um ceo triste. O
mesmo se representava a Maria, e isso explica a variante do titulo da
obra _Novissima Heloisa_, designao que n'estas alturas j dispensa
outros commentarios.

O mais d'esta poesia, e muita outra a este modo, que depois se
desaproveitou, (_trovas_, _tenes_, _solaus_, ou como melhor se lhe
possa chamar) germinou com intervallos, s vezes largos: que no foram
to poucos os annos que duraram estas relaes. Ao longo d'elles,
confesso que a intensidade do meu fogo no foi sempre a mesma. No pode
haver amor platonico sem um certo exforo da vontade; e exforos teem
sempre isso comsigo: que o fragil da nossa natureza os obriga a
remittirem a sua energia de vez em quando. Confessarei at que, se a
minha vestal invisivel no fosse to assidua em me velar a chamma, e
alimental-a quando a pressentia enfraquecer-se, j pde ser que tivesse
alguma vez chegado a apagar-se-me.

Emquanto o corao estava em frias, emmudecia a Musa; mal que elle a um
suave toque despertava em sobresalto, recomeava ella os seus cantares;
e o amor n'estas ressurreies no era menos vehemente do que a
principio o tinha sido. Quem no dissimulou aquelle vicio, adquiriu
algum jus a gloriar-se d'este pequeno merito.


XXXIV

Os arredores to poeticos da minha Coimbra conspiraram com o amor para
se me florirem estes improvisos! O Penedo da Saudade, a Lapa dos Poetas,
a Fonte das Lagrimas, o  da Ponte, os sinceiraes do Mondego, tudo sabia
dos meus segredos; tudo, em me vendo chegar, me perguntava por ella e
m'a pedia. Mas era especialmente o Real cenobio de Santa Cruz o meu
grande manancial.

Quantos domingos de vero no voava eu sosinho para ali, a gosar curtas
horas, mas tantas, que s vezes se mettiam pela noite, tendo comeado
antes do meio dia! parecia-me que era para mim que D. Affonso, o
Conquistador, e D. Sancho, o Povoador, que l dormem como em casa sua,
tinham edificado aquelle refugio; para mim s, e no para os Conegos
regrantes, que D. Manuel e D. Joo III o engrandeceram e aformosentaram
com to regia, com to prodiga bizarria.

Ainda hoje, como no meu tempo (ainda no meu tempo, como em seculos
atraz), pombas, pardaes, e outros passarinhos, se aninham, contubernaes
e familiares com os carcomidos Santos de pedra, pelos nichos da alterosa
frontaria exterior, como em poisadas tambem proprias e muito suas, e
amollecem com a sua presena amante e festiva a austeridade do
monumento; emquanto os orgos gemiam l dentro, cantavam elles c por
fra. Quando as rezas matutinas comeavam a espertar eccos pelos desvos
das abobadas sobre as campas de marmore brunido, j elles tinham dado as
alvoradas s viraes do Mondego seu visinho. O rebentar estrondoso das
horas na torre proxima, no os assustava; os sinos eram para elles aves
de outra especie, inoffensivas tambem, s com a differena de se estarem
captivas n'uma gaiola alta, e cantarem mais elevadas coisas, e para mais
longe, pela terra fra e pelos ares acima, caminho do Ceo.

Na lyrica dos antigos poetas mesclava-se commummente com o folgar de
festins e amores, quanto bastava do pensamento da brevidade da vida para
mais avidamente se colherem as rosas ephemereas das voluptuosidades;
aqui o fundo do poema era pelo contrario a melancolia saudavel, e as
delicias mimosas da Natureza o seu accessorio.

Isto, que em breve sigla se lia no rosto do convento dos quatro Reis, ia
depois encontrar-se em copiosissima profuso no interior e nos vastos
dominios campestres da vivenda.  assim que n'um esmerado volume
biblico, paciente lavor de algum obscuro Raphael da edade media, o
frontispicio floreteado e doirado annuncia logo as maravilhosas paginas,
em que o texto devoto ir manando todo por entre um perpetuo paraizo de
primaveras, animaes, sonhos, e devaneios.  assim tambem, que no sorrir
de um bom velho se resumem os castos alvoroos que lhe abundam pelo animo.

N'um festim opiparo toma cada um d'entre as iguarias e licores o que
mais lhe desafia o paladar; a mim no me chamavam para Santa Cruz nem o
templo, que deu brado em S. Pedro de Roma, e que Paulo III cubiou
conhecer; nem o santuario, orgulhoso museu de reliquias; nem a
bibliotheca, assoberbada de sciencias sacras e profanas: ia girar  toa,
e inebriar-me, sem ninguem saber, no dormitorio do _Silencio_; depois no
da _Manga_, aviventado do estrpito de cascatas, que um sulto de
Granada cubiaria para os pateos da Alhambra. D'ali, escadarias de
marmore, bem minhas conhecidas, me subiam para o meu passeio de
predileco: era o dormitorio de Nossa Senhora do Pilar.

Pintae na ideia um corredor immenso, largo, alto, abobadado, pavimento
de lagedo, paredes alvas, luz copiosa por zimborios no tecto, e janellas
amplas ao comprido de um dos lados; do lado fronteiro, enfileirae portas
de cellas; ponde n'um dos extremos uma grandiosa sala vaga; no outro,
rasgae um porto bipatente que d sem subida nem descida para um
terreiro ajardinado; postae  direita do porto, como porteira
obsequiosa, uma agigantada magnlia a emborcar das suas enormes urnas de
prata reviradas, olores americanos, que Marco Antonio pagaria por um
milho de sestercios para a sua Clepatra; moldae todo o terreiro, 
direita com arvores,  esquerda com um extenso e levantado viveiro
gradeado, compartido em republicas de aves de toda a especie. Ahi tendes
o passeio amores dos meus amores; ahi tendes o foco mais activo das
minhas inspiraes.

Eram as cellas habitadas; mas o corredor permanecia quasi sempre deserto
e mudo, o que deixava as minhas phantasias em completa liberdade. Por
mais de uma vez se me deu occasio de travar conhecimento com alguns dos
religiosos; esquivei-a sempre. Que tinha eu com elles, ou elles comigo?
pelo contrario: necessitava de que nada me recordasse que elles
existiam. Todos os seus cubiculos os tinha eu melhor empregado n'outras
tantas virgens do Senhor. N'um dos mais centraes, fronteiro a uma
janella de assentos, habitava Maria; D. Anna Lucinda  direita, no
immediato. Voltado de costas para a janella, ou passeando por diante
d'aquellas portas, distinguia, ora n'uma ora n'outra cella, as praticas
de ambas; ouvia as suas conversaes em voz baixa; deliciava-me com a
doura das suas falas, que eu no conhecia.

[Ilustrao]

QUINTA DOS AZULEJOS (no Pao do Lumiar)
Tal como era ainda em 1862

Das innumeraveis cartas de ambas, que eu sabia de cr, me raiavam para
dentro da alma as intuies de tudo que estavam de parte a parte
pensando, sentindo, dizendo. Era o meu nome o centro fixo, em torno do
qual volteavam todas as suas ideias, como um turbilho de planetas de
Venus, scintillantes, mas celestialmente immaculados. Tinham-me comsigo,
como eu as tinha commigo. Maria e a sua satellite se animavam com meu
fogo, e m'o reflectiam virginisado; irradiao argentina e mysteriosa,
de que se formam sonhos candidos, transpiraes de um corao que se
coagulam em rosas, sobre as quaes logo outro se reclina.

Eram estas vises to claras, e estes extasis to reaes, que bem
provavam haver no mundo, como diz Shakspeare, alguma coisa mais do que
os philosophos presumem; havia por fora uma corrente e contra corrente
de affectos sympathicos e harmonicos d'ella para mim, e de mim para
ella; fluidos ethereos e celestes, que a Sciencia ainda no descobriu,
mas que pelos effeitos se manifestam.

Dizem que entre o Mediterraneo e o Atlantico, por baixo das aguas que
passam contnuas pelo estreito, repassam encobertas outras tantas; so
oppostas as direces; mas os impetos caudalosos so eguaes, e no se
contrariam. Cada mar toma quanto envira, e restitue quanto recebra. As
columnas do _non plus ultra_ ficam desmentidas. Os dois mares, graas a
esta corrente e subcorrente, no so mais do que um s com dois lveos e
duas denominaes.

Estava Maria n'aquelle quarto? ou n'outro, bem, bem longe? Que
importava esse accidente fortuito e impessoal? Longe ou perto, ali ou
n'outra parte, estavamos, e sentiamos estar, em communicao directa. A
corrente superior e clara, era para ella a dos meus transportes; para
mim, a dos transportes--d'ella; mas ella e eu percebiamos no menos que
enviavamos affagos, e que elles chegavam aonde se dirigiam.

Ai, hora incendida e imperiosa de um meio dia de vero! hora em que os
passaros se calam a dormitar a sesta debaixo das folhas mais espssas, e
as cortinas das alcovas se fecham! via-a eu estar-se recreando n'um
crystallino banho de affectos, que eu mesmo lhe andra enchendo, que
a sua amiga lhe toldra de confidentes sombras, e onde a vigilancia de
ambas no deixava penetrar olhos extranhos. Aquelle deleite, de que eu
era tambem autor, me endeusava.

Estava fra de mim, sem saber onde. Por uma d'essas incoherencias que
to frequentes so nos sonhos, o logar era muitos logares ao mesmo
tempo: era Vairo; era a Capital; agora, uma sala entre uma bibliotheca
e um jardim; logo, um refugio campestre; e os moradores de cada um
d'estes paraizos, sempre os mesmos dois, e mais ninguem. O phantasma das
primeiras noites do laranjal de Almedina, era agora uma verdadeira
donzella, vivente como eu, incontestavel como eu, que me falava, que me
respondia em voz humana, a quem eu apertava e beijava com fogo a mo
elastica e macia.

Se algum som inesperado me quebrava a allucinao, e eu, reconhecendo o
dormitorio, advertia na imprudencia de permanecer to pertinazmente no
mesmo pequeno espao, retomava triste o meu passeio longo e solitario da
porta do terreiro at a da sala vaga, e d'esta at  magnolia.

A pouco e pouco me revertiam as fugidas illuses; as duas cellas
tornavam a ser o meu sacrario, o meu palacio, a minha Cythra. Mais
cauteloso ento o somnambulo, em vez de parar, afrouxava e emmudecia,
quanto lhe era possivel, o passo por diante do asylo dos seus mysterios;
applicava o ouvido da alma, e tornava a perceber, em termos sempre
novos, e com circumstancias sempre diversas, as mesmas confidencias que
o enlevavam.

Mais de uma vez aconteceu abrir-se inopinadamente uma porta no corredor,
e sair... um Religioso! quella appario mal agoirada, dissipava-se
todo o mundo phantastico; era como se um abutre se tivesse precipitado
sobre um bando de pombas! As sombras de Maria e Anna recebiam um suspiro
saudoso j a vinte leguas de distancia; e eu saha pelo terrado dos
viveiros, subia o arvoredo da quinta, e ia procurar junto ao Lago dos
Cedros refrigerio contra os ardores da febre, que indubitavelmente me
abrazava.


XXXV

O Lago dos Cedros de Santa Cruz de Coimbra era (no sei se o ser ainda
hoje) uma das mais donosas curiosidades de Portugal. Parece impossivel
que o riscassem assim para Conegos regrantes de Santo Agostinho, para
successores de S. Theotonio. Que o traasse D. Joo V para uma crca de
freiras de Odivellas, ou Luiz o grande, de Frana, para se estar com
Racine ou Molire, ou com as gentis collaboradoras dos seus romances,
nada mais natural.

Era no cimo de um suave oiteiro, uma esplanada espaosa, toda em
derredor cerrada de uma alta muralha de cedros, to a prumo, to massia
e de to renteada superficie, que no parecia seno muro solido pintado
de verdenegro por algum Cinatti. Portas arqueadas, rotas na muralha a
distancias eguaes, mettiam para alamedas seculares, que, descendo, e
dispartindo-se, todas ennoitecidas, murmurantes, gorgeadas, cheirosas e
ermas, iam buscar por outros pontos da crca novas amenidades, ou
taboleiros de flores, ou fontes e repuxos, ou obeliscos de murta, ou
estatuas devotas, ou inscripes meditabundas. Aos ps da muralha dos
cedros corre um canap rustico de porta a porta. O cho, atapetado de
fina relva, abre-se no meio em um lago amplo e redondo, com sua ilheta
ao centro, toucada de laranjeiras viosissimas, a namorarem-se com toda
a razo, verdes e doiradas, como o ceo azul, nas aguas crystalinas. Duas
bateiras sem dono, mas que o amor e o prazer podiam com iguaes direitos
reivindicar, so a flotilha d'este pequeno mediterraneo, d'onde, por
mais que faa a circumfusa mystica do ermo, no logra desterrar umas no
sei que lembranas e saudades da ilha de Chypre, e das nymphas que a
imaginao grega enxergava por entre as ondas do Egeu. Ali ao menos 
que eu idera o _Banho das Graas_, descripto por Narciso n'uma das suas
cartas; e ali  que eu devaneei o _Barquinho do lago encantado_, que vs
lestes n'este livro.

Nos assentos de cortia, ou no velludo do relvado, folgava de me estirar
a ss com o corao ainda agitado das scenas do dormitorio do Pilar.
A taciturnidade do sitio, todavia to melodiosa, vinha to de molde aos
soliloquios da Musa interior! Eu no pensava: borboleteava: deixava-me
boiar na virao pelos dominios infinitos da alma, ora tocando n'um
espinho e fugindo, ora poisando n'um jasmim e adormecendo.

Ha horas d'estas em que a gente senhoreia o planeta, e no  d'elle; em
que tudo quanto  solido, isto , duro,--fixo, isto , estorvo,--temido,
isto , tirannia,--elementos de que se nos compe a vida real a todos
quantos somos, se afunde a pouco e pouco e desapparece, e um relampago
de bemaventurana nos envolve com a sua luz visionaria. N'estas horas,
em que nos vingamos dos positivistas, recambiando-lhes o titulo de
doidos com que elles nos calumniam, foramos ns o destino a servir-nos,
como escravo docil aos nossos minimos desejos.

Fundia eu o possivel e o impossivel; corporificava-os; disfructava-os.
Dos raios do sol fabricava palacios de oiro para Maria; das balsamicas
exhalaes dos cedros, mocidade perpetua para ambos ns. Conversvamos
com os nossos irmos passaros, perguntando-lhes se os seus ninhos
continham tanta ternura como os nossos beros.

E haver quem deplore a vida como breve, guando n'ella cabem d'estas
immensidades! Grande ingratido! profundissimo desconhecimento!

Delicias so, mas delicias que passam! vocifera um incontentado. Oh,
que no passam! quando se cuidam idas, nol-as vem restituir a saudade.
As proprias lagrimas, com que ento as acolhemos, nol-as reverdecem;
outra vez as gozamos, porventura mais formosas que no seu primeiro ser;
e mais formosas e mais queridas sempre, de appario em reappario.
Negue-o quem quizer; no se lhe inveja a philosophia. Eu por mim sei que
tudo isto  muito verdade.

N'esta propria hora, j to remota, me estou eu ainda saboreando, como
presente, nos feitios do meu Lago dos Cedros; sou um espelho que
embebeu a viso, e j no a perde.

_O meu Lago_, disse eu! e por que no? se eu possui a pleno tudo
aquillo, o possuo, e no ha fora nem jurisprudencia que de tal me
possam despojar! Imaginavam os bons dos Conegos regrantes que eram
elles os senhores d'aquelles dominios, _mea regna_!... e um sopro, que
se levantou da parte do seculo, lhes sumiu todos os titulos de
propriedade. Os meus no se escreveram em pergaminhos, e existem; e
esto-se rindo de revolues do mundo: _mea regnas_. Sabeis porqu?
porque a mim foi a Natureza, e seu filho o Amor, quem me fez a doao; e
a elles, tinha-lh'a feito um chimerico direito regio sobre todo o solo,
bens, e futuros, de nossa terra.

No dia em que os despediram, como illegitimos detentores de uma
propriedade commum, perderem um gozo material; e nada mais perderam,
porque posse espiritual, comparavel  minha, nunca elles a chegaram a
tomar. No era para elles que as aves cantavam contentamentos, que as
arvores vicejavam esperanas, que as fontes murmuravam nomes de
ausentes, que as viraes calidas exhalavam phyltros, que os effluvios
das flores namoravam, e que a solido era povoada; tudo isto, quem o
disfructava era o poeta, que o est ainda disfructando.


XXXVI

Que grande erro social, que nefando peccado de prosa, no foi: que na
hora audaz, em que se arrancaram do solo os troncos seculares carcomidos
e sccos das Ordens religiosas, se no mettessem logo para o logar
d'elles plantaes novas, de optima qualidade, que to bem haveriam
pegado! Extirpavam um preterito que ensombrava e assombrava; bem era;
mas quantos queixumes e clamores se no teriam afogado  nascena, se
logo semeassem, ali mesmo, futuros apropriados s necessidades j
conhecidas da presente edade, e das edades ulteriores!

Estes conventos-palacios, estas crcas-principados e paraizos, estas
grossas rendas, por que se no applicaram a abrigar e manter, isto , a
salvar, recompensar, e aproveitar, poetas, artistas, e sabios, que so,
cada um a seu modo, outros tantos solitarios por vocao, e que do fundo
dos seus ermos encantam o mundo com prodigios? No ha Religiosos que
mais deveras honrem e manifestem a Potencia Creadora. Como a
convivencia quotidiana, de todas as horas, diurna e nocturna, com
tantos engenhos e talentos variadissimos, fecundaria a cada um com o
polen de todos! Como o pintor influiria no poeta, o poeta no musico, o
musico no estatuario, o estatuario no historiador, o historiador no
philosopho, o philosopho no moralista! Como os bisonhos reaqueceriam
com o seu fogo aos veteranos! e os invalidos, se os l houvesse,
encaminhariam com a sua experiencia s aguias no seu primeiro adejar 
borda do ninho!

Ento sim, que todo este maravilhoso poema de Deus, chamado Creao, no
qual todas as artes se travam e permutam em harmoniosa competencia,
seria lido se traduzido em voz alta s multides; e em quanto o mundo
physico se dilatasse em riquezas e commodidades palpaveis, haveria, aqui
e acol, grupos seriamente religiosos, que lhe estariam elaborando ares
mais respiraveis para o espirito.

No , no  utopia; que o digam, e infinitamente _a fortiori_, os
caudaes litterarios e scientificos, de que foi matriz a ordem Benedictina.

Depois de cahido o colosso monacal, sepultado no desprso, quasi no
esquecimento, e recoberto com montanhas de odios como o Typheu sob os
promontorios da Sicilia, fra valentia covarde hoje em dia, zlo
superfluo, e actividade ociosa e ridicula, restaurar o processo
condemnatorio das Ordens religiosas, j trancado. Permitta-se-nos
entretanto ponderar em proveito da ideia que aventavamos: quo inuteis,
comparados com estas congregaes de sabios, de artistas, de poetas, no
eram, por exemplo, aquelles reclusos de Santa Cruz de Coimbra! Que
beneficios lhes deveu o mundo em tantos seculos? que vestigio deixaram
da sua existencia? que tradio, ao menos, de santidade? Alcanmos
ns ali algum successor de S. Theotonio, ou de Santo Antonio, d'este
sympathico e popular Santo Antonio, que experimentou Santa Cruz e a
refugiu por mal conforme ao seu espirito humilde e penitente? De todo em
todo, nada.

Estava sendo um feixe de homens absolutamente negativos:--nem
illustrados, nem ignaros; nem aristocratas, nem democratas; nem
beneficos, nem maleficos; nem do povoado, nem do ermo; nem
desconsolados, nem contentes; nem escandalosos, nem edificativos.
Apenas tinham de vida quanto bastava para no serem enterrados. O seu
Prior subia uma vez por anno  Universidade, a abrir como Cancellario a
sala dos exames privados, e voltava para a hybernao. Mostravam a sua
livraria, como os tumulos dos dois Monarchas: sem tomarem d'elles, nem
d'ella, coisa alguma; mostravam o seu santuario, como a espada de D.
Affonso I: tudo reliquias sem virtude excitativa; mostravam as suas
quintas com desvanecimento, mas bocejando. As Imagens de pedra, l fra,
na frontaria da egreja, geladas e immoveis entre ninhos e hervinhas
floridas, no eram menos insensiveis do que elles n'este banho da
Natureza to viva e voluptuosa. Tanto lhes diziam j a elles as harpas
elias das ramadas, como os vultos de marmore dos quatro Evangelistas,
ou das tres Virtudes theologaes, o do seu Patriarcha Santo Agostinho, ou
os conceitos mysticos estampados pelos azulejos. Indifferena para o
Co, indifferena para a terra.--Viver tal no valia a pena.

Quando o anjo da espada de fogo os pz fra do eden, s poderam levar
saudades do ocio descuidoso e farto que se lhes acabava; mas que
deixasse nenhum vacuo a sua ausencia.... no deixou de certo. No houve
perda; mas podra ter havido lucro, se, como vinhamos conversando,
quelle solipsismo de todo o ponto esteril, tivera succedido uma
congregao nova:--a dos crentes no bello, a dos devotos das artes, das
sciencias, da poesia; e dos que tecem coroas de luz para a civilisao.

Mas que digo eu _no houve perda_? assim mesmo a houve, e, se bem se
considerar, no to pequena.

Estes dominios arrancados s Ordens religiosas, que lhes mantinham o seu
cunho de perpetuidade, e os facultavam ao usofruto de toda a gente,
passaram, pelo engdo de quatro cobres, com que nem a pedra dos
alicerces se pagaria, para a mo de um particular qualquer: um Silva, um
Guimares, ou um Vianna, que apeteceu palacio, hortas, e parque para a
sua familia. Desde logo, trancados os portes a poetas, a amantes, a
meditativos, dispersos os livros e os quadros, o espirito burguez
comeou por dentro a desfigurar tudo, a compartir, a amesquinhar,  sua
imagem e similhana. Os Evangelistas, que escreviam to attentos os seus
livros havia tantos seculos, no estio  sombra das copas, no inverno
 dos troncos, foram talvez dormir para algum recanto. O arvoredo, que
s produzia meditaes, produziu taboado ou carvo, e deixou livre a
terra para crear mais algum moio de milho; o Maio levou tambem d'ali os
seus ermites, os rouxinoes, para onde houvesse menos especuladores e
mais sombras, menos estrondo e mais Natureza, menos mundanidades e mais
ninho.

Inuteis por inuteis, excusados por excusados, antes aquelles semimortos,
a quem acabmos de matar, do que estes taes vivos; e antes mil vezes que
todos elles, a nossa ideal republica de talentos e de genios.

D gosto a quem sabe dizer, como Christo ao Diabo, que o homem no vive
s de po, phantasiar o que haviam de dar de si estas novas colmeias,
estes mixtos de gymnasios de exercitao, e Runas de repoiso! os favos
que ali se espessariam de poemas, de operas, de musicas populares, de
romances, de historias, de philosophia, de sciencias, de tudo quanto ha
de mais saboroso e nutritivo para a alma! Como o soldado dos _Lusiadas_
seria feliz, e quo mais copioso testamento de versos de oiro houvera
deixado, a ter existido no seu tempo um tal refugio! Poupava-se ao amigo
Ju o trabalho de mendigar para elle, e  velha Barbara o vexame de lhe
esmolar da sua pobreza

E de Cames para c, quantos at hoje, da sua familia poetica, que
morreram  nascena ou se extraviaram e perderam, no estariam agora por
cima das nossas cabeas a resplandecer!

A terra e o ar a criarem-nos sempre n'esta regio de beno, e ns
sempre n'esta plaga de maldio a desperdiarmos! S tres seculos depois
de mortos advertimos em que ainda no morreram, e nos lembramos de lhes
ir buscar uma pedra para monumento. A honra aos ossos, essa que espere
mais dois seculos; no tem pressa; agora descana-se.

Pobre Cames! se a tua Santa Cruz, esse torro inspirativo, onde tu
mesmo havias poetado tambem nos dias da tua mocidade, fosse j ento
isto que lhe eu cubiava nos meus entresonhos  beira do Lago dos
Cedros, e te hospedasse com orgulho nas suas sombras, abastado, seguro,
escutado, e applaudido de outros cysnes, no saberias ter suspirado
no teu ultimo canto aquelle triste verso

    _o gsto de escrever que vou perdendo;_

nem aquella estancia, que ainda nos faz crar por nossos bisavs:

    Vo os annos descendo, e j do estio
    h pouco que passar at o outono;
    a fortuna me faz o engenho frio,
    do qual j me no jacto, nem me abono;
    os desgostos me vo levando ao rio
    do negro esquecimento, e eterno sono;
    mas tu me d que cumpra,  gro Rainha
    das Musas, co'o que quero  Nao minha.

O que tu pedias  Rainha fabulosa das Musas, haver-t'o-hia liberalisado,
sem rogos, a esclarecida previdencia da Nao, ento devras tua, e de
todos os que, como tu, se desvelam pela engrandecer.


XXXVII

Assaz e de sobra tenho sonhado; levantemo-nos, que so horas de nos
irmos chegando ao fim da nossa jornada.

Alm de Santa Cruz, outros muitos sitios, onde o acaso me levou pelos
arredores de Coimbra, e mais longe, vieram entretecer na tela do meu
permanente affecto os bordados das suas peculiares inspiraes.

As _Ruinas do Mosteiro_, por exemplo, nasceram da contemplao
melancolica dos restos do convento de Santa Clara,  beira do
Mondego[4], e de uma visita de passagem aos destroos de um
cenobio de monjas, no sei j de que Ordem, em Moimenta da Beira.

As _Duas Palmeiras_, colhi-as n'uma excurso  magnifica matta do
Bussaco.

A _Rega dos pomares_, deu-m'a ao descahir de um dia de vero a quinta
suburbana das Setes Fontes.

A _Noite do estio_, passou-se me tal em realidade na quinta de Santa
Margarida, n'um cedral que l havia n'esse tempo, e j no ha, bem ao
rs do Mondego. Era a noite (se podiam esquecer coisas d'estas!) era a
classica noite da romaria annual do Senhor da Serra, quando bandos de
peregrinos e peregrinas de longe, de muito longe, trajados de gala 
moda de suas terras, enramados de verde, seguindo as violas, e
alternando nas cantigas a devoo e os amores, veem pernoitar na cidade,
pelas varzeas, pela ponte, pelas quintas, para seguirem juntos para a
serra em comeando o primeiro desmaiar de estrella na antemanhan.

At a _Feiticeira_ (quem o crra! crel-o-ho agora, porque de vergonhas
ficticias ninguem se jacta) a _Feiticeira_ mesma teve, sob os enfeitos
ou disfarces da poesia, o seu fundo de realidade. Morava a boa da velha
n'um casebre escuro da rua da Figueirinha; tinha fama, n'esse tempo, de
ser uma das sibyllas que melhor atinavam com os futuros, e com mais
certeira mo pescavam o perdido nos abysmos do passado. Rira-me eu
sempre de gente d'esse lote, e espanto-me hoje de quem se no ri d'ella;
mas poeta, criado com os supersticiosos Romanos, amante e com to poucas
certezas fixas a que me apegar, disse um dia entre mim:

    _................... quid tentasse nocebit?_

e dirigi-me para a nova Cumas, como podra ter ido  ta para outro
qualquer passeio. Colhi prognosticos ruins; no lhes dei f, mas sahi
triste. O tempo (bem haja elle) os desmentiu de todo o ponto.


XXXVIII

Abrara meu irmo, por muito livre e muito reflectida escolha sua, o
estado ecclesiastico. Pelos meus gostos imaginais os seus; o parochiar
nos campos, bem vedes se lhe no seria incentivo de ambies.

No ha viver mais poetico para um espirito amante do remanso e do
estudo, e avido de bemquerenas, nem mais talhado para dar largas a
uma actividade bemfazeja; diziam-lhe que era enterrar o seu talento e
saber; respondia que antes era pl-os, se porventura os possuia, onde,
embora entre humildes, melhor poderiam resplandecer; e que, assim como
uma egreja entre mattos e casaes era mais egreja, que cercada de ruas e
trfego, tambem a eloquencia podia ser impunemente mais viva, mais
caudalosa, mais remontada e mais pathetica, e sobre mais formosa mais
efficaz, e mais eloquencia em todo o caso, entre os singelos filhos dos
campos, do que entre os zombeteiros moradores das cidades.

A todas estas razes lhe acrescia outra, que elle no declarava, mas que
eu bem sabia ser-lhe a principal: n'um presbyterio rustico, se o
conseguisse, se nos devolveriam em commum dias,  feio d'aquelles que
a leitura dos nossos poetas nos havia costumado a cubiar.

Cumpriram-se-lhe os votos. A senhora Infanta Regente D. Isabel Maria o
proveu no Priorado de S. Mamede da Castanheira do Vouga.


XXXIX

A 23 de Outubro de 1826 entravamos, com o alvoroo da novidade, e cheios
de vagos projectos no pequenos, pela alpestre regio s abas da serra
do Caramulo.

Nada mais avsso s amenidades que nos ficavam em Coimbra! solo magro,
ondado, mattagoso, ermo, roto de quebradas e algares, selvoso por
intervallos, salpicado a longe e longe de alguma escassa pvoa recoberta
de loisas ou de feno, e retalhado de rios e ribeiros profundos e
pedregosos! No descampado um passal, antiga quinta das Limeiras dos
Condes da Feira, que ali se iam pelos veres montear javardos! Ao
centro do passal, e  beira da via publica, o templo de S. Mamede com
seu adro arrelvado cingido de cerejeiras, platanos e nogueiras! Por
detraz do templo, emboscada, a residencia parochial! Por detraz d'ella
despenhadeiros at um rio, que o sol no avista em cada dia por mais de
uma hora!

Repicavam os sinos dando as boas vindas ao novo Pastor.

--Onde est a freguezia? perguntavamos ns maravilhados:



_Qui teneant (nam inculta videt) hominesne, ferne?_



--Dispersa, escondida pelos oiteiros, a uma parte e a outra, distancias
muito largas. O unico visinho proximo da egreja e do presbyterio era,
l para a orla do passal, S. Sebastio na capellinha branca, como que
posto de guarda  sua profusa e rumorosa matta de sobreiros.

Solido silvestre mais caracterisada, no quero que a haja. A poesia e
as festas da serra (que nada ha to desamparado que no tenha suas
festas e poesia) s depois e com o tempo  que tinham de nos vir
apparecendo.

Entrana to desabrida infundiu-me tristeza; e o alvoroo em que o
movimento e variedade da jornada nos trouxera, breve me degenerou em
esmorecimento. Se me vinham to frescas e presentes as memorias, no s
da cidade do Mondego, seno tambem da minha Lisboa natal, d'onde to
poucas semanas havia que eu sahira! Vermo-nos agora de improviso
sequestrados de todo o trato humano, em paragem na qual no havia porqu
nem para qu numerar as horas, e onde a carranca dos sitios tinha um
cunho to profundo de immutabilidade, que o espirito se confrangia, e se
gelava o corao!

Pela primeira vez ali o namorado da Natureza se amuou, e teve com ella
os seus arrufos.

Se o permittis, ouvir-lhe-heis versos em que procurou desabafar:

                    A PRIMEIRA NOITE NA SERRA

            _.................ibi hc incondita solus_
            _Montibus et silvis studio jactabat inani._

    Vlo? Sonho? Deliro?! Em solitario monte,
    que se espanta de ver-me, e cuja austra fronte
    nada avistou jamais no amplissimo horizonte
    do mundo a tumultuar, de cidades a rir...
            n'este ermo ignaro, frio? mudo...
    aqui... (deliro? ou sonho?) aqui meu lar, meu tudo,
            o meu presente e o meu porvir!
            Genio invisivel da montanha,
            de astros, de sol, o ceo te banha;
            o mar de longe te acompanha
            no livre cantico sem fim.
    Escada de Jacob da terra ao firmamento,
            a manso tua  monumento
    da potencia, do amor, das glorias d'Elom.

    Emquanto, em derredor do solio teu sublime,
    a baixa terra vil que a instavel sorte opprime,
    se volve, se transforma, e sua angustia exprime
    n'um continuo anhelar, n'um confuso clamor,
            a variedades sobranceiro
    mantens-te qual surgiste, e do cahos primeiro,
            e do diluvio assolador.

            Silencio e paz comtigo habita;
            o ermo  como o eremita;
            loucas vaidades no cogita;
            ama o seu rustico trajar;
    em apparente inercia ama que ferva occulto
            de seus affectos o tumulto,
    seus extasis, seus ais, seus gostos, seu orar.

    Sim, Genio da montanha, Archanjo de poesia:
    eu creio em ti; eu creio em que alma ingenua, pia,
    pde ouvir de tua harpa a casta melodia,
    e abrazar-se de amor e endoidecer por ti;
            sim; mas eu, frivolo, profano,
     solido extranho, affeito ao mundo insano,
            que hei de esperar? que tenho aqui?

            Toda a minh'alma se entristece,
            e se confrange, e se ennoitece,
            ao ver que a sorte lhe destece
            de um sopro os aureos sonhos seus.
    Sonhava applausos, gloria... em desterro desperto!
            sonhava mundo... acho um deserto!
    sonhava inda illuses... e escuto-lhes o adeus!

    Nufrago, perco a lyra em meio da viagem.
    Deso vivo ao sepulcro! Em ti, fatal paragem,
    quem me resurgir! Dos montes a linguagem...
    oio... escuto... medito... e em vo quero entender;
             como uns sons d'ignota fala;
    qual s penhas o mar, me inunda e me resvala,
            sem me abalar, nem me embeber.

            Oh!  minh'alma taciturna
            que importa,  montanha soturna,
            que de perfumes sejas urna
            da terra erguida sobre o altar?
    que o ceo te ria azul, mais amplo e mais de perto,
            que o sol doirado, ao teu deserto
    mais cedo suba, e  tarde o desa com pesar?

    Vir mais tardia a noite, a aurora vir mais cedo,
    que me aproveita? Inerte entre o immovel fraguedo,
    s ouvindo os tufes e os corvos no arvoredo,
    bramirei:--Cresce o tempo! oh! supplicio cruel!
            so mais pesares, mais saudades,
    mais estro a arder em vo, mais vises de cidades,
            mais tentaes a dar-me fel!...--

            Ai! mundo! ai! eccos seductores!
            Tanto vate a ceifar louvores!...
            Tanto moo a colher amores!...
            Tantos loireiros e rosaes...
    E eu n'esta solido a torcer-me arraigado,
            qual roble que geme indignado,
    vendo ao longe no Oceano os lenhos triumphaes!

    Assim ruge, baldo de vingativo nume,
    esse que a argilla outr'ora encheu de ethereo lume;
    assim nos gelos sua, agrilhoado ao cume
    do caucseo alcantil, seu cadafalso atroz.
            S o abutre de eterna fome,
    que o grande corao algoz sem fim lhe come,
            responde em ais  sua voz.

            Fenece o dia. Hora jocunda,
            que eu tanto amava! hora fecunda
            dos cantos meus! porque me inunda
            nova amargura o corao?
    Sino crepuscular, tas funreo dobre?
            a serra em luto se me encobre;
    a nocturna mudez duplica a solido.

    Nenhuma luz scintilla; humana voz no sa.
    De estrellas a accender-se o Empyrio se pova;
    tal a fada Coimbra, a senhoril Lisboa,
    nest'hora a quem as olha, entram no escuro a abrir
            de luzeiros um labyrinto.
    Ceos! No oio eu troar... seus coches!... O que sinto
             vento em selvas a rugir.

            Calae, fugi, ventos agrestes;
            sumi-vos, lampadas celestes;
            n'um seio a delirios j prestes
            no susciteis mais tentaes.
    Ou antes... aturdi-me, Euros bravos; ou antes...
            vs, astros, cifras de diamantes,
    O arcano me aclarae l d'essas regies.

    Oh! se  minha razo, contradictoria, altiva,
    que s trevas sente horror, e  clara F se esquiva,
    de vs, faroes do Geo, baixasse a crena viva,
    que aos moradores do ermo inspira a vossa luz!...
            se me volvesseis as ditosas
    esp'ranas que hei perdido, alvas, ethereas rosas,
            com que se enfeita e esconde a Cruz!...

            Tornar-se-me-hiam de improviso
            a solido, em paraizo;
            a magua, em perenne sorriso;
            em alto cantico, a mudez;
    a mallograda lyra, o no colhido loiro,
            em harpa augusta, em palmas d'oiro;
    e o monte, solio ento, veria o mundo aos ps.

    Delirios sempre vos, fugi d'um peito enfermo;
    tu, s tu, negra morte, has-de ao meu mal pr termo;
    ermo para ambies, e inferno, e no ermo;
    para a humilde piedade  que elle espelha o Ceo.
            Gentis phantasmas de cidades,
    vinde, escondei-me o ermo em vossas claridades,
            como um esquife em aureo veo.

            Vinde, cercae-me, endoidecei-me,
            (embora em saudades me eu queime)!
            O somno, as vigilias enchei-me
            da vossa esplendida vizo.
    Val o riso choroso as festas da loucura?
            vinde, guiae-me  sepultura,
    crente no amor, na gloria, e rindo  solido.

    Eu blasphemo, eu desvairo! Aos encontrados votos,
    nem ecco respondeu n'estes coves ignotos.
    No, cumes glaciaes, to outros, to remotos
    dos sitios que eu amava, e em que esperei morrer;
            no, no silvestre seio vosso,
    nem de amenas fices apascentar-me posso,
            nem menos as posso esquecer.

            Valor! valor! Quem do futuro
            sondou jamais o abysmo escuro?
            Apenas chego e j murmuro!
            O de que tremo acaso sei?
    Esperemos: talvez que inglorios, mas doirados,
            aqui me aguardem, recatados,
    dias de estro e de paz, quaes nunca disfructei.

    Se alm, no presbyterio, humillima choupana,
    (Vaticano, e Queluz da pobre grei serrana)
    mais que fraterno amor sollicito se afana
    em me afofar o ninho, a vida em me inflorar;
            se n'um retiro verde e mudo,
    por elle tenho o leito, a mesa, o doce estudo,
            sombras no estio, o inverno ao lar;

            se a solido que me apavora,
            smente o fr vista de fra;
            se em seus recncavos demora
            gente feliz, povo de irmos;
    se do antigo viver, das crenas de outra edade,
            vestigios guarda a soledade;
    se poesia se vive entre estes aldeos;

    se a alegria, serena, isenta de pesares,
    como a fresca saude, habita os puros ares;
    se em toda a parte ha Deus, em ceos, em terra, e mares,
    se Deus em toda a parte a Natureza ri...
            corao meu, no desanimes,
    gozos que no prevs, e cantos mais sublimes
            encontrars talvez aqui.

            Ah! sendo assim, que importa a fama!
            Tambem philomela derrama
            sua harmonia s selvas que ama
            longe de ouvintes e do sol.
    Cantarei. Meu cantar mais ambies teria
            que a viva, a lustrosa poesia
    de perolas que a flux borbta o rouxinol?

Sete annos se nos gastaram por ali, menos estranhos em verdade, menos
difficeis e arrastados, do que o eu temra, ao trocar, to a subitas,
cidades e amenidades por brenhas alpestres, to desconversaveis  primeira
vista. Tivemos tempo de sobra para nos irmos aclimando e afazendo, e
haurindo poesia mesmo dos penedos, e estillas de mel mesmo dos urzaes. Mas
tudo isso pertence a outro livro, onde algum dia folgarei de hospedar os
meus leitores; chama-se por signal _O Presbyterio da Montanha_.


XL

Tem a solido isto de commum com o silencio e a escuridade: espanta e
aturde a quem n'ella ci; mas logo que o ouvido, desadormentado dos sons
fortes, aprende a conversar com a mudez; tanto que os olhos,
desoffuscados dos luzeiros intensos, se exercitam em caar espectros de
raios, phosphorescencias indecisas, que so como que os infusorios das
trevas, descerrou-se o negrume em brilhantismo; a calada aviventou-se de
dialogos; a solido, que parecia o nada,  o theatro com o seu drama; 
um mundo novo com um systema completo de existencias imprevistas e
apropriadas.

Que admira! A solido medita, e a meditao cria.

Os sentidos pastam s no que lhes offerecem a Natureza, a fortuna, o
acaso; a divindade interior, a alma, tem commercios ineffaveis com o
intimo e ignorado. S. Joo, entre os nevoeiros de Pathmos, divisa uma
Jerusalem celeste; nas cogitaes de Socrates, apparece o Omnipotente:
nos extasis de Plato, reflexos da Trindade; nos calculos taciturnos de
Galileu, firma-se o sol, volteiam os planetas; Colombo faz surgir do
fundo dos mares a America; Leverrier, mais globos no espao; Fulton, o
hypogripho, o pgaso do vapor, magia, poesia, potencia escrava do homem,
e dominadora, primeiro dos oceanos, depois dos continentes, e amanhan
talvez dos ares; a solido cismadora, d a Eneida a Virgilio; mostra a
Linneu os amores e o somno das plantas; a Dante, o inferno; a
Fourier, o paraizo terrestre; a Newton e a Laplace, o codigo dos astros;
a Daguerre, os talentos artisticos do sol; ao Gama, o caminho do
Oriente; ao soldado Cames, o da immortalidade; pe na mo de Guttemberg
a chave do cofre das sciencias; na de Vicente de Paulo, a da caridade;
na de Say, a da riqueza publica; na de Pestalozi e Froebel, a da escola
sria e fecunda.

Assim como na associao est a potencia do effectuar, est na solido a
potencia ao descobrir, e a ideia germen do facto. Na solido, a
meditao; a aco, na sociedade. O progresso e a vida do mundo dependem
da cooperao d'estes dois elementos antagonistas, como da attraco e
repulso a marcha das espheras; e to fanatico  o fanatico do ermo,
Brahmane, Esseno, ou Monje, que cifra tudo no espirito, como o fanatico
da actividade material, que tudo cifra na materia. Este ultimo 
elemento visivel e palpavel; aquelle, elemento imponderavel dos destinos
humanos; e to imponderavel e subtil, que muitos lhe contestam de boa f
a existencia, os influxos, a importancia.

Archimedes, a ss com a Natureza e com o seu genio, descobre os meios de
destruir e incendiar a frota romana. Absorto em suas reflexes
criadoras, no seu gabinete, como n'um antro, no sente o estrondo da
cidade, j senhoreada dos inimigos; no acorda  voz do soldado de
Marcello, que, de espada em punho, lhe ordena que o siga; sem o sentir 
degolado. Cai a grande cabea, irman entre irmans, no meio das espheras
celestes que est architectando. S de to extraordinaria concentrao
podiam brotar os seus to extraordinarios inventos e descobrimentos.

Lavoisier, outro dos martyrisados pelo materialismo descrente e brutal,
depois de haver testado ao mundo a mais opulenta herana scientifica,
condemnado ingrata e cegamente  guilhotina, que  o que pede aos
verdugos revolucionarios seus juizes? uma dilao de quinze dias. S
uma dilao! s de quinze dias! para qu? para concluir trabalhos
uteis  humanidade, que n'este momento o desconhece; rematados elles, j
no ter pena de morrer. Recusam-lh'a; ento caminha sereno a depr no
cadafalso uma cabea maior talvez que a de Archimedes, e ainda na
vespera coroada de loiros pelo Lyceu.

Tanto a actividade fecundante, recolhida por instincto para os penetraes
mais sagrados do animo, d'onde se conversa em extasis com Deus e com a
Natureza, com e Pae Omnipotente e com a Filha Formosissima, nossa irman,
fica inaccessivel aos maiores cataclysmos externos, s catastrophes das
Syracusas, ao cahos, providencial porm medonho, de uma revoluo franceza.

O homem que nasce pertencente  escassa familia d'este naturalista pae
da Chimica, e d'aquelle gemetra pae da Mechanica, mesmo com os braos
cruzados sobre o peito, mesmo com os olhos fechados, mesmo dormindo e
sonhando, est servindo como operario; mas abaixo d'elle ha ainda, no
menos veneraveis, os prestigiosos scismadores do mundo da Arte, mundo
no menor, nem talvez, em ultima analyse, menos util que o da Sciencia.

Andr Chnier, especie de Lavoisier da Poesia, convocado tambem para o
festim da morte, no  dos prazeres ephemeros da existencia que leva
saudades;--bate apaixonadamente raivoso na fronte, porque sente se lhe
estava ali dentro formando, como em cerebro olympico, uma nova Musa
gentilissima. Quem lh'a revelra? A meditao solitaria, que sabe tudo,
e tudo prophetisa.

Bonissima solido! Tu s para a sociedade o que as tuas montanhas so
para os valles: nas tuas entranhas se filtram, dos teus reconcavos
rebentam, os genios possantes e profundos que vo derramar por longe a
fertilidade. Mas tu no s s me s torrentes caudaes; uma fontinha
entre lapas, desconhecida, no se goza menos do teu favor. Sobre o pouco
liberalisas dons, como sobre o muito; prvida para o immenso, prvida
para o limitado. Solido, Egeria das almas eleitas! solido, buscada
por Christo, abraada por Jocelyn, adorada por Petrarcha, explorada em
tuas minas de oiro por Zimmermann, inspiradora de Volney, de Rousseau,
do Infante de Sagres, de todos os videntes, de todos os descobridores,
de todos os inventores, de todos os Baptistas! Solido, ninho das rolas
como das aguias, perda, se eu no sabia ainda apreciar-te.

S agora, depois de arrancado d'ella ha tantos annos que j a
podra ter esquecido, s agora  que decifro (se porventura no 
miragem do amor proprio), que a seriedade austera e o sorrir melancolico
da montanha vieram to de proposito entremear-se na minha vida poetica e
amoravel, como a primavera do Pao do Lumiar e as do Mondego.


XLI

Os meus sete annos da serra, s de longe a longe interrompidos por
algumas breves excurses a Coimbra, e uma a Lisboa, contiveram forados
e sobejos ocios para eu pensar em alguma coisa mais duradoira e menos
egoista que as rosas e os amores; direi melhor:--iniciaram-me um tanto
nos segredos de outra esphera menos baixa, na qual ha flores tambem, mas
que no murcham; ha tambem ternuras, mas que abraam o genero humano.

O presbyterio, com a nossa bibliotheca semi-pagan, homiziava-se  sombra
do templo do pastorinho S. Mamede. O campanario s chamava para a orao
e para festas um povo que se no via, e que aos eccos d'aquelles
repiques parecia rebentar da terra. Relogio, no o tinha; contentava-se
de pregoar a saudao angelica nos dois crepusculos e ao meio dia. As
horas, que so do tempo, desdenhava-as como alheias ao pensamento da
immortalidade. O silencio era profundo e geral; seria sem quebra, se o
no interrompessem as musicas da Natureza no ermo: os passarinhos por
fra das duas portas abertas da egreja, as cigarras nas oliveiras do
passal regaladas no seu banho de sol, as rolas e os cucos no sobreiral
de S. Sebastio, as aves domesticas no nosso pateo espaoso, os grillos
pelos silvados, os lertas dos gallos, os uivos dos lobos, os pios dos
mochos pelas noites, o frmito do vento pelos pincaros do pomar,
enclausurado e protegido com o tugurio no recinto de muros altos, e s
vezes tambem nos temporaes, pela montanha de heras de que se toucava
entre platanos o porto hospitaleiro da vivenda.

N'este intermundio o que passava l ao longe pelo Reino era quasi to
desconhecido como as occupaes dos moradores dos outros planetas. Das
raias da serra a fra s tres nomes nos constavam ao certo, porque
nol-os dava a collecta da Missa: de um Papa, de um Bispo, de um Rei; os
parochianos que no sabiam o latim, nem a tanto chegavam, cuido eu; o
que lhes no vedava serem muito boa gente, muito bons christos e amigos
da Patria, em que lhes constava achar-se encravada a sua montanha.

Povos de to benigna condio, facil era, e gostoso, pastorel-os.
Homens to montesinhos e sfaros, mas ao mesmo tempo doceis,
intelligentes e activos, grande obrigao era, alm de dever civico,
humano, e religioso, arrotel-os para um pouco de civilisao, ou para
muito, se possivel fosse.

Agras e agerrimas so de si as entreprzas d'este genero; mas por isso
mesmo  que alliciam almas generosas.

Grande era, e excellente, a alma do mancebo Parocho!

Novas leituras, novos estudos, em razo de seu officio, se houveram de
enxertar nos nossos anteriores conhecimentos, s poeticos pelo de mais.
Pegaram s mil maravilhas; ganharam extraordinaria fora em razo da
seiva que j encontraram prevenida.

Pelas suavidades da Litteratura vai bom caminho e muito direito para a
Philosophia e para a Moral; por isso no sem razo lhe chamaram estudos
humanos, ou humanidades. Devormos com avidez de poetas as eloquencias
de Bossuet, de Bourdaloue, e de Massillon; as obras dos Santos Padres, e
 mistura as de quantos escriptores sociaes, civilisadores, iniciadores,
e alvitristas sinceros, nos occorreram.

Uma vez lanado o espirito por este caminho, no pra; nascem-lhe as
cubias umas de outras; ambiciona e parece-lhe que ha-de abarcar infinitos:

    _Jam modo non possum contentus vivere parvo._


XLII

Que poesia deliciosa no ha-de ser a que referve na cabea e no peito
de um colonisador humano: Cadmo, Amphio, Dido, Romulo, ou Cabet!
Que sonhos magnificos no havia de sonhar toda essa gente!

Pois um Fnelon a planejar Salentos!

Pois um Voltaire a fazer homens dos seus serranos do Jur!

Pois um Goldsmith a conviver com o seu vigario de Wakefield!

Pois um Daniel de Fo a trabalhar com o seu _Robinson Cruso_, e um
Wyss com o seu ainda mais util _Robinson suisso_!

Pois o _Medico da aldeia_, o _Vigario das Ardennas_ e o _Cura
campestre_ de Balzac!

Pois Bernardin de Saint Pierre com a sua _Arcadia_ e a sua rpublica de
felizes!

Pois os Jesuitas domesticando os selvagens do Paraguay!

Pois um Henrique IV a scismar com a gallinha na panella de todos os
seus subditos!

Pois Olivier de Serres a transformar com as amoreiras a selvajaria do
Vivaret em vergel de afortunados!

Pois a parochia de Jocelyn!

E muito mais e melhor que a parochia de Jocelyn, o Bispado do nosso D.
Francisco Gomes do Avellar!

Meu irmo sonhou tambem, e eu com elle por conseguinte, na procura da
felicidade alheia; e parece-me que o nosso affinco perseverado em certos
projectos competentemente amadurecidos, e de prestimo indubitavel,
alguns effeitos plausiveis haveria dado de si; porque l n'aquellas
terras ainda hoje  grande a autoridade moral e a fora persuasiva de um
Parocho, sobretudo quando sabem e sentem que  bom homem; ser bom homem
 em seu conceito a primeira das sabedorias.

Entraram-se porm dentro em pouco os tempos a cerrar; cresceram
desconfianas no futuro; vieram-se avisinhando temporaes, que por
derradeiro nos arrancaram tambem a ns, depois de dispersas pelos ares
as nossas utopias.

Uma d'ellas, que de certo se teria realizado, sem contradices nem
bulha, era: que nenhum morador da serra, menino, nem velho, nem adulto,
nem lavradora, nem ovelheira, deixaria de aprender as primeiras lettras;
para o que, lh'as iriamos levar s suas proprias aldeias em cursos
nmadas e temporarios, concertados com as estaes, e em harmonia
com as lidas agrarias. Instruida a primeira camada, facil era, ou facil
nos parecia a ns que seria, colhr de entre ella mestres e mestras que
pela modica recompensa de alguns punhados de gros, uns armos de linho,
ou um tudo-nada de cobres, continuassem o ensino em suas terras.

O saber ler de que serviria, faltando que se lesse, e que valesse a
pena de ser lido? Tinha-se assentado portanto em escolhermos,
resumirmos, traduzirmos, simplificarmos, humanarmos, e, se tanto fosse
necessario, comprmos, opusculos destinados a darem aos nossos neophytos
da religio da luz noes claras e exactas das coisas mais importantes
da natureza physica, da religio, da moral e deveres mutuos; quanto
bastasse de historia, e o mais que possivel fosse de carta de guia para
cada uma das culturas, para cada um dos mistres, j por ali
empyricamente costumados, ou dos que se podessem com a boa vontade
introduzir.

Uma typographia modesta, de um s prelo, bastava, e com um s
compositor, que podia at ser um clerigo, para se no distrahirem os
trabalhadores, facilitaria esta sementeira de industria e civilisao.
Os pises dos bureis, as ms dos moinhos, as galgas do azeite, e os
fusos dos lagares do vinho, l poderiam extranhar nos primeiros dias,
verem levantar-se por entre elles um engenho que no deitava nem comida,
nem bebida, nem vestido; mas no tardaria que descobrissem como tudo
isso, e muito mais, dimanava milagrosamente da bemdita machina, a mais
servial amiga de todas as machinas, de todas as artes, de todas as
sciencias, de todos os melhoramentos, de todos os progressos, de todas
as alegrias, de todas as verdades, de todas as consolaes, de todas as
glorias, de todos os arroteamentos, de todos os aperfeioamentos, de
todas as conquistas.

A imprensa no ermo, a imprensa na Residencia parochial, especie de
cabana disfarada com limeiras e rosas, no podia deixar de ser uma
imprensa util, sria, e dadivosa; e lembrasse-se ella de o no ser!
Gostava eu de ver como se avinha para isso com o pastorinho S. Mamede,
seu visinho paredes meias, com a pia dos baptisados to limpida, com a
matta alm to inoffensiva, com as sepulturas aos ps a exhalarem
paz e bom conselho, com os passarinhos a cantarem festa, com o sol
franco por cima da cabea a proclamar: Vivei e amae: vede o mundo que
eu vos mostro como  formoso; aproveitae-o, e glorificae ao nosso Creador.

Os livrinhos de tal officina talvez no alongassem vo at s cidades
(flres de urze e amoras de silva no se levam ao mercado); mas
abundariam gratuitos, inspirativos, e bemquistos, por todas as casinhas
da parochia: por baixo dos tectos de palha ou lageas, como por baixo da
riqueza das telhas rubras de vallado, ou da opulencia fabulosa dos tres
ou quatro telhados moiriscados.

A estante do Ecclesiastico hospedaria fraternalmente entre os
breviarios, o _Flos Sanctorum_, e as folhinhas de reza, estes opusculos
do seculo. Os paes de familias os depositariam, depois de lidos, para se
tornarem muitas vezes a reler, na papeleira por baixo do seu oratorio. O
pastor os folhearia, ruminando elle tambem nos campos do espirito, no
meio do rebanho mais bem tratado. O operario na sua officina mostraria
com satisfao, entre a sua ferramenta, estes instrumentos novos,
aperfeioadores dos artefactos e do artifice. As sstas de vero, os
seres do inverno, ganhariam encantos com as leituras em commum; nos
testamentos figurariam como verba, a par com maiores haveres, os
volumes, que assim se iriam accumulando multiplicados pelos filhos e
netos pelos tempos fra.

Depois, os domingos, os dias santos, e os tempos mortos para a lavoira,
quo bem se no empregariam na cosinha, na sala da Residencia, ou na
sacristia por mais espaosa, explicando  boa gente, j avida de saber,
e que affluiria a esses passatempos como s romarias, o que elles no
tivessem podido por si mesmos explicar! que para isso ali estava  mo
como auxiliar, ao p do prelo uma livraria copiosa, e continuamente
acrescentada.

Aos ambiciosos do latim, do francez, da historia, das viagens, das
noticias do mundo, ou mesmo da poesia, ali se dariam tambem com a melhor
vontade lices, livros, conselhos.

Quem sabe o que em trinta, quarenta ou cincoenta annos, se no crearia
por ali, onde to pouco em tantos seculos se adiantra! Que novos e
prosperrimas culturas pelos valles e cabeos escalvados! que
fabricas, talvez, servidas por aquelles rios, por emquanto ociosos! que
augmento nos haveres, na populao, na civilidade, na convivencia! que
festas novas entre estes montanhezes! Quantas  imitao
d'aquell'outras da Suissa em honra da velhice, da virtude e dos servios
prestados  communidade pelos coraes bons, pelos espiritos eleitos!

O nosso amor proprio, tanto como a nossa consciencia, aspirava a peito
cheio viraes de Eden, calculando e preparando tantas venturas, e to
faceis de si, quando deveras se desejam.

At j previamos, como consequencia summamente provavel de toda esta
excitao, que umas terras assim, de que nunca se ouvira soar um unico
nome distincto para alm do seu ultimo tojal, viriam a contribuir como
as outras para o lustre futuro da Patria, com talentos aproveitados em
sciencias, em artes, em litteratura, em poesia.

Dilatei-me agora n'isto, porque me pareceu que no fazia mal ficar para
ahi este pequeno rebate aos curas d'almas, que para a civilisao podem
mais e muito mais do que se imagina, e do que presumem elles proprios.
Assim se tratasse de os criar bem, de os instruir muito, de os escolher
com escrupulo, e distribuil-os com acerto pelas parochias fra de mo,
em que tudo, ou quasi tudo, jaz ainda por tentar[5].


XLIII

Ora pois : estas meditaes sociaes, a que s falleceu o tempo
indispensavel para frutificarem em obras exteriores, que, ainda que no
viessem a ser muitas, sempre seriam algumas, produziram todavia seu
effeito benefico em ns mesmos. To boa coisa  de si a caridade, que,
mesmo no aproveitando para fra, unge e fortalece a alma em que se
hospda.

Aqui est como a brenha contribuiu tambem para me temperar com amores
novos a indole poetica originaria; d'ali  que me tomaram raizes as
temerarias resolues, que muitos annos depois se haviam de manifestar,
na criao de um Methodo humano de ensino elementar, e nos esforos para
o diffundir e estabelecer.

Em summa: todas quantas aspiraes benevolas eu vim a patentear nos dois
livrinhos, que ainda hoje amo, _Felicidade pela Agricultura_, e
_Felicidade pela Instruco_, no foram talvez seno reminiscencias
d'aquelle prazo da minha vida.


XLIV

Ora eu, como os leitores sabem, no vim com este escripto representar de
grande homem, que ninguem o  menos do que eu, nem menos do que eu o
podia ser; o meu unico intuito foi expr lisamente e com verdade os
factos, de que a mim me parece poder-se concluir com verosimilhana: que
a fortuna e a natureza andaram concordes em sequestrarem da multido,
para o deixarem s e exclusivamente poeta e amante, o individuo de quem
eu fui herdeiro, e de que agora em parte sou biographo desapaixonado;
por isso declaro com igual sinceridade:--que a par com estas utopias
beneficas e civilisadoras, a que o espirito de meu irmo se dava todo,
c no meu nunca deixaram de vicejar os outros generos de poesia menos
alta e mais egoista, de que a indole e o costume me tinham feito
necessidade.

A esses annos da serra pertencem pois, como j n'outras partes declarei,
as traduces das _Metamorphoses_ e dos _Amores_ de Ovidio, muitas das
bagatellas encorporadas nas _Excavaes Poeticas_, a _Noite do
Castello_, e os _Ciumes do Bardo_, ciumes que, dilo-hei agora de
passagem, nada tiveram absolutamente que ver com os ideaes amores de que
venho conversando.

D'esses annos a primeira parte permittia ainda largos horizontes de
esperanas, que depois se apoucaram e denegriram com as vicissitudes
politicas, as guerras civis, e as perseguies que l mesmo nos alcanaram.

Meu irmo, to devaneador de venturas para extranhos, e que para algumas
logrou de feito contribuir, claro est que da minha se no
descuidaria. Assim como elle o era para mim, era eu para elle
transparente. Ainda que algum de ns pretendesse jamais ter para o outro
uma sombra de segredo, baldaria todo o seu empenho.

Sabia elle pois, to bem como eu, e sem eu lh'o dizer, que o meu
espirito poetico no meio de tantas poesias anciava ainda por outra mais
especial, que volteava  superficie de todas, como a mariposa que vai e
vem de flores para flores, e, mostrando-se contente de as possuir, deixa
todavia suspeitar que ainda no encontrou aquella em cujo seio ha-de
cerrar as azas, aninhar-se, e permanecer.


XLV

Uma tarde de vero, que me eu estava acompanhado s de minhas
cogitaes, no que chamavam meu _Templo das Musas_, veio elle ter
comigo, trazendo com alegria uma carta recemchegada de Vairo.

Era o meu afamado _Templo das Musas_ uma barraca engenhada de cannas,
vimes e feno, quadrada, alta que se podia estar em p, ampla que se
cabia reclinado ao comprido nos bancos de cortia que por tres lados lhe
guarneciam o interior; ao meio de cada uma das tres paredes, uma janella
de um s vidro, e outra egual na porta, davam entrada ao dia,  lua, s
viraoes frescas, e aos rumores proximos ou longinquos da vasta natureza
exterior. Pompeava esta solitaria e majestosa fabrica junto a um alto
denominado da _Pedra Branca_, fra do passal, e  beira do sobreiral de
S. Sebastio; desafrontado posto, donde se descortinavam terras de
quatro Bispados, com horizontes at onde olhos de aguia podiam ir. Era
miradoiro, e era escuta tudo junto. Quantas vezes d'ali no captavamos
ns, poucos annos depois, o rolar dos troves da artilheria na aco da
Ponte do Marnel, e l muito mais a longe, no cerco do Porto! sons
lugubres que vinham resaltando de cabeo em cabeo encher de enigmas e
sustos a nossa descuidosa solido!

Apezar de tudo, conservo saudades da boa da palhoa. No havendo guerras
civis, conversava sim tristezas, mas tristezas todas mansas, e com
seus furta-cres de deleites e alegrias. Estava-se bem ali; e se
occorria desejar-se por entre sonhos alguma outra coisa, era antes para
que ella viesse enfeitar o deserto, do que no para se ir procurl-a
fra d'elle.

Tempos! tempos! Tornei-me l vinte annos depois; faz agora oito;
mudanas at nas brenhas! Existia a mata e a capellinha; existia a
Egreja e a Residencia; mas do meu _Templo das Musas_, nem vestigio: os
invernos e os estios tinham-lhe devorado at o minimo colmo. Onde eu
dormia ou scismava deleites, dominando do meu castello rosado pela
aurora, doirado pelo sol, prateado pela lua, espaos infinitos...
estavam outra vez as queirozes em pacifica posse do seu torro, a
vangloriarem-se talvez, com as abelhas, de terem afinal triumphado de
quem as desterrra; e as ovelhas, vigesimas descendentes de um rebanho
que pastava  roda de mim sem me ver, nem ideia vaga tinham j de tal
edificao; sumia-se-lhe na noite dos tempos.

Antonita, a pastorinha que o guardava, j por ali no era. Que linda
voz que no tinha, aquella prima donna dos oiteiros! que poesia de anjo
que no desperdiava s para a sua roca, e para os carvalhos! que a mim
no me via ella, ainda que to de perto me rondava o tugurio, nem eu me
denunciava, com medo de intimidar o rouxinol; o mais que fazia era
entreabrir subtilmente a vidracinha da parte onde ella cantava, para lhe
estar por ali furtando melodias para os meus devaneios.

Perguntei por ella; quando cresceu, cresceram-lhe ambies, deixou o
mato e as ovelhas; fez-se tecedeira; ao tear, cantava ainda to alegre e
innocente, como tinha cantado  sua roca de lan nos descampados; depois,
um bello dia, convidou-a o seu anjo para ir cantar no Ceo; e desappareceu.

De todo aquelle idyllio to vivo, s eu resto! Guardadora, choa,
rebanho, passou tudo... Mal ficou este pequeno reflexo mortio na pagina
que estou dictando, e que tambem, ella mesma, d'aqui a alguns annos se
ha-de apagar.

Leu-se a carta; era um suave queixume pela quebra j mui longa da nossa
correspondencia; e era em tudo uma confirmao evidente de que Maria no
deslisava apice da que se manifestra e fra desde todo o
principio; e encerrava realmente no seu complexo todos os requisitos
para a felicidade de um homem, que, possuindo paz e amores, j no
canaria o Ceo com grandes votos.

--Vamos--exclamou meu irmo, abraando-me;--tenho promovido tantos
casamentos por estes arredores, e regala-me sempre tanto administrar o
setimo sacramento, folgaso preambulo dos baptisados, que desejo e
mereo ver tambem alegrias d'essas na Residencia. Venha a tua solitaria
amenisar emfim a nossa Thebaida. Havemos de fazer um jardim de proposito
para ella por baixo da fonte do passal, com bastantes narcisos, que lhe
recordem a primeira revelao que te ella fez da sua ternura.

Quando as obrigaes do meu ministerio me demorarem por fra (a sua
merecida fama de prgador comeava a no lhe deixar dia nem hora livre;
no havia festa grande nos quatro Bispados para que no fosse rogado),
quando os meus especiaes estudos me privarem de cultivar comtigo a nossa
cara Poesia, ters uma leitora e secretaria, que te coadjuve, e ao mesmo
tempo te exalte a inspirao; a sua voz tornar-te-ha a Poesia mais
poetica; os versos dictados para mo to delicada, sahir-te-ho mais bem
nascidos.

Podiamos edificar aqui desde j uma casinha aprazivel, um verdadeiro
ninho de andorinhas para o novo casal; mas possivel , bem sabes, que
no seja esta a terra que nos ha-de comer os ossos; e n'esse caso, o
havermos lanado aqui raizes mais fundas, teria sido tornarmo-nos mais
doloroso o arrancamento. Para gente sobria e simples, como ns,  de
sobra o presbyterio; bastar guarnecermol-o de mais roseiras,
abrirmos-lhe no meio do pateo o luxo de um tanque para espelho, e para
pompa erigirmos ao fundo das laranjeiras o elegante pombal candido que
projectavamos, e de cujas moradoras hade ella ser a providencia e a
alegria, como de toda a vivenda.

Em summa; os nossos haveres permittem-nos, sem taxa de temeridade, a
realisao d'esta encantadora utopia, que talvez nos abra passo 
realisao das tantas outras que planejmos! Para obras de beneficencia,
de humanidade e de civilisao, nunca  de mais uma conselheira, e ento
de to alto juizo, de corao to amante, e amadurecida pelos
livros e pela solido.--

Era musica celestial tudo isto que lhe eu escutava; apertl-o bem
apertado ao peito, foi toda a minha resposta de assentimento.

Verdade verdade:--est-me vexando, apesar do que estabeleci no comeo
d'estas confidencias, to diffuso falar sobre to apoucado sujeito, que,
por mais que eu diga, saiba e sinta, no ser eu, sempre ho-de tomar por
mim; e portanto, dobrada censura: sobre importuno, immodesto. Paciencia.
Os mal affeioados muito ha j que ho-de ter dado a sua curiosidade por
satisfeita, e cerrado o livro; os outros, que vieram commigo at aqui,
so mais soffridos de genio, e so amigos; ho-de-me acompanhar j agora
com indulgencia at ao fim; e se a esses mesmo enfado, fique o restante
da narrao como soliloquio de um saudoso, ou dialogo de memorias
tristes entre um vivo e dois finados.


XLVI

Tinha-me a Real munificencia do Senhor D. Joo VI, j em 1819, collocado
em posio de fortuna, para entre poetas, e poetas portuguezes, muito
invejavel: dera-me a propriedade sem onus de um dos mais pingues
officios de Justia na Correio de Coimbra. Com essa renda vitalicia,
que ainda hoje durra, se no fossem as uteis refrmas introduzidas no
fro depois de 34, podia eu ter folgadamente realisado desde todo o
principio o meu consorcio com Maria; mas eu tinha feito voto anterior de
mim para mim, e no queria quebral-o, de deixar sempre na casa paterna,
integral e incondicionado, o usufruto d'aquelle rendimento. No era
generosidade; era simples dever. Tendo pois, como se no tivesse,
facilmente se imagina como eu ficaria por dentro com este raiar subito
da Providencia, da Providencia encarnada em amor fraterno! A chave
d'oiro do meu paraizo tinha-a eu posto d'onde a no podia retomar; meu
irmo acabava de me entregar outra; e com tal melindre de affecto, como
tudo que d'elle vinha para mim, que recusar-lh'a eu, fra magoal-o mais
a elle, do que a mim proprio.

A casinha parecia-me transfigurada em albergue de fadas.

Respondeu-se ali mesmo  carta. Antonita estava cantando uma cantiga de
amores a vinte passos de distancia; a alegria e a amizade cantava no
corao de Augusto; no meu, cantavam o alvoroo, o enternecimento, a
amizade. Era uma hora d'aquellas de que o Co no empresta mais de uma
s existencias afortunadas.

A carta que eu ento dictei para mensageira de to boa nova, e a que
tres dias depois se lia mysteriosamente no mesmo logar aos ultimos raios
de um sol magnifico, existem ainda hoje, mas no pdem ser relidas;
doer-me-hiam excessivamente; ho-de ser pelo contrario queimadas com
todas as outras d'este romance intimo e sagrado, logo que eu tenha
concluido o presente escripto. Se alguem no comprehender por si este
melindre, paciencia; eu  que me no atrevo a explicar-lh'o.

A elegia _Ermitagem da montanha_ tinha sido poucos dias antes
phantasiada ali mesmo. Junto ao convento havia tambem serras, como j
vos disse:

    _Sola eris, et solos spectabis, Cynthia, montes._

Na desesperana, ou, quando menos, incerteza de conseguirmos jmais
posse real um do outro, no eram bem naturaes aquelles desejos,
aquellas vises do poeta solitario no meio dos seus bosques, pensando na
poetisa solitaria  sombra do seu mosteiro? Que amante deixou de sonhar
alguma vez que a felicidade o aguardava n'uma caverna sonegada aos olhos
de todo o mundo?

A mutao maravilhosa que se me acabava de operar nas perspectivas da
alma, fez rebentar o meu ultimo canto--_A Esperana._

Ah! a esperana! quem? no sendo amante, ou louco, pde fiar-se nos
sorrisos de tal phantasma? Os gozos, que to proximos se me antolhavam,
ainda vinham longe. Ha tantas illuses d'estas na vida! teem-se os
olhos fitos n'uma ventura que j se v e se ouve to perto, que se
figura alcanavel com dois passos... e no se repara em que entre ella e
ns pode haver duas ribanceiras escarpadas, e at de permeio um rio
sem ponte, profundo, vertiginoso, mortifero!


XLVII

Em 1828 sahia pela primeira vez  luz, mais por desejos de meu irmao que
meus, o _Amor e Melancolia_.

Aos que j ento o tomassem por historia poetisada, como agora se v que
era, figurou-se de certo, como a mim proprio, que estava ella chegada ao
seu desenlace ultimo. Era miragem de deserto; o verdadeiro lago para a
sde, jazia ainda bem remoto.

Vieram-se carregando cada vez mais as trevas do horizonte politico; os
receios e os sobresaltos, os perigos mui reaes a crescerem e a
amiudarem-se!

O presbyterio queria ser arca de salvao; mas at elle, em tamanha
altura, fluctuava j, e estremecia sobre o diluvio. Se se mandava fra
ave exploradora, voltava atemorisada sem nos trazer folhinha de
oliveira. Recerrava-se o postigo, e ficava-se inerte  espera de
melhores dias. Entretanto os troves, ora mais ora menos longinquos, no
despegavam, e os relampagos espreitavam ferozes por todas as fendas.

Foram tempos bem tristes! Nem o viver benefico de um bom Parocho, nem o
viver innocente de um poeta, nem o concentrado de ambos n'uns reconcavos
silvestres s vistos de cima pelo que v tudo, nos aproveitaram para
immunidade.

Que de refeies interrompidas por uma noticia de denuncia, e de
encarcerao meditada, proxima, infallivel! que de noites mal dormidas,
ou veladas pelos matos, ou por poisadas alheias! que sumir de livros
nos vos dos altares! que enterrar os objectos preciosos! que abrazar
papeis! que vigiar do alto do campanario! que fugir a subitas do
ninho, para regressar a elle palpitando, e refugir de novo! e tudo isto
por quo longo tempo! at que, levantado j quasi o cerco do Porto,
atterrados com o ultimo e inevitavel perigo de sermos monteados e
perdidos, commettemos  desesperao o salvamento e, atravessando ainda
por entre os cercadores n'uma ante manhan escura e chuvosa, logrmos
acolher-nos  Cidade eterna.

E se v, se um passaro assim combatido dos temporaes podia
lembrar-se de construir e pendurar em ramos que todos rangiam e
estalavam, cestinha de amores para onde chamasse companheira. No podia
ser, por mais temerario, por mais imprevidente que elle fosse.

Estes mesmos trabalhos e transes, que ento me pareciam encobrir a
Providencia, como as nuvens encobrem ao sol, pode ser que me viessem
mandados tambem por ella a trazer-me germes que ainda me faltassem, de
poesia affectuosa. Isso teem de seu, se me no engano, as perseguies
revolucionarias: assolam, para fecundar; chovem odios, que em se
evaporando tero feito desabrolhar bemquerenas. Alma que padeceu,
condoe-se:

    _Non ignara mali..............._

S de longe  que isto se conhece bem, e como tudo no mundo  por
melhor. Agora nem quella quadra tormentosa quero mal.

Ella tambem, se hei-de dizer toda a verdade, posto que me retardasse
projectos mui queridos, no me foi to completamente negra como se
poderia imaginar pelo que deixo exposto. O animo, pelo menos o dos
poetas, pelo menos o meu, tem no sei que elasticidade com que resiste
s quedas e s durezas mais asperas dos precipicios: torce-se, e no
quebra; cai, e resurge; comprimem-n-o adversidades, e logo depois, elle
por si mesmo se dilata. Apenas tinha passado um sobresalto, um terror,
um homizio, ou uma fuga, e os ares se serenavam um tanto, voltava a
bemdita imprevidencia, e com ella o contentamento, e com elle o viver
semi-fabuloso com todo o seu cortejo de vises poeticas, accorridas de
todos os pontos do horizonte, de todos os recantos do corao, de todos
os esconderijos da memoria, de todas as grutas amenas da vontade, de
todas as profundezas do discurso; como ao reapparecer do sol depois da
trovoada, voltam  festa duplex da Natureza os insectos, as aves, os
rebanhos, os pastores, o vio, a musica, o alvoroo.

Que de versos no devi eu a esses luminosos intervallos! Foi n'um
d'elles que meu irmo e eu plantmos no pateo da Residencia um cedro,
que eu mesmo trouxera recemnascido da matta do Bussaco, e que, ha
j annos, cobre com a sua sombra balsamica o telhado hervoso da casinha,
pradaria das pombas domesticas, e alem do telhado boa metade do terreiro.

Oito primaveras se teem devolvido desde que o visitei pela ultima vez.

Deve ser hoje a mais fastosa arvore da cercania!


XLVIII

Sentae-vos em espirito debaixo da sua copa, se vos apraz, e ouvireis o
que lhe eu cantava ao firmarmol-o tenrinho n'aquella terra benta.

Adverti porm desde j, em que no ides escutar maravilhas de poeta. So
versos faceis e descuidados, como os eu ento fazia para matar o tempo,
e esquecido de que havia mundo.

Podra agora tel-os retocado; mas para qu? e que  do valor para
estar desconcertando por mera vaidade litteraria umas saudades d'estas?
Ho-de ir e ho-de ficar j agora singelos e montesinhos como
nasceram.--Ouvida a primeira duzia d'elles, quem lhe parecer, que deixe
os outros.

       cedro,  joven principe dos bosques,
    eis-te j no teu novo domicilio,
    eis-te vaidoso em p, do sl  espera!
    Gente do presbyterio, afervorae-vos,
    entranae danas, coroae-vos todos,
    cantae-lhe benos, tumultuae-lhe em roda.

      Gloria a Deus! Como o dia vem formoso!
    Anjos que protejeis a Natureza
    vossa amavel irman filha do Eterno,
    que entre vs repartistes as montanhas,
    o arvoredo das Dryades palreiras,
    e a urna fresca das occultas Nyades,
    vinde, adoptae no seu primeiro dia
    do filho de David a arvore antiga.
    D'entre os ramosos tufos elevado
    seu cume se remonte  patria vossa,
    e aponte os Ceos ao pensamento humilde.
    Praza o carvalho a Jove; o loiro a Phebo;
    a vs o cedro; o cedro, inda saudoso
    e altivo do seu Libano, inda cheio
    das lembranas da Biblia, inda soberbo
    de hospedar em jardins, palacios, templos,
    Adonai, o Rei Sabio, o Povo Eleito.
    Assim glorioso e mistico, o bom cedro,
    o cedro-rei, viu supplice prostrar-se
    Israel ora a Deus, ora  fortuna,
    aos ceos e ao mundo,  eternidade e ao tempo.

    Oh! venerando! oh! cresce em nossa terra!
    co'a verdenegra copa no desdenhes
    acoitar o singelo presbyterio.
    Premeia o generoso desint'resse
    do plantador que desce todo  campa.
    Sagradas so as dividas do affecto;
    os cuidados que assiduos te protegem,
    invoca o tempo de os pagar co'as sombras.
    Dias viro nos teus crescentes dias,
    em que nobre ante a porta da virtude
    com ternura e respeito ho-de saudar-te
    os montanhezes descobrindo a fronte.
    Lembrars os antigos patriarchas,
    que ao-p da movel tenda no deserto
    pertenciam aos Ceos pela esperana,
    e ao patrio mundo pelo amor dos homens.
    --Ali--diro--na ssta reclinado
    o pobre ancio, pastor d'estas aldeias,
    ao circulo inquieto dos meninos
    ensina a amar a Deus, a si, aos outros,
    s lettras, ao saber,  patria,  gloria;
    e, abraando-os risonho  despedida,
    distribue co'a mo tremula aos melhores
    em premio doce disputados frutos.--
    --Ali--diro tambem--sentou-se um dia,
    e gabou a frescura das ramadas,
    um Bispo antigo e santo; ali tomava
    o seu caf, resando o breviario;
    meu av, bem que rustico e indigente,
    falou-lhe ali, beijou-lhe o annel e ouviu-o.
    Que apostolo! que amor! que urbanidade!
    essa arvore o cobriu, ficou sagrada.--

      Hospede e amigo do adoptado albergue,
    firma-te ao solo com raizes promptas;
    exala a fronte aerea, alto, gigante;
    abre os cem braos co'os tufes em lucta.
    Piedoso Briaru, no temas raio;
    o raio atre as serras, cegue, abraze
    o altivo topo s arvores soberbas;
    tu, no tremas; eu quero no futuro
    que um novo talisman te adorne e ampare,
    possante contra furias de elementos,
    contra o machado algoz, contra demonios:

      Se dos teus annos na madura fora
    a mo que ora te planta inda for viva,
    essa mesma, j tremula e inda amiga,
    inda meiga ao seu cedro, e j caduca,
    no tronco te abrir com tardo exforo
    graciosa capellinha, onde sorria
    um San-Joo, o Santo alegre do ermo:
    trajo de pelles, juvenil frescura,
    olhos nos Ceos, aos ps cordeiro branco.

      N'essa noite poetica e devota,
    em que o prazer, centuplicando aspectos,
    povoa, anima, encanta o mundo inteiro;
    agua e terra, ar e ceo, tudo  macio;
    em que a velhice, a mocidade, a infancia,
    sympathisam no vago da alegria;
    em que n'alma insaciavel de delicias
    se juntam com mistura inexplicavel
    o saudoso passado, os bens presentes,
    ao contente futuro ebrio de esp'ranas;
    em que n'um lao mystico se aggregam
    da vida e eternidade os pensamentos,
    gozos, supersties, fraquezas, cultos,
    como um ramo de rosas e ciprestes
    na caprichosa mo das feiticeiras;
    n'essa noite das noites invejada,
    t dos casaes l do ultimo horizonte
    a ti concorrero por toda a parte
    danantes bandos que a viola impra.
    Vers girar seus bailes rebatidos
    em redor das estridulas fogueiras;
    ouvirs os seus canticos em coro
    devoto e namorado; a bomba foge,
    zune fugindo, e solapada estoira;
    o buscap no ar caracolando
    morde n'um, morde n'outro, ameaa a todos,
    dispersa os grupos, gasta-se raivando,
    e entre os risos rebenta atroando os ares;
    aqui, circula em vertice perenne
    a roda leve espadanando incendios,
    chovendo oiro luzente e estrellas alvas;
    ali, floreia o fulgido valverde,
    vulco sonoro que arremette s nuvens;
    va, remonta impaciente aos astros
    o ignvomo foguete estrepitoso.
    E a musica entretanto! e as doces falas!
    e os segredos d'amor! e a prece occulta!
    e essa mo dada a furto, e a furto acceita!
    e esse olhar falador! e essas virtudes
    da meia noite em ponto! e a flr crestada!
    e as sortes que a fortuna extrai s vezes,
    e muitas mais a prvida malicia!
    e a fonte que amanhece entre descantes,
    e pasma rindo de se ver c'roada
    de festes verdes e enlaadas flores!...
    Que noite! que prazeres! que triumphos
    te aguardam no porvir, me esto na mente!

      Mas se ao neto do Libano silvestre,
    se  arvore do templo, ao cedro antigo,
    mais contenta sublime austeridade,
    religioso  o cho que te sustenta,
    santa e severa a muda visinhana.

      D'esse lado, essa relva avelludada
    foi cho d'egreja outr'ora, e esconde os mortos;
    onde a oliveira est, surgia a torre;
    bradava aos eccos dos remotos cumes
    o sino da orao, l onde agora
    est cantando o melro; e pasce a ovelha,
    balando o seu amor ao filho ausente,
    onde a moa aldeana ajoelhada
    em noite do Natal, ante o presepio
    acalentava em cro o Deus Menino.
    Nem portas, nem degraus, nem muros restam!
    Um saxeo altar! por tecto uma parreira!
    e um San-Jorge musgoso entre silvados!
    D'aqui, filho do antigo, o novo templo
    te alveja em face. Em fundo de sepulcros
    por ossos vos enredars raizes.

      Que vezes para o ceo voaro juntos
    o perfume do incenso e o teu perfume,
    o teu sussurro e os canticos da Biblia!
    Escutars por baixo do teu cume
    os mysterios, a supplica chorosa,
    as lies da moral, do Eterno as glorias,
    o voto humilde, a gratido serena,
    o tom pesado dos funereos Psalmos,
    a infancia d'entre as aguas renascida,
    os protestos do amor que acceita e cra;
    e o mais que o mal previne e o mal espia,
    gera, vigora o bem e o bem premeia,
    suavisa as dores, o prazer modera,
    adoa a vida, aperfeioa os homens,
    e por c'roa da paz a paz promette.

      Assim, quasi debaixo de teus ramos,
    juntars o que a mil faria illustres:
    a raa que milita, e a que triumpha;
    os cultos da saudade, e os cultos vivos.

      Cresce pois outra vez, cem vezes cresce.
    Alto, em frente do humilde presbyterio,
    torna-te a sentinella das montanhas.

      Se o peregrino, attonito, espantado,
    errar nos cumes alongando os olhos;
    se vires muito ao longe os passos frouxos,
    o curvo dorso, o pallido semblante,
    e as cans sem honra do ancio mendigo;
    indica-lhes a senda hospitaleira,
    mostra-lhes em teu lar os seus penates;
    e dize ao peregrino:--Eis a poisada;--
    e ao mendigo:--Bom velho, andas perdido;
    reconhece o teu fumo, a tua porta,
    teu leito, os teus irmos, teu pae, teus filhos.--

    Oh! que viver, que almo viver te aguarda!
    beneficencia, paz, respeito, gozos,
    quantos bens! e esses bens quo longas eras!
    Mas ns... ah! nossos dias fugitivos
    seculos so se  rosa se comparam,
    mas passam como a rosa a par dos cedros.
    Para ti, de anno em anno a primavera
    vir com pompa nova e novas galas;
    para ns, menos flores de anno em anno
    lhe viro no regao; menos fogo
    nos olhos, no sorrir menos ternura.
    Eu, que outr'ora a cantei, que ardi por ella,
    para quem toda a alegre Natureza
    era animada, meiga, inspiradora;
    que doce delirava entre as violetas,
    entendia o favonio e a voz das fontes,
    entrava co'a andorinha em seus prazeres,
    co'o rouxinol em seus segredos ternos;
    que do meu estro nas vises formosas
    arvoredos, oiteiros, grutas, rios,
    povoava das priscas divindades,
    e n'um mundo s meu, vivia todo...
    hoje, quo frouxa pela mente nua
    sinto raiar a inspirao que imploro!
    Do genio a seiva, a primavera da alma,
    langue; raro floresce, a longe, a longe.

      Como! to novo ainda,  j foroso
    que a grinalda poetica se esfolhe!
    Lyra que apenas entoou preludios,
    j desafina, e jazer sem honra!
    Sero estes os canticos do cysne?

       meus delirios, nuncios meus de gloria
    mentieis vs? ir-se-hiam para sempre
    lagrimas, illuses, ternura, cantos?!
    Ah! sentir-se morrer, que acerba morte!

      E tu tambem, tu morrers um dia.
    As raizes canadas de nutrir-te
    no pediro mais succo  larga terra.
    Adeus, ninhos d'outr'ora! adeus frescura,
    sombras, sussurro ameno e cheiro alegre!
    A copa verde que hospedava as nuvens,
    ludibrio d'auras, arida esvoaa.
    Mas ao menos feliz impresciencia,
    don melhor que mil dons, te coube em sorte.
    Dominas vastamente o ar e a terra,
    sobes vaidoso aos ceos,  Estyge afundas,
    e baqueias sonhando eternidades.

       arvore, alevanta-te! desata
    em nossos dias tua umbrosa pompa!

      Emquanto a raa ephemera dos homens
    vai e vem, faz, desfaz, se eleva, desce,
    tu, fixa, tu do sabio exemplo inutil,
    medra pelo descano; igual hospda,
    sorrindo sempre, as estaes oppostas;
    presta-te aos soes e s luas, que sem conto
    volvero sobre ti; s caro asylo
    ao favonio que em braos te adormea,
    e s aves que em teu seio se aninharem,
    e soffre ou goza o teu destino immenso.

      Ai, nunca de teus ares dominando
    pela terra de Luso oias ou vejas
    da civil guerra as armas fratricidas!
    Inda agora nos eccos d'estes montes
    os seus troves sacrilegos retroam.
    Inda em nossos ouvidos estremecem
    quadrupedante estrepito, relinchos,
    retinir d'armas, rufos de tambores,
    rolar de carros, vozear de chefes,
    e os gritos do clarim, preges da morte,
    Que esposas inda agora esto carpindo!
    que mes, filhas, e irmans, inda hoje em lucto!
    Do sangue a cr maldita inda denigre
    esses campos de horror; e as sepulturas
    dos sem numero extinctos nos combates,
    no floriro inda esta primavera.
    Do raio o fumo a Lusitania assombra.

       Paz, filha do Ceo, me da abundancia,
    da innocencia e do amor irman e amiga,
    alma Paz, volve a ns, que assaz  tempo.
    De opulentos avs mesquinhos netos,
    j no pedimos bens: aos descendentes
    do povo infesto a Roma e Rei do mundo,
    basta um pouco de po em paz comido.
    Sobre os antigos loiros desfolhados
    caiba-lhe ao menos respirar dormindo,
    Que ideia to inhospita e gelada!...

      Aguas! aguas! reguemos o bom cedro!
    l se vai por o sol! c nasce a lua!
     lua, vem propicia  joven planta;
    e tu, doirado sol, propicio volta.

      Quem bate?... parabens! danae, folguemos?
    eis o pobre! eil-o!  Deus que a ns o envia!
    sim! da parte de Deus vem sempre o pobre.
    Entrou  rega;  fausto o agoiro!  fausto!
    enchei-lhe a taa, beberemos todos.

      Conduziram-n-o ao lar; da farta ceia
    leval-o-ho consolado  foufa cama.
    Agora, que estou s, que apenas oio
    o mui longe cantar das fiandeiras
    na aldeia d'alem-rio, oh! vem... sentemo-nos
    ao-p do que algum dia ha-de abrigar-nos,
    candida imagem de Maria ausente!
    segredars aquella de que s sombra,
    que para ella est guardada a gloria
    de casar algum dia uma roseira
    ao j seguro tronco. Ai, doce emblema
    da quda e flrea vida, enlevo de ambos!


XLIX

Versos a este modo, e at somenos, brotaram por ali muitos nas
temporadas luminosas, ou menos escuras; e em quasi todos elles brilhava,
ou se entrevia, a estrellinha polar, para onde apontava o meu corao
magnetisado.

Podera no! Todo o solitario tem l sua viso de que se no desapega
por mais que faa.

O poeta das tristezas no sonhava seno Roma no Ponto Euxino.

S. Jeronymo, na sua cova, batia com a pedra nos peitos, a ver se matava
l dentro seductores phantasmas de mulheres.

Eremitas na Thebaida, invocando Anjos do Ceo, eram tentados de demonios
terrestres formosissimos.

Petrarca, em Valchiusa, tinha Laura morta engrinaldada sobre um altar a
escutl-o.

Cames na gruta de Macau no estava sem Natercia.

Maria, nos fraguedos do Caramulo, no podia deixar de raiar-me a cada
passo, como a lua, que, entre fagueira e melancolica, se encobre e
descobre de continuo ao que transita por moitas e bosques; e, ou
elle v, ou pare, ou retroceda, o acompanha sempre, e lhe d a
sentir, com enternecido agradecimento, que no vai s.

O mais e o melhor da minha poesia inculta dirigida a ella, no era porm
o que se escrevia; era sim o que se me ia

    _de noite em leves sonhos que mentiam,_
    _de dia em pensamentos que voavam;_

lyrica interior, que todos, cuido eu, conhecero, ou conheceriam alguma
vez; bafagens que veem direitas do paraizo  alma, e da alma se tornam
para d'onde vieram, sem deixarem c em baixo vestigio, mais que um
frmito voluptuoso no corao, que de fra se no percebe. Vem-se manar
lagrimas sem dr, errar pelos labios uns sorrisos no alegres, mudar
cores o semblante, despegar-se dos seios um suspiro, as mos
estenderem-se  procura do que quer que seja; v-se tudo isto, e
diz-se:-- um visionario, ou est sonhando;--e no  seno um poeta, que
est lendo em si o mais celestial poema que nunca houve, mas que nem
elle tornar a abrir, nem outrem jmais adivinhar.

D'esses poemas fiz eu, e perdi, innumeraveis.

Fazia-os ao pendurar ritualmente no crepusculo da tarde de cada sabbado
uma capella de murtas nos ramos do meu cedro, consagrado a ella, e que
me parecia to desejoso de festejl-a como eu proprio; fazia-os deitado
nos povaes de tijolo de S. Sebastio, ao ramalhar das carvalheiras,
pelas sstas; fazia-os regando o jardimsinho de narcisos, gradeado de
canas, por baixo da fonte do passal; fazia-os encostado sosinho a
deshoras pela noite velha  janella do meu quarto, que deitava para a
banda do horizonte, onde devia ficar o d'ella; fazia-os ouvindo ler
versos apaixonados, que todos no espirito se me traduziam, e se
combinavam na minha historia, muito mais apaixonada que elles todos;
fazia-os escutando l de um oiteiro o sino das Ave-Marias, ao cessarem
os trabalhos da terra, na hora em que o ceo accende, como lampada para
infinitos amores, a estrella magnifica de Venus; mas sobre tudo os fazia
fechado por dentro na minha Villa Viosa de palha, junto  _Pedra
Branca_, ao abrigo das chuvas e frios, do sol e dos ventos, de
rumores e distraces, livre de olhos, de ouvidos e de pensamentos
extranhos, s por s com a minha ausente. Para ella renovava as flores e
a agua na urna de barro sobre a mesa entre os sophs de cortia. Ouvia-a
cantar ao som da sua viola franceza; dizia-lhe extremos de brandura, que
nenhuma linguagem humana traduzira; perdia-me pelos mysteriosos
labyrinthos da sua sensibilidade, nunca dantes franqueados; escutava o
meu nome tornado musica pelos seus labios; recostava-a n'um coxim de
rosmaninho; ajoelhava-lhe aos ps em adorao; voava-lhe aos braos, e
anciava morrer ali assim, porm com ella, que eu sou o irmo mais novo
de Propercio:

    _Tunc ego, sed tecum, mortuus esse velim._

Nada me inspirava tanto como a boa da casinha, to depressa e to sem
custo edificada, que parecera improviso de Sylphides e Sylphos, e na
qual se dissera terem elles ficado; que assim era prestigiosa!

Fra sempre a minha ambio mais levantada, e algumas vezes me chegou a
ser esperana tambem, o possuir vivenda minha em torro meu, por mim
delineada, feita aos meus gostos, sem visinhos mas respirando
hospitalidade; solitaria, mas ridente; sem fausto, mas abundante em
commodidades, em graas profusissima. Aquillo de poder um homem dizer
que tem a sua cama, a sua meza, a sua lareira, e os seus livros, entre
paredes e debaixo de telhas muito suas; que vive e pernoita com raizes
no solo; que emfim  dono, para fruir e testar, de uma poro do
terceiro planeta vindo do sol, ainda que no sejam seno poucas braas;
e que o Imperador de Frana no  mais senhor, nem porventura tanto, das
suas Tulherias... deve ser umas delicias muito grandes. Nunca as
experimentei, nem experimentarei j agora; mas imagino-as; e pode-se
dizer que as sonhei, sem dormir, no meu aureo salosinho de feno.

Como eu ampliava tudo aquillo com a varinha de condo da phantasia! a
um lado, a alcova nupcial, com suas janellas cortinadas de verde pela
frondosidade do pomar contiguo; a outra parte, a saleta do fogo para o
inverno, dominado aos bustos de Sapho e Anacreonte, a olharem para
as estatuas de Homero e de Virgilio; aqui, a livraria com a mesa para a
escripta, e dois espaldares de braos; a casa de jantar com sua fonte e
viveiro de aves, e a porta larga e envidraada aberta para a horta
ajardinada; e a voz de Maria, a presena de Maria, a musica do seu
vestido, o calor da sua bondade alegre e vigilante, por toda a parte.

Basta, basta j de pisar folhas d'outomno que murmuravam viosas e
rescendentes por cima e em derredor, e agora me estalam pallidas e
seccas por baixo de cada passo.


L

Ahi fica entregue ao publico da minha terra, pelo ter em conta de amigo,
a Chave do meu Enigma, assim como se pe nas mos do melhor e mais
proximo parente a do caixo doirado e funebre que desappareceu.

Como de hoje vante nunca mais havemos de tornar a este assumpto,
acrescentarei ainda algumas palavras, e as derradeiras, destinadas a
acclarar outro supposto mysterio com que as trevas d'este se duplicavam.

O immortal autor da _Epopeia naval portuguesa_, o meu bom e velho amigo
Joaquim Pedro Celestino Soares, fazendo-me a honra de me dedicar este
seu recente monumento de glorias portuguezas, mostra-se maravilhado de
que eu pinte, sem os ver, tantos quadros da Natureza. Muitas pessoas
antes d'elle tinham manifestado egual admirao, para mim obsequiosa, e
mais que obsequiosa--lisonjeira.

Suppondo que as minhas descripes de objectos visiveis, desde as
_Cartas d'Ecco_, _Primavera_, _Amor e Melancolia_, at s presentes
paginas, conteem algum longe d'esse merito que to benevolamente se lhes
attribue, aqui est a explicao que eu posso dar d'esse phenomeno
simplicissimo.

Teve a nossa criana, emquanto o foi, e segundo j vos disse, uns olhos
de formoso brilho, vividos, buliosos perscrutadores insaciaveis, e de
um alcance desmedido. Mais de uma vez ouviu dizer a sua me, que
pareciam duas janellas armadas de festa, onde a alma vinha contente l
de dentro espairecer mirando-se no Universo.

Por volta dos seis annos, a segunda enfermidade, de que j vos falei,
enfermidade peior que a imaginaria tysica, fechou inopinadamente
aquellas janellas, deixando passar apenas, atravez, uns reflexos
duvidosos de claridade, frios, desvestidos de cres, desertos,
importunos; clares, que, em vez de trazerem alimento a percepes e
alegrias, s occasionavam pelo contrario dores physicas no orgo, por
ento s vivo para padecer. Este mesmo inutil e violento crepusculo, foi
portanto necessario repulsal-o; um veo de seda negro foi lanado sobre a
innocente cabea; fecharam-se-lhe profundissimas as trevas; a victima, o
meio-morto, descanou; ouvia chorar, no sabia por qu.

Se um cadaver no sepulcro podesse pensar, sobre que pensaria? Sem
duvida sobre o anterior viver que se lhe acabra; revolveria, combinaria
de mil maneiras as ideias do preterito, como um avaro, debruado sobre o
thesoiro, mergulha os braos at aos cotovelos, e o corao at s
auriculas, no seu charco inutil de oiro e prata. A pobre criana
ruminava s escuras as vises em que se pascra na claridade; ia-as
convertendo de vagar em substancia propria. Como por fra fazia noite,
illuminava-se por dentro com quantas luzes se lhe tinham prevenido a
tempo, e que ella instinctivamente espertava de continuo. O seu espirito
era como a lamina photographica, ainda no inventada: recebra as
imagens; fechara-se-lhe depois a camara obscura; agora estava-as fixando
em si prprio por uma chymica natural; fra espelho, era estampa.

Passaram annos; levantou-se o veo negro; Deus apiedado tinha outra vez
dito: Faa-se a luz. Reappareceu o dia.

Reappareceu? no; veio novo, diverso, de natureza extranha; uma especie
de dia crepuscular; entre ledo e saudoso; mixto de realidades,
verosimilhanas, conjecturas, sonhos; comparavel por ventura, sem grande
impropriedade, ao que so algumas das phantasticas noites de lua cheia
no estio, ou ao alvor espalhado no Elysio pelos poetas.

Pensando bem n'isto, no posso deixar de render graas  Providencia, e
de descobrir n'esta sua liberalidade, e mesmo nos precedentes rigores,
novas induces para acreditar, entre mim, que toda a minha
predestinao era, como desde o principio me aventurei a dizer-vol-o,
que no fosse eu jamais outra coisa seno cantor, e no fosse cantor
seno de ternuras.

Vs, que ledes pelos vossos proprios olhos isto que vos eu escrevo por
mo alheia, vs, que disfrutaes, sem a aproveitardes assaz, a dita de
possuirdes uma excellente vista, sentireis por ventura alguma
difficuldade em conceber aqui o fundo do meu pensamento. Ora vejamos se
vol-o decifro.


LI

Com ser a luz uma communho universal do Amor Divino, meza infinita em
que os soes aos milhares ministram aos planetas sem conto; e aos entes
sem limite de que os povoou o Omnipotente,  comtudo certo, que, assim
como vo desiguaes os quinhes de luz de cada sol aos planetas e
satellites que a distancias entre si diversas o rodeiam, assim tambem na
esphera que habitmos, por exemplo, a luz vem medida aos sitios, s
estaes e s horas, s especies, aos individuos, s edades e s
circumstancias, em propores diversissimas, todas calculadas, todas
certas, e todas em harmonia com as complicadas precises de um systema
geral e perfeitissimo.

Comparae a claridade das cinco zonas; em cada zona, a das quatro
estaes; e em cada estao, a das montanhas, dos valles, dos bosques, e
das cavernas; a da manhan, do meio dia, da tarde e da noite. Depois em
cada logar e  mesma hora, considerae no como a luz, banhando e tingindo
unicamente a superficie dos corpos inorganicos, incapazes de a sentir,
vai abraar com as suas caricias os entes organisados, que n'ella, e no
calor seu companheiro, parecem aspirar a vida, o amor, a alegria; a
adorao, como sectarios de Zoroastro. Os vegetaes, sem olhos, a bebem,
se inebriam, riem-lhe em flores, com murmurios lhe falam, com
fragrancias a lisonjeiam; brincam-lhe com os raios, decompondo-os na
folhagem buliosa, resurtindo-os; alvoroam-se com a aurora, pendem-se e
fecham-se ao escurecer; despem galas no inverno; na primavera
retoucam-se e amam; no estio pompeiam e triumpham. Mas n'esta mesma
generalidade que differenas e quasi excepes! Para todos a luz 
condio do ser e felicidade; mas o musgo que prospera na penumbra da
Islandia, pereceria fulminado como Smele, se o ardente sol dos tropicos
o visitasse; as plantas magnificas dos tropicos, nas nossas latitudes,
s temperadas, morreriam cegas  mingua de esplendores. Uma herva ala-se
do fundo do fojo para o celeste amante, a quem o girasol no seu jardim
vai tambem seguindo com a larga fronte doirada, que parece um retrato
ephemero do bello astro, explica a fabula de Clcie, e d razo aos dois
versos do Cames:

    _Transforma-se o amador na coisa amada_
    _por virtude do muito imaginar._

Entretanto as grutas e os subterraneos l teem no menos seus jardins
umbrtiles, onde mil especies vegetaes, com uma s gotta de luz diluida
nas trevas, alimentam e aditam a existencia.

Os animaes, se exceptuarmos algumas raras especies mais baixas na
gerarchia, que parecem no ver, dado se voltem para a luz como as
plantas, os animaes absorvem-n-a com delicias.

Os seus olhos so os vasos de gemmas finissimas por onde os seus
espiritos a bebem; mas n'estes vasos sem conto, que differenas nos
tamanhos, nos feitios, nas cores, nas propriedades! Todos se enchem 
immensa cascata de luz que jorra inexhaurivel: quaes em golfadas
copiosas, quaes em estillas diminutas; estes, sombria, que fra trevas
para aquelles; aquelles, to luxuosa, que cegaria a estes. A aguia
devassa do alto os pormenores da campina; o insecto perscruta, com
inveja dos sabios, o ignorado mundo dos infinitamente pequenos; e
eximindo-se por sua tenuidade  perspicacia humana,  ainda por ventura
condor, elephante, e lince para universos vivos, nem por ns sonhados, e
de mil vezes mais espantosa exiguidade. Ha olhos-telescopios, ha
olhos-microscopios, olhos que aproximam, olhos que afastam, olhos que
alternativamente afastam e aproximam, olhos que se fitam rectos n'um s
ponto, olhos que miram para todas as partes ao mesmo tempo, olhos para o
dia, olhos para a noite, olhos unicos, olhos multiplices, olhos, em
summa, que s a Sabedoria de Quem os ideou e perfez poderia
discriminar e abranger em descripo ou cmputo.

No meio d'estas myriades de orgos destinados a pascer-se nas lindezas e
magnificencias exteriores da Natureza, foi ao homem, seu filho
predilecto, que ella deu com a razo e o engenho os mais admiraveis de
todos os olhos. Emquanto os dos outros viventes, afinados pelas
precises circumscriptas dos que os possuem, no transpem limites
relativos e determinados, os do homem, pelos milagres da Arte, tornam-se
mais que de aguia no alcance longinquo; rivalisam com os dos insectos,
mergulhando profundamente pelos abysmos da pequenez; vo buscar para o
dominio da Sciencia astros sumidos nas profundezas do espao, arcanos de
anatomia nos vermes imperceptiveis, nos globulos do polen das florinhas
mais tenues, nos atomos da poeira impalpavel; e dominadores da luz,
pelos instrumentos com que se completam, a refrangem  vontade, e a
decompem, como a divina Iris no firmamento.

Entretanto a vista humana, assim mesmo dotada, quo pobre no  para
saciar o animo curioso! e ento no seu estado natural, que myopia! que
imperfeio! que fallibilidade! Aquelles mesmos objectos, que pelo seu
volume e proximidade mais parecem estar em relao activa, passiva,
necessaria, quotidiana, com o espectador, no passam de uns mascarados e
uns fingidos, que, divertindo-o e ajudando-o, zombam d'elle continuamente.

Que  ver uma rosa, uma arvore, um edificio, um monte, o Oceano, mesmo
com os olhos mais perspicazes e attentos?  receber de cada coisa
d'estas uma ideia vaga, superficial, imperfeita, diminutissima, falsa.
Quando no, acuda a lente a averiguar uma s petala da rosa, uma s
folha da arvore, uma s pollegada do edificio, um s gro da terra do
monte, uma s gotta do Oceano (mas ainda a lente no diz tudo); para
logo se reconhecer com espanto que isso que se chamra ver, no passava
de illuso; era um andar palpando em grosso e s cegas alguns vultos
grandes; nada mais. Se o mundo moral e intellectual nos esto inados de
mysterios, erros, e ignorancias, os aspectos do mundo physico no so
menos enganosos; representa-se a comedia da vida n'um theatro j para
ella de proposito armado pela Natureza, com o mais ficticio de
todos os scenarios: _Mundum tradidit Deus disputationi hominum._

N'este cahos universal de enigmas e chimeras, o instincto de saber
impacienta-se, agita-se, barafusta, sonda, investiga, conjectura;
adivinha s vezes; aspira a matar a grande esphinge, que se ri d'elle, e
que no morre.

O instincto da Arte, menos ambicioso, mais pacato e mais philosophico a
seu modo que o ardor scientifico, contenta-se com as brilhantes
apparencias; estuda-as, sem pensar em as dissecar; e, como de todas lhe
resultam harmonias, todas falam ao espirito e ao corao, sobre todas
paira o ideal, de todas se reflecte o amor e a sabedoria, no precisa,
nem pede mais, posto o deseje, e o aproveite quando a Sciencia o
desencanta e lh'o ministra.

Reflectindo nas verdades incontestaveis e vulgares que deixmos
indicadas, tem-se logo de reconhecer que os poetas, na sua qualidade de
pintores, s reproduzem apparencias, perseguem sombras; e, combinando-as
e variando-as ao sabor da phantasia e do gosto, aquecendo-as de affecto,
e arraiando-as de idealidade, criam para a alma, dentro n'um mundo
phantastico, outro mundo ainda mais phantastico. No  assim?

Ora pois: a criana to nossa conhecida recebra, nos annos das
primeiras e fortissimas impresses, as ideias, como vs em egual edade
as recebestes, e as continuais a receber, dos objectos que aos olhos se
offerecem em multido; depois, fechada a ss com essas ideias, no as
destruiu: fortaleceu-as, confirmou-as; depois finalmente, quando entre
ella e o espectaculo se ergueu de novo o panno, e a scena lhe appareceu
transfigurada, isto , quando reviu menos vividos e distinctos os mesmos
objectos, tirou das suas reminiscencias com que os completar.


LII

--Mas como --insistem--que, distinguindo apenas, e a curta distancia,
os vultos grandes e as cres, consegue descrever, no sem alguma
verdade, quadros da Natureza vastos e minuciosos, cujos originaes sem
duvida lhe escapam?--Do mesmo modo, pouco mais ou menos, como
qualquer leitor por uma descripo poetica debuxa no seu espirito um
objecto, cujo total nunca viu, mas cujas partes componentes a uma e uma
lhe so todas familiares. Variando os elementos que possuo, vou compondo
os quadros a meu gosto.

Mas o que sobre isto vos poderia amiudar, j versos meus o disseram,
agradecendo a um pintor amigo, a Sendim, o ter-me retratado. Se os
lestes, saltae as seguintes paginas; se os no lestes, e vos interessa
tal investigao, aqui os tendes. A mim apraz-me reproduzil-os; so j
hoje saudades de vinte e tantos annos.

      J desde Homero, em trficos do Pindo,
    amigo meu Sendim, no roda o oiro.
    Versos, bustos, paineis, primor das graas,
    pague-os scco Breto por sommas brutas,
    se muito ha que do autor deu cabo a fome.
    Lisonja em metro, em marmores, em cres,
    encommende-a o mimoso da fortuna;
    pague com seus dobres a gloria alheia.
    Ns que, longe da terra, ao vulgo extranhos,
    vivemos facil vida anachoreta
    por solides de imaginario mundo;
    que os loiros para ns por ns plantados
    ouvimos sussurrar por sobre o colmo
    da ermidinha onde as musas nos visitam;
    ns, ns, a quem deu alma a Natureza,
    no terrea, no mortal, no simples alma,
    de instinctos animaes fugaz composto,
    mas generosa, esplendida, sublime,
    mixto da etherea luz, do olor das rosas,
    do gorgeio do cysne, e do profundo
    bramir do Oceano, e do beijar das rolas,
    e do albor melancolico da lua,
    e da calma do estio, e das sonoras
    bafagens tuas, Hspero, e do lume
    trmulo e scismador dos longes astros,
    no pomos preo vil ao que  sem preo.

      Como l n'outra edade, entre homens simplices,
    colono, pescador, monteiro, artifice,
    de mo a mo seus commodos trocavam,
    tal dura e durar commercio nosso.
    Irmans, e no rivaes, as artes-bellas
    apertem mais e mais seus mutuos laos;
    sua origem commum, seus fins os mesmos,
    impem-lhes lei de amar-se, unir esforos,
    umas s outras realar o encanto.
    Mais, muito mais que irmans, so todas uma;
    em nome, em frma varia,  uma a essencia:
    a belleza, a verdade, anceiam todas.

      Pinta o Menio, poetisa Apelles,
    Phydias derrama em marmore a harmonia,
    Orpheu nos magos sons esculpe os deuses.
    No ha mais que um s Deus, uma verdade,
    uma belleza s; mostral-a em cres,
    em figuras, em sons, em phrases podes;
    so cultos de um s nume em linguas vrias.
    A amendoeira em flr  primavera,
    primavera  como ella o ceo macio,
    primavera a violeta, os ninhos novos.
    Unica e pura a eterna luz do engenho
    dos sentidos no prisma se refrange,
    e sai cambiada em fulgidos matizes.
    Como as cres so luz, so estro as artes.

      De nossa industria os fructos permutemos.
    O mago teu pincel doou-me aos evos;
    se os versos meus aos evos resistirem,
    nos versos meus reflorir teu nome.

      Ah! no poder eu mais! qual tu meu todo
     estampadora pedra o confiaste,
    capaz de confundir maternos olhos,
    no poder eu tambem pintar no metro
    genio, vida, expresso, physionomia
    de quadros, onde a mente aos olhos fala!
    Desegual foi comnosco a Natureza:
    amante seu feliz tu gozas d'ella,
    abral-a com extasi, sorri-te,
    descobre-te um a um seus mil encantos;
    e, como se um tal bem no fosse immenso,
    diz-te:--Eis-me aqui, retrata-me,  ditoso;
    d'onde os gostos extrais, extrae a gloria.--
    No assim eu! eu busco-a... ella se occulta;
    chamo-a, invoco... ou no vem, ou s de longe
    fugaz e esquiva se entremostra, e passa;
    como viso por sonhos vaporosos;
    como scena confusa e namorada
    de j perdido livro; como ideia
    da mui longinqua infancia, que inda a medo
    por sob as cans reva ao p das urnas;
    ou como o astro da noite em selva umbrosa;
    ou como as vozes de um sero do estio,
    quando da aldeia as viraes as levam
    soltas e vagas ao curioso ouvido
    de erradio viandante; ou como o vulto
    de ingrata amada em vo, que evita encontros,
    leve atravez das arvores refoge,
    sem deixar mais de si que a viva imagem
    de alva roupa esvoaada e gostos idos!
    Realiso as que a Grecia fabulra
    impaciencias do Alpheu, quando entre as nevoas,
    doido de amor, frenetico, debalde
    a vedada Arethusa andou buscando:
    Nympha, vi-te--clamava--ai! quero ver-te!
    e o _ai_, com que as florestas apiedava,
    no apiedava o corao da isenta.
     beira de suas aguas fugitivas
    depois canado e triste ia encostar-se,
    a procurar pelo animo saudoso
    que feies enxergou, quaes poderiam
    ser as mais que no viu; compunha-a toda,
    linda sim, mas phantastica; e por ella
    com longo affecto os eccos entretinha.

      Por isso ninguem pea inteiro canto
    na harpa quebrada. A voz de outros poetas
    que o solte; no me assombra: a solfa inteira
    perante os olhos seus se desenrola.
    Minha harpa incerta, em solides, por noite,
    no apontados sons pendente exhala,
    a capricho de um zephyro que adeja.
    De Achilles, dos Jardins, do Eden os vates,
    e dos Bardos o Bardo, Ossian, o altivo,
    (pelo seu estro o juro; immensa jura!)
    taes no subiram, se s geladas trevas
    desde a infancia atro genio os condemnra.

      Manhan da alma existencia. Oh! como alegre
    me alvoreceste! oh! plena luz, enlevo
    de que o minimo insecto ignaro goza,
    riqueza de que  rico o mundo todo,
    luz, com prdiga mo dos cos lanada,
    vida, belleza, luz! palavra etherea,
    a unica de um Deus no gro momento,
    em que ao formado mundo erguia o panno...
    luz! luz! eu te gozei na infancia minha!
    gozei?... quem te possue goza-te acaso?
    no; prdigo, indiff'rente, como todos,
    vi-te, desperdicei te Ah! quem me dera
    d'essas horas doiradas um minuto,
    uma s gotta d'essas fontes amplas
    por este areal to scco! Oh! com que sede
    n'um s momento me vingra de annos!
    que joias no poetico thesoiro
    avido para um seculo ajuntra!
    Como s imagens pallidas, que  fora
    te arranco,  Natureza, como arranca
    o oiro entre fezes duro escravo  mina,
    como a tantas imagens desbotadas,
    rico legado do menino ao homem,
    revivra o matiz, o fogo, o lustre!
    Ento, para pintar florestas, mares,
    no precisra de espreitar confuso
    um ramo a folha e folha, ou j no copo,
    agil movido, o rutilar da lympha.
    Se ouvisse descrever a majestade
    de um rosto varonil, de uma formosa
    o encanto, de um menino as graas lindas,
    tudo isso o varira a mente facil.
    O aspecto do varo nem sempre fra
    a paterna presena. Alm de Amalia,
    de meus brincos pueris ligeira socia,
    mais formosas houvera, e mais formosos
    anjos mortaes que o meu gentil do espelho,
    de olhos to vivos, to crado aspecto,
    riso to doce, e que eu amava tanto!
    Saudades vans; desejos vos e acerbos!
    Se o mar, se o co, se os campos se me esquivam,
    rla a mente em seu mundo infindos mares,
    campos lhe alastra de opulencia extranha,
    circumvolve-o de cos fervendo em astros.
    Tal de Agenor o filho a patria perde;
    mas se lei deshumana o lana em fuga,
    oraculo phebu condul-o a thronos;
    por Tyro que perdeu l funda Thebas,
    a de cem portas nos canoros muros.
    Mas a patria... era a patria; aquella Tyro...
    era a Tyro da infancia; o solio, Thebas,
    o Elysio, o Olympo mesmo, a no valeram.

      Feliz o para quem da vida as portas
    j se abriram sem luz! S tem metade
    do humano apego ao mundo e horror  morte:
    no viu, chupando o leite, o seio amigo,
    o sorrir brando, os olhos, e nos olhos
    o corao materno; as irmans suas
    no foram mais que uns sons; a rosa, um cheiro;
    movimento, o passeio; o sol, quentura;
    um monte, a estiva noite; as Graas... nada.
    Longe outra vez, e para sempre longe,
    saudades vans, desejos vos e acerbos!
    Que me importam canes? que outrem descreva
    com mais proprio matiz do mundo os quadros?
    que tenha ou no mais azas para um voo?
    que importa que um volume de poesia
    seja um thesoiro para mim sem chave?
    e que dos seios do animo rebentem
    meus versos caudalosos, sem que eu possa
    co'a propria dextra abrir-lhes a passagem,
    por onde vidas paginas inundem?
    No me rege inda a luz os cautos passos?
    no me tinge inda ao perto as varias frmas?
    livros... pluma... olhos meus e dextra minha
    quando jmais n'outro _eu_ me falleceram,
    n'outro _eu_ onde os amei e os amo em dobro?
    Graas a amor,  Natureza graas!
    logrei constante, e lograrei perptuo
    nos laos fraternaes consorcio d'almas,
    nos de hymeneu fraternidade nova;
    meu ente n'estes entes se completa,
    j bardo sou tambem... sahi, meus versos;
    pura mo, don dos cos que eu pago em beijos
    sollcita vos abre ao mundo estrada;
    sahi, voae! da gratido fervente
    aos olhos de Sendim levae meus votos!


LIII

Completemos estas explicaes melancolicas.

Aquelles em quem o amor entrou s, ou principalmente, pelos olhos, acham
custo em comprehender, como desservido da vista se possa na alma
accender este fogo maravilhoso. A sua mesma ventura  que os torna assim
pouco philosophos.

Examinemos.

Reuniu Deus para compr a mulher--remate, cora, e epilogo da Creao--a
quinta essencia de tudo quanto derramra de melhor no paraizo, onde a
collocou, e do qual, ainda depois de perdido, as descendentes de Eva
ficariam avivando recordaes. Quiz Elle, o Summo Factor, fundir-lhe o
espirito brilhante e suave de um raio de oiro do sol, e de um raio
prateado da lua. Deu-lhe a pureza da cecem, a alvura do lyrio, o pudor e
a graa da rosa, a modestia da violeta; accendeu-lhe no olhar brilho de
estrellas; descerrou-lhe auroras de carmim e perolas no sorrir; para
fala, concentrou todas as melodias, balbuciadas no frmito das viraes,
no murmurinho das fontes, e nos canticos das aves; modelou-lhe a
estatura pela dos arbustos mais esbeltos e mimosos; arredondou-lhe as
frmas, que lembrassem os frutos mais gentis e apetecidos; diffundiu-lhe
os cabellos como as ramas pendentes e movedias do salgueiro aquatico;
impregnou-lh'os de electricidade; embebeu-os de um aroma que fala;
revestiu-os de brilhantismo; to esmerado e prodigo os dotou, que o oiro
e as perolas, as pedrarias, os perfumes, as sedas e as flores,
ambicionando realal-os, recebessem d'elles novo preo.

Este ente, meio positivo, meio aereo, meio terrestre, meio ceo, que
volteia por entre ns como anjo desterrado, saudoso, mas contente, tendo
por fala um canto, a sujeio e a humildade por imperio; em que a
fraqueza  graa, e a graa omnipotencia; cujo encargo  mais que
eternisar a especie,-- entretecel-a, domesticl-a, refinar-lhe o gosto,
os instinctos do bello, os arrojos para o bom e para o sublime; a mulher
em summa, fadada de alguma sorte a ser me e mestra, guia, arrimo,
lampada, conselheira, prophetisa, esforadora, modelo e premio, no s
de seus filhos, mas de seus irmos tambem, de seu consorte, de seu
proprio pae, de todos que de perto ou de longe lhe podessem receber
directas ou reflexas as influies; a mulher, a mulher--da qual, depois
de tantos mil volumes de panegyrico, depois de uma idolatria universal
de seis mil annos, ainda se no exhauriram louvores, nem jmais se ho
de exhaurir--no seria a vice-providencia, que devia ser, e que , no
meio da sociedade, se no possuisse este complexo ineffavel de seduces
para toda a especie de indoles, de espiritos, de gostos; um lao
infallivel para cada sentido; um milagre para cada incredulidade; para
cada infortunio, seu balsamo; para cada edade, seu ramalhete; sua
estrella para cada noite; mo inesperada e macia para cada desamparo;
para cada fronte que se despedaaria ao cahir, a almofada subita de um
brao todo extremos, de um seio todo suspiros, de um corao todo
divindade.

Parece que est aqui o animo a nadar  sombra de uma sagrada Paphos n'um
pego verde e azul, aureo e argentino, embalado pelos mais ridentes
genios das fices; e no est seno folheando, ebrio de gratido, o
Gnesis ineffavel da creatura em quem mais evidentes se revelam as
perfeies do Creador. O que pareceria um hymno, , para quem o souber
meditar, uma succinta e desenfeitada pagina de historia natural.

Ao homem grosseiro, pervertido, gasto, embrutecido, represente-se muito
embora que a mulher, brotada para seus prazeres ephemeros, como as
flores, no pode penetrar dentro em ns seno pelos olhos; feche-os, e
escute: l est ainda ella com a sua magia. Furte-lhe tambem os ouvidos,
como Ulysses s sereias; no a destruiu; o calor, os abraos, e os
beijos, lhe revelaro completos os seus encantos. No ouse ou no possa
tocl-a; um halito, uma fragrancia subtil, que no  de flores, mas de
vida,--que  mais que de vida, pois  do amor,--lhe dir: aqui est o
fruto para a tua avidez e para a tua sde.

 porque a mulher, communho perfeita do affecto,  toda para todos, e
toda para cada um. Triumpha na luz, como n'uma aurola; enleva nos sons,
como n'um cantico; insinua-se por cada sentido; infiltra-se por cada
pro; no ha porta na alma que se lhe no franqueie.  a chamma
electrica, para a qual no ha resistencia nem muralhas. Fugi-lhe;
esquivae-vos; sumi-vos nas entranhas da terra; l mesmo sereis d'ella;
vel-a-heis sorrir-vos, aquecer o vosso jazigo, bafejar cubias ao vosso
corao, fazer do vosso nada um universo, reerguer-vos para o Ceo, de
que blasphemaveis.

Pelo que pertence em particular ao homem da nossa historia, eis aqui
chmente o que eu sei, e que no  muito.

Comprehendestes, cuido eu, como a grande Isis, a Natureza, a qual para
nenhum de vs se despe de todos os seus veos, quiz ser ainda mais
esquiva, mais recatada, mais avra para com elle, para com elle seu
fervoroso adorador. No se lhe furtou de todo; no apagou entre si e
elle o sol, como j fizera com o seu Homero; mas annuveou-lh'o como para
a solemnidade de um mysterio magico; e, mesclando trevas com luz,
benigna e ainda me no seu rigor, lhe ensinou a adivinhl-a, a
completar-lhe as lacunas das realidades com as phantasias, a estudar a
um e um os seus pontos mais frisantes, e de induco em induco, de
analogia em analogia, de probabilidade em probabilidade, a recompol-a,
ou a creal-a, no verdadeira nem falsa, chimera organisada de certezas,
hypothetica nos accessorios, incontestavel no essencial; retrato seu,
imperfeito, mas reconhecivel, mas formoso, mas sympathico, mas
inspirativo, mas sufficiente e sobejo para idolatrias.

Qual a Natureza lhe apparece e lhe poisa para modelo diante da lyra, tal
lhe assoma diante do corao esta florida cifra da me Universal, o
archtypo das perfeies: a mulher.


LIV

Mancebo, que me has-de ler curioso e condoido: conheces tu porventura
aquella que te embelleza e te fascina? no te pergunto pelos arcanos do
seu interior, que ella propria no decifra; falo s do que s porventura
te seduziu; falo da sua frma externa; falo mesmo d'aquella poro
exclusivamente que a arte no some em nuvens de tecidos preciosos, em
auroras de mil cores, em espumas de rendas, em cascatas de oiro, de
aljofares, de diamantes, cahos esplendido que sonega um mundo de
gentilezas a attrahir-te e a repulsar-te; falo unicamente do semblante;
do semblante que emerge livre, dominador e risonho, por cima de tamanha
cerrao de enigmas. Vs tu em realidade esse rosto que te encara com
to seductora franqueza, que para ti se banha nu em ondas de luz sob os
lustres e sob o sol? Pobre illudido! Se o vidro augmentativo t'o
averiguasse, talvez recuarias de espanto! a tez mimosa e crada, a tez
que ambicionavas beijar to lisa e to perfeita, reconhecral-a vasto
mappa de cavernas e montanhas, de torrentes mal cobertas, de espessuras,
homizio e pastagens de viventes, para quem mais que para ti foram
fabricadas aquellas regies incognitas. Com a appario d'esse mundo de
lindezas microscopicas, evocadas por um crystalzinho convexo,
desappareceria a beldade que a Natureza, benignamente enganadora, te
inculcava; o que a tua sciencia ganhava, o enthusiasmo do teu amor o
perdia sem remedio. Decomposta em mil formosuras, aniquilra-se a
formosura, que s  providencial,  calculada imperfeio dos teus
orgos tinha devido a existencia.

Bemdita sempre e em tudo a Bondade Infinita do Creador! Que philosopho
insensato se afoitaria a tomar-lhe contas para o censurar! Nem eu, nem
eu proprio, tenho que murmurar de ser menor que o de outros muitos
convivas o quinho que o Pae da luz me concedeu no seu festim.

Cada qual v a mulher pelo seu prisma, prismas todos differentes e todos
illusorios. O meu, fundido de um crystal mais turvo, decifra-a,
individua-a muito menos,  verdade; mas em compensao permitte-me 
phantasia o completal-a com todos quantos primores sabe, que so infinitos.

Querereis dizer-me que so ficticios, que no so ella, esses primores?
ficticios embora o sejam na origem; mas tornam-se d'ella, so ella mesma
perante a alma e o corao que lh'os prestaram;  a mulher sem-seno, a
mulher idealisada, a mulher s assim ascendida a grau de divindade,
mulher exterior mais parecida por ventura com o espirito gentilissimo
que lhe mora dentro, que o bando de mscaras femininas, mais ou menos
imperfeitas, que enxameiam por esse mundo  procura sempre de homenagens
convictas e duradoiras.

Logo que eu, alchimista combinador e attento, senti uma voz suave, em
que outros, distrahidos com o olhar no attentariam, e que me desceu do
ouvido ao seio, distillo d'ella ao brando calor do sangue quanto succo
ella continha de imaginao ou de Juizo, de melancolia, de prazer, de
bondade, de innocencia, de sentimento. O perfume que d'ali se exhala, j
annuncia a deusa. Entrevejo-a; branquejou-me o rosto, d'onde sahira
tanta melodia e tanta alma. Doto-o, fado-o, opulento-o como podra fazer
o Oberon mais carinhoso, ou a Titania mais amante. O phantasma, j meio
filho da minha adopo, passa por diante e perto de mim; reconheo-lhe,
ou attribuo-lhe, como Virgilio  divina me de Enas, a estatura, o
movimento, o andar, que para ser adorada se lhe no dispensa:

    _Et vera incessu patuit dea........._

e no accrescento, porque o no penso:

    _...............tu quoque falsis _
    _Ludis imaginibus..............._

Beldade assim composta no  s perfeita,-- inaccessivel aos estragos
do tempo,  rosa que poder morrer, mas no murcha, no desmaia, no se
desfolha; quando por fatalidade desapparece, desapparece toda de uma vez.

O commum das mulheres produz o commum dos amores: fogos-fatuos
fluctuantes, frouxos, passageiros; para a minha, arde o fogo de Vesta.

A par d'esta vantagem, que sem duvida o  para a poesia namorada, um
terrivel desconto se apresenta logo:

Os olhos fazem mais que descortinar a formosura: dizem aos d'ella o
effeito que ella produziu; supplicam, exoram, convencem, triumpham;
possuem uma linguagem innata e universal, instantanea e completa,
electrica, divina, intraduzivel em sons humanos. Carecer d'esta
ineffavel faculdade, gozando-se embora da luz para disfructar e amar a
vida,  vagar surdo-mudo pelo crepusculo n'uma regio verde e florida,
sem tratar com os moradores.

Grande e horrorosa verdade! Mas outra vez acudiu aqui maternal a
Providencia. Assim como outorgra  phantasia uma intuio especial,
concedeu  linguagem da poesia, encarregada de supprir a do olhar, um
accrescimo de viveza, uma fora de convico, de sentimento, de
lealdade, que podesse aspirar, a persuadir.

Os olhos commerceiam o amor, como opulentos, em moedas do mais fino
oiro, ou em lettras que as sommam e as cifram n'um relance. A fala,
embora poetica, mais pobre e mais humilde, vai contando os pagamentos do
corao a real e real, em cobres gastos de uso, em pratas suspeitas de
liga e falso cunho; moedas de baixo preo, que mil vezes se lhe recusam;
mas afinal tambem salda a sua conta.

No me affoito a dizer, nem quasi a pensar, que a diminuio do primeiro
sentido fosse cabalmente compensada com um accrescimo proporcional na
faculdade de exprimir pela palavra o sentimento; creio todavia, que
alguma coisa com isso parecida se deu em realidade; com o que, j pode
ser que o peculio poetico se augmentaria; nova e suprema prova do que
assentramos como fundamento no principio d'este escripto, a saber:--Que
a Natureza e a fortuna andaram concertadas em preparar por todos os
meios, com os favores e com as sevicias, um cantor, embora inutil para
tudo mais.


LV

Sobre o livro e sua historia, nada me resta para accrescentar; narrei
tudo como o tinha na lembrana; forcejei pelo explicar sem vaidade nem
modestia.

 um pobre escripto, que as almas de bem ho-de tomar  boa parte.

Presumpes litterarias, no as tem.

Quem, obedecendo a instinctos maus, exercesse n'elle critica malevola, e
at por facillima no muito nobre, juro-lhe eu, sobre minha honra e
vida, que perpetraria uma feia aco. Deixem aos chacaes o revolverem
sepulturas, e cevarem-se em ossos.

Sei que ha indoles hostis, que ao tomarem um livro novo, levam j o fito
em dilaceral-o; e a essas por demais seria o requerer-lhes
misericordia.

Permittam-me comtudo rogar-lhes que esperem para entrarem na censura
d'este, que o autor haja tambem desapparecido como o assumpto da obra.
No intervallo, que no poder j ser muito longo, aggridam, vulnerem,
destruam muito embora qualquer outro dos seus escriptos, e todos; no
lhes exceptua nem um s, a no ser o livrinho do ensino primario pelo
amor, porque esse no  d'elle;  propriedade inauferivel da puericia,
da Patria e da posteridade.


LVI

A colleco de mais de setecentas cartas, de que sahiu como summario a
_Chave do Enigma_, existia completa ha poucos momentos ainda; daria tres
volumes que poderiam interessar, se no como historia, como romance
intimo certamente; ardeu at ao minimo fragmento, ali, debaixo das
arvores do meu jardim; eu proprio lhe puz o fogo, velei a pyra em quanto
se no extinguiu, enterrei as cinzas; davam na torre do palacio das
Necessidades as quatro da tarde d'este dia 25 de Agosto de 1862.

As razes que me induziram a este sacrificio, rastreiam-n-as todos; o
que n'elle soffri, tambem o calo, que no importa a pessoa alguma.

A pedra que o ha-de ficar commemorando, e que algum poeta ou alguma
poetisa l para o futuro em estio ou outono de amores folgar porventura
de visitar com este livrinho na mo, dir-lhe-ha isto:

                    AQUI JAZEM AS CINZAS
                     DA CORRESPONDENCIA
                             DE
                      D. M. I. DE BANA
                      COIMBRA  PORTUGAL
                              E
                      A. F. DE CASTILHO
                 QUEIMADA N'ESTE MESMO LOGAR
                     AOS  25  DE  AGOSTO
                           DE 1862


LVII

Mais uma ou duas paginas para responder j agora s ultimas curiosidades.

A 29 de Novembro de 1834, na parochial egreja do Salvador do mosteiro de
Vairo, recebia eu emfim por minha legitima esposa a D. Maria Isabel de
Bana Coimbra Portugal. O orgo cantava no sei que jubilos tristes; as
Religiosas choravam a perda da sua mais espirituosa, mais suave, e mais
amavel companheira de tantos annos. A mo d'ella, tremia na minha; o
alvoroo do seu interior, exhalava-se baixinho em monosyllabos humidos
de lagrimas; eu padecia e gozava como homem que ia fugir com um thesoiro
furtado. A boa D. Anna Lucinda no podra assistir  ceremonia; tanto a
desejra em quanto s a vira no futuro! e agora... desamparavam-n-a as
foras para a encarar; jazia doente na sua cella deserta. Maria tomou-o
por agoiro. Nunca ceo sem nuvem sobre alegrias humanas!

Dois annos, pouco mais, durou a nossa unio sempre harmoniosa e intima;
sempre tal, qual m'a haviam promettido os meus devaneios poeticos to
ambiciosos.

Ao longo d'esse breve praso, de que nunca me poderei esquecer, foi
sempre Maria a melhor metade da minha alma; os olhos e voz para a minha
leitura; a mo para a minha escripta; a inspiradora para os meus versos;
a conselheira nas minhas incertezas; a vestal para o fogo das minhas
pequenas ambies; a socia, a luz, a explicao dos meus passeios; o
calor, a fragrancia e a musica da minha poisada; um enxerto da arvore da
vida no meu teixo; o ecco do meu corao; o meu estro fra de mim a
mostrar-se-me, a abraar-me, a no me perder hora nem minuto de dia nem
de noite; ella, ufana, de mim como de uma gloria; eu, d'ella encantado
como de uma felicidade.

Filhos so ns que apertam os vinculos naturaes entre o homem e a
mulher. Teve o Co por superfluo dar-nos filhos; estreitar-nos mais era
impossivel. Grande misericordia foi aquella! a pobre assim, levou para
o Co uma saudade unica.

Uma enfermidade longa, durante a qual a sensibilidade de Maria, como
claro de alampada que se quer extinguir, me pareceu ainda mais viva, a
pouco e pouco a arrastou at  borda dos desenganos, desenganos para
ella e para todos; para mim no, que por instincto de vida, repulso
constantemente, e at ultima, o crer na desgraa, o admittir-lhe mesmo a
possibilidade.


LVIII

N'um dos dias de Janeiro do anno de 1837 (os que hoje contam menos de
vinte e cinco annos no eram ainda nascidos) Lisboa toda branquejava
amortalhada em neve profundamente (as memorias meteorologicas podero
dizer a quantos foi; eu esqueci-o, ou nunca o soube); sei que nem os
velhos se lembravam de ter jmais visto por aqui espectaculo assim
alpestre; nem de ento para c se renovou. Era um dia pallido e lugubre,
que gelava o corao e as esperanas,--um d'aquelles dias, no sei se
amigos se adversos, no sei se verdadeiros se mentirosos, mas bons para
se fecharem os olhos e se expirar com mais desapego da terra.

O quarto da resignada e valorosa victima, que repartia, sorrindo,
esperanas que ella mesma para si j no queria, tinha a janella fechada
s tristezas de fra; as do interior lhe sobejavam; uma lamparina aos
ps da Imagem em vulto da _Senhora Me dos Homens_,--madrinha de Maria,
e objecto da sua devoo de toda a vida,--attrahia, como um reflexo
precursor da luz perpetua, a vista perturbada da paciente, indo e vindo
da Imagem, que parecia chamal-a, para o amante, que, recostada a fronte
sobre o seu travesseiro, e apertando-lhe a mo, lhe supplicava mudamente
o no deixasse.

Reconcentrou emfim, por um supremo exfro feminil os remanescentes do
seu vigor exhausto; e mandando chamar meu irmo, que na proxima sala
chorava por ambos ns, nos disse: que sentia j a sua existencia na
vasante, e era tempo de apparelhar a alma para as bodas eternas; em
quanto lhe restava entendimento e fala, queria dirigir a cada um de ns
um rogo que de proposito reservra para aquelle momento em que nada se
recusa.

Cada um jurou cumpril-o, fosse qual fosse.

--Tenho pena de ti, meu pobre poeta!--proseguiu ella apoz alguns
momentos de concentrao.--Sei que deixo um grande vazio na tua vida. Se
Anna Lucinda no fosse freira, essa conhecia-te como eu, amava-te quasi
tanto como eu, podia continuar como tua esposa a obra da tua
felicitao, que eu deixo incompleta. Se jmais a ventura te deparar
outra mulher de alma, e capaz de comprehender a tua, instruida, amante,
superior ao vulgo dos espiritos, apta emfim para te servir e consolar,
offerece-lhe o logar que eu deixo ermo nos teus destinos; eu mesma
abenoarei l de cima a vossa unio.

Vim a cumprir-lhe o seu desejo testamentario; ella desempenhou-se da
promessa.

Ento, voltando-se para o nosso querido irmo, e depois de lhe agradecer
todas as melindrosas manifestaes de affecto, que tantos annos havia
nos liberalisra, sem canao nem quebra, lhe supplicou, doce e graciosa
como um anjo, cujas azas de prata j comeavam a despontar, lhe
outorgasse emfim a casinha candida com que tantas vezes lhe fizera
sonhar; agora, para a erigir bastava uma s pedra; que lhe puzesse uma
inscripo, na qual ao nome d'ella se ajuntasse o dos seus tres poetas:
o meu, e o dos seus gloriosos parentes--Ferreira e Tolentino.


A bella alma partiu.


LIX

No cemiterio de Nossa Senhora dos Prazeres o tumulo N. 48, convisinho 
ermida da Virgem, deixa ler este epitaphio:


                           MONUMENTO
                      DE PERPETUA SAUDADE,
                         CONSAGRADO POR
                 ANTONIO FELICIANO DE CASTILHO
                               A
                          SUA MULHER
                   D. MARIA IZABEL DE BANA
                       COIMBRA PORTUGAL,
                       DIGNA SOBRINHA DE
                  NICOLAU TOLENTINO DE ALMEIDA,
                               E
                     DESCENDENTE DO ANTIGO
                     POETA ANTONIO FERREIRA.
                  NASCO NO PORTO A 2 DE JULHO
                               DE
                              1796
              E FALLECO EM LISBOA A 1 DE FEVEREIRO
                               DE
                              1837




NOTAS


Pag. 17, lin. 10--*Primeiros desastres de Castilho*

Tendo 1 anno de edade cahiu Castilho em casa, dos braos da ama, por uma
escada de pedra, e quebrou o osso sterno, onde conservou sempre defeito.
Ficou to abalado, que chegaram os paes a recear se lhe extinguisse a
vida. Aos 4 annos teve tosse convulsa, e deitou muito sangue pela bocca.
O estado em que ficou, obrigou sua me a leval-o para o campo. Isto tudo
(note-se) foi antes do ataque de sarampo que o cegou aos 6 annos.


Pag. 10, lin. 5--*Quinta dos Azulejos*

Sobre a _quinta dos Azulejos_ (tambem outr'ora chamada do _Principe_),
no largo do Poo, no logarejo do Pao do Lumiar, junto a Lisboa, veja-se
o que vem nas _Memorias de Castilho_, por Julio de Castilho, tomo I. O
poo que se via no meio do tal resumido largo j no existe. Engana-se
Castilho attribuindo a esta quinta, por conjectura vaga, a honra de ter
communicado ao logarejo o seu nome de Pao. Essa gloria, segundo o
erudito Vilhena Barbosa, pertence talvez  quinta dos Duques de Palmella.

 ainda hoje a quinta dos Azulejos um bellissimo especimen dos jardins
nobres e ricos do seculo XVIII. Pena e grande pena foi, que os modernos
proprietarios destruissem o arvoredo antigo, os buxos aparados, as
murtas, etc., dos jardins em estylo velho, para substituir essas
regradas opulencias vegetaes por outras invenes pertencentes ao
chamado jardim inglez. Estas sero muito bellas, mas desdizem dos
azulejos primitivos, que l campeiam ainda, e so dos mais vistosos, dos
mais correctos, dos mais agradaveis que podem ver-se.

Quando, na muitos annos, visitou essa quinta o Poeta, ainda o estado
antigo da parte rustica do predio se conservava intacto.  lastima que o
alterassem.


Pag. 19, lin. 13--*Antigos donos da quinta dos Azulejos*

No se conhece (se  que existiu) parentesco da familia do Poeta com os
donos da _quinta dos Azulejos_ (ou do _Principe_). Pelo lado Castilho
no seria de certo. A ter existido, deve ter provindo da familia
materna, que era de Lisboa e seus arredores, ao passo que a do Doutor
Jos Feliciano de Castilho era de Coimbra, Aveiro, S. Loureno, e
Bairrada. Sem haver consanguinidade, bem pode ser que as duas familias,
que parece eram bastante intimas, se tratassem por parentas, a principio
por gracejo, depois por costume. No sabemos dizer quem hoje representa
a familia de Amalia.


Pag. 21, lin. 33--*Thomaz dos passarinhos*

_Thomaz dos passarinhos_  o personagem de um dos contos do fallecido e
talentoso Rodrigo Paganino no seu lindo livro _Contos do tio Joaquim_,
livro que muito agradou a Castilho, e que elle ouviu com gosto ler umas
poucas de vezes.


Pag. 25, lin. 3--*O Pao do Lumiar a uma legua de Lisboa*

Estou dictando a uma legua de distancia--dizia Castilho e bem. _A
Chave do Enigma_ foi escripta na casa que o poeta habitava, na rua Nova
de S. Francisco de Paula, n.os 25, 27 e 29. D'esta casa apenas existe
hoje menos de metade.


Pag. 27, lin. 11--*Jos Peixoto do Valle*

Era o nome d'esse abalisado professor no Geral do Cunhal das Bolas.
Coube-lhe a gloria de mestre de Castilho; este mencionou-o mais de uma
vez em varios livros.


Pag. 30, lin. 8--*Cemiterio de honra*

Castilho propoz e advogou a creao de um cemiterio de honra para mortos
celebres e benemeritos da Patria. No os queria encerrados n'um
Pantheon; queria-os n'um vasto jardim cheio de sombras, zumbidos, e
vozes de passaros,  sombra da Cruz. Nas notas do seu _Cames_ tratou
largamente o assumpto. No foi ouvido.


Pag. 30, lin. 9--*Bustos de homens notaveis*

Castilho propoz mais de uma vez que nos passeios publicos se collocassem
bustos de Portuguezes notaveis.


Pag. 30, lin. 14--*Cames*

Em 1836 propoz Castilho, na assembla geral da Sociedade dos Amigos das
Lettras, em Lisboa, se buscassem os ossos de Cames, e se lhes prestasse
homenagem nacional, solemne e publica, segundo o programma que
apresentou. Procurou os ossos, e achou-os, dirigindo uma Commisso
especial nomeada expressamente pela mesma Sociedade. A nova Commisso de
1854 discordou da argumentao de Castilho, e deu outros ossos como
sendo os do Epico. Entretanto Castilho conservou sempre a convico de
que o seu raciocinio na busca era o verdadeiro.

Castilho tinha a maior ufania e satisfao em escutar  sua consciencia
dizer-lhe que em 1836 tinha elle procurado (e achado) na egreja de
Sant'Anna os restos mortaes de Cames. Sobre todo esse complicado
assumpto pode ler-se o que se trata detidamente nas _Memorias de
Castilho_, Livro III, no _Instituto de Coimbra_. No fizeram caso dos
argumentos, e levaram para os Jeronymos uns ossos quaesquer. Consulte-se
o consciencioso livro do illustrado sr. Padre Sebastio de Almeida
Viegas _A verdade acerca dos ossos de Luiz de Cames_.


Pag. 36, lin. 7--*Palacio do Arco de Almedina*

A casa do Arco de Almedina, em Coimbra, ainda hoje  denominada _dos
Castilhos_ pela ter habitado esta familia muitos annos. A vista do pateo
foi reproduzida no volume antecedente a este.


Pag. 36, lin. 22--*Maria Telles*

Julgava Castilho, com muitos seus contemporaneos, que o tristissimo caso
do assassinio da infeliz D. Maria Telles se tinha dado no casaro velho,
ou Torre, junto ao Arco de Almedina. Era engano; sabe-se hoje que no
foi ahi.


Pag. 37, lin. 14--*A educanda*

O nome adoptado pela educanda, _Maria da Expectao Silva e Carvalho_,
no era o que usava, mas tinha forma symbolica. _Maria_ era com effeito
o seu nome proprio. A _Expectao_ allude  expectativa, em que ella se
achava, de ser, ou no, correspondida pelo Poeta. _Silva_ e _Carvalho_
eram appellidos da Casa de seu pae; Francisco da Silva Coimbra de
Carvalho, Cavalleiro professo na Ordem de Christo, Fidalgo da Casa Real,
casado na freguezia das Mercs a 27 de Outubro de 1785 com D. Maria
Fortunata Agostinha de Portugal, nascida em 12 de Outubro de 1766 na
freguezia dos Anjos. O nome exacto da _incognita_ era D. Maria Isabel de
Bana Coimbra Portugal.


Pag. 50, lin. 28--*D. Tours*

Esse D. Tours, ou Turs Sarna, , segundo os nossos antigos
linhagistas, progenitor da nobre familia dos Barbudos,  qual pertenceu
o senhorio da villa de Barbudo, concelho de Villa-Chan, comarca de Pico
de Regalados (hoje freguezia de Parada, concelho de Villa Verde). D.
Leonor de Barbudo, natural de Odemira, filha unica e herdeira de Ruy
Filippe de Barbudo e de Isabel Rebello Falco, casou com D. Francisco de
Bana, vereador da camara de Odemira, e filho de D. Hernando de Bana, o
primeiro que de Sevilha se passou para Portugal, e teve em 30 de Outubro
de 1501 o foro de Escudeiro fidalgo.

Foram primeiros avs do Desembargador do Pao Joo Sanches de Bana, que
na sua mocidade usou tambem o appellido de Barbudo, 5. av da educanda
de Vairo. Quem diria ao fundador, que passados seculos ali tinha de
habitar uma sua descendente?


Pag. 50, lin. 38--*Os Sanches de Bana*

Vivia essa senhora recolhida em Vairo, com sua irman D. Maria do Carmo
(me do actual Visconde de Sanches de Bana). Tinham um irmo Luiz
da Silva Coimbra de Carvalho, cadete, fallecido novo em resultado de
feridas recebidas na guerra peninsular.


Pag. 53, lin. 24--*Pygmalio*

Parece haver entre os antiquarios mythologos certa confuso entre dois
Pygmalies, um esculptor insigne, e um rei de Tyro; Castilho (como
alguns outros) fez dos dois um s.


Pag. 131, lin. 34--*O Imperador de Frana*

Referencia a S. M. Napoleo III, que em 1861 reinava, sem que ninguem
podesse presagiar a sua desastrosa queda oito annos andados.


Pag. 149, lin. 28--*Cinzas da correspondencia do Poeta*

O sr. Ernesto Loureiro, comprando o predio de S. Francisco de Paula,
depois da sahida de Castilho em 1871, determinou edificar ahi um predio
novo para sua habitao. A metade septentrional da casa velha foi
arrazada, e n'esse sitio e em parte do jardim se levanta hoje um
_chalet_. O sr. Loureiro, cujo fino espirito e cujo affectuoso corao
se compraz no culto do passado, quiz respeitar a lapide posta pelo
Poeta; mas sendo necessario removel-a, fel-o com cuidado, com carinho,
com amor, e pl-a com o cofre das cinzas n'outra parte do mesmo jardim,
juntando-lhe um pedestal por accessorio, e o busto de Castilho. Tudo
isso consta minuciosamente de um auto ali celebrado, e que se acha
intercalado no logar respectivo das _Memorias_. O que praticou o sr.
Ernesto Loureiro honra sobremodo o seu caracter.


    [1] Carta ao Ex.mo Sr. Casal Ribeiro datada em 1 de Maro
    de 1859, publicada pela Associao Promotora da Educao Popular.

    [2] J. M. Latino Coelho: Biographia de A. F. de Castilho
    na _Revista Comtemporanea_.

    [3] Cant. dos Cant., cap. II.

    [4] Pode-se ler a interessante descripo do que resta d'esta casa
    to religiosa como historica no formoso livro _Bellezas de Coimbra_,
    impresso n'aquella mesma cidade em 1831 pelo sr. Antonio Moniz
    Barreto Corte Real.

    [5] Pode-se ver na _Felicidade pela Agricultura_ o artigo
    intitulado--_O Clero, e as Mulheres_.






End of Project Gutenberg's A Chave do Enigma, by Antnio Feliciano de Castilho

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